A Criação da Luz escrita por André Tornado


Capítulo 6
No deserto vermelho


Notas iniciais do capítulo

"Como se o seu corpo se fosse tornando mais e mais leve e nada pudesse alterar a sua serena e recém-estreada visão dos acontecimentos."
in O Segredo Egípcio de Napoleão, Sierra, J., Guimarães Editores, 2004



No céu azul brilhante pairavam dois sóis que pareciam encetar uma dança mágica de luz. Ora brilhava um, ora brilhava outro. Não se via uma nuvem, não se via uma sombra. Tudo era quente e pesado. A brisa carregava poeira fina que, aos poucos, se entranhava nos tecidos, na pele, nos cabelos, em qualquer dobra ou orifício e ali iria ficar para sempre. O suor escorria e colava a roupa ao corpo, os olhos estreitavam-se para combater a claridade cegante, a boca e o nariz secavam. O calor que saturava o ambiente era insuportável, peganhento, exigente.

Tatooine era uma desolação.

Suspirei e olhei para o horizonte monótono feito de contornos iguais formados pelas dunas de areia vermelha. Estariam muito distantes, apesar da miragem de parecerem próximas. Poderia atingi-las antes do pôr dos dois sóis, mas por muito que andasse não iria chegar a lado nenhum. Não sabia que direção tomar e que povoações existiriam para além das dunas de areia vermelha.

Olhei por cima do ombro. A casa de Luke Skywalker era uma cúpula branca que surgia num mar acastanhado. Mal se via, enterrada no deserto, longe de mim. Tinha caminhado sem destino logo que de lá saíra. Talvez porque Leia Organa Solo tinha razão e eu precisasse de ficar sozinha. Muito bem, estava sozinha. E o que se seguiria? Não tinha nenhum plano diabólico para seguir, nem antes, nem agora. O meu objetivo até era bastante simples: achar um sítio para ficar.

Enchi-me de coragem. Atrás das dunas de areia vermelha existiria, certamente, outras casas, um caminho, qualquer coisa. Não precisava de Luke Skywalker para nada. Aliás, não precisava de ninguém.

Limpei a testa suada com um gesto vagaroso. Nos meus dedos juntou-se uma massa amarela de suor e pó. Fiquei a olhar para esta durante algum tempo, a tentar perceber se todas aquelas sensações eram reais.

Perdi a força nos joelhos e sentei-me num pedregulho que estava por ali, como se caído dos céus em tempos imemoriais. Quem me dera que fosse tudo um pesadelo, que ainda estivesse doente na cama em forma de paralelepípedo. Essa situação linear era mais fácil de lidar.

Olhei para os meus pés e fiz uma careta. Ao menos devia ter saído com umas botas calçadas. A minha fuga seria mais confortável. E com outra roupa, pensei desolada. Um vestido comprido não era prático, além de que estava sujo e descosido. Umas calças, um bom casaco para servir de agasalho… Sorri. Estaria a lembrar-me de alguma coisa sobre mim? Era interessante saber que preferia usar calças a vestidos. Dizia que eu era uma mulher que gostava de fazer as coisas com as próprias mãos.

Uma lufada de vento quente levantou um cone de areia que rodopiou junto ao pedregulho. Pois, seria assim como julgava. Eu era uma mulher independente, não precisava da ajuda de ninguém. A casa de Luke Skywalker estava demasiado longe. No seu interior estaria o cavaleiro Jedi com Leia, Han e Chewbacca a falar sobre mim, o que fazer comigo. Não tinham sido indelicados ao serem tão honestos em relação ao que pensavam, a estranha mulher sem aura. Preferia a honestidade crua a um conjunto de sorrisos falsos. E agora estariam a sê-lo, ao falarem de mim sem que eu estivesse presente?

Escondi a cara nas mãos. Estava perdida! Para onde iria? Talvez não existisse nada depois das dunas de areia vermelha. A única solução era ficar sentada naquele pedregulho para sempre e acabar transformada numa estátua de pedra, seca pelo vento quente do deserto.

Ouvi um ruído e destapei a cara. Girei o pescoço mas não captei na totalidade a imagem que me deixaria sem qualquer dúvida, mas alguma coisa vira a esconder-se atrás de uma duna. Um grande animal ou algo semelhante. Não tinha a certeza… Alguma coisa se escondera ali, no deserto. Levantei-me. Olhei para a cúpula branca da casa, olhei para as dunas de areia vermelha. Teria de tomar uma decisão, rápido. Sem hesitações. Teria de correr, correr muito, como se a minha vida dependesse disso. Ou para trás, ou para diante.

Pois sim, a minha vida dependia disso.

Precisava tanto de umas botas!

Engoli a pouca saliva que tinha na boca. A minha garganta estava seca.

Respirei fundo. As dunas!

Nisto, diante de mim, surgiu uma criatura enorme enrolada num trapo encardido, cingido na cintura por uma corda grossa. O rosto era uma massa esverdeada, com duas bolas negras no lugar dos olhos. A boca era um traço fino que se abriu para soltar um silvo agudo. O som era tão insuportável que tapei os ouvidos com as mãos e encolhi-me.

Apareceram mais duas criaturas iguais. Rodearam-me.

Ali acabava a minha aventura… Pelos vistos, precisava mesmo da ajuda de Luke Skywalker.

O sangue gelou nas minhas veias, o meu coração parou. O instinto fez-me dar um passo, apesar de saber que a fuga seria impossível. Eu era uma contra três, os outros estavam armados e eu não, eu vestia um estúpido de um vestido comprido e estava descalça, eles usavam botas. Vi-lhes as botas e achei irónico reparar nesse detalhe descartável.

Assim que um dos meus pés se enterrou na areia, uma dor aguda penetrou-me nos ossos e não fui capaz de me mexer. Fechei os olhos, respirei o ar doce para me anestesiar e deixei-me cair. Fiquei imobilizada na areia quente.

Perdi os sentidos.

Uma das criaturas tinha disparado um raio paralisador de uma arma preta que carregava no cinto.



Notas finais do capítulo

Tatooine é um sítio perigoso. Se a Cleo não sabia disso... ficou a saber! O que será que lhe vai acontecer? Quem serão os raptores?

Próximo capítulo:
As escravas.



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