A Criação da Luz escrita por André Tornado


Capítulo 8
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Notas iniciais do capítulo

"Era uma veia fina e frágil, pela qual corria ainda um ténue fluxo de sangue vermelho-vivo."
in A Peregrinação do Rapaz Sem Cor, Murakami, H., Casa das Letras, 2014



Um bicho prateado com seis patas peludas rastejava pela parede. Foi-se esconder num buraco, junto à tocha que ardia e que iluminava o compartimento. Nunca mais o vi. Era a única coisa viva para além de mim, naquela cela mergulhada numa penumbra mórbida. A minha sombra fazia desenhos fantasmagóricos na parede à parca luz da chama bruxuleante. Tentei segui-los para distrair a mente, encontrar um padrão, um novo estilo de dança, mas o cansaço foi mais forte. Fechei os olhos, cingi os joelhos ao peito, depositei a testa nas rótulas. Tentei dormir mas era inútil. Mesmo cansada era-me impossível conciliar o sono. Sentia-me demasiado alerta.

Pelo menos estava sozinha. Preferia assim. Era melhor definhar naquela prisão acanhada com um bicho prateado de seis patas peludas, do que num amplo salão com uma chusma de fêmeas fedorentas e disformes, resignadas a uma sorte tão pouco natural. Seria provavelmente outro dos meus traços de personalidade, para além de ser uma mulher prática também seria uma mulher solitária. Era interessante descobrir isso. Significaria independência e resolução, nunca contando com ninguém para resolver os meus problemas. Tal como Han Solo, o antigo contrabandista. Teria eu e Han Solo algumas semelhanças? Bem, não me importaria nada, pensava, de vestir o que ele vestia nos tempos da guerra. Uma camisa branca, um colete preto, umas calças castanhas, umas botas de cano alto que tinham todo o aspeto de serem confortáveis. Sorri deleitada a pensar naquele par de botas.

Os pés doíam-me. Estavam feridos por ter andado a correr sobre rocha áspera. Havia sangue coagulado em pequenos cortes. Esperava que não infetassem. Uma infeção não seria agradável, para mais não sabendo por quanto tempo iria ficar ali trancada. O lado bom era que estava sozinha. E as benesses esgotavam-se aí.

Seria eu oriunda do sistema de Corellia, tal como Han Solo?

Não me conseguia lembrar, malgrado o esforço. Lembrava-me da maldita fatiota de Han Solo ao detalhe, até do cinto onde ele prendia a pistola laser junto à coxa, mas não me lembrava do que tinha eu usado antes daquele maldito vestido pouco prático que começava a ficar sujo e a cheirar mal.

Era perturbador pensar que eu era uma escrava. Que gostava de calças, mas que por causa da minha condição tinha de desistir dos meus gostos e de vestir o que me ditavam. Não me lembrava nunca de ter sido serva de ninguém, mas também não me lembrava de muita coisa sobre mim. O mais correto seria seguir as pistas que me iam sendo apresentadas, tal como a minha situação atual e as impressões mais imediatas. Fazia mais sentido estar naquele sítio, onde era cativa, onde havia criaturas repelentes a guardar um grupo de fêmeas destinadas sabia-se lá a que comércio, do que pertencer à casa de um cavaleiro Jedi.

Levantei a cabeça à procura do bicho prateado com seis patas peludas.

A cela era húmida, pairava ali um odor a bafio que abafava o ar doce do planeta, mas conseguia senti-lo se me concentrasse. Era bom cheirar essa doçura. Deixava-me menos apreensiva, menos nervosa, menos triste. Pois sentia-me melancólica. Preferia, claro, pertencer à casa de um cavaleiro Jedi do que pertencer a um grupo de bandidos indigentes.

Abanei a cabeça. Não me parecia que fosse escrava. Não fazia qualquer sentido. Provavelmente aquelas criaturas conheciam-me por me terem raptado antes. Depois, ficara doente e como não seria comum dispensarem cuidados a fêmeas debilitadas fisicamente, tinham-me deixado para morrer no desfiladeiro de Vitra. Deviam ter sabido que fora recolhida por alguém e teriam querido uma compensação financeira, daí estarem perto da casa. Tinham-me visto curada, recuperaram a mercadoria, não precisariam da tal compensação, ficaram satisfeitos, não tinham perdido nada.

A cabeça doeu-me e massajei as têmporas com a ponta dos dedos.

Não adiantava estar a inventar cenários. Não melhoraria em nada a minha condição. Continuava prisioneira, encerrada numa cela bafienta. Continuava sem me lembrar. O que eu pensava eram meras conjeturas, não constituía uma recuperação sistemática da memória e isso também não era útil.

Fiquei sonolenta.

Na manhã seguinte a porta da cela iria abrir-se. Seria castigada, recolocada no salão juntamente com as outras, novamente castigada pelas escravas mais ressentidas. Perderia a hipótese de uma nova tentativa de fuga.

Primeiro, resolvi improvisar algo que calçar. Rasguei tiras do vestido, junto à bainha. Este era comprido o suficiente para me proporcionar bastantes tiras e ainda ficar com uma altura razoável para me cobrir as pernas. Enrolei os pés com essas tiras e gostei do resultado final. Ganhara uma proteção que me impediria de ter contacto direto com o chão e protegera os ferimentos.

Depois, pensei em Luke Skywalker. Se me salvara uma vez podia fazê-lo novamente. Ele tinha os poderes dos Jedi que tão cinicamente lhe apontara, sem perceber exatamente porque fora eu tão inconveniente. Não lhe guardava qualquer rancor, pelo contrário, estava-lhe bastante agradecida. Estaria revoltada, talvez comigo mesma, por ser alguém sem passado e, portanto, desinteressante. Exatamente que poderes eram esses, não sabia explicar. Ele era poderoso, ele vencera o Império, era tudo.

Pensei em Luke. Concentrei-me na sua imagem, em imaginá-lo onde estaria naquele momento. Na sua casa, sentado à mesa. Sozinho. Já não tinha visitas. Fechei os olhos e chamei por ele:

— Luke… Luke, preciso da tua ajuda. Peço-te que me oiças. Vem buscar-me. Por favor, vem buscar-me…

Sem que nada o fizesse prever, desmaiei.



Notas finais do capítulo

A Cleo resolveu-se a pedir ajuda... Como conseguiu ela contactar o Luke? Digam o que pensam, o que acham, o que julgam que aconteceu...

E Luke, irá responder ao apelo?

Próximo capítulo:
O salvamento.



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