A Criação da Luz escrita por André Tornado


Capítulo 44
Protocolo e lealdade


Notas iniciais do capítulo

"Envelheci, meu irmão, ainda mais depressa do que dos dias que passam por mim, que me tiram anos de vida como uma criança arranca as páginas de um livro que deixaram ao seu alcance."
in Deuses e Legiões, Ford, M. C., Saída de Emergência, 2008



Enquanto percorria apressada o corredor, pedi a Iko que trotava ao meu lado:

— Diz-me que a nossa nave está equipada com canhões laser ou outro tipo de arma. Diz-me, por favor!

O monstro rosnou. Sustive a respiração. Não era grande coisa, mas resolvi pensar mais tarde nas dificuldades que iríamos encontrar quando atravessássemos a encarniçada batalha espacial.

— Isso vai ter de servir… Serei o artilheiro e tu continuas como piloto. Espero ter boa pontaria… Iko, o que dizes? Oh… És uma agradável surpresa! Claro, tens toda a razão, meu amigo. Vou usar a Força e irei, com certeza, causar alguns estragos e abater outros tantos caças TIE.

Os elevadores continuavam demasiado concorridos e fiz o caminho inverso. Segui para os geradores, pulei os degraus das escadas metálicas quase como se voasse. Desviei-me dos mecânicos e dos androides apressados que rolavam pelo hangar para assistir os caças que regressavam, demasiado avariados para que fossem reparados em pleno voo pelas suas unidades R2, afortunados por conseguirem retirar antes de terem explodido.

Passei por uma porta dissimulada entre dois grossos tubos de exaustão e estaquei. Olhei para o painel e percebi que o compartimento estava trancado. Mas não estava vazio.

— Iko, consegues abrir a porta?

O monstro regougou contrariado.

— Eu sei que estamos com pressa. Isto é importante, sinto-o… Estou a usar a Força, como me disseste para fazer. Calma, também irei usá-la quando estiver a disparar esse famoso canhão da nossa nave. Abres a porta ou rebento eu com o mecanismo de fecho?

Foi ele que disparou sobre o painel, causando o rebentamento. A porta recolheu-se verticalmente e da arrecadação escura veio alguém.

Ou melhor, veio alguma coisa.

— Threepio!

O androide levantou os braços, dobrados pelos cotovelos, gesto que lhe era característico quando se espantava.

— Senhorita Cleo!

— Threepio, tens estado aqui… fechado?

— Estava quase a terminar… – Reparou na confusão do hangar. – Oh, céus! Mas ainda não terminou, pois não?

— Do que estás a falar? Quem te fechou aqui? A princesa Leia pensa que estás a ajudar na sala diplomática, nem considerou procurar-te pois não te julga desaparecido.

— Senhorita Cleo, não gosto de conflitos de qualquer espécie. Nem de discussões, nem de guerras. Deixam-me os circuitos arrepiados. Por que é que não podemos levar uma vida sossegada, sem grandes sobressaltos? Já estava a habituar-me à minha vida calma de androide protocolar no Novo Senado… Não tarda nada, levam-me outra vez para aquelas viagens espaciais intermináveis. Detesto viagens espaciais… Já lhe tinha dito, senhorita Cleo?

— Não, Threepio. Gostei do teu discurso, mas não me disseste absolutamente nada de esclarecedor…

— Oh, céus…

Agitava-se de um lado para o outro. Reparou no monstro cinzento e estacou.

— Uma criatura dos lagos Kendon. É um prazer conhecer-te. Sou See-Threepio, das relações entre humanos e ciborgues. Sou fluente em mais de seis milhões de formas de comunic…

— Ele chama-se Iko – cortei exasperada. – Agora, queres dizer-me de uma vez por todas o que foi que te aconteceu? – Espreitei para a arrecadação onde estivera trancado. – Onde está o Artoo?

— Senhorita Cleo, estou desolado…

Endireitei as costas. Percebi imediatamente o que tinha acontecido.

— Vocês… Tu e Artoo, estiveram com o Luke.

— Por favor, não me castigue.

— Não te vou castigar. Conta-me! Ele esteve aqui…

— Não estou programado para mentir… Aliás, está completamente vedado a um androide protocolar enganar deliberadamente os seus senhores, quer sejam humanos ou wookies, ou outra espécie menos inteligente. Não significa que considere um wookie uma criatura pouco inteligente. Chewbacca é um bom amigo, desde que não o irritemos. Convenhamos, serve-se mais da sua força física do que da sua inteligência, embora eu o considere, sem qualquer margem de dúvida, um excelente piloto, o que implica, logicamente, que utiliza o seu cérebro para executar operações complexas que misturam mecânica e raciocínio. Mas quando os nossos senhores nos dão uma ordem, obedecemos, ainda que cause um pequeno curto-circuito interno por causa do conflito com as nossas diretivas principais.

O nervosismo do androide fazia-o embarcar num discurso vazio e intenso, que seria divertido se eu não estivesse mais nervosa do que ele, pois estava aflita, impertinente, mas demasiado curiosa sobre os passos de Luke Skywalker desde que saíra de Luyta. 

— Poupa-me a conversa fiada, Threepio. Continuas sem me dizer nada!

Iko grunhiu-me.

— Não estou a ser brusca! – protestei olhando para o monstro que me tinha censurado. – Não posso é perder mais tempo. O Luke está em perigo! – Voltei-me para o autómato dourado. – Threepio, conta-me tudo, desde o início. Já sei que o Luke esteve aqui e se o Artoo não está, levou-o consigo. Já sei também que foram para o sistema de Bespin. Asseguro-te que não estás a desobedecer-lhe…

— Ele pediu-me que não contasse nada a ninguém. Eu disse-lhe que isso seria impossível, que eu nunca conseguiria esconder que ele tinha estado em Primeiro Hosniano. Ele podia apagar os registos no computador central, Artoo podia acrescentar dados incorretos sobre as naves que chegavam e que partiam para que não soubessem que ele tinha estado aqui, mas não me podia obrigar a mentir. O menino Luke falou-me de que precisava da minha discrição, ou não conseguiria vencer O’Sen Kram. Eu disse-lhe que só se me trancasse numa prisão é que conseguiria ter o meu silêncio…

— E ele fechou-te nesta arrecadação.

— Sim, senhorita Cleo… – confirmou Threepio derrotado, baixando os braços, diminuindo o brilho dos olhos redondos, parecendo desligar-se. – Pedi que me fechasse. Era o melhor para todos. Para o menino Luke, que prosseguiria com a sua missão. Para mim, que não mentiria a ninguém. Para a Sua Alteza, que não ficava preocupada com o irmão. Para o general Solo, que não se distraía das suas obrigações.

— E eu… Threepio?

— Para a senhorita Cleo, que continuaria em segurança em Luyta.

— Foi ele que te convenceu disso tudo.

— Oh, céus…

— Conta-me, por favor… Se ele não queria que ninguém soubesse o que estava a fazer e para onde ia, o que veio fazer a Primeiro Hosniano, se se podia encontrar com Leia ou com Han?

— Veio buscar o Artoo, precisa dele para voar no seu caça X-Wing. Como lhe disse, senhorita Cleo, a nave do menino Luke chegou e partiu sem que ninguém se tivesse dado conta. Acabei por sabê-lo pois estava com o Artoo quando penetrou no sistema do computador central e apagou os registos. Entrei em pânico, não percebia por que razão o estava a fazer, não estávamos autorizados e constituía um crime punível, na sua pena máxima, com a nossa desintegração. Depois… Depois apareceu o menino Luke e explicou-me que tinha sido ele a dar aquela estranha ordem ao Artoo.

O corpo metálico rangeu apreensivo.

— E o X-Wing? Antes do início da batalha, Wedge Antilles disse a Han Solo que não faltava nenhum caça… Têm tão poucos, considerando os meios do exército de Kram, que se teriam apercebido de que faltaria algum.

— O caça X-Wing do menino Luke esteve sempre em Coruscant e quando o conselho de guerra solicitou equipamentos para a ofensiva, ninguém o trouxe para o sistema Hosniano, senhorita Cleo.

— Claro! – exclamei. – A frota da Nova República encontra-se estacionada em Coruscant, a sede política da galáxia! – Acrescentei, a pensar em voz alta: – Com um truque mental simples, Luke conseguiu entrar e sair de Coruscant sem que fosse dado qualquer alarme… Acredito também que Kram deixou-o andar à vontade, para que ele conseguisse levantar voo e dirigir-se a Bespin. Kram quer encontrar-se com o cavaleiro Jedi… Precisa desse triunfo para fazer ajoelhar o conselho de guerra, mesmo que perca a batalha no sistema Hosniano…

Agarrei nos braços de Threepio que se sacudiu com a minha proximidade inesperada.

— Muito obrigada, meu amigo!

— De nada, senhorita Cleo.

— Threepio, é um desperdício que fiques fechado numa arrecadação quando se vive este momento de crise. Vai para a sala de comando ajudar a princesa. Ela e todos os outros que a acompanham precisam de ti. Não vais ser castigado por teres estado escondido… Num momento mais calmo, conta a Leia que fui eu que te destranquei da arrecadação, conta-lhe o mesmo que me contaste a mim sobre o Luke. Ela já sabe que ele está em Bespin.

— Sim, senhorita Cleo.

— Vamos Iko!

— Senhorita Cleo?

Voltei-me para o androide.

— Poderia pedir-lhe outro favor, para além do favor óbvio que é não deixar que façam mal ao menino Luke? Traga o Artoo sem um arranhão… A minha vida será tão monótona sem essa lata imprestável que só sabe arranjar sarilhos e que se chama Artoo Detoo. Somos companheiros há demasiado tempo. Não conseguimos viver um sem o outro, sabe? Apesar de acreditar que ele sobrevive melhor sem mim do que o contrário.

— Não te preocupes, Threepio. Cuidarei do teu companheiro e não deixarei que nenhum mal lhe aconteça.

— Agradeço a sua consideração.

Dei um toque ao monstro para que seguíssemos para a pista de aterragem onde estava a nossa nave. Mas Threepio chamou-nos.

— Senhorita, Cleo!

Olhei para o androide.

— Diz…

— Vai sair agora para Bespin?

— Sim, vou. O Luke precisa de mim. O Artoo, também.

— A batalha está a decorrer. Não vai ser fácil voar nessas condições.

— Imagino. Irei correr esse risco. O Iko é um excelente piloto, tão bom como um wookie.

— Que a Força esteja consigo.



Notas finais do capítulo

Uma pequena pausa, uma transição necessária para que a Cleo encontre a tranquilidade pessoal antes de embarcar em momentos tensos, perigosos e definidores. O encontro com Threepio serviu para que ela soubesse que a sua intuição de que Luke tinha seguido para Primeiro Hosniano não estava totalmente errada e de que o cavaleiro Jedi pretende disfarçar os seus passos... para que ela, principalmente ela, não o siga.
O que tenta Luke evitar? Ele não quer a Cleo no mesmo lugar que O'Sen Kram.
Mas ela, teimosa, insistente, voluntariosa, vai mesmo encontrar-se com Kram.

Próximo capítulo:
Combate no espaço.



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