A Criação da Luz escrita por André Tornado


Capítulo 22
Encontros


Notas iniciais do capítulo

"Não conseguia articular palavra, tal o cansaço que lhe oprimia o peito, numa pulsação funda que lhe chegava a cortar a respiração."
in Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, de Carvalho, M., Caminho, 2005



No ar saturado e escaldante pairavam fagulhas incandescentes, fiapos de luz no interior daquela nuvem escura que cobria a desolação. Metal retorcido, escombros fumegantes, vegetação calcinada, a carcaça de uma nave espacial sob um céu de um negrume permanente. O silêncio que enchia o lugar foi substituído, inesperadamente, por um zunido agudo.

Tossi ao recuperar o alento, a boca sabia-me a sangue. Estava admirada como conseguira sobreviver à detonação da bomba e pisquei várias vezes os olhos que ardiam por causa do fumo, tentando acreditar que, de facto, continuava viva.

Estava deitada de costas a olhar a abóbada celeste de Luyta, sem energias para reagir. Confiava que o detonador térmico tivesse desintegrado os soldados que nos queriam aprisionar e que teria aqueles momentos para me entregar à deliciosa prostração dos derrubados. Porque sentia-me derrotada.

Não estava ferida, para além de uma surdez momentânea, da respiração condicionada e da perna direita dilacerada pelo tuyaq, comprovei sem nenhuma sensação de alívio ou de felicidade. O potente rebentamento que destruíra a pista de aterragem, a nave espacial inimiga e as ruínas do posto de vigia fora milagrosamente sustido pela parede que caíra sobre mim em pedaços, poupando-me a um infeliz esmagamento. Pensei em sorte, a seguir pensei no mestre Eilin e no seu desapontamento. Não estava a ser imprevisível, estava apenas a ser inconsequente, imprudente, insolente e a dar demasiado trabalho a qualquer um que se cruzasse no meu caminho.

Os pequenos eventos, ligados numa cadeia sucessiva compondo um evento maior, fariam a diferença. As minhas decisões, pensava com uma nesga de expetativa, apegada a uma crença indefinível, seriam importantes no futuro. Acabariam por ter o grau de imprevisibilidade requerida pelo ser minúsculo da casa iluminada na clareira.

Talvez Iko já se tivesse dado conta de que me tinha ido embora e tivesse vindo à minha procura. Esbati um sorriso na boca seca. Estava a enlouquecer quando considerava que um monstro cinzento seria a minha melhor opção na luta contra O’Sen Kram.

Sentei-me. Esfreguei o peito dorido, limpei os olhos congestionados com os dedos sujos. Verifiquei que a ligadura estava molhada. Mais sangue, outro problema. O problema de sempre, no entanto. Tinha de ver um androide médico, não me podia esquecer. E havia tanta coisa que eu não me podia esquecer de fazer… A primeira, defini obstinada, era encontrar Luke Skywalker e Leia Organa Solo naquela maldita base.

Pus-me de pé, os joelhos fraquejaram. Apoiei-me numa parede derrubada e chamei:

— Morva!

Soube imediatamente que ele não tinha escapado. A tristeza dessa verdade entonteceu-me e deixei-me ficar encostada à parede, a tremer. A tentar lembrar-me a razão por que me afetava tanto ter sido privada da presença daquele contrabandista que me irritava e que me surpreendia, nem sempre de um modo positivo. E não consegui criar um único pensamento coerente acerca de Morva Senthy. Servira-me dele de uma forma ignóbil, na mesma medida que ele julgara estar a servir-se de mim. O que havia a lamentar?

Por entre os destroços, pequenos incêndios bruxuleantes emprestavam uma coloração alaranjada à calamidade silenciosa que me rodeava. Junto à parede onde me apoiava descobri o braço decepado de um soldado. Mais adiante, um corpo abandonado na sua irónica morte, curiosamente inteiro.

Avancei, segura de que não me podia demorar ali. Aprisionado debaixo de uma placa maciça que desabara, reconheci o corpo do contrabandista deitado de borco. Conseguia ver parte do torso e das pernas, uma mão que se fechara firmemente sobre o punho da pistola laser. Ele não tinha, efetivamente, escapado. Podia ter ficado com a arma dele, precisava de algo para me defender no caminho que continuava a percorrer, mas achei que seria um sacrilégio roubá-la a Morva Senthy. Era a homenagem mínima que lhe podia fazer. Continuava a não sentir nada e não ousei fazer uma despedida lamurienta. Não condizia comigo e não era o estilo dele.

Mais um que tinha morrido e que, aparentemente, estava do lado certo daquela contenda. Aparentemente, porque havia quem tivesse a sua própria agenda. Morva era um desses que não definia um partido para não se comprometer. Colin também. O que havia, realmente, a lamentar?

Avancei, portanto, sem olhar para trás.

Contornei com cuidado a nave espacial destruída para não ser atingida pelas pequenas explosões que ainda ocorriam. Os estalos e os rangidos indicavam um desconjuntamento iminente e dei uma curta corrida. Verifiquei que uma galeria, cuja porta tinha sido desintegrada, abria-se à minha direita e entrei. Continuava quente no interior do complexo e senti-me mais confortável, mesmo que coxeasse, que me doessem as costelas, que tivesse os pulmões saturados de fumo.

Naquela solidão penumbrosa pus-me a cogitar no que poderia fazer a seguir. Deveria concentrar-me e tentar encontrar Leia através da Força, mas o ânimo para empreender esse exercício era nulo. Descobrir o paradeiro de Luke Skywalker era ainda mais difícil pois o Jedi encontrava-se dissimulado atrás de uma grelha energética destinada a confundir os sentidos. Por isso, continuei a andar pela base deserta, a buscar inspiração para prosseguir naquela empresa com um objetivo bem definido, mas falha numa estratégia concreta.

No entanto, a base não estava assim tão deserta. Não acreditava que a nave que acabara destruída pelo detonador térmico fosse a única que transportara os homens de Kram da Belirium para Luyta. Tal como o clone do cavaleiro Jedi, não passara de um isco destinado a atrair vítimas específicas, nomeadamente Leia Organa Solo e aqueles que a acompanhavam e a auxiliavam na missão de resgate do irmão. Existiria, sendo assim, outra nave ou naves, com mais tropas, armamento, munições, dispositivos de localização, outros detonadores térmicos, mapas dos recantos da base. Teria de ser cautelosa, não podia quebrar a atenção, era imperativo que soubesse inegavelmente o que estava a fazer.

O desespero de me encontrar sozinha, ferida e perdida fez-me estacar. Passei uma mão pelo rosto, pelos cabelos despenteados. Não adiantava correr, andar, coxear, rastejar se não tinha um rumo certo. Olhei para a parede onde estava um computador desligado, parcialmente destruído, fios coloridos a derramar-se pelo chão. Meneei a cabeça. Precisava de um computador operacional e dos dados que eventualmente pudesse conter. Os homens de Kram deveriam estar a utilizar o antigo sistema informático da base e se ficasse na posse de alguma informação relacionada com as suas movimentações, seria capaz de os evitar e de chegar até ao cavaleiro Jedi. Ou pelo menos acompanhar a sua perseguição a Leia e de a intercetar antes deles.

Passei para um corredor lateral, inspecionando todas as portas que se apresentavam ao longo da parede. A maioria estava trancada, mas eu prosseguia, crendo que haveria de encontrar o que procurava. Ao mesmo tempo, apurava o ouvido para detetar movimento suspeito nas redondezas, a presença do inimigo.

E foi então que escutei passos. Um grupo corria na minha direção, muitos passos matraqueando o soalho. Travei, dei meia volta, enveredei por outra passagem, espreitando por cima do ombro para me assegurar de que não se tinham apercebido de mim, que os conseguira fintar.

Choquei com alguma coisa ao dobrar uma esquina. Caí, bati com a cabeça no chão, soltei um gemido. O cabelo cobriu-me o rosto.

Os passos tinham ficado longe, ou era aquela tontura que me afastava do mundo vigilante. Os meus ouvidos ainda zuniam por causa da explosão.

— Levanta-te!

A ordem soou-me estranha, uma voz inesperada, deslocada daquele corredor deserto.

Mas eu tinha chocado com alguma coisa…

Afastei algumas madeixas dos olhos.

Um soldado apontava-me uma espingarda laser, numa pose ameaçadora. Comecei por soerguer-me com movimentos lentos, mantendo o contacto visual com o soldado para que ele não se assustasse e premisse o gatilho. Estava na sua mira, o tiro seria certeiro. Mostrei-lhe as mãos vazias, sentei-me, apoiei o meu peso na perna esquerda, esforcei-me para me levantar sem o apoio da perna direita que latejava, ardia e sangrava.

Ficámos de frente um para o outro. A espingarda cobria grande parte da cara do soldado, mas consegui reconhecê-lo como aquele que me tinha levado até à sala do trono negro. Chamava-se Frint, lembrei-me, e os seus braços tremiam quando me ordenou que fosse encontrar-me com o seu misterioso mestre.

Agora, os seus braços estavam firmes. E o seu olhar, se antes transparecera algum terror e dúvida, mostrava uma solidez condizente com a sua postura inabalável. Tinha sido apanhada e não me revelei assustada com a intimidação dele. Se mostrasse fraqueza, seria humilhada. Se mostrasse valentia, seria subjugada. A aceitação da minha condição era o mais ajuizado e dar-me-ia alguma vantagem numa eventual negociação.

Nisto, o soldado Frint baixou a espingarda. O gesto inesperado fez-me vacilar e recuei um passo, quebrando a minha audácia, o que foi um erro. Ele agarrou-me num braço e puxou-me, empurrando-me contra a parede. Olhei sempre para os olhos dele, ele devolveu-me o mesmo olhar intenso, duas pessoas que desconfiavam uma da outra. Enfiou uma mão no casaco rubro-negro, retirou um cartão transparente cruzado por linhas prateadas, semelhante àqueles que vira Colin manejar. Espalmou-mo no peito, junto ao pescoço. Crispei ligeiramente a testa e ele troçou de mim com um sorriso torto.

— Dou-te o cavaleiro Jedi.

Segurei no cartão, pondo-lhe uma mão em cima. Frint afastou-se. Fez-me um sinal com a cabeça. A espingarda roçava-lhe a coxa, mas o dedo permanecia no gatilho.

— Vai-te embora. Não chegues tarde demais…

No princípio, não me mexi. Não parecia credível que o soldado Frint, leal a O’Sen Kram, me estivesse a ajudar, ao mesmo tempo que ameaçava dar-me um tiro com toda a autoridade da sua farda e da sua posição. Porém, não podia desdenhar de qualquer tipo de ajuda, mesmo que viesse do inimigo.

Andei alguns passos às arrecuas, tateando a parede até alcançar a esquina onde fora apanhada. Deslizei sem me desencostar, deixei de vê-lo e desatei a correr, cerrando os olhos, apertando o cartão na mão, o corpo a estalar de tensão à espera de um tiro à traição que me atravessasse as costas e terminasse com aquela minúscula esperança.

Travei ao chegar a um pátio, as minhas botas escorregaram e caí de joelhos com um grito. Tinha corrido sobre a perna direita e deixara um rasto de sangue. Se o soldado Frint quisesse, tinha como me seguir. Olhei para o cartão. Estaria ali a chave da localização de Luke Skywalker. Precisava de um computador, mais do que nunca.

Os passos que me tinham sobressaltado e que me tinham feito chocar com o soldado Frint soaram novamente. O grupo avançava por uma das passagens que desembocava no pátio. Também teria escutado algum barulho suspeito e tinha mudado de direção, para barrar, identificar e deter os intrusos. Levantei-me sobre a perna esquerda, pulei para a passagem mais próxima. Percebi, tarde demais, que os corredores vazios provocavam um eco que me tinha enganado. Os passos vinham da passagem que acabava de escolher. Parei, guardei o cartão dentro da túnica, apoiei-me na parede para ganhar impulso para fugir pelo corredor contíguo.

Uma arma laser travou-me.

— Tu!

A arma desapareceu e vi, na minha frente, o rosto corado pelo esforço de Leia Organa Solo.

Imediatamente pensei numa alucinação provocada pelo cansaço e pelo choque dos últimos acontecimentos. Desisti e encostei-me à parede, com as pernas a tremer e o coração a querer desligar-se. A imagem da princesa dançava na minha visão afunilada pelas náuseas intensas, a transformar-se num borrão que em breve se dissolveria quando finalmente desfalecesse. Mas tudo ficou de repente incrivelmente nítido e real quando Han Solo se juntou a Leia e atrás do corelliano surgiu a presença gigantesca de Chewbacca.

— O que fazes aqui? Pensei que estavas com o Luke!

A interpelação ansiosa de Leia, imbuída de uma certa raiva, chicoteou-me o cérebro adormecido e espevitei-me. Abanei a cabeça, respirei fundo, o cartão que guardava dentro da túnica picou-me a pele com a inspiração funda.

Han Solo observava-me escandalizado.

— O que foi que te aconteceu? Estás uma desgraça!

— O meu dia está a ser muito complicado – expliquei, envergonhada por me apresentar naquela lástima. Voltei-me para Leia. – Estava com o Luke, mas separaram-nos pouco depois de nos terem capturado… Então sabes que ele não morreu.

— Não tenho a certeza… Mas não acreditei quando me deram a notícia. Não fazia sentido, ele é um piloto experiente. Mesmo com um copiloto amador não cairia no erro de entrar num campo de asteroides desconhecido e despenhar-se.

— Vieste para Luyta.

— Sim, segui a nave desconhecida que surgiu em Coruscant e desapareceu, pouco depois de ter deixado essa estranha mensagem sobre o Luke. Fiz alguns cálculos e segui-a até este sistema. Vim atrás de um pressentimento… Uma perturbação na Força. Mas não consigo encontrar o meu irmão, nem perceber o que estou a sentir. Existe um campo escuro, onde não há energia.

— A Belirium ainda está em Luyta?

— Como sabes o nome da nave?

— Estive a bordo dessa nave, soube de notícias alarmantes. Queria avisar-te… Primeiro por causa do Luke, depois por causa da ameaça à estabilidade na galáxia. É por isso que estou nesta base, queria enviar uma mensagem para Coruscant.

Han Solo interrompeu-nos:

— A conversa parece-me ótima, mas não devíamos estar num sítio mais discreto? Embora pareça, esta antiga base imperial não está abandonada e os soldados que a patrulham, neste momento, andam à nossa procura e ficariam deliciados se apanhassem a convidada do Luke connosco.

Chewbacca regougou a sua concordância.

— Sabes alguma coisa sobre estes soldados?

— Sei – respondi a Han Solo. – Posso explicar tudo, nesse tal sítio mais discreto.

O general analisou o monitor de um pequeno intercomunicador que retirou de um dos bolsos do colete e anunciou:

— A nossa sala ainda não foi descoberta, pelo que continuamos a ter esse sítio discreto para conversar. Vamos para lá. Parece-me que tens muita coisa a explicar, miúda.

— Não me chames isso! – pedi ríspida.

As sobrancelhas de Han Solo desenharam dois arcos.

— Ei…

— Não quero que me trates assim, por favor – emendei, num tom menos brusco.

— O teu dia tem sido mesmo complicado – apontou o corelliano sarcástico.

— Nem imaginas quanto!

— E o Luke? – cortou Leia.

— Sei onde ele está – disse e vi a esperança iluminar os olhos da princesa.

— Como?

— Deram-me informações… Não sei se serão verdadeiras, precisamos de um computador para verificar. Ele está na base, numa cela especial que o faz ficar invisível à… tua perceção. Uma estrutura que anula o campo energético que o rodeia.

— Anula a Força? Tenho sentido impressões estranhas em Luyta.

Começámos a andar, com Han Solo a liderar, secundado pelo wookie atento que virava a cabeçorra de vez em quando, cobrindo tanto a nossa dianteira, como a retaguarda. Mas os corredores apresentavam-se desoladores e silenciosos, o ermo a ser quebrado pelos nossos passos cuidadosos, sem sinal aparente de que iríamos ter algum encontro imediato com soldados inimigos.

Mancava atrás de Leia, que seguia armada na peugada de Han Solo e de Chewbacca, também devidamente armados, com pistola laser modelo DL-44 e uma besta laser artesanal, respetivamente. Por vezes eu apoiava o cotovelo na parede para impulsionar a minha passada e para não atrasá-los. Estava quase a ceder ao desmaio. Mas continuei, combativa, persistente, certa de que a sorte estava a sorrir-me, pela primeira vez desde que fugira do abrigo.

Se era uma situação imprevisível, o mestre Eilin que decidisse.



Notas finais do capítulo

A Cleo finalmente encontrou a pessoa que mais procurava na galáxia: Leia Organa Solo. Não se sente tão sozinha, ao lado da princesa, de Han Solo e de Chewbacca, apesar de se apresentar numa lástima.
No entanto, esse não foi o único encontro da Cleo. O que acharam do soldado Frint?
Existem muitas questões e dúvidas que serão em breve esclarecidas. Falta ainda salvar o cavaleiro Jedi e decidir o que fazer com O'Sen Kram...

Próximo capítulo:
Intervalo para reorganização.



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