Dépendance escrita por KarenAC


Capítulo 8
Capítulo 8 - Destruição


Notas iniciais do capítulo

Capítulo novo!
Espero que gostem do rumo que a história está tomando ^^



A vida é a perda lenta de tudo o que amamos.

Maurice Maeterlinck

 

“Chat?” Ladybug perguntou e ele voltou à realidade, virando-se para olhá-la.

Pela expressão preocupada no rosto dela, era possível que ele tivesse ficado mais tempo do que percebera em seu momento de frustração pessoal. Lançou-lhe um sorriso tranquilizador, ao qual ela retribuiu com um semblante de alívio.

“Desculpa, não era minha intenção te deixar desconfortável.” ela esfregava os dedos das mãos uns nos outros enquanto explicava, e ele notou que ela estava envergonhada.

“Não, não.” ele sorriu, se aproximando “Eu só estou com a cabeça cheia, não dá bola.”

Ladybug ergueu o rosto timidamente com um dos cantos dos lábios levemente suspenso, e Chat percebeu que ela acariciava nervosamente o próprio braço. Ele viu o tecido costurado no local que fora danificado e inclinou a cabeça em dúvida.

“A Tikki que arrumou isso pra você?” Chat apontou para o ponto perto do ombro onde havia um pequeno volume de tecido acumulado.

“Ah, n-não” Ladybug respondeu hesitante. Não queria que ele tivesse reparado no trabalho grosseiro de costura “Eu arrumei rapidinho antes de vir pra cá” ela passava os dedos sobre as linhas vermelhas atravessadas no tecido, como se quisesse escondê-las da visão dele “Foi só pra não desfiar.”

“Foi um bom trabalho.” Chat sorriu, percebendo que ela se explicava e iniciou “Mas talvez você precise de um uniforme um pouco melhor.”

“Eu gosto desse.” Ladybug olhou para baixo e abriu os braços, fazendo uma auto avaliação “Além do mais, a Tikki disse que é o melhor que a Miraculous pode dar agora, então tudo bem.”

Chat Noir colocou a mão sobre o queixo, pensativo, olhando o uniforme que cobria o corpo de Ladybug, e sacudiu a cabeça positivamente duas vezes.

“O q-que foi?” ela gaguejou quando notou que ele a media com os olhos.

Ele percebeu o rubor no rosto dela e sentiu o nariz franzir em um sorriso divertido. Ela não era assim tão confiante quanto parecia. Então o que fora aquela tentativa de flerte há poucos minutos? Será que ela estava fingindo ser algo que não era? Suspirou, virando-se e dirigindo-se até o portão da garagem. Ele não tinha direito de julgá-la. Não era como se ele fosse muito diferente. No final, as máscaras eram muito mais profundas do que apenas faixas de tecido cobrindo-lhes a identidade.

“Onde você vai?” ela perguntou, sem sair do lugar.

“Onde nós vamos.” Chat enfatizou “Precisamos ir até a Miraculous. O Plagg quer a gente lá.”

Ladybug estava ali para receber as respostas que procurava, mas parecia que sempre tinha algo mais importante como prioridade. Sentiu o ar sair dos pulmões e um gemido baixo lhe escapar dos lábios.

“Eu sei, no seu lugar eu também estaria frustrado, mas se ele chamou deve ser importante.” Chat explicava enquanto abria o portão da Toca “Pra nós dois.”

Ela caminhou até ele, percebendo que agora ambos estavam envolvidos no mesmo mundo. Era estranho pensar que alguém mais a acompanhava naquela vida noturna que levara por tanto tempo sozinha. Tivera várias ressalvas, mas depois de conhecê-lo, ter um parceiro não parecia de todo ruim.

Ambos correram pelo beco escuro e lançaram-se em impulsos rápidos sobre as construções de Paris. A noite estava mais escura e fria do que os últimos dias, talvez devido ao fato da aproximação do inverno, e Ladybug fez uma careta ao notar que já estavam em Novembro. Mais de um mês de aula já havia passado e ela mal conseguira aproveitar a escola.

“O que foi?” ela ouviu a voz de Chat e notou que ele já estava a seu lado. Como ele conseguia captar até as mínimas mudanças de humor dela?

“Nada, só estava pensando que eu tenho uma pilha de trabalho pra fazer pra escola e cada vez tenho menos tempo.” ela ouviu-se reclamar e por um momento sentiu que falava de outra pessoa. Recriminou-se mentalmente. A Marinette embaixo da máscara deveria ficar lá. Ela estava se descuidando.

“Sei como é, também tenho.” ela virou o rosto para ele enquanto corriam sobre um longo telhado e vi que ele olhava para o horizonte seriamente.

Ladybug imaginou que tipo de pessoa seria Chat Noir embaixo da máscara. Ela conseguia ver que ele tinha mais ou menos a mesma idade dela, então suas vidas talvez não fossem tão diferentes. Ele parecia uma pessoa responsável e competente, que estudava muito e tirava boas notas na escola. Talvez tivesse uma família acolhedora em casa, por isso era tão preocupado com ela e com as coisas que o cercavam. Projetou-o chegando em casa e abraçando os pais que deviam ter muito orgulho em ter um filho como ele.

Ela sentiu mil perguntas chegarem à boca, mas engoliu-as e direcionou o olhar para frente, voltando a atenção ao percurso que seguiam. Ela não tinha direito de fazer quaisquer perguntas se não pudesse responder as dele, então continuaram em silêncio até chegarem ao último ponto.

A Miraculous era uma agência que ficava no último andar de um prédio envidraçado de 20 andares. A entrada para os clientes dava-se pela porta do prédio, onde deveriam se identificar com documentos oficiais. No momento em que um cliente em potencial entrava no edifício e fornecia sua identificação, seu nome já estava sendo jogado no banco de dados da Miraculous para verificação de segurança.

“Sempre saiba mais deles do que eles sobre você.” Tikki dissera uma vez para Marinette “De preferência, sempre saiba tudo sobre eles e deixe eles acharem que sabem algo sobre você.” Ladybug nunca mais esquecera aquelas palavras.    

A entrada para Ladybug e Chat Noir ficava no alto do prédio. O vento noturno havia ficado mais forte e um cheiro forte de metal queimado invadiu as narinas de Ladybug assim que os pés dela tocaram a plataforma da cobertura. Chat Noir andou um passo à frente dela e esticou a mão para trás, na direção do peito dela, e a seguir levou o indicador até os lábios, indicando que ela ficasse atrás dele e não fizesse barulho, quando Ladybug percebeu que o cheiro que detectara não era metal queimado. Era de pólvora.

Os dois andaram em passos lentos até a porta corrediça de vidro que servia como acesso à Miraculous e Ladybug percebeu que algo aos pés deles brilhava. Semicerrou as pálpebras e cutucou Chat no ombro, apontando para o chão onde cacos de vidro espalhavam-se sobre as lajotas vermelhas. Ladybug sentiu as sobrancelhas serem jogadas para o alto. As lajotas da cobertura eram bege, não vermelhas. Aquilo era sangue. Muito sangue

“Tikki!” Ladybug sentiu a voz ser arremessada de seus lábios enquanto jogava o corpo para dentro da agência. Sentiu algo segurá-la pelo braço com força e sabia que era Chat Noir, mesmo sem se virar.

“Não faça nada precipitado, vamos com calma.” ele falou friamente.

“Me solta!” ela disse entre os dentes.

“Deixa eu ir na frente.” Chat ofereceu, mas Ladybug irritou-se com aquilo. Não queria perder mais tempo. Tikki podia estar ferida.

Ela rodopiou o corpo em um movimento veloz e girou o braço dele, soltando-se enquanto ele se recuperava da torção com uma careta de dor. Ela era muito mais ágil do que parecia. Viu-a sumir dentro da escuridão do local e bufou. E também muito mais teimosa.

Chat Noir correu atrás dela e começou a inspecionar os cômodos da agência. O local não era muito grande. A sala principal era espaçosa e tinha apenas duas mesas de madeira dispostas lado a lado, onde Plagg e Tikki ficavam sentados para aguardar os clientes. Cadeiras, monitores de computador e folhas estavam espalhados por toda a parte em um caos imenso, e Chat sentia os passos crepitarem abaixo de si enquanto caminhava sobre a grande quantidade de vidro quebrado conforme avançava pelo local.

“Chat, aqui!” ele ouviu a voz de Ladybug gritar em urgência e se guiou pelo som para encontrá-la abaixada no pequeno cômodo que servia de depósito de materiais no fundo da agência. À frente dela, Plagg estava deitado insconsciente.

Chat Noir viu a grande quantidade de sangue e ferimentos sobre o corpo de Plagg e antes que pudesse conter os movimentos, já estava ao lado dele, empurrando Ladybug para pegá-lo nos braços.

“Plagg!” Chat gritou, sacudindo os ombros de Plagg, mas não obteve resposta. Arrancou a luva e colocou os dedos no pescoço de Plagg para checar os batimentos, e esperou o que parecia uma eternidade, até suspirar aliviado quando sentiu a pulsação sob a pele “Seu filho da puta, que susto” Chat desabafou, sentando no chão com Plagg no braços e checando os ferimentos dele. Ladybug relaxou a testa e virou-se rapidamente nos calcanhares. Precisava encontrar Tikki.

Ela correu pelos outros cômodos, mas tudo que encontrava era sangue e destruição em todos os cantos. Quando chutou a porta do banheiro, o último cômodo que faltava verificar, a porta resistiu para abrir e a esperança cresceu dentro dela enquanto suas mãos forçavam a entrada.

“Tikki? É você?” quando ela conseguiu acesso, viu um homem caído no chão, desacordado e coberto de sangue. As pernas dele seguravam a porta pelo outro lado.

Ele estava encostado desajeitadamente na parede ao lado da pia e, acima da cabeça dele, no lugar onde antes ficava a janela, um buraco enorme estava aberto, como se uma bomba tivesse explodido ali. Foi por ali que eles entraram, e Ladybug soube assim que notou as paredes brancas crivadas de bala e tingidas de sangue. Foi ali que tudo havia começado. O lugar parecia uma sala de tortura.

Ladybug olhou para o homem e não o reconheceu. Ele parecia ter entre 35 e 40 anos, tinha a pele queimada do sol e os cabelos escuros estavam raspados. Vestia um longo casaco marrom e calças jeans. Na mão direita dele, viu uma arma de fogo caída sob os dedos abertos.

Ela correu rapidamente e agarrou a arma, atirando o objeto para fora da porta como se lhe queimasse a mão e ouvindo o baque metálico contra o piso de porcelana à distância. Ele não esboçou qualquer reação. Hesitantemente, ela tirou a luva e levou a mão trêmula até o pescoço dele, notando a pele pegajosa abaixo de uma mistura de suor e sangue. Franziu a testa quando não sentiu pulsação e pressionou os dedos com mais força. Nada.

O coração dela começou a palpitar mais e mais rápido dentro do peito.

Ele estava morto.

Ela sentiu a respiração acelerar e algo embrulhar seu estômago.

Tinha um cara morto dentro da Miraculous.

Ela sentiu as pernas falharem e caiu sobre os joelhos.

Sangue por toda a parte. Plagg insconsciente. Um cara morto. E Tikki desaparecida. Ela começou a sentir tremores e lágrimas silenciosas rolarem pelo seu rosto. O que estava acontecendo? Aquela era só uma agência de segurança. Eles só davam proteção para as pessoas. Por que alguém entraria ali e faria aquilo? No que ela havia se envolvido?

“...bug?”

Ouviu a voz chamar ao longe, mas não queria voltar para a realidade.

“Ladybug?”

Não queria voltar para aquele lugar cheio de sangue e destroços.

“Ladybug?”

Não queria voltar para aquele lugar onde as pessoas que amava estavam machucadas.

“Calma!”

Não queria que voltar para um lugar sem a Tikki.

Sentiu algo acertar-lhe o rosto com violência e jogar sua cabeça para o lado. A dor lhe carregou de volta para a realidade, onde dois olhos verdes com pupilas fendadas a miravam com um ar preocupado.

Chat Noir estava à sua frente, com as mãos segurando os ombros dela e percebeu que os dedos dele a seguravam com força, como se ela fosse fugir. Ela piscou várias vezes, sentindo a bochecha esquerda queimar. Olhou para o lado e viu o corpo do homem na mesma posição que o encontrara. Um cadáver. Repentinamente, o cheiro de sangue invadiu suas narinas e sentiu vontade de vomitar. Arrastou-se rapidamente até o vaso sanitário e sentiu o estômago jogar fora tudo o que tinha comido durante o dia.

“D-desculpa, eu tive que fazer isso.” ela ouviu a voz de Chat soar e um toque em suas costas indicar que ele a estava tentando tranquilizando “Você estava em choque.” ele se justificou e ela levou a mão até o lado do rosto que latejava. Ele havia dado um tapa nela.

“Tudo bem.” Ela percebeu que a voz estava rouca e pigarreou. Fechou a tampa do vaso, acionando a descarga. Que belo final de noite.

“Você estava gritando e não me escutava.” ele franziu a testa e levantou do chão, oferecendo a mão para ela se apoiar “Me apavorou um pouco.”

“Desculpa.” ela levou a mão até a garganta, sentindo a ardência que confirmava a história e erguendo-se do chão com a ajuda dele.

“Tá tudo bem, só não faz de novo, my lady.” ela viu Chat erguer o canto dos lábios em um sorriso nervoso e sentiu que ele colocou o braço sobre seu ombro, tirando-a do banheiro antes que pudesse olhar de novo para o homem morto no chão “Eu enfaixei alguns ferimentos do Plagg e ele estava acordando. Pode ir lá ver se ele tá bem? Eu preciso checar uma coisa.” Chat esperou parado na porta do banheiro enquanto a via se afastar.

Chat Noir voltou para dentro do banheiro e olhou o homem caído sob as pálpebras semicerradas. Ele entendia o que Ladybug havia sentido. Lembrava a primeira vez que vira um homem morto à sua frente. Porém, depois de presenciar tantas vidas ceifadas, não conseguia mais ser afetado por elas. Um homem morto não significava mais nada para ele.

Abaixou-se à frente do cadáver e enfiou os dedos na gola da camisa do homem, puxando-a para baixo e observando a pele ficar à mostra. Chat sentiu as sobrancelhas caírem sobre os olhos e as narinas abrirem em revolta enquanto os dentes rangiam uns nos outros.

Uma cicatriz, semelhante à letra X, estava marcada no peito do homem. Elevada sobre a pele, em uma cor mais clara do que a pele ao seu redor, indicando que havia sido marcada a fogo, repousava o estigma da borboleta.

Papillon.

Chat apertou os dedos em torno da gola do homem em reflexo. Se ele já não estivesse morto, teria rasgado o pescoço dele ali mesmo. Era óbvio. Era mais do que óbvio que eles estariam envolvidos naquilo.

Ele se levantou em um movimento único e saiu do banheiro, dirigindo-se para o depósito. Quando chegou à porta, viu Plagg sentado com as costas apoiadas em algumas caixas e Ladybug ao lado esquerdo dele, limpando ferimentos em seu braço com um algodão já tingido de vermelho pela quantidade de sangue. Pela frequência da respiração de Plagg, ele já estava acordado, mas seu queixo estava encostado no peito e ele não fez qualquer movimento quando Chat sentou-se do seu lado direito.

“Eles levaram ela.” a voz cheia de dor de Plagg cortou o silêncio e o coração de Ladybug. Ela sentiu os dedos apertarem o algodão em reflexo.

“A gente vai achar ela, Plagg.” Chat colocou a mão sobre o ombro de Plagg “Eu prometo.”

“Foram eles, não foram?” Plagg perguntou olhando para Chat, e Ladybug fez o mesmo. Queria saber do que eles estavam falando, queria entender o que havia acontecido ali “Eu cheguei tarde demais.” Plagg continuou sem esperar a resposta “Eles disseram que iam machucar ela se eu resistisse. Disseram que seria pior. Disseram que-“ um soluço trancou a voz de Plagg e ele baixou o rosto em uma feição de dor.

Ladybug viu o moreno cerrar os punhos e percebeu que os nós dos dedos dele estavam inchados e sangrando, como se tivesse socado uma parede milhares de vezes.

“Sim.” a voz de Chat respondeu em um sussurro “Foram eles.”

O silêncio reinou no cômodo. Ladybug jogou fora o algodão sujo e pegou outro pedaço, embebendo-o novamente no pote com água e voltando a limpar o braço de Plagg. Ela não sabia se deveria perguntar. Não sabia se aquele era o momento. Franziu a testa lutando contra os próprios pensamentos, até que a voz de Plagg soou pelo cômodo em um tom pouco mais alto do que um murmúrio.

“Ladybug.”

Ela surpreendeu-se em ouvir ser chamada por ele e olhou-o timidamente.

Sempre achara Plagg um tanto quanto ameaçador. Ele usava roupas pretas o tempo todo, falava mais palavrões do que qualquer pessoa que conhecia e tinha aqueles piercings pendurados por toda a parte. Ela já vira ele perder a paciência e estourar facilmente, e a maneira com que ele agia era sempre como se não tivesse nada a perder.

Todavia, ela também o vira ao lado de Tikki, e ali ele parecia outra pessoa. O olhar se tornava sereno e o sorriso chegava fácil aos lábios, e em nenhum momento o tom de voz dele era mais alto do que o dela. Plagg tratava Tikki como um cristal que podia quebrar a qualquer momento, e Ladybug sabia que, se existisse amor de verdade no mundo, Tikki e Plagg eram a prova viva daquilo.

Ladybug soube, naquele momento, olhando nos olhos verdes do moreno, que Plagg dependia ela para achar Tikki. Que sabia que os dois compartilhavam o mesmo amor pela garota cor-de-rosa com cheiro de tutti-frutti, e sabia que as palavras que sairiam dos lábios dele a seguir justificavam aquilo.

“É hora de você saber toda a verdade.”



Notas finais do capítulo

A coisa vai ficar meio feia daqui pra frente, espero que estejam preparados ><
Eu ainda amo vocês, tá?
Não esqueçam de comentar, nem que seja pra me xingar, ok?
HAUSEHAUIEH ♥