A Criação da Luz escrita por André Tornado


Capítulo 10
Sob as estrelas


Notas iniciais do capítulo

"Apareceu-me então pela primeira vez sob uma nova e inefável luz (...)."
in Imprimatur – O Segredo do Papa, Monaldi & Sorti, Editorial Presença, 2004



O deserto revelava-se incrivelmente belo à noite. As dunas eram negras e misteriosas, o horizonte confundia-se em fantásticas ondulações com o céu cravejado de estrelas agrupadas em constelações brilhantes e únicas, deslumbrantes, pejadas de mundos por descobrir.

Era também incrivelmente gelado e a baixa temperatura, aliada ao vento que a velocidade do speeder criava ao avançar imparável pairando sobre o solo, fez-me estremecer. Abracei-me, apertando os braços para me confortar. Olhei para os meus joelhos. O vestido ficara estupidamente curto.

Luke conduzia de regresso a casa e estava calado. A aventura tinha terminado e a fuga fora um sucesso. Pelo menos, não havia ninguém a perseguir-nos.

Continuava com fome, mas não iria dizer nada. Apetecia-me mais dormir e descansar, do que comer. Pensei na cama de pedra em forma de paralelepípedo e sorri levemente. Aquela casa tornara-se também o meu lar. Sentia-me bem naquele santuário pacífico onde sabiam cuidar de mim. Onde existia alguém para cuidar de mim, a miúda que não tinha memórias próprias. Por que razão chamara-me de miúda? Não me sentia uma miúda… Ofendera uma qualquer parte orgulhosa do meu carácter.

Espreitei-o. Foi descabido descobrir que achava Luke Skywalker tão belo quanto o deserto, com os cabelos loiros despenteados pelo vento, agarrado aos comandos do speeder. Afastei esse pensamento, zangada comigo.

Respirei fundo. O ar frio mantinha o aroma a incenso. Senti-me tentada a adormecer, mas havia coisas a esclarecer.

— Obrigada – disse.

— Chamaste por mim… Não iria ignorar um pedido de socorro.

Fora expedito a responder. Estava calado por opção, não por falta de conversa. Também ele quereria esclarecimentos.

— Como o fizeste? – perguntou logo a seguir, deitando-me um olhar rápido.

— Chamar por ti? Não sei… Apenas pensei e fi-lo.

— Usaste a Força.

— Não te sei explicar mais. Só tive de o desejar e aconteceu. Provavelmente, não sei repetir esse chamamento.

— Estava preocupado contigo. Desapareceste…

Lembrei-me que Leia tinha dito que era melhor deixar-me ir, que eu precisava de ficar sozinha. Então tinha ido e ficara de facto sozinha. Não era eu uma coisa anormal, temida por não saberem como lidar comigo? Um possível perigo? Fizera o que me tinham ordenado, indiretamente. Olhei para o outro lado, para o deserto. Não devia ser inconveniente, era a segunda vez que ele me salvava.

— Fui raptada… Ou recuperada, não sei.

— Nunca pensei que estivessem tão próximo de um sítio habitado. Normalmente, não estão. Têm trilhos próprios, que não são utilizados por mais nenhuma raça de Tatooine.

— Estás a falar de quem?

— Dos teus raptores. É o povo de Pickot, muito perigosos. Percorrem o planeta em tribos em busca de mulheres e de criaturas fêmeas que depois vendem a mercenários, ladrões, bandidos. É uma gente selvagem, parecidos ao Povo da Areia, os Tusken. A localização da sua base, o conjunto de edifícios de onde acabámos de sair, não é desconhecida, mas não é comum alguém se aproximar do sítio, devido ao medo aos Pickot. – Olhou para mim mais demoradamente. – Disseste… recuperada?

— Não tenho qualquer memória de quem sou, lembras-te? – respondi a olhar em frente. – Por momentos, enquanto estava nas mãos desses Pickot, julguei que poderia já ter feito parte das… mulheres que eles possuem para venda.

— Uma escrava?

— Hum-hum… Eles estavam perto da tua casa, podiam ter ido atrás de mim depois de me terem perdido no desfiladeiro de Vitra.

— Isso não é verdade.

— Como é que tens tanta certeza? – perguntei voltando-me para ele.

— As escravas têm uma marca no braço e uma pulseira que identifica a sua condição e a quem pertencem. Tu não tens essa marca, nem a pulseira.

— Então… podemos riscar essa possibilidade.

— Definitivamente.

— Não sei se devo ficar contente, ou lamentar – queixei-me num murmúrio.

— Não lamentes! – exclamou ele divertido. – Não é agradável ser-se escravo!

— Como não me lembro, não sei se teria sido agradável para mim.

— Não teria sido, acredita. Nas mãos dos Pickot não é, seguramente!

Continuava com frio. Calei-me a matutar nos queixumes surdos do meu corpo. Os músculos das pernas pesados, as costas a estalar, as costelas magoadas, os pés feridos, um dos braços latejante, a cabeça zonza. Também tinha queixumes na alma, mas com esses já tinha aprendido a lidar.

— Haveremos de descobrir.

Encarei-o. Luke estava sério.

— Haveremos de descobrir quem tu és – repetiu.

— Seria importante… até para ti.

— Tu és diferente, não há dúvida.

— Explica-me. Há pouco, na tua casa, fiquei um pouco assustada com o que tu e a Leia estavam a dizer. Que não tenho aura…

— Há pouco? Desde que desapareceste já se passaram mais de dez dias.

— Impossível! Não estive inconsciente tanto tempo!

Luke crispou levemente a testa.

— É provável que tivesses estado. Os Pickot quando capturam as suas fêmeas costumam sedá-las com um gás. Para dominá-las, impedir que eventuais familiares venham a reclamá-las logo a seguir ao desaparecimento, torná-las dependentes. Se sentires alguma coisa esquisita, avisa-me depressa. Poderei ter de anular o efeito viciante do gás.

— Fui drogada? Mais alguma coisa que esses Pickot gostem de fazer às… suas mulheres?

— Mais nada – esclareceu num tom apaziguador. – Os Pickot valorizam as… suas mulheres e não as danificam.

— Estou deveras aliviada! – ironizei.

— Portaste-te bem. Tentaste fugir assim que te viste aprisionada por eles. A maioria das mulheres não o faz.

— O gás.

— Precisamente…

— Irei avisar-te se me sentir esquisita, mas por agora… Estou apenas cansada.

Suspirei. Fechei os olhos e tive a sensação de ter dormido alguns segundos.

— Como sou diferente – disse, numa voz arrastada –, o gás pode ter tido outro efeito em mim.

— Não te fez lembrar.

— Não… Que pena! A minha estadia com os Pickot podia ter valido a pena.

Ele suspirou, por sua vez.

— Queres saber?

— Quero, cavaleiro Jedi. Faz-me o obséquio.

Pestanejei para afastar o sono. O que me estava a aborrecer era o meu estômago vazio. Teria de lhe contar, ou não conseguiria dormir tão descansadamente como pretendia. E beber qualquer coisa quente, estava gelada por dentro e por fora.

— Tu és misteriosa, diferente… Singular, de uma forma que ainda não consigo definir com precisão. Não é inteiramente verdade que não tens uma aura. Todos os seres e todas as coisas possuem energia, que um Jedi aprende a sentir, a comandar e à qual dá o nome de Força. Em relação a ti, o exercício não funciona. A tua aura é poderosa, existe contigo, percebo essa união entre o teu ser físico e o teu ser espiritual, mas não a alcanço. Não sou capaz de sentir a tua presença, ler-te a mente, controlar-te a vontade a menos que tu queiras. És tu quem comanda a tua energia, a tua Força e és tu que decides se me deixas utilizar essa Força que possuis. Quando não queres, ninguém entra no teu interior. Foi o que fizeste com Leia, é o que tens feito sempre comigo, mesmo quando estavas doente e inconsciente. Leia ainda é inexperiente nos caminhos da Força e assustou-se por te encontrar… opaca à sua perceção. Reagiu com algum exagero, admito. Mas, na cela dos Pickot, tu desejaste que isso acontecesse, como acabaste de me contar. Tu quiseste que eu te fosse buscar e chamaste por mim. Escutei a tua mensagem, tão claramente como se estivesses a dizê-la ao meu ouvido. Nunca ninguém tinha conseguido entrar nos meus pensamentos com tanta violência. Chegou a ser… doloroso. Gostei da sensação, contudo. Do calor, da veemência, da vontade inquebrável.

A nobreza das suas palavras emocionou-me. Um cavaleiro Jedi dizia-me que eu era poderosa. A solenidade de tudo aquilo era esmagadora, a epifania ansiada por um descrente que mendigava uma migalha de fé num deus caprichoso. Compreendi a magnitude da crença dele. Para além da luta entre o Bem e o Mal, entre a Rebelião e o Império, a escolha maldita entre a Força e o seu lado negro, existia uma atitude elevada, um sentido do divino que confortava todos aqueles que se devotavam à religião desses cavaleiros das estrelas.

Senti, subitamente, o desejo de deixá-lo explorar a minha aura intrigante. Autorizá-lo a vaguear pelos meus segredos, fazer uma exploração minuciosa, permitir que se apoderasse da minha Força. Talvez conseguisse atingir o cofre onde estava encerrado o meu verdadeiro eu, entrelaçado com todas as minhas memórias. Mas um pressentimento fez-me recuar nessa decisão espontânea. A minha presença ao seu lado podia afinal ter um objetivo bem definido. Se rimava com ameaça, haveríamos de descobrir os dois, unidos numa equipa ou não.

Após uma curta pausa que me permitiu ter aqueles pensamentos, ele prosseguiu:

— Se não te tivesse visto no desfiladeiro de Vitra, nunca te encontraria através dos meus sentidos. Mesmo vendo-te não acreditei que estivesses ali. Eras como um espaço em branco na areia… Ainda julguei que te tinha encontrado morta e quando te descobri viva, foi um choque. Salvei-te para tentar descobrir mais sobre ti. Fiquei curioso. Nunca me tinha cruzado com alguém como tu. Ao estares com amnésia, ainda te torna mais misteriosa. Ao conseguires manobrar a Força dessa maneira, duplica o mistério.

Ele fixava o caminho enquanto fazia o seu discurso.

— Foste movido pela curiosidade – observei cínica.

Ele não me corrigiu, limitando-se a replicar:

— Correto.

— Bem, já me classificaste e já sabes o que podes esperar de mim. Nenhum passado, não me consegues manobrar, tenho uma aura inalcançável, sou poderosa com a Força. Parte da curiosidade inicial esvaiu-se… E agora?

— Como te disse… Nunca iria ignorar um pedido de socorro.

— Ah…

A resposta lacónica cimentou a minha decisão de me manter afastada do seu escrutínio espiritual. Pelo menos, por agora. A ver o que acontecia a seguir. Se deixasse de haver pedidos de socorro, talvez o interesse se esvaísse de vez. Era uma mulher misteriosa e ponto final. Que cada um seguisse o seu caminho.

Ele espreitou-me os pés enfaixados. As tiras de tecido estavam esfarrapadas e tinham nódoas de sangue seco. O meu calçado improvisado não resistiria a outra correria desenfreada pelos pátios e escadarias do quartel-general dos Pickot, ou um qualquer passeio pelas dunas de areia vermelha.

— Temos de te arranjar umas botas.

— Concordo.

E umas calças também, por favor, pensei aborrecida. Não suportava aquele maldito vestido e se o usasse mais um dia jurava que o rasgava nas restantes tiras que o desfariam para sempre.

Recostei-me no assento, estiquei um braço para cima. Os meus dedos moveram-se devagar, a tentar tocar os céus estrelados.

Eu não gostava de vestidos porque mos obrigavam a vestir quando era mais pequena e vivia em Alderaan. Para ficar uma menina bonita. Penteavam-me o cabelo comprido, também. Só depois de arranjada a preceito, linda como uma princesa, é que me deixavam ir brincar para o jardim com o meu Miru. Ficava amuada. Preferia brincar envergando um par de calças e botas, para poder saltar nas poças de água da chuva recente.

Sorri ao ver os meus dedos a passarem sobre as estrelas, a arrastá-las, a criar um rasto leitoso no firmamento. Eu conseguia deslocar as estrelas.



Notas finais do capítulo

A primeira conversa estabelecida entre Luke Skywalker e a Cleo, em que o Jedi revelou o que pensa sobre ela - lembram-se de que quando ela tinha despertado, nunca chegaram a conversar calmamente por causa da visita do Han, da Leia e do Chewie.
O que acharam das impressões do Luke?
E será que a Cleo teve, pela primeira vez, uma memória sua?
E ela não ficou muito contente com os motivos do Luke para salvá-la. Um gesto que ele achou obrigatório para um Jedi, simplesmente. Será que ela pretendia mais?...
Fixem o gesto que ela fez com as estrelas - arrastou-as, de facto? Ou foi mesmo e tão só uma ilusão?

Os Pickot são uma criação minha - achei que Tatooine será um planeta suficientemente grande para albergar outras raças para além dos Tusken e dos Jawa. E aqui têm a revelação do nome dos raptores.

Próximo capítulo:
As decisões que definem o destino.



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