A Criação da Luz escrita por André Tornado


Capítulo 26
Os remorsos dos miseráveis


Notas iniciais do capítulo

"Não havia luar. As estrelas, pelo contrário, eram tão numerosas que pareciam irreais, tão cintilantes e tão próximas que se julgava vê-las cair e precipitar-se no vazio."
in Terra de Neve, Kawabata, Y., Dom Quixote, 2009



As ordens finais chegaram quando aterraram a nave num planeta inóspito à noite. Deviam montar acampamento num local discreto, manter-se incógnitos abandonando os uniformes, aguardar pelas indicações de como e quando se iriam movimentar no terreno, passar despercebidos e não criar inimigos, manter subjugados e subornados os aliados indicados numa lista que apenas os comandantes da expedição tiveram acesso. Tinham permissão para usar força letal, ou seja, estavam autorizados a atirar a matar.

O planeta chamava-se Tatooine e situava-se nos confins da galáxia, escutou Frint da boca de um desiludido que esperava ação num local mais concorrido e desafiador. O imbecil deveria ter pensado que iriam entrar disfarçados em Coruscant e promover um atentado no Novo Senado! Ainda ninguém se tinha apercebido da verdadeira natureza da coisa que transportavam e ele não partilhara o que descobrira com ninguém. O segredo pesava-lhe na consciência, enchia-lhe os sonhos de aflição, mas ele não quis perder essa vantagem sobre os camaradas. Nalguma ocasião ser-lhe-ia útil e salvá-lo-ia de um embaraço.

Erigiram o aquartelamento perto de Forte Tusken, uma cidade dominada pelo Povo da Areia. Frint ficou chocado ao verificar que fora criada uma aliança com os líderes desses selvagens. Julgava que o exército que servia era suficientemente poderoso para não precisar de se aliar a ninguém e cresceu-lhe um sentimento de indignação que o tornou mas suscetível a provocações. Não acreditava que o exército imperial tivesse alguma vez necessitado do apoio de brutos incivilizados para manter a sua autoridade.

A criatura tinha acomodações próprias, permanentemente guardadas por seis soldados que se revezavam por turnos. Nunca mais a tinha visto, nem sequer quando ela tinha desembarcado e duvidava que alguém o tivesse feito, pois não apanhou nenhum comentário abafado em relação ao facto. O que tinha escutado fora que não sabiam o que estavam a guardar, pois os quartos daquela zona pareciam desabitados. Não se ouvia qualquer ruído no seu interior.

Os primeiros dias foram passados num completo tédio, sem nada mais que pudesse fazer a não ser esperar. Aguardar que o chamassem, que chegassem mais ordens do Alto Comando da Belirium. A paisagem que o rodeava, rochedos afiados e dunas de areia vermelha do extremo norte dos extensos desertos de Jundland, não ajudava a quebrar a monotonia, mas ajudaram-no a dominar a ansiedade e a apreensão. Fazia longos exercícios mentais em que saltitava de obstáculo em obstáculo até atingir o horizonte escaldante. Era como se voasse. 

Por vezes, tinha a impressão de que o olhar vazio dela estava na sua nuca e voltava-se de repente para não encontrar ninguém. Acalmava-se, remoía aquela impressão. Tinha pesadelos nessa noite que não conseguia explicar na manhã seguinte. Estava permanentemente com sede e tonto. Foi um alívio receber uma licença e decidiu ir embebedar-se na cantina mais próxima. Ainda não tinha participado na guarda das acomodações da criatura e tinha a estranha sensação, sem qualquer fundamento, de que o estavam a afastar dessa incumbência.

Cobriu-se com uma capa puída e rumou a Forte Tusken. Decorou a senha e a contrassenha para regressar ao aquartelamento, embora lhe fosse inútil se estivesse demasiado embriagado. No cinto guardava uma pistola laser pessoal, um modelo SC-4 que usaria sem hesitação se o provocassem. Tinha permissão para isso, de resto. Foi sozinho.

Percorreu a pé a vereda pedregosa até aos limites fortificados da cidade. As redondezas eram agrestes e não encontrou nada de interessante no curto passeio vespertino. Teria de voltar antes do cair da noite, quando aqueles caminhos estariam pejados de assaltantes. A sua experiência anterior como bandido tornava-o avisado e ele sabia reconhecer os sítios onde a lei era negligenciada. Ali era um deles e provavelmente essa assunção estendia-se ao planeta inteiro. Nunca tinha visitado Tatooine e esboçou um sorriso. Teria gostado de o ter feito nesses velhos tempos de circunstâncias extraordinárias.

Ajeitou a capa no pescoço. Aproximava-se das muralhas que circundavam a cidade, altas paredes de uma fealdade castanha, encimadas por torreões, vigiadas por sentinelas armados, rasgadas por janelas gradeadas, e logo surgiu um enxame de diversas criaturas, onde predominava o Povo da Areia. Junto aos portões escancarados estendiam-se bancas cobertas por toldos esfarrapados pelos ventos constantes do deserto onde florescia um próspero mercado. Vendia-se ali de tudo, desde alimentos, bebidas, roupa, até armas e peças sobressalentes. De vez em quando um speeder apressado furava entre a pequena multidão, o condutor buzinando e injuriando. Numa meseta das vizinhanças semeavam-se inúmeras tendas sujas compondo um povoado caótico, protegido pelo forte sobranceiro. O típico bulício de um pequeno enclave, dominado por uma figura autoritária que se sustentava à custa de negócios escuros. O Povo da Areia, também conhecidos por Tusken, eram governados por um rei que tinha sido cautelosamente subornado pelo comandante da missão ultrassecreta, para que os seus homens beneficiassem de alguma complacência e espaço de manobra, já que aquela raça era conhecida pela sua agressividade. Frint sentia nojo de tudo isso.

Nunca fora esquisito na escolha dos seus pousos e entrou na primeira cantina que se lhe apresentou. Encostou-se ao balcão e pediu uma bebida. Serviram-lhe uma cerveja jawa, um líquido espesso e castanho – tudo era dessa cor irritante naquele planeta – que tinha um leve odor a couro. Também não era esquisito quando pretendia embebedar-se e bebeu metade do copo de uma vez. Escolheu uma mesa desocupada e sentou-se. Estalou os dedos a uma empregada rodiana, espalmou o dinheiro no tampo e pediu outra cerveja.

O ambiente ruidoso e fumarento da cantina não lhe interessava. Já conhecia a encenação do lugar, igual a tantos outros na galáxia frequentados por assaltantes, caçadores de recompensas, atiradores furtivos, contrabandistas, camponeses e senhores. Bastou um primeiro relance, na entrada, para registar as possíveis ameaças e os casos inofensivos. De resto, aprendera a manter uma certa discrição que o fazia invisível e, portanto, imune a problemas. Manteve-se no seu canto, a beber a sua cerveja, aparentemente alheado ao que se desenvolvia em seu redor. A música estridente de um grupo musical, as prostitutas atenciosas com quem exibia dinheiro farto, grupos envolvidos em acesos jogos de azar, androides a cirandar indolentes entre as mesas, encontros secretos entre especuladores e desesperados, solitários que se escondiam atrás de capuzes e de capas, amigos em gargalhadas boçais.

Já não se sentia tonto e definitivamente tinha matado a sede. A cerveja jawa era forte e a bebedeira era rápida, tal como desejava. Não se queria demorar a atingir o estado de esquecimento momentâneo provocado pelo álcool, não estava com paciência para se aturar a si próprio. Passou a língua pelos lábios molhados quando terminou o quarto copo, mirando a espuma que restava no fundo. O sabor amargo do início tinha-se dissolvido no prazer da bebida. Esticou o pescoço à procura da empregada rodiana para lhe pedir um quinto copo. A cantina estava cheia e ela andava numa azáfama, a servir as mesas do fundo. Apoiou-se na mesa para se levantar. Iria até ao balcão, que se danasse…

Havia zaragata na porta. Não se deteve a perceber o que se passava, embora houvesse alguns que acorreram de imediato para assistir à discussão, tirar partido, fazer apostas ou outra coisa qualquer estúpida que se fazia sempre que havia pancadaria numa cantina.

Tropeçou em alguém e empurrou-o com raiva.

— Olha por onde andas, homenzinho!

O diminutivo aplicava-se. Era um homem curvado e baixo, que usava uma pedra negra ao pescoço, presa numa corrente grossa. Trajava um comprido hábito que se arrastava numa cauda desfiada pelo chão, munido de um capelo que estava descaído, revelando uma cabeça calva e alongada, terminada numa barba rala, um nariz adunco entre dois olhos fundos rodeados por olheiras negras, um deles completamente branco, riscado por uma cicatriz que nascia na testa enrugada.

Afastou-se, mas o outro teve a ousadia de tocá-lo num braço.

— Tu estás com ela.

O seu primeiro pensamento foi para a empregada rodiana. Ela continuava a servir as mesas do fundo e ele, que precisava de uma quinta cerveja jawa, tinha mesmo de ir até ao balcão.

— Não sei do que me estás a falar, velho.

O ápodo também se aplicava. O homem parecia ter vivido anos incontáveis e, o mais tenebroso, parecia tê-lo feito sempre com aquela aparência envelhecida, de coisa acabada e esquecida pela morte. Como se nunca tivesse conhecido a irreverência e a pujança da juventude.

— Sabes, sim… Só não te queres lembrar. A bebida ajuda a esquecer.

— Quem és tu? Afasta-te de mim!

Empurrou o homem zarolho, alcançou o balcão e pediu a cerveja jawa com brusquidão. O empregado do bar atendeu-o sem mostrar desagrado, habituado a servir bêbados irascíveis e criaturas malcriadas. Nem sequer lhe dispensou um olhar enviesado ou resmungou uma censura. Foi ofensivo não ter sido repreendido. As repreensões melhoravam as imperfeições e moldavam o carácter. Ele não era irascível ou malcriado, era um soldado e, por definição, era ordeiro, responsável, humilde e obediente. Bebeu o copo de um trago e pediu um sexto, tentando um tom menos agressivo. Foi atendido pelo mesmo empregado que lhe deixou a cerveja jawa com igual indiferença. Respirou fundo, agradado. O problema não era dele, mas do empregado, que não passava de um néscio, um bruto criado naquele miserável planeta.

Ao voltar para a sua mesa esbarrou no homem zarolho.

— Tu outra vez?

— Preciso de vê-la! Leva-me até ela! – pediu-lhe o homem num desespero demente.

Contornou o homem zarolho, elevando o copo para não derramar uma gota da preciosa cerveja jawa.

— Não sei do que me estás a falar, velho. Já te disse para te afastares de mim!

Deu um passo e estacou.

Ele sabia de quem estava o homem zarolho a falar. Acabava de o descobrir com um estalo no cérebro enevoado pelo álcool, ou sempre o soubera e só se retraíra porque nunca desejara partilhar esse segredo com ninguém. Aguentava sozinho os pesadelos e esse tormento seria somente dele. Como podia aquele homem zarolho conhecer a criatura que tinham transportado para Tatooine era um mistério, mas mesmo que devesse arrancar-lhe essa informação, pois estava ali alguém que conhecia pormenores de uma missão militar ultrassecreta, o que indicava a existência de um delator entre a equipa, ou um traidor que andaria a trocar informações por dinheiro, estava, naquele ponto, demasiado bêbado para se importar. Acometeu-lhe um sentimento egoísta de proteger o que sabia, em detrimento de salvar as atividades do grupo.

— Vejo-o nos teus olhos. Já estiveste em contacto com ela.

Olhou para baixo. A testa do homem zarolho perlava-se de suor.

Fez uma rápida revisão mental e concluiu que nunca tinha visto aquele personagem que, pelo aspeto deplorável, seria um nativo do planeta. Logo, o que o homem zarolho sabia sobre a carga fora-lhe contado por algum dos seus camaradas. Se havia um desgraçado que dava com a língua nos dentes, não seria ele que iria confirmar a história mirabolante. Desconversou:

— Não sei do que me estás a falar, velho.

Atirou-se para a cadeira, pousou o copo na mesa. Entalou a cabeça nas mãos. O homem zarolho sentou-se ao lado dele e Frint irritou-se.

— Não te quero comigo, velho!

— Cuidado, ela conhece-te. Estás marcado.

— Não sei do que me estás a falar.

O homem zarolho apanhou-lhe o braço pousado na mesa, ao lado do copo.

— A marca dela é mortal. Sabes que é verdade… Ela matou o teu amigo.

Falava do infeliz que ele descobrira morto aos pés da criatura, o seu parceiro de turno durante a patrulha à nave, poucos dias antes de chegarem ao planeta Tatooine. Sacudiu o braço para se libertar da mão enrugada.

— Oficialmente, o soldado que morreu durante a viagem era um fraco que cometeu suicídio, devido a uma depressão não diagnosticada pelo centro médico do comando operacional. A sua morte não foi violenta ou provocada por uma terceira pessoa. Gostaria de saber quem te deu acesso a um relatório confidencial!

Apertou a boca, percebendo que fora incauto ao denunciar a sua posição. Não devia alimentar as fantasias do homem zarolho. Bebeu um trago de cerveja jawa.

— Não conheço os vossos relatórios confidenciais, tudo o que sei é através dela – explicou o homem zarolho. E antes que ele pudesse refutar com a frase habitual, prosseguiu: – Sabes muito bem de quem estou a falar. Não preciso que te denuncies, já sei que pertences ao exército de Kram e que estás em Tatooine para acompanhar uma ação tão sensível que poucos conhecem a sua verdadeira essência e objetivo. O que eu preciso de ti é acesso a ela.

Não iria corroborar as suspeitas do homem zarolho, porque cria que eram suspeitas e não certezas. Mostrou-lhe os dentes num sorriso ameaçador e repetiu:

— Não sei do que me estás a falar, velho.

O homem zarolho recostou-se com um suspiro doloroso. A pedra negra oscilou sobre o peito ossudo do velho e com a sua visão enevoada pareceu-lhe ver uma sombra movediça sobre as suas arestas. Apertou a cana do nariz com dois dedos. Queria esmurrar a boca daquele intruso. Ia levar o copo à boca quando o homem zarolho recomeçou a confissão:

— Conheço-a porque ajudei a criá-la. Sou o feiticeiro de Ekatha que deu o conjuro a O’Sen Kram para que ele possuísse a mais perfeita criação do Universo. Uma arma tão letal que não tem qualquer oposição… Depois percebi o meu erro e estou cheio de remorsos. Nunca devia ter ajudado Kram, ele não soube usar o poder que lhe ofereci. Oh, claro que fui eu que o procurei! Oh, claro que fui eu que lhe ensinei o mistério! Sou demasiado culpado para que consiga absolvição… Mas existe uma maneira de reverter o Mal que foi criado.

— Não tenho nada que ver com os teus problemas, velho.

— Tens, sim! Tens acesso privilegiado ao lugar onde ela está e tudo o que preciso é que me ponhas em contacto com ela.

Frint pousou o copo vazio com um baque tão violento que lhe abriu pequenas rachas.

— Não te posso ajudar, velho, porque simplesmente não sou quem procuras. E não faça a mínima ideia do que me estás a falar!

A mão do homem zarolho agarrou-se às abas da capa dele, num aperto trémulo.

— Já vi os teus amigos, outros soldados…

— Solta-me!

— Também vêm a esta cantina, beber como tu. Para esquecer. Tenho-os observado, analisado… Eles não são iguais a ti. Eles não têm essa marca. Nunca falei com eles sobre ela ou sobre qualquer outro assunto relacionado com a vossa presença neste planeta. Não confio em nenhum deles. Não são iguais a ti, definitivamente. – Abriu os dedos esqueléticos, abanou, pesaroso, a cabeça, soluçando.

Frint levantou-se. Debruçou-se sobre o homem zarolho e ameaçou-o:

— Não passas de um miserável. Não acredito em nada do que me contaste!

E saiu da cantina.



Notas finais do capítulo

Chegámos finalmente a Tatooine!
E neste planeta, onde o ambiente típico de uma cantina em alvoroço não podia faltar, Frint encontrou-se com o feiticeiro que ajudou Kram a gerar a criatura. Um encontro muito estranho e que ele descartou como desprezível. Devia tê-lo feito? Por outro lado, ao proteger os seus segredos demonstrou que é perfeitamente leal ao exército que integra...
Não sei o teor alcoólico da cerveja jawa, aqui é uma bebida forte que não se pode beber em demasia ou é bebedeira certa.

Próximo capítulo:
Atração pelo perigo.



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