A Criação da Luz escrita por André Tornado


Capítulo 17
A maldição do conhecimento


Notas iniciais do capítulo

"Por um instante, estava a cair, a precipitar-se no inferno, no meio de pessoas que gritavam, as chamas a engolirem-no, pedras e sangue a choverem do céu."
in Anjos e Demónios, Brown, D., Bertrand Editora, 2005



Era uma noite cerrada.

As árvores de largos troncos e copas frondosas, que entrelaçavam os seus ramos harmoniosamente, escondiam uma clareira e, nesta, uma moradia acanhada feita de pedra. Das delgadas janelas saía uma luz intensa, como se dentro da casa brilhasse um sol.

Lyle Bergh, Iko e eu chegámos à clareira, depois de ter atravessado uma floresta densa, vindos do local onde o contrabandista aterrara a sua nave. Esse espaçoporto, outrora utilizado pelo Império Galáctico, encontrava-se deserto e votado ao abandono. A natureza selvagem do planeta ganhara terreno e grossas raízes irrompiam por ali, a abraçar os edifícios decrépitos, a rasgar a pista. Depois de uma curta paragem nessa antiga base imperial, tínhamos seguido para a floresta.

Nunca mais mencionara Luke Skywalker mas não parava de pensar nele. Não conseguia evitar a amargura de saber que o abandonara a uma sorte incerta, deixando-o nas mãos do senhor do trono negro. A culpa magoava-me e cansava-me. Olhava para as costas de Lyle Bergh e sentia asco – dele e principalmente de mim mesma, que não fora capaz de ser mais veemente nos apelos em prol da salvação do cavaleiro Jedi. Mas nada podia fazer contra aquele homem perigoso, imprevisível e egoísta, uma versão sem escrúpulos de um jovem Han Solo, provavelmente mais parecido ao herói de guerra do que eu pretendia admitir. Suspirei derrotada e muito cansada.

O contrabandista entrou na casa e Iko ficou ao meu lado, no exterior, a regougar mansamente, analisando o meu estado abatido. Esbocei-lhe um sorriso. Envolvido nas sombras noturnas, iluminado pelo brilho surreal da pequena casa, o monstro não parecia tão ameaçador e, afinal, estava ali para me proteger. Lyle Bergh saiu da casa com um sorriso triunfal que lhe enchia a cara toda, carregando uma caixa metálica, muito semelhante àquelas onde eu e Luke tínhamos guardado as nossas coisas para a viagem, que nunca aconteceu, até Coruscant. Na caixa de Lyle Bergh, no entanto, não estavam objetos pessoais, roupa, um espelho. Estava dinheiro.

— O meu trabalho está concluído – anunciou o contrabandista orgulhoso. – Trouxe-te da nave Belirium até este sítio. Quem pagou pelo teu salvamento está lá dentro. Espero que tenhas… um excelente reencontro.

Crispei a testa. Não me lembrava de alguma vez ter estado naquela casa. Espreitei pela frincha da porta entreaberta mas a luz que brilhava no interior era tão intensa que não pude distinguir forma alguma, o vulto de alguém, entre aquela claridade ofuscante.

Retive, contudo, um pormenor que poderia ser vital, o nome da nave de O’Sen Kram. Belirium.

O contrabandista continuava à minha frente, a sorrir-me como um idiota.

— Faz bom proveito desse dinheiro.

— Podes crer que farei!

— Estás à espera que te agradeça? – ironizei.

Iko rosnou admirado, Lyle Bergh ofendeu-se.

— Não preciso dos teus agradecimentos. O dinheiro é suficiente.

— Então, podes partir. Acho que já aturei bastante a tua presença.

— Tens cá um descaramento…

Inclinei-me sobre ele, procurei o tom mais ameaçador possível e disse-lhe:

— Tem cuidado, Lyle Bergh. Não sabes… do que eu sou capaz.

Escutei-me como se tivesse sido outra pessoa a dizer aquilo. Não sei de onde surgiu a ideia de confrontar o contrabandista, de onde desenterrei as palavras que, presunçosamente, indicavam que eu era poderosa e perigosa. Teve o efeito de uma chicotada no orgulho imenso de Lyle Bergh e se num primeiro instante iria demolir a minha segurança com uma rajada de impropérios, deve ter puxado da sua experiência e considerado que não me conhecia assim tão bem para assumir que eu seria inofensiva. Riu-se, como se não tivesse sido atingido pela minha insinuação, que a desvalorizava como bazófia. Notei-lhe o nervosismo, o receio. Sorri-lhe de volta o que o fez desviar o olhar. Ele tinha, efetivamente, ficado com medo de mim.

Voltou-se para o monstro.

— Adeus, Iko. Gostei de trabalhar contigo. Se algum dia me cansar de voar sem copiloto, virei procurar-te. O que achas?

A seguir, sumiu-se na escuridão da floresta, a carregar a sua preciosa caixa.

Na clareira, o vento soprou por cima das copas das árvores.

Uma enorme calma desceu sobre mim.

O meu caminho terminava ali, ou começava, algum destes opostos seria. O fim ou o princípio. Um ciclo perpétuo que renovava a matéria do Universo e que o fazia progredir infinitamente. A minha resposta não estava na nave de O’Sen Kram. Estava naquela casa que albergava uma estrela caída.

A experiência não seria agradável, nem a descoberta satisfatória. Lançaria brechas de dor na minha alma. Vi-o antes de acontecer e hesitei. O monstro cinzento fitava-me com uma ternura sincera nos seus olhos amarelos. Não compreendia como um monstro podia perceber o que estava a acontecer comigo, mas sentiria as minhas vibrações de dúvida. Existia para me proteger e seria um protetor mais eficiente se conseguisse perceber os meus estados de espírito. E percebia-os. Curioso como as criaturas se interligavam para formar a imensa teia de perceções, infinita, permeável, renovável. Chamava-se Força e eu sentia-a pulsar intensamente no interior da moradia.

Estiquei o braço, abri a porta e entrei. Os meus músculos estavam totalmente descontraídos e o cansaço tinha desaparecido, assim como a sede, a fome, as aflições das últimas horas.

No início, nada vi, a luz cegou-me. Aos poucos habituei-me e tudo se tornou límpido como numa manhã gelada. Havia apenas uma divisão, de paredes rugosas como rochas, pejadas de plantas verdes, ramos nodosos e tecidos desfiados e esvoaçantes. Uma cintura de janelas estreitas circundava a casa, começadas e terminadas na porta. No centro da divisão, estava um pequeno lago límpido e quieto, um espelho perfeito, rodeado por algumas pedras cobertas de musgo. Do chão brotavam as raízes das árvores que formavam a clareira lá fora, no meio de um tapete de folhas viçosas onde rastejavam pequenos insetos.

Na parede mais afastada, profundamente verde, salpicada por minúsculos pontos coloridos, sentava-se um ser de baixa estatura que aparentava ter vivido mais de mil anos. O crânio era alongado, a cara enrugada, nas orelhas enormes balançavam dois pendentes prateados. Cobria-se com uma túnica vermelha semeada de pérolas que faziam lembrar estrelas piscantes. Numa das mãos segurava uma esfera, a outra descansava no regaço. Aos seus pés a verdura era esplendorosa, formava laços vivos e intricados que abraçavam o lago, mais adiante. Era do ser que irradiava a luz celestial que iluminava o interior da casa.

O brilho sobrenatural era puro, energia sem qualquer mácula. Envolver-me naquela magia deixava-me mais anestesiada que o aroma doce do planeta deserto. Se me deixasse vencer, acabaria por me dissolver para sempre naquela paz branca que acolhia de bom grado para terminar de vez com todos os meus problemas.

O ser estendeu o braço livre num convite para que me sentasse. Quando fez aquele gesto amigável, as águas límpidas do lago agitaram-se e na sua superfície desenharam-se círculos infindáveis que escondiam imagens estáticas numa rápida sucessão. Sentei-me diante do lago agitado, com o pensamento completamente embotado. Aquela porção de água rasa separava-me do ser brilhante que me observava com benevolência.

— Saudações – cumprimentou-me.

Ouvi a palavra claramente, vibrando com uma nota musical, mas a boca do ser não se abrira. Semicerrei os olhos tentando ver melhor. Sentia-me diferente, mais consciente de mim mesma, com todos os sentidos em alerta.

— Saudações – devolvi. E fiz uma exigência impaciente: – Quem sou eu?

O ser ficou calado.

— Tu conheces-me – esclareci irritada. – Mandaste-me buscar à nave de Kram. Quem sou eu?

O ser não respondeu.

— E o cavaleiro Jedi? Não o quiseste salvar! Se sou mais importante que Luke Skywalker… quem sou eu?

O ser estava mudo.

Gritei furiosa:

— Quem sou eu?! Diz-me de uma vez ou saio por aquela porta!

— Podes sair sempre que quiseres. Não és minha prisioneira, mas minha convidada – disse movendo os lábios, na cadência precisa para modular a frase naquele tom de sentença inequívoca, mas sem ser prepotente. Daquela vez, abrira a boca minúscula, todo ele era minúsculo entre aquela profusão de plantas verdes.

Eu estava arfante. Meneei a cabeça para desanuviá-la.

— Peço desculpa… Exaltei-me sem razão. Devo estar agradecida. Sou eu que estou em dívida contigo e não o contrário.

— Talvez descubras que serei eu o devedor e te espantes.

— Por favor… – pedi num lamento. – Por favor, não quero mais enigmas. Não me consigo lembrar de quem eu sou e tudo à minha volta parece colapsar. Sinto-me responsável por aquilo que está a acontecer com Luke Skywalker, por uma possível guerra que poderá rebentar brevemente entre O’Sen Kram e a Nova República. Preciso de ajuda e ninguém me quer ou pode ajudar… Estou perdida. E sozinha.

— Não posso responder-te.

— Não podes responder-me? – perguntei desiludida.

Outro lugar que era um poço negro, que nada acrescentaria ao meu tormento. Preparei-me para me levantar e sair dali, a minha confiança traída. O cansaço extremo voltou.

— Fizeste-me a pergunta errada. Todas as histórias têm um início, um meio e um fim. A tua também. Mas a resposta que me exiges, saberes quem tu és, não faz parte do início. – Sossegou-me com um gesto simples do braço. – Sem enigmas, portanto, comecemos.

Fez uma pausa.

— Sou Eilin, o vigilante. Muitos chamam-me de mestre, mas dispenso o tratamento. Se te sentires confortável em usá-lo, não irei corrigir-te.

— O mestre Eilin? – Outro nome que não me dizia absolutamente nada.

— Observo a galáxia e vejo todos os destinos. Antes que digas que sou um deus, permite-me que corrija essa noção. Não sou um deus, sou um ser que vive na interdimensionalidade, com mais poderes, é certo, do que as criaturas normais do mundo mortal. Omnisciente, omnividente, omnipresente, mas também perecível e degradante, com vícios e erros. Não devo atuar na galáxia que vigio, pois não pertenço aos seus caminhos, mas faço-o, nas situações de extrema crise.

— E esta é uma situação de extrema crise?

— O perigo não tem limites.

— Se atuas quando a galáxia está em perigo, fizeste-o durante a guerra entre o Império Galáctico e a Rebelião? O perigo seria idêntico… O Imperador Palpatine servia-se do lado negro da Força.

— Nessa altura não interferi porque sabia que o cavaleiro Jedi devolveria a liberdade à galáxia e que derrotaria as trevas.

— Luke Skywalker… E agora? Ele não será capaz de o fazer novamente?

— Não, por causa de ti.

— Eu?

Levei algum tempo a digerir aquela informação. Contudo, era a coisa mais verdadeira que me tinham contado ultimamente. Era coincidente com o que o Jedi dizia sobre mim, que eu era extraordinária e poderosa. Um acidente natural, uma impossibilidade.

— Eu… – repeti incrédula. – O que posso fazer contra o poder de um Jedi? Ou contra a energia malévola de O’Sen Kram?

O ser calou-se por uns instantes. Gostava de silêncios prolongados que devolveriam a ordem à revolução que eu criava com a minha impaciência e exigência. Estava preocupada com o cavaleiro Jedi, era a minha justificação. Quanto mais tempo perdesse, mais ele sofreria nas mãos do senhor do trono negro.

Aguardei pacientemente, controlando o meu desejo de conhecer tudo de uma vez. E se um deus, sim porque considerava o mestre Eilin uma entidade divina apesar de ele ter afastado essa noção por misericordiosa modéstia, perdera o seu tempo para contratar um contrabandista para me resgatar, eu não era assim tão descartável quanto uma escrava merecia ser.

O mestre Eilin começou, assim, a sua história, com princípio, meio e fim:

— O’Sen Kram foi criado há muitos séculos por uma mente distorcida que invejava a religião mística dos cavaleiros Jedi e fê-lo um destruidor da Força. Foram tempos negros, de grandes batalhas, tão antigas e fantásticas que já se perderam na memória coletiva.

— Kram foi criado? O que é ele, então?

— Um clone do seu criador.

— Oh… E isso fá-lo mais forte?

— Não necessariamente. – O mestre Eilin prosseguiu: – Quando Kram aparecia, os Jedi desfaleciam privados da Força que ele aniquilava. Mas houve um corajoso Jedi que se enfrentou a Kram e conseguiu derrotá-lo, encerrando-o numa prisão de gelo, a partir da qual ele não podia sentir a Força, nem servir-se dela. Essa prisão foi colocada num planeta remoto dos confins da galáxia e com o passar das eras, a existência de Kram foi apagada dos documentos históricos e, consequentemente, esquecida. Há algum tempo, ainda durante a Antiga República, um cometa colidiu com esse planeta anónimo, pulverizando-o e revelando a prisão gelada de Kram, que escapara à tremenda explosão. A bola de gelo vagueou pelo espaço e foi finalmente cair numa pequena lua. Na queda, abriu-se uma minúscula fenda e foi o suficiente para que Kram conseguisse sugar, através desta, toda a Força de que necessitava para ficar novamente livre.

O mestre Eilin calou-se. Apesar do dramatismo do relato, não o demonstrava. Permanecia sereno, imperturbável, igual ao cenário bucólico do interior da sua casa.

— Julguei que a presença de O’Sen Kram não passaria de uma pequena turbulência. Não se fez notado durante a ascensão do Império Galáctico, não procurou aliar-se ao lado negro e ajudar Palpatine na sua ambição. Fui ingénuo ao julgá-lo subjugado à imponência do Imperador e dos Darth. Como vês, cometo erros… bastante grandes. Sabia que Kram era perigoso devido à sua capacidade única de controlar a Força, mas julguei que ele se revelaria antes do fim da guerra. Seria um aliado poderoso de Palpatine, tornaria tudo mais difícil e demorado, mas a vitória aconteceria de qualquer modo e Kram seria novamente derrotado. Tal como no longínquo passado, existia um cavaleiro Jedi capaz de o derrotar.

— Luke.

— Sim, Luke Skywalker. Não seria fácil, tal como não tinha sido fácil ao seu antecessor, mas a vitória iria pertencer-lhe. Kram não fora invencível antes e também não o seria agora. No entanto…

— Kram manteve-se inativo até à destruição de Palpatine e do Império Galáctico.

— Exato – concordou o mestre Eilin. – Kram não quis atuar logo para se assegurar da sua vitória. Observou os acontecimentos, aprendendo com eles, aproveitando-se deles. Deixou passar algum tempo e depois começou a recrutar antigos colaboradores do extinto Império. Soldados, cientistas, espiões, almirantes e capitães, todos os descontentes com a nova ordem política que nascia na galáxia. Açambarcou veículos espaciais, maquinaria pesada ofensiva, androides especializados que tinham sido guardados em esconderijos secretos e que haviam escapado ao desmantelamento ocorrido no fim da guerra. Em pouco tempo, Kram ficou com uma vasta frota ao seu serviço e um exército maciço a obedecer-lhe às ordens.

— Como foi possível isso acontecer sem que Coruscant tenha intervindo? Uma mobilização tão… grande de pessoas e de naves?

— Kram não deixou rastos. No início, os seus apoiantes eram-no em segredo, conspirando na sombra para ajudá-lo a reerguer a glória do Império Galáctico. Julgaram-no o legítimo herdeiro de Palpatine, foi isso que os convenceu a concordar com essa empresa clandestina. Mantinham-se fiéis à ditadura e à opressão, não desejavam partilhar os seus privilégios com os povos desgraçados que subjugaram durante tanto tempo. A ordem de reagrupamento é muito recente. Kram sabe que o Novo Senado vai levar tempo a reagir pois não vai compreender, nesta fase inicial, o poderio imenso que foi reunido a partir dos despojos do Império. Vai julgá-lo incapaz de ameaçar seriamente a nova ordem galáctica com um poder de fogo tão diminuto. Neste momento, o que Kram tem para exibir é uma única nave, a sua base Belirium, uma flotilha de naves de assalto, alguns veículos terrestres ofensivos. O resto, que está escondido, surgirá de repente quando a guerra for declarada. Os traidores, colocados em pontos estratégicos, revelar-se-ão e o sistema ruirá por dentro, inquinado pelos acólitos de Kram que anunciarão com orgulho a sua lealdade ao senhor do trono negro.

— A Nova República tem capacidade para responder, mesmo que seja apanhada de surpresa. Mas não o será, já que podemos avisar os senadores desde logo do que Kram está a planear.

— O teu raciocínio está correto… Mas, já te esqueceste da tua principal pergunta?

— O quê? – indaguei confusa. E depois a minha mente vibrou. – Oh… Claro… Quem serei eu… Continua, mestre Eilin. Peço-te.

— Durante os seus preparativos, Kram começou a ficar preocupado com o cavaleiro Jedi. Sabia que ele tinha o poder necessário para derrotá-lo e ficava horrorizado ao pensar que poderia regressar à sua prisão de gelo, que fora muito eficaz em contê-lo e afastá-lo do mundo vivente. Então, definiu outro objetivo e começou a consultar diversas criaturas versadas nas artes do oculto.

— Oculto?

— Recentemente teve a visita de um feiticeiro do sistema de Ekatha que lhe prometeu o poder eterno. Não lhe mentira, infelizmente…

Fez nova pausa prolongada que me desesperou. Apertei o tecido das calças para tentar acalmar-me. Sentava-me sobre as pernas e inclinava-me para diante em expetativa.

— Kram aceitou a dádiva de poder do feiticeiro sem duvidar. Não pesou as condições, não mediu as consequências. Cego de ambição, fez aquilo que eu julgava ser impossível de realizar. Usou a Força e tornou-se num criador.

— Um… criador?

Soltei o tecido amarrotado. Não era apenas a minha mente que vibrava agora, era todo o meu corpo, estremecendo porque o sangue tinha gelado nas minhas veias.

— E O’Sen Kram criou. Amassou terra sagrada, uniu os sedimentos com o seu próprio sangue e saliva, deu-lhe contornos e profundidade, soprou-lhe o ar da sua boca. Deu-lhe até algo como amor e adorou a sua criação.

Entreabri os lábios.

— Uma escrava… – balbuciei.

A verdade bateu no fundo da minha alma e aí deixou uma depressão. No início uma mera pancada, cujo embate esgotou a energia do arremesso furioso. Depois começou a estalar, criando rachas a partir do centro do impacto que se espalharam paulatinamente pela superfície em redor. Fendendo a fina capa que protegia a minha alma, abrindo brechas irremediáveis na segurança das minhas convicções, desfazendo as minhas certezas que se separaram em cacos impossíveis de reagrupar. Em vez de luz, atrás dessa cortina descobri um absoluto vazio.

Eu já sabia quem eu era e não gostava da verdade.

— Não… Não é possível! – exclamei horrorizada, a olhar para as minhas mãos. – Não sou… uma coisa construída.

— Por favor… Escuta-me até ao fim.

— Não…

Solucei. O peito doía-me terrivelmente e o meu coração queria escapar-se pela boca. Fora criada por O’Sen Kram, nascida da sua vontade e do seu engenho, inventada por um feiticeiro que lhe revelara a fórmula necessária para operar a maravilha de agir como um deus. E eu que lhe perguntara se era um deus… Deixara-o comovido com a minha ingenuidade. O meu criador… O meu pai… O’Sen Kram. Aquele que iria temer e amar, ao mesmo tempo. O meu destino.

— Sou um androide… ? O que sou eu?!

O mestre Eilin dobrou ligeiramente a cabeça alongada para a esquerda. A sua compaixão era visível, detestei vê-lo com pena de mim. Comecei a chorar.

— Sou um ciborgue, parte humana, parte máquina?

— Não. Não és uma coisa construída. Foste criada, como qualquer criatura deste Universo.

Eu já não o escutava, por entre as lágrimas que escorriam copiosamente pelas minhas faces.

— O que sou eu? Sinto-me… tão viva!

— Tu estás viva. És um ser humano perfeito.

— Imperfeito! – gritei.

Coloquei-me sobre as pernas bambas, queria fugir mas tinha os músculos tolhidos e deixei-me cair de joelhos. O meu corpo ficou a balançar, enquanto chorava e soluçava.

— Foste criada. Todas as pessoas são criadas a partir de células ínfimas.

— São… criadas a partir de amor…

— Tu foste criada com amor, mesmo que O’Sen Kram desconheça o pleno significado desse sentimento.

— Têm um pai, uma mãe… Uma família – refutei, limpando as lágrimas, mais lágrimas escorriam. – Uma família, um lugar… Uma casa…

— Tu também tens um progenitor. Uma família. Uma casa.

— Um exército assassino não é uma família, uma nave guerreira não é uma casa… O meu nome? Foi ele, o meu progenitor— cuspi a palavra com raiva – que o escolheu?

— Faz parte do conjuro que te criou.

O meu queixo tremeu. Olhei para o teto da moradia, verde-escuro e macio como o tapete que cobria o soalho. Uma tristeza infinda apoderava-se de mim. Para que quisera saber quem era, se no final descobria que não passava de uma coisa, uma peça insignificante num intrincado esquema de poder e morte, manobrado por um louco ambicioso?

— Do conjuro… ?

— “Criação da Luz, Ente Original, nestas mãos existe o Poder que te convoca e te embala, antes da Dor da descoberta…”

— Criação… Luz… – repeti agoniada. – Ente… Original… Cleo. Um simples… acrónimo. Criação, Luz, Ente, Original. – Escondi a cara nas mãos. Os meus ombros sacudiam-se com os meus soluços.

O conjuro completo devia ser interessante, só que tinha a impressão de que nunca mo seria revelado, nem pelo sincero mestre Eilin, nem pelo meu esmerado criador. Gostaria de saber o que se seguiria à “Dor da descoberta…”. Era o que sentia ao descobrir a minha verdadeira essência. Uma dor funda e debilitante que me rasgava em pedaços.

Aos poucos, acalmei-me. Pendi os braços ao longo do corpo. Já não encarava o mestre Eilin que ficara do meu lado direito, a porta aberta da casa brilhante à minha esquerda. Fixava embrutecida as janelas estreitas cujos caixilhos estavam emoldurados com uma massa feita de plantas.

Num fio de voz perguntei:

— O que fazia… em Tatooine?

— Descobrirás por ti.

— Kram criou-me e deixou-me em Tatooine.

— É o princípio…

— De outra história – cortei. – Da minha história. E tu estavas atento… Percebeste, com o meu aparecimento, que Kram preparava o confronto com o cavaleiro Jedi e levaste-o para Tatooine para que se enfrentassem e fosse desfeito o perigo. Mas algo correu muito mal. Outro dos teus erros. – Rodei o pescoço para olhar para o mestre Eilin. – A tua vigilância descurou um pormenor importante.

— Tens a sagacidade de O’Sen Kram.

— O elogio enfurece-me! – avisei com um sorriso forçado.

O mestre Eilin argumentou, sem perder a serenidade:

— A tua imprevisibilidade foi o que correu mal. Kram criou-te para seres o seu instrumento, a sua arma imaculada. Iria ensinar-te os caminhos negros da Força e tornar-te-ia invencível com essa aura de energia ilimitada que possuis, mais a capacidade, igual ao teu criador, de controlares a Força como bem te aprouver. Serias tu que te enfrentarias diretamente ao cavaleiro Jedi e que o matarias. Mas não foi assim que aconteceu e não fui eu que atuei nesse momento delicado. Foste tu…

— Esse é o derradeiro mistério?

— Precisamente. É a resposta que terás de encontrar, sem ajuda de ninguém.

— A tua história ainda não chegou ao fim – observei.

Novamente, o silêncio. Escutei a minha respiração pesada.

— O’Sen Kram ficou furioso e tentou recuperar-te – prosseguiu o mestre Eilin. – Era, de algum modo, tarde demais e ele sabia-o… Teria de reeducar-te ou nunca mais te recuperaria. Teres perdido a memória, não saberes que lhe devias obediência, lealdade e a própria vida, era um contratempo, mas considerado mínimo na sua noção das coisas. Anteciparia a sua revelação à galáxia, sentia-se preparado para prosseguir com os seus intentos conquistadores sem sofrer a tão temida segunda humilhação. Assim que lhe foi dada a informação de que te dirigias ao sistema de Coruscant com Luke Skywalker, intercetou a vossa nave a aprisionou-vos, neutralizando o teu acompanhante, mostrando o seu poder secreto de controlo sobre a Força. Era o preço a pagar para te ter de volta. De facto, teve-te de volta. Durante um curto período de tempo…

— Depois apareceu Lyle Bergh e o monstro Iko. Salvaram-me… para isto.

— Não preferias a ignorância. Mais cedo ou mais tarde, irias saber a verdade.

— Se não fosse por ti, por O’Sen Kram? Duvido… Ele não queria que eu soubesse quem eu era, senão tinha-mo dito no salão negro. Disse-me coisas… Enigmáticas, agora fazem todo o sentido. Iria… como foi que disseste? Reeducar-me, treinar-me, fazer-me enfrentar o cavaleiro Jedi… Mas nunca me contaria a verdade. Nem mesmo após o triunfo final.

Entre a minha mente em turbilhão, recordei um pormenor.

— Estamos em Luyta…

— Estamos.

— A Belirium está a pairar no espaço, por cima deste planeta. Por isso, foi fácil a Lyle Bergh salvar-me e trazer-me até à tua casa. Não foi uma grande viagem, pois não? Kram disse-me que me traria para Luyta… Para quê?

— Para te eliminar as últimas memórias que adquiriste, especialmente aquelas que não te dizem respeito.

Soltei uma gargalhada demente. Ria-me entre lágrimas húmidas, no centro da dor que me esgravatava a alma recentemente adquirida. Era tudo tão mais simples quando estava deitada na cama de Tatooine, a imaginar uma realidade mais normal do que aquela tão rebuscada.

— Eliminar as memórias de uma amnésica? Que memórias?! – protestei insana. – As memórias de quando estive em Tatooine com Luke Skywalker, a escapar dos Pickot?

— Tu tens memórias que não te pertencem— explicou o mestre Eilin contundente. – Tu conheces a ascensão à glória do cavaleiro Jedi, mas não participaste nos acontecimentos. Tu és capaz de reconhecer os heróis e os inimigos da Rebelião, a escuridão e a luz como opostos da Força, os momentos avassaladores da grande guerra nas estrelas.

Os meus lábios descolaram-se e sussurrei, revendo mentalmente o duelo titânico entre Darth Vader e Luke Skywalker, na segunda Estrela da Morte:

— Sim… Eu lembro-me… de tudo.

— Tornaste-te próxima do cavaleiro Jedi que deves destruir.

— Estamos agora, longe um do outro… Ele é prisioneiro de O’Sen Kram, eu estou em Luyta.

— O’Sen Kram nunca te encontrará enquanto estiveres comigo, mesmo em Luyta. Este planeta tem segredos invioláveis e eu conheço-os a todos, o mesmo não sucede com O’Sen Kram. E, portanto, ele não te vai apagar essas memórias preciosas.

— Sou agora o teu instrumento… Mudei, simplesmente, de mãos.

— Não és uma escrava.

A afirmação do mestre Eilin causou-me um arrepio. Limpei a última lágrima.

— Luke Skywalker não pode saber que tu és uma criação de O’Sen Kram. Nunca, em circunstância alguma.

— Não tenho a certeza se algum dia nos voltaremos a encontrar.

— Oh, vão tornar a encontrar-se… Ele deverá treinar-te nos caminhos da Força.

Deixei pender o pescoço, fechei os olhos, soltei uma risada forçada.

— Sim, pois claro… Fui criada para destruir o cavaleiro Jedi, será o cavaleiro Jedi a treinar-me para que eu destrua quem me criou.

— Precisamente.

— E O’Sen Kram será derrotado, pela segunda vez.

O mestre Eilin não concordou e olhei-o. Reparei que a superfície do lago cobria-se com uma fina camada de gelo.

— Não tens a certeza desse desfecho…

— Esse desfecho não vai acontecer… Em nenhum dos caminhos que percorri, utilizando todas as escolhas possíveis.

Debrucei-me sobre o lago, o mestre Eilin não se mostrou alarmado com a minha proximidade. Visto de mais perto, o pequeno ser era ainda mais minúsculo.

— Então… Que faço aqui, se não há esperança? Deixavas-me com O’Sen Kram, ele treinava-me. Enfrentava-me ao cavaleiro Jedi e a vitória pertencia ao senhor do trono negro. Ao estar aqui sob a tua proteção, apenas ganhaste tempo… O cavaleiro Jedi treina-me, mas eu acabo sempre por me enfrentar a ele e dar a vitória ao senhor do trono negro.

— Conto com a tua… imprevisibilidade.

Arreganhei os dentes, mas depois desisti da raiva.

— Estou demasiado cansada para me preocupar com isso…

Recuei e encostei-me à parede, pousando a cabeça num tufo de folhas.

— O teu tempo na minha casa terminou – anunciou o mestre Eilin. – Muito obrigado por me escutares.

— Eu queria… escutar-te.

Depois de o ter feito, já não sabia se queria, verdadeiramente, escutá-lo. Mas a mentira era inofensiva, naquele estágio. Era mais uma necessidade, do que um desejo. A supressão de uma lacuna importante na minha construção enquanto… Pensar em mim como uma pessoa, repugnava-me, mas não tinha, de momento, uma definição mais acertada. Enquanto pessoa, pronto.

O mestre Eilin revelou-me que Iko iria fazer-me companhia, dali por diante e que não devia afastar-me do meu protetor, era uma das maneiras que encontrara para prevenir eventuais riscos. Não seria obrigatório estar na presença dele para manter o santuário, contudo, bastava encontrar-me num perímetro que definira, tendo a clareira como centro. Se me mantivesse dentro dos limites seguros, nada me iria acontecer. Completou pedindo-me que não me preocupasse.

— Não estou preocupada. Estou cansada…

Nada me iria acontecer, estava em segurança. Nada mudaria também, acrescentei em pensamentos.

Não tinha a certeza do que se seguiria, nem o que o mestre Eilin esperava que eu fizesse. Para começar, devia sair da sua casa, já que me tinha mandado embora e não devia incomodá-lo mais com o meu problema. Teria outros caminhos para vigiar na galáxia, seguramente. Para começar, devia também descansar.

— Lembra-te – disse-me, estava eu na ombreira da porta –, és minha convidada.

Acenei que sim com a cabeça, desajeitadamente.

No exterior estava mais frio, havia rolos de neblina junto ao solo. Iko colocou-se em sentido, a rosnar num registo baixo, quando me viu. Apercebeu-se do meu rosto congestionado, do rasto seco das lágrimas nas faces vermelhas, dos olhos inchados e calou-se. Olhei para o céu para escapar do olhar preocupado do monstro. As copas das árvores formavam um extenso círculo que se abria sobre a clareira revelando um mar de estrelas pacíficas. Por cada uma delas, haveria um mundo para salvar da ambição de O’Sen Kram. Levantei um braço e os meus dedos varreram o céu. Ao contrário do que acontecera em Tatooine, não criei um rasto com o gesto. Suspirei.

Estava tudo diferente de como era em Tatooine.



Notas finais do capítulo

Respirar fundo depois de um capítulo intenso como este.

Por fim, a Cleo sabe quem é - ou o que é - tornou-se difícil classificar-se, neste ponto da história. Ela foi gerada por Kram a partir da sua vontade, existe para destruir Luke Skywalker, é uma criação da luz, um ente original. Essa é a origem do seu nome, que deveria ser mais C.L.E.O.
Ficámos também a saber que o título da fanfic se refere a ela - nada mais natural, pois a Cleo é a nossa narradora.
Impressões sobre este capítulo - chocante ou previsível?

Veremos o que fará a Cleo - podemos continuar a chamá-la assim - depois de conhecer a verdade.

Próximo capítulo:
Inquebrável e imprevisível.



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