A Criação da Luz escrita por André Tornado


Capítulo 4
Mitos e lendas


Notas iniciais do capítulo

"Vader e Skywalker puseram-se outra vez de pé e, com um novo impulso furioso,
levantaram os sabres de luz bem alto. E então, por sobre os sabres de luz levantados, ouviu-se o som de um trovão distante..."
in A Última Ordem, Zahn, T., Publicações Europa-América, 1993



Há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante houve uma guerra nas estrelas entre o Império Galáctico e a Aliança Rebelde. Uma luta velha como o próprio tempo entre o Mal e o Bem.

O regime imperial dominava a galáxia através do terror e os sistemas planetários viviam aprisionados na sua mão de ferro, demasiado amedrontados para reagir, demasiado cúmplices para sacudir o jugo maldito. Mas um grupo de corajosos não se deixou abater pela desesperança. Levantou-se, criou uma rebelião e lutou contra o Império, contra o Senhor das Trevas, o Imperador Palpatine, contra o seu tenebroso e misterioso comandante, Darth Vader.

A guerra civil foi sangrenta, encarniçada, sem tréguas. Por meio da diplomacia, da negociação política, de um esforço titânico e, o mais importante, de batalhas épicas travadas na raia do impossível, a contenda chegou eventualmente ao seu término e a Aliança Rebelde derrotou e derrubou o Império Galáctico.

Esse punhado de renegados foi liderado pelo jovem Luke Skywalker, filho de Anakin Skywalker, um cavaleiro Jedi, os guardiães ancestrais da República. Seguindo os passos honrados do seu pai, Luke também se tornou num cavaleiro Jedi e combateu, no final, Darth Vader com a ajuda da Força, noção mística de um poder que tudo unia no Universo.

Após a estrondosa vitória dos rebeldes, as lendas começaram a surgir, endeusando os heróis de tão valorosa e abnegada empresa. Mas os protagonistas da guerra nas estrelas apenas sentiram que realizaram o seu dever ao combaterem em nome de ideais superiores a qualquer um deles – a liberdade e a paz.

Eu não sabia nada sobre mim, de onde tinha vindo, quem era, porque estava enferma, o que me tinha acontecido antes, mas conhecia essas lendas. Conhecia-as em detalhe, com todas as cenas gravadas na minha mente, vívidas, coloridas, tão precisas que eu quase podia jurar que tinha estado lá, em cada momento, a testemunhar todas as façanhas de Luke Skywalker e dos seus companheiros. Omnipresente, vagueando de lugar em lugar, entranhando essa lenda como se eu fizesse parte dela.

Percorria um deserto infindo, ora empunhava um sabre de luz e lutava contra um velho cavaleiro Jedi, ora disparava uma arma laser contra as tropas de assalto que atacavam numa planície gelada. Pairava sobre a névoa de um pântano impregnado de magia, ora sentia o vento gelado do exterior de uma cidade entre as nuvens, ora sentia a dor no coração por conhecer a verdade. Enojava-me com o cheiro pestilento de uma corte de depravação liderada por um bandido, ora fazia uma pirueta enquanto lutava para escapar com vida de uma sentença de morte injusta. Voava em cima de um veículo supersónico entre árvores altaneiras de uma floresta verdejante perseguindo a escória rebelde, ora caminhava rangendo sobre duas pernas metálicas, ora experimentava a onda de choque após a destruição de uma estação espacial, de uma nave portentosa, de um planeta repleto de inocentes.

Eu não sabia nada sobre mim, mas admirava essa guerra nas estrelas que acontecera há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante. A minha alma, aquela alma que eu tinha recuperado nem imaginava bem de que prisão, vibrava emocionada com as dúvidas, com os medos, com as esperanças e as alegrias que perpassaram por todos aqueles que tinham combatido, perdido e vencido, que tinham sobrevivido e morrido, que tinham construído o mito dessa guerra. As minhas mãos mudavam para as mãos de velhos, de criaturas, de mulheres, de jovens adultos, pequenas, esguias, grandes e papudas, mãos a realizar bondade, mãos a perpetrar traições, mãos a despejar sofrimento, mãos a curar, mãos a destruir.

Eu não sabia nada sobre mim, mas conhecia-lhes os rostos, os segredos, os impulsos, as motivações, como se eu fizesse parte deles, como se eu tivesse sido o que eles tinham sido nesse momento em que foram gigantes, tão grandes que se tornaram mitos e lendas, enquanto combatiam na guerra nas estrelas.

Eu não sabia nada sobre mim, mas isso, de certeza, sabia-o.

Portanto era esquisito por que razão eu me encontrava com Luke Skywalker numa casa desconhecida, se um dia, parecia-me, tinha estado com ele entrelaçando o seu destino no meu, se um dia, parecia-me, de uma forma curiosa, tinha estado dentro dele e a fazer parte dele, se um dia, parecia-me, fora o deus invisível e anónimo que tudo vigiara.

Era tudo um delírio da febre, uma consequência nefanda da enfermidade.

Não fazia sentido… Continuava sem saber nada sobre mim e identificar com propriedade, acerto e até uma ponta de orgulho o que tinha acontecido naquela galáxia, tempos antes daquele dia em que eu ganhava consciência, não me deixou nenhuma garantia ou alívio.

Um suspiro. Acalmei-me.

Pelo menos, tinha alguns pontos de referência. Adquirira esse conhecimento ao reconhecer o meu salvador – era, definitivamente, um salvador. O mundo onde me encontrava não era inteiramente estranho.



Notas finais do capítulo

Há 39 anos estreava nas salas de cinema (poucas) dos Estados Unidos da América um filme de ficção científica em que poucos acreditavam. Mas contou aos primeiros espetadores que se aventuraram a espreitar a exibição desse filme uma história tão mágica que se tornou... num mito e numa lenda.
Começou por ser apenas Star Wars, depois inventaram-lhe um número de capítulo de uma saga maior - o IV, A New Hope, Uma Nova Esperança - e transformaram-no numa das trilogias mais reconhecidas, admiradas e respeitadas da sétima arte. Depois houve a prequela e agora temos a sequela, mais as histórias derivadas.
É com muita alegria e muita humildade que vos deixo, neste dia especial de 25 de maio que é também um Star Wars Day (o primeiro de todos, que começou em 1977) o capítulo IV - também - desta minha fanfic, que descreve a magia desta obra magnífica cinematográfica.
Memórias que para além de fazerem parte da humanidade, neste planeta azul chamado Terra, também fazem parte, de um modo especial e estranho, da nossa narradora...

Próximo capítulo:
De olhos abertos.



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