A Criação da Luz escrita por André Tornado


Capítulo 34
O primeiro dia


Notas iniciais do capítulo

"Os braços e os ombros latejavam de dor enquanto observava o horizonte. Ficou impressionada com a beleza da paisagem."
in A Conspiração de Augusto, Nagle, A., Editorial Estampa, 2006



No dia seguinte, ou algumas horas depois pois não havia um nascer do sol para decidir o correr do tempo e separá-lo entre dia e noite, tudo parecia menos complicado. Tinha dormido o suficiente para relativizar todos os meus problemas. A presença de Luke Skywalker do outro lado da porta do meu quarto contribuía também para a minha paz e felicidade.

Quando chegámos ao abrigo estava à nossa espera uma refeição, mais chá de fygre, roupas novas para mim sobre a cama. Um conjunto azulão e cinza de calças e jaqueta, complementado com uma blusa clara e roupa interior lavada. De onde Iko desencantara todos aqueles mimos, perfeitamente adequados às nossas necessidades mais prementes, era um mistério, mas desconfiava que o mestre Eilin estava por detrás das dádivas e se o cavaleiro Jedi não as estranhava, nem fazia perguntas sobre elas, era porque julgava o mesmo. Confiei que ele agradecesse secretamente ao pequeno ser divino e que o fizesse em nome dos dois.

Após ter tomado um banho escaldante, que me amoleceu os sentidos e preparou-me para desligar o corpo, Luke cuidou dos hematomas do meu rosto, usando unguentos que Iko lhe trouxera num tabuleiro. Não havia bacta, mas aquilo servia perfeitamente, explicou-me o Jedi enquanto humedecia uma ligadura que depois passou no meu lábio e na face, junto ao olho esquerdo. Ardeu-me, mas não me queixei. A dor fazia parte do processo de cura. Evitei, o máximo que pude, os olhos de Luke que se impregnavam de ternura, daquela bondade que lhe era inerente.

Bebi um pouco de chá, comi qualquer coisa, mas não tinha muita fome. Encostei-me a uma parede da sala enquanto Luke foi, por sua vez, refrescar-se. Iko espreitava-me, de vez em quando, verificando o meu estado. Recordo-me de lhe ter sorrido, de ter ouvido a água a correr na casa de banho e de ter adormecido. Ao espreguiçar-me descobri que estava na cama e que o silêncio reinava dentro do abrigo. O cavaleiro Jedi tinha-me enfiado debaixo dos cobertores. Levantei-me, entreabri a porta. Vi-o a dormir com Iko no tapete, o monstro passava um braço por cima dele. Sorri com aquele quadro de cumplicidade inocente. Regressei à cama e terminei aquilo que seria uma espécie de noite retemperadora de sono.

O treino que me iria converter num Jedi podia começar.

Fiquei a saber que o mestre Eilin tinha decidido com Luke Skywalker que os meus ensinamentos iriam decorrer em lugar diferente do lado sombrio de Luyta. O planeta era inóspito e demasiado monótono, com uma noite perpétua e uma grande parte da superfície coberta por uma densa floresta. O espaço não se apresentava como o melhor para que desenvolvesse os exercícios que devia realizar para aprender a servir-me da Força. A parte iluminada também não era adequada, pois devido ao sol permanente estava coberta por um extenso deserto, desprovido de água, onde as temperaturas elevadas eram insuportáveis, mesmo para alguém natural de Tatooine. A opção foi para uma das luas que orbitavam aquele mundo. Era crucial que nos mantivéssemos perto do mestre Eilin, que assim nos podia continuar a proteger e lançar avisos quanto às movimentações de Kram.

Luyta possuía três satélites naturais, sendo dois deles densamente povoados, com cidades desenvolvidas tecnológica e comercialmente. O terceiro era uma pequena lua de paisagens aprazíveis, mas privado de população fixa. A única construção que aí existia era um entreposto comercial de má fama, que acolhia muitos dos contrabandistas que faziam os seus negócios no lado sombrio de Luyta. Por albergar tantas personagens duvidosas, nunca se desenvolvera uma colónia estável nessa lua, o que a tornava num sítio sossegado e discreto. O mestre Eilin aconselhara Luke Skywalker a seguir para essa terceira lua e que levasse Iko para nos acompanhar. A criatura dos lagos Kendon fora designada para me proteger e não poder cumprir a sua missão deixava-o deprimido. Além disso, conhecia o esconderijo de uma nave espacial, situado na antiga base imperial, e que teríamos de usar para alcançar a lua. Se entretanto não tivesse sido descoberta pelas tropas de Kram que se tinham apoderado do complexo e que patrulhavam os corredores de saída do planeta, em busca dos fugitivos que o seu senhor tão encarniçadamente perseguia.

Não teríamos qualquer vantagem em esperar, pois não haveria nunca uma ocasião propícia. Luke, eu e Iko abandonámos o abrigo e seguimos em direção à base. O cavaleiro Jedi liderou-nos, seguindo um trajeto previamente traçado pelo mestre Eilin, onde voltei a vislumbrar o véu azulado que nos resguardava e nos tornava invisíveis.

— Também vamos tê-lo na base?

— Na base, não – esclareceu Luke vigilante. – Na base estaremos por nossa conta, sem a bênção do mestre Eilin.

— Na nossa saída do planeta?

— Também não.

— Como vamos fazer? Corremos o risco de sermos descobertos.

— Utilizaremos um corredor aéreo discreto. Iko conhece-o.

À vista dos primeiros edifícios da base, mantivemo-nos na floresta e contornámos os muros destruídos por raízes grossas e arbustos agressivos. Pelos vistos, o monstro conhecia muito mais do que corredores aéreos, pois guiou-nos por um labirinto verde até se nos apresentar um portão destruído que nos deu o acesso pretendido à base. Avançámos furtivamente, num silêncio total para não alertar as inúmeras sentinelas que vigiavam cada canto e cada movimento suspeito, em postos de observação nas altas torres. Luke munira-se da sua pistola laser DH-17, eu fizera o mesmo. Iko também estava armado com uma carabina laser E-5, utilizada durante a guerra civil por grupos paramilitares rebeldes, e cobria-nos a retaguarda. Chegámos a um armazém que atravessámos a correr e saímos para uma pista de aterragem onde estava uma nave espacial, ocultada pela sombra oportuna de um edifício coberto de trepadeiras.

Não havia soldados na vizinhança, mas continuámos a proceder com cuidado. Entrámos no veículo interestelar, a rampa de acesso fechou-se. Ocupei o meu lugar como passageira, Luke e Iko seguiram para a carlinga onde ligaram os motores de imediato. Guardei a minha pistola, cruzei os braços. Estava muito tensa e cheia de medo que fôssemos descobertos.

No entanto, acabou por não ser difícil levantar voo e deixar para trás a floresta do lado sombrio de Luyta, com o cavaleiro Jedi e o monstro aos comandos do aparelho, piloto e copiloto, a entenderam-se maravilhosamente bem, mesmo que um deles comunicasse com roncos.

As naves de Kram que patrulhavam as rotas de saída não deram pela nossa presença no espaço. O corredor aéreo indicado por Iko era, de facto, bastante discreto e provavelmente secreto, utilizado por algum contrabandista, indicação deixada, imaginei, por Lyle Bergh. Por outro lado, a nave estava camuflada. Ouvi-os acionarem um escudo defletor que também nos fazia invisíveis aos radares inimigos logo que arrancámos, entre outras indicações relacionadas com navegação. Por fim, a nossa viagem foi muito curta, nem sequer foi usada a velocidade da luz e tive a sensação de termos pairado graciosamente até apanharmos a gravidade do satélite do planeta maior.

A lua de Luyta onde aterrámos era completamente diferente do mundo em redor do qual orbitava no silêncio do espaço. Pelo menos ali havia um sol e ver luz foi uma estranha alegria. Recebi o calor na cara, encandeada mas fixando teimosamente a estrela branca e brilhante, satisfeita por ter a certeza de que ali haveria uma sucessão de noites e de dias, que teria manhãs, tardes, crepúsculos e madrugadas.

O cenário era ainda mais satisfatório. O terreno era uma planície que ondulava mansamente até ao horizonte, em curvas suaves. Até perder de vista, um bosque composto por árvores dispersas, de tronco fino e muito altas, com um tufo de folhagem acastanhada no cimo, e por arbustos perfeitamente redondos de um tom seco de verde. Relva amarela cobria o solo que dava pelo tornozelo, macia como os pelos de Iko. Permitia percursos desimpedidos e havia trilhos naturais que serpenteavam entre o arvoredo. À primeira vista não existiam animais de grande porte, não tinham onde se abrigar, mas escutei o arrulhar de algumas aves. A pouca distância corria um rio, cujas águas verdes refletiam a rara cor do céu, serpenteando entre outros arbustos redondos, abrigo de insetos preguiçosos, resvalando em cascatas baixas entre pedras e seixos.

O bosque estava tão bem ordenado que parecia o jardim de alguém que o plantara com um sentido estético apurado, o que era uma mera efabulação pois aquela terceira lua de Luyta estava desabitada, desprovida de qualquer foco populacional a não ser o entreposto comercial, onde o cavaleiro Jedi confiara a nossa nave espacial aos cuidados de Iko. Não era tão movimentado como o espaçoporto de Mos Eisley, mas ali eu encontrara também algumas criaturas das mais estranhas que já tinha visto, que frequentavam a única cantina disponível que aviava bebidas e diversos mantimentos.

Sentei-me numa rocha lisa, plataformas naturais que irrompiam na paisagem a espaços regulares, como os bancos do tal jardim imaginado. Entranhava o lugar e colava-lhe adjetivos simpáticos, como recatado, agradável, sossegado, idílico, para me sentir em sintonia. Seria ali que me transformaria num Jedi e era importante considerá-lo como um lar onde devia ser absolutamente sincera, sem dissimulações ou retraimentos.

Toquei na pedra castanha onde me sentava. Era aveludada, macia como a relva amarela e os pelos de Iko. Naquela lua, pensei, não existiam arestas, gumes ou picos onde nos pudéssemos ferir. Ambiente suave e perfeito para não haver excessos e explosões de génio.

— Porta-te bem! – exclamei para mim mesma

Levantei a cara para outro banho de sol, fechei os olhos.

Descontraía-me, fazia-me esquecer que estava no meio de uma crise e que me era exigido que participasse na linha de frente, desafiando o perigo mortal que ameaçava engolir a galáxia numa nova era de terror.

Luke ficara a erguer o nosso abrigo, semelhante àquele que tínhamos deixado na floresta sombria de Luyta. Uma edificação simples feita a partir de placas previamente construídas que se montavam e ligavam seguindo um esquema simples, que estavam no porão da nossa nave. Uma moradia temporária a usar em momentos especiais, que requeriam medidas excecionais e transitórias. Outra casa emprestada. Não que me importasse, sentia que não devia criar raízes em nenhum lado, pelo menos, nos tempos mais imediatos.

Ele declinara a minha ajuda, dissera-me que teria o abrigo pronto rapidamente e eu não insistira. Fora dar um passeio e acabava sentada na rocha, a receber o calor tépido do sol. Não fazia muito calor, nem estava frio. Ideal para que me concentrasse nos meus objetivos e não me distraísse com pormenores acessórios.

— Porta-te bem… – murmurei.

Estava determinada a fazer as coisas funcionar. Não queria que o mestre Eilin se dececionasse comigo, nem tão-pouco Luke Skywalker. Não suportaria que me censurasse e me abandonasse, não aguentaria saber que morrera às mãos de Kram porque eu não fora com ele combatê-lo. Eu não me encaixava em lado nenhum, mas pelo menos com o cavaleiro Jedi tinha uma plataforma de onde poderia ser lançada para várias direções e sempre para o lado luminoso.

No fundo, ambicionava ser diferente. Não gostara de me ver, apática, autoritária, insolente, exigente, quando me visitara nos primeiros dias a seguir à minha criação. Detestara aquele olhar negro desprovido de chama, a sobranceria com que me colocava acima de todos, a solidão nefanda que me corroía, a privação do sono que apodrecia a minha imberbe humanidade. O que lamentava era ter perdido a consciência do meu poder e de toda a força incomensurável que morava no meu âmago, a segurança inequívoca de ser vencedora em qualquer duelo.

Haveria de recuperar tudo, menos o que considerava detestável.

Entreabri os olhos e vi-o. Pigarreei, prendi atrás da orelha a madeixa de cabelo que se desprendera do rabo-de-cavalo. Apanhara-me distraída, não sabia quanto tempo levava a observar-me e incomodava-me saber que ele estivera nessa contemplação muda, a apreciar como eu me deixava absorver pelo passeio imaginado através do bosque, pela lua inteira, acariciada pelo sol.

— Estamos prontos? – perguntei.

— Sim, estamos prontos – respondeu Luke. – O abrigo é semelhante ao de Luyta. Ficas com o quarto e a casa de banho, obviamente. Dormirei na sala comum.

— Mas, desta vez, sem Iko.

O monstro ficara no entreposto comercial, alojado numa estalagem que existia por cima da cantina, para vigiar a nave e possíveis chegadas de gente duvidosa que viessem atrás de uma recompensa pela nossa captura. Estava armado com a carabina laser E-5, possuía um intercomunicador para enviar mensagens e créditos suficientes para se manter alimentado, beber alguma coisa e jogar quando lhe apetecesse. Tinha indicações para não dar nas vistas. Ninguém podia saber que existiam habitantes naquela lua, para além do entreposto comercial.

— Desta vez, sem Iko – concordou.

Sentou-se no chão, diante de mim. Vestia-se de preto como habitualmente, já não usava a capa castanha, não precisava desse agasalho, pelo menos naquela hora vespertina. O sabre de luz estava preso no cinto. Entrelaçou os dedos das mãos.

— Estás preparada?

— Preparada?

— Para começar o treino.

— Vamos começar agora? – estranhei.

Mordi o lábio inferior, apreensiva. Ele reparou. Acenou afirmativamente e disse:

— O nosso tempo é escasso. Não sabemos se Kram já se convenceu que perdeu o nosso rasto ou se tem algum meio para nos alcançar e espera pacientemente para nos armar uma nova armadilha. Entretanto, o conselho de guerra da Nova República já deve ter sido formado com a liderança da minha irmã, Leia, e ela não costuma empatar. Uma das primeiras resoluções será a declaração de guerra, seguida da preparação da frota republicana e o início dos exercícios para definir uma ofensiva imediata para destruir o poderio militar de Kram. Também não sabemos até que ponto Kram não tem conhecimento antecipado das decisões da Nova República, com a ajuda dos seus espiões, pois que os deve ter em pontos estratégicos da organização política da galáxia. Por isso, não podemos dar-nos ao luxo de protelar o que viemos aqui fazer. A vitória sobre esse senhor negro terá de ser total e num primeiro golpe. Leia e Han tratarão da parte prática, aniquilando as suas máquinas bélicas. Eu, enquanto Jedi, tratarei pessoalmente do comandante desta nova guerra. E será feito com a tua ajuda! Para isso, temos de começar os teus treinos.

Saí da rocha e sentei-me de frente para ele. Não gostava de vê-lo de cima.

— Comecemos – aceitei sem convicção.

Continuava insegura sobre o que se seguiria.

— Muito bem, vamos começar. Mas antes quero pedir-te uma coisa.

— O quê?

— Quero que me deixes penetrar na tua alma.

— Nem pensar! – exclamei imediatamente.

— Escuta-me – pediu, com uma humildade desarmante –, vou ensinar-te tudo o que sei sobre a Força e preciso de saber se estás a compreender o que te estou a ensinar. Abre o teu espírito à minha perceção, não te escondas atrás dessa capa inviolável que ergues sempre que me sentes a rondar-te. Vamos progredir mais lentamente se o fizeres.

— Tens captado pensamentos meus.

— Verdade. Mas não te consigo explicar em que momentos. Não é porque tu me deixas, é porque simplesmente acontece… Neste processo em que te vou ensinar, também vou aprender contigo. Não existe ninguém como tu na galáxia, vai ser um desafio preparar-te para usar a Força. Ao mesmo tempo, vou criar mecanismos para entender-te e orientar-te da melhor forma. Não tenho antecedentes pelos quais me possa orientar, não existe outro mestre Jedi a quem possa recorrer para tirar dúvidas ou pedir conselhos. Vamos estar os dois sozinhos neste caminho.

Tomou-me as mãos nas suas. 

— Não quero ler os teus pensamentos – prosseguiu –, nem manter-te subjugada à minha vontade durante todo o processo de aprendizagem. Quero apenas sentir o que tu sentes, apreciar a forma como compreendes as noções, antecipar as tuas dúvidas e reforçar as tuas certezas.

— Mas vais apanhar um ou outro pensamento…

— Podemos trabalhar numa forma de resguardares certos cantos da tua mente.

— Isso seria bom.

— Então, concordas com o meu pedido?

— Tenho alternativa, cavaleiro Jedi?

— Prefiro que me trates por mestre. Ou por Luke.

Porta-te bem, pensei irritada com a minha falta de controlo. Ele sorriu-me e eu percebi que tinha escutado mais aquele pensamento. Puxei as mãos, escondi-as debaixo das coxas. Estavam a tremer.

— Tenho alternativa… mestre? – emendei contrariada.

— Parece-me que não.

— Bem, então como não posso recusar…

— Vamos esclarecer uma questão importante – alertou, erguendo a mão enluvada. – És livre para desistir quando quiseres. Não estás aqui obrigada, nem eu quero que vejas isto como uma sentença que deverás cumprir. Podemos começar os treinos e podes não os completar. Não serás um Jedi, mas ficarás com uma vaga ideia de como a Força funciona. Isso não te qualifica para enfrentares Kram e eu não vou permitir que me acompanhes sem estares devidamente treinada. Nem vou permitir que o faças sozinha! No dia em que quiseres ir embora e desistir, levo-te até ao entreposto comercial e sairás daqui na nave, com Iko que é o teu protetor. Podes ir para qualquer sistema, fica ao teu critério, não irei seguir-te.

A garganta doía-me, tinha sustido a respiração. Indaguei num fio de voz:

— Isso é uma promessa?

— É uma promessa – confirmou.

— Sinto-me…

Ia dizer desiludida, mas retive a avaliação crua que fizera cair sobre mim um banho gelado. Julgava que ele precisava de mim, o mestre Eilin fizera-me crer que era, de alguma maneira, importante para derrotar O’Sen Kram, mas tudo não passava de uma efabulação tão real como o jardim plantado na superfície daquela lua desabitada. Uma vulgar e aborrecida miragem.

Rasguei um sorriso e afirmei confiante:

— Sinto-me melhor.

Luke não compartilhou da minha falsa alegria.

— Podemos começar?

— Sim. Podemos começar, mestre.

Relaxei os músculos, sacudi os ombros, agitei o rabo-de-cavalo. Libertei a minha alma de um peso invisível, o esforço que fazia, na maioria das vezes inconscientemente, para me esconder de Luke Skywalker. A energia fluiu em meu redor, aquecendo-me e animando-me. Fiquei mais leve, entorpecida. Vulnerável.

Após uma pausa breve, ele começou:

— Primeiro, falemos da Força. Tu já a sentes, trabalhas com ela, consegues controlá-la à tua maneira, mas sem treino tudo acontece por acaso. Ages por puro instinto. Como defesa, ataque, é a tua proteção e o teu refúgio. A Força é energia, essa que acabaste de libertar e que eu senti com tanta intensidade. Tanto poder! A Força existe em toda a galáxia, rodeia-nos e atravessa-nos, faz-nos unos com o Universo. Irei ensinar-te a reconhecê-la e a servir-te dela. Primeiro, a Força que está por toda a parte, depois a tua própria Força.

Agarrou numa pequena pedra que depositou na palma da minha mão.

— Diz-me o que tens aí.

Acariciei a pedra com a ponta dos dedos.

— É uma pedra. Redonda, macia… Cabe na minha mão, se a fechar.

Colocou a pedra sobre a sua mão aberta, a direita, aquela que não era feita de carne e osso. Tentei não me lembrar do instante em que Darth Vader lhe decepara o punho, naquele combate desigual na Cidade das Nuvens, antes da retumbante revelação que os tornava inesperadamente cúmplices através de laços de sangue. A minha mente estava desprotegida e ele não podia saber que eu sabia…

Concentrei-me na pedra sobre a mão de Luke Skywalker.

— Esta é a pedra que seguraste. Agora, fecha os olhos – ordenou-me e eu obedeci. – Vais senti-la novamente na tua mão. Chama a pedra com a Força.

— Com a Força? – indaguei cética, sem abrir os olhos.

— Sente a pedra. Estás a senti-la?

Nada transparecia detrás das minhas pálpebras cerradas.

— Não estás a sentir nada, pois não?

— Não – respondi desanimada.

— Não abras os olhos – pediu-me. – Não te estás a empenhar e consegues fazer bastante melhor. Esvazia a tua mente, tenta ver com os olhos fechados aquilo que vês com eles abertos.

Era difícil. Procurei não pensar em nada, fazer um esboço do bosque, colocar os objetos nos lugares corretos até chegar ao detalhe da pedra na mão dele. Não fazia a mínima ideia de como se fazia uma coisa daquelas.

— Não, não! Estás a dispersar-te – avisou-me impaciente. – Disse-te para vazares a tua mente e ainda sinto as tuas interrogações.

Começava a aborrecer-me porque não entendia o que ele queria.

Porta-te bem!

— Lembra-te do toque da pedra na tua mão – volveu Luke mais calmo. – Lembras-te como era?

— Lembro-me.

— Imagina que estás a segurá-la. Consegues vê-la?

— Consigo. Era macia como os pelos de Iko. Todas as pedras daqui são macias como os pelos do meu protetor, que ontem queria separar-me a cabeça do corpo porque estava tão zangado comigo.

— Não te disperses, por favor… A pedra não está na tua mão.

Mexi os dedos.

— Não, não está.

— Tenho-a eu, na minha mão, que está estendida na tua direção. Não é assim?

— Sim. A mão tapada por uma luva. A pedra está contigo.

— Não comentes o que te estou a dizer. Limita-te a escutar e a responder. Consegues ver a pedra? Tens essa imagem na tua mente?

A sua voz estava a hipnotizar-me. Aos poucos, consegui esboçar dentro de mim a imagem da pedra. Apenas a pedra, no meio de um deserto cinzento infinito, suspensa como se não tivesse uma mão a elevá-la. Estava incrivelmente nítida. Estremeci de emoção.

— Sim, sim! Consigo vê-la!

— Se consegues vê-la, coloca-a novamente na tua mão – pediu-me sem alterar o timbre sereno da sua voz. – Chama-a, deseja voltar a sentir a sua superfície macia… como os pelos de Iko – concedeu com um suspiro subtil.

Marquei a pedra, algures naquele mar cinza que emulava a floresta de Luyta mal iluminada. Na escuridão ténue percebia outros espetros, coisas especadas às quais não conseguia emprestar volume. Lentamente, estendi os dedos e ansiei por tocar na pedra, lembrando-me do monstro. Estava a dispersar-me, sabia-o, a introduzir elementos estranhos naquele exercício mental, mas precisava de uma bengala que me apoiasse na compreensão daqueles princípios que não me pareciam lógicos ou naturais. Macia como os pelos de Iko. Pensava nessa sensação. Quis tocá-la, mais uma vez, trazê-la para mim.

A minha mão fechou-se devagar. Estava fria e dormente, mas percebi que não estava vazia. Abri os olhos, também devagar, com medo do falhanço e que não tivesse resistido a uma espreitadela inoportuna.

Para meu espanto, na palma da mão tinha a pedra. Rasguei um sorriso.

— Olha! – exclamei orgulhosa. – Consegui! Tenho a pedra comigo!

Luke não se entusiasmou.

— Como fiz isto?

— A pedra saiu da minha mão para a tua, com a Força – explicou-me.

— A pedra levitou? – indaguei incrédula. – Atravessou o ar até mim?

— Precisamente.

— Fantástico!

— Não – corrigiu-me zangado. – Nada disto é fantástico. É natural! É a Força, a energia que nos rodeia e que nos une, como te contei no início. Estás a aprender a notá-la e a servir-te dela. Será a tua aliada mais poderosa, quando tudo o resto sucumbir.

— O que queres dizer… com tudo o resto?

— Demasiadas interrogações!

Apertei a pedra. O meu entusiasmo fora deslocado, o típico contentamento de um néscio que acabava de realizar com sucesso um truque complicado de ilusionismo. Aquilo não fora um truque, era real. Muito natural, de acordo com a sensibilidade de Luke Skywalker. Ser um Jedi era uma religião, a Força a sua fé. Aprendia para me tornar num desses cavaleiros das estrelas, incluir-me nessa elite que eu admirava por causa de memórias que me tinham sido implantadas, devia levar tudo aquilo a sério. Eram as convicções mais profundas do meu mestre e não devia tomá-las com leviandade. Por muito que me contrariasse, deveria deixá-lo conduzir-me naquela dança numa câmara escura. Posto de uma forma sucinta, devia comportar-me.

— Peço desculpa – pedi.

— Estás a ir muito bem – disse-me com um sorriso ténue. Pressentira o meu arrependimento, quisera mostrar-me que a rigidez derivaria sempre das minhas atitudes.

— Obrigada, mestre.

Levantou-se e segui-o com o olhar.

— Por hoje é tudo – esclareceu. – Continua a praticar o exercício de controlo sobre a pedra e de a chamares até ti, desde várias distâncias. Tu decides a dificuldade que queres superar.

Afastou-se, passou entre as árvores e os arbustos esféricos, desapareceu atrás de um pequeno outeiro que escondia o nosso abrigo. Marquei-lhe os passos lentos, a sopesar a pedra, fazendo-a saltitar, decorando a sua macieza singular.

A pedra pertencia-me. O Jedi, nem pensar.

Esqueci aquele disparate e fixei a pedra. Pousei-a no solo e contemplei-a durante um largo tempo. Ele tinha razão, a minha cabeça enchia-se de interrogações, um conjunto pesado de milhentas pedras iguais àquela que faziam um lastro inútil que me afundava num poço lodoso, quando devia estar liberta de todos os meus preconceitos e voar tão livremente como as aves que passavam entre as árvores gigantes.

Sem a orientação de Luke Skywalker foi difícil tornar a utilizar e sentir a Força. Fiquei desapontada, considerei desistir, estender-me na relva amarela e preguiçar enquanto tentava seguir um único pássaro e perceber porque voavam tão rapidamente. Mas não iria desistir à vista da primeira dificuldade. Ele tinha-me dito que eu estava a ir bem e os Jedi não eram de mentir. Embora, naquele caso, pudessem ser um pouco enganadores para estimular o aluno.

Fechei os olhos e concentrei-me na pedra, pousada diante das minhas pernas cruzadas. O que me era exigido era simples, repetir aquele exercício até à exaustão, ensaiar a mecânica da levitação e sentir a Força até entender tudo na perfeição, para apagar algumas das perguntas que me condicionavam a evolução na aprendizagem. Não queria ficar para sempre a levantar pedras no ar, queria aprender outras coisas, mais profundas e que considerava infinitamente mais úteis para recuperar o meu poder e lutar contra Kram.

Abri a mão e a pedra pousou nesta. Tinha conseguido sozinha, à primeira tentativa. Daquela vez não visualizara nada, não vira o espaço cinzento com os espectros indefinidos e a pedra no centro, reconhecível entre a pardacenta apresentação. A pedra viera até mim com naturalidade, como se nunca tivesse sido subtraída ao meu contacto.

Respirei fundo. Não me envaideci e pousei novamente a pedra no chão. Fechei os olhos, esqueci qualquer pensamento que me pudesse distrair, vazei o meu interior de sensações, sabores e abstrações. A pedra tornou à minha mão.

A Força era uma vibração que me tocava na pele, mesmo aquela que estava coberta pela roupa que usava. Não sabia se a devia considerar assim, mas não perdi tempo a criar outra dúvida. Limitei-me a aceitar essa definição que me era exclusiva e que me catapultava para outros níveis de exploração.

Ao fim de algum tempo já conseguia colocar a pedra suspensa diante do meu rosto concentrado de olhos abertos e, para tornar o exercício mais complicado, foquei a minha atenção nas outras pedras e nos ramos que se espalhavam pelo chão. Fiz tudo pairar suavemente em meu redor, com a pedra eleita a viajar entre os outros objetos voadores.

O esforço mental cobrou o seu preço e passadas horas a insistir na manipulação de pedras e de ramos estava terrivelmente cansada. A cabeça pesava-me sobre o pescoço e quando me levantei, experimentei uma tontura. Esfreguei a cara com força para me restabelecer. Estava completamente arrasada, ansiava por uma cama para poder estender-me e pousar a cabeça num travesseiro, disposta a ignorar a fome e a sede que tinha. Luke devia ter-me avisado para não abusar do exercício, mas não o fez. Talvez para me ensinar a ser mais comedida da próxima vez.

O dia findava num ocaso dramático de brilhos dourados. Segui para o abrigo, situado entre dois montes, as traseiras protegidas por um conjunto compacto de árvores. Soltei o cabelo, soprando as madeixas que me taparam os olhos.

Luke Skywalker, de braços cruzados, pernas ligeiramente afastadas, observava o sol a recolher-se no horizonte. A atitude contemplativa era bela, como se saída da imaginação romântica de um artista. Os tons avermelhados que pincelavam o céu e envolviam o sol descendente também cobriam a figura do cavaleiro Jedi, dando-lhe uma aura ígnea. Olhou por cima do ombro e descobriu-me. Percebi que era um convite e postei-me ao lado dele. Estava, de algum modo, melancólico, perdido em pensamentos antigos.

— Já terminei – disse-lhe.

— Eu sei.

— Tens estado a seguir o meu exercício?

— Não estarei sempre contigo, mas nunca te vou deixar sozinha a fazer o que quer que seja durante o treino.

— Oh… Então já sabes que estou muito cansada.

— Não cumpriste o que te exigi. Foste mais além…

A censura picou-me o orgulho. Eu tinha feito bastante mais do que aquilo que me tinha pedido para fazer. Não brincara apenas com uma mísera pedra, mas fizera-a bailar no ar entre um mar de outras pedras e de pedaços de madeira. Julgava que ficaria contente com os meus progressos naquele primeiro dia de ensinamentos.

— Estás a criticar-me por ter sido curiosa… e ousada?

Encarou-me sério.

— Neste treino, vais deparar-te com escolhas – declarou. – Quando te vires perante um dilema, vais inevitavelmente fazer uma escolha, que será sempre pessoal e nunca reversível. Para poderes escolher dentro de um padrão aceitável, deverás aprender o valor da obediência. Não apenas aquela que me deves enquanto teu mestre, mas aquela a que estás obrigada enquanto aspirante a Jedi. Estou a falar de uma noção mais ampla que inclui o Bem e o Mal, reconheceres sem qualquer hesitação a quem deves a tua lealdade e a obedecer a esse desígnio. Não é fácil alcançar esse nível de abnegação, mas um Jedi bem treinado e com muita experiência consegue-o. Agora, minha querida padawan… Se eu te pedi para trabalhares apenas com uma pedra, deverias fazê-lo apenas com uma pedra. Estás esgotada sem necessidade.

A argumentação era indestrutível. E como eu tinha insistido comigo própria para que me portasse bem, não podia contestar sem cair numa segunda situação de desobediência.

— Sim, mestre – respondi.

— De qualquer modo, deixaste-me satisfeito por teres sido… Como foi que disseste? Curiosa e ousada. Preciso dessa curiosidade e dessa ousadia nos dias que nos esperam.

— Mas sempre sob a tua supervisão.

— Precisamente. Gosto das tuas tentativas e do teu empenho. Estás a evoluir e hoje foi apenas o primeiro dia.

— Não sei se o vou conseguir. Servir-me da Força como um Jedi. O que fiz com as pedras… Bem, não foi acidental, mas foi… Instintivo? Acho que foi isso, instintivo. Foi diferente de quando estavas lá, a orientar-me. Simplesmente conseguia fazê-lo, se não pensasse demasiado que teria de o fazer. É complicado explicar…

— Estou a entender-te perfeitamente. Sem o perceberes, estás a motivar-me para continuarmos as nossas próximas lições, a justificares plenamente o que fazemos aqui, na terceira lua de Luyta. A Força é poderosa em ti, Cleo. Precisas saber servir-te dela.

Atrás de nós, onde o céu tomava cores mais escuras, as estrelas acendiam-se.

— Vou ter de perceber o que faço com a pedra, até que identifique a energia com que o faço. A Força.

— Verdade – concordou. – Sei que não é muito estimulante, mas verás que esse exercício será muito útil, no futuro, quando tiveres de reagir perante situações mais complicadas do que fazer voar pedras redondas e macias.

— Sim, mestre – suspirei, acreditando que ele estava a ser verdadeiro comigo. Não tinha motivos para não o ser e eu não encontrava razões para desconfiar do que ele me dizia.

— Por que é que tens tanto medo?

A pergunta dele arrepiou-me.

— Não sinto esse medo de que me falas.

— Mas estás assustada. Tenho pensado muito nisso e chego sempre à mesma conclusão. Tens medo de mim. Sempre tiveste, desde Tatooine.

— Não te quero dececionar – respondi depressa, para terminar com as insinuações.

— Não me queres dececionar agora que sou o teu mestre. Mas antes, em Tatooine, que motivo tinhas para ter medo de mim?

— Eu… não… não tinha medo de ti – gaguejei.

— Quando te recolhi no desfiladeiro de Vitra… Estavas inconsciente, é certo, mas começaste a chorar e pediste-me que não o fizesse, aterrorizada. Pediste-me que não o fizesse e chamaste-me pelo meu nome.

— Se estava inconsciente, como posso eu responder-te ao que queres saber? Não me lembro de ter chorado antes de…

Antes de ter estado na Belirium, debruçada sobre ele, a curá-lo com a minha Força, a dar-lhe alento onde ele não tinha nenhum, a aquecer-lhe o peito gelado com as minhas mãos.

— Chamei-te pelo teu nome? – indaguei com estranheza. – Luke Skywalker?

— Sim, chamaste.

— Isso é… Não te sei explicar porque o fiz. E eu pedi-te que não fizesses o quê?

— Não sei. Esperava que me pudesses contar o que tanto temias que eu fizesse.

Afastei-me trémula, aturdida. Amparei a testa com uma mão, os cabelos caíram como uma cortina.

Não queria que me salvasses, pensei. Estavas a destruir o que restava de mim.

Ultimamente, ele lia-me os pensamentos. Recuei cada vez mais tonta, a compor o cabelo atabalhoadamente, espreitando-o mas ele não deu indicações de que conseguira apanhar aquela quase confissão. Mirava-me na expetativa, mas com a mesma tranquilidade desarmante com que iniciara a tarefa ingrata de ser o meu mestre.

— Talvez um dia, quando me lembrar do que me aconteceu e o que fazia em Tatooine – disse-lhe, obrigando-me a acabar com aquela retirada patética.

— Claro, poderei esperar. Prometes?

— Não.

— Porque não?

— Posso quebrar essa promessa. Não quero prometer ao meu mestre algo que posso não vir a cumprir. Seria um passo para a deslealdade e não devo… ser-te desleal.

Sorriu ao meu comentário. Mais cedo ou mais tarde, ele descobriria. No desenrolar dos treinos tudo viria ao de cima. As minhas memórias esquecidas, a minha vida anterior, os meus segredos. Bastava ter paciência. Captei-lhe a insinceridade do sorriso.

— Estou a exigir-te demasiado para um dia só – apontou.

— Sim, estás – concordei aborrecida. Apontei-lhe um dedo. – Isto não vai funcionar apenas para o meu lado… mestre. As descobertas serão recíprocas. Também gostaria de perceber por que tens medo!

— Posso responder-te.

O sol escondia-se num mar matizado de muitos laranjas e amarelos. Baixei o braço que fizera uma acusação despropositada.

— Tenho medo de falhar como teu mestre. Como aconteceu com o Ben e o meu pai, Anakin Skywalker. Pensava que as minhas incertezas seriam mais pequenas, ou mesmo inexistentes, quando me tornasse num Jedi. Mas em face do desafio de te treinar… Não és a única cheia de interrogações.

— Não vais falhar – assegurei-lhe. – Eu não vou deixar que isso aconteça. Vais ter-me ao teu lado, Luke Skywalker, a lutar contra O’Sen Kram. Honrarei o teu compromisso até ao fim, sabendo qual o meu lugar nesta disputa mortal. Isso te posso prometer!

— Obrigado.

A noite descia sobre a terceira lua de Luyta.

Luke retirou do cinto o seu sabre de luz e estendeu-mo, devagar. Recebi-o com as mãos trémulas. O metal frio do punho desligado era uma sensação nova e estranha. Através daquele objeto que ele me confiara, acreditava possuir algo que lhe era fundamental, imaginava-me a compartilhar com ele os momentos mais especiais da sua vida. Vi-o a construí-lo, na caverna de Kenobi, antes de seguir para o palácio de Jabba, o Hutt

— Liga-o – pediu-me.

— Queres que o ligue? O teu sabre de luz? – estranhei.

Acenou afirmativamente. Respirei fundo, aturdida com o privilégio de ter nas minhas mãos a arma maravilhosa do último dos Jedi. Com os dedos inseguros procurei o pequeno botão no punho prateado e pressionei-o. Surgiu a lâmina brilhante, faiscando com um som elétrico. Olhei fascinada para o feixe luminoso que saía do metal que segurava na mão esquerda, a luz fluorescente refletia-se no meu rosto e tornava-me os olhos ainda mais brilhantes.

— Deves segurá-lo com as duas mãos – indicou Luke.

Obedeci e fechei a mão direita sobre o punho, acima da mão esquerda. Agitei-o vagarosamente para fazer soar o seu zunido característico.

— É tão… incrível… – murmurei enlevada na sua magia.

— Quando estiveres melhor preparada, vou ensinar-te a construir um e terás o teu sabre de luz.

Eu já soube fazer isso. Construir um sabre de luz. Disse-o a Frint, a olhar para o pôr dos dois sóis em Tatooine.

Olhei para o horizonte, mas já não havia sol, apenas uma derradeira mancha dourada a tingir a terra longínqua que parecia incendiar-se. Outro pensamento que ele não conseguiu ler.

— Vai ser verde, como o teu? – perguntei.

— Sim. Os pupilos têm os sabres de luz da mesma cor que os seus mestres.

— Gosto. Será como o céu desta lua. Verde!

Luke sorriu com a associação.

Pestanejei desconcertada. Eu tinha nas mãos o sabre de luz com que poderia assassinar o cavaleiro Jedi. Fora criada com esse propósito pela mente torcida do senhor do trono negro. Luke confiava em mim o suficiente para me ter entregado a sua mais querida arma e a ideia de matá-lo cobardemente foi abominável. Desliguei o sabre de luz e devolvi-o, perdida nas minhas contrariedades.

— Tens de acreditar, Cleo!

— Acreditar em quê? – indaguei alarmada.

— Serás um Jedi – volveu ele. – Acreditar é importante.

— Sim, eu sei…

Algo em mim haveria sempre de me puxar para o lado contrário ao da luz. Tive medo, e agora podia reconhecer esse sentimento paralisante, de não continuar até ao fim e quebrar a promessa que tinha acabado de fazer.

— Vamos beber alguma coisa enquanto preparamos a ceia – propôs, recolocando o sabre no cinto.

— Chá de fygre?

Luke riu-se.

— Gostas mesmo desse chá.

— Disseste-o ao mestre Eilin – recordei.

— Sim, pode ser chá de fygre. Precisas de uma bebida mais forte, no entanto.

— Cerveja jawa?

— Já bebeste? Quando?

— Em sonhos! – E soltei uma gargalhada que me fez estalar os ossos do crânio. Gemi, encolhendo-me com a dor. Perguntei curiosa: – Temos cerveja jawa?

— Na cantina do entreposto comercial deve haver.

— Podemos ir lá beber, um dia destes, quando quisermos descontrair.

— Não sei se aceito essa proposta…

— Que bebida forte é que me propões?

— Outro tipo de chá que te vai aliviar as dores de cabeça.

— Estás a desiludir-me. Preferia algo mais radical.

— Não queiras tudo no primeiro dia!

Luke passou o braço pelos meus ombros e entrámos em casa.



Notas finais do capítulo

Os treinos da Cleo sob a orientação de Luke Skywalker começaram e ela ainda se acha um pouco perdida nos ensinamentos sobre a Força. Este foi apenas o primeiro - e longo! - dia de outros que virão, em que mestre e pupila se vão deparar com muitas situações, umas mais fáceis do que outras, outras mais agradáveis, com descrenças, sucessos e conquistas.

Este é também o capítulo desta história que é publicado após a terrível e devastadora notícia do desaparecimento da atriz Carrie Fisher, pelo que é inteiramente dedicado à princesa das estrelas que tanto admiramos e amamos que atende pelo nome de Leia Organa. A Leia vai aparecer mais nesta história - e hoje, aqui, foi mencionada pelo irmão.

Próximo capítulo:
As muitas cores do mundo.



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