Dépendance escrita por KarenAC


Capítulo 4
Capítulo 4 - Missão


Notas iniciais do capítulo

Lá vem o trem do plot! Tchu tchuuu~~



O primeiro dever da inteligência é desconfiar dela mesma.

Albert Einstein

 

Marinette passara o dia debruçada em cima do projeto da Revolução Francesa e quase caíra no sono uma meia dúzia de vezes durante a leitura. Ela não entendia como uma Revolução que havia durado apenas 10 anos podia ter um livro com mais de 150 páginas. O período era dividido, redividido e subdividido, e pra tudo tinha um nome e uma data. Malditos franceses e sua vontade de organizar tudo.

Ela bufou e espreguiçou-se na cadeira à frente da escrivaninha, cobrindo a boca em um bocejo e puxando o celular para verificar a hora. 22h30. Seus pais já deviam estar dormindo àquele ponto. Por causa da rotina da padaria, eles acordavam às 5 horas da manhã para assar pães e croissants novos, enquanto Marinette seguia nas atividades escolares até um pouco mais tarde. Todavia, o motivo de ela não ir para a cama mais cedo não era assim tão relacionado à escola quanto eles acreditavam.

Ergueu-se da cadeira e andou até a cômoda no canto do quarto, abrindo a última gaveta. Retirou todas as roupas que estavam lá dentro e enfiou a mão até o fundo, encaixando o dedo indicador em um pequeno buraco no canto da tábua de madeira, erguendo-a e retirando o repartimento falso. Embaixo da estrutura, Marinette guardava sua vida inteira como Ladybug.

Puxou o uniforme vermelho escuro com pintas pretas, sentindo o tecido macio e com textura de couro acariciar seus dedos. A roupa havia sido desenhada por ela mesma e produzida com o investimento da Miraculous, feita de uma liga de carbono durável e flexível capaz de resistir a golpes de objetos cortantes. Sobre o tórax e abdome, uma camada armadurada de tecido lhe proporcionava proteção à prova de balas. Ela e Tikki tentaram produzir um uniforme que não lhe tirasse a destreza dos movimentos acrobáticos, mas por razão daquilo conseguiram colocar a proteção contra armas de fogo apenas em posições vitais. No momento em que Marinette ergueu a roupa para tirá-la do fundo falso da gaveta, o iôiô apareceu.

Marinette tinha uma política contra armas de fogo e uma moral muito forte que a impedia de matar. Seu objetivo era sempre, no máximo, imobilizar seus inimigos até que pudesse terminar suas missões e colocar-se a uma distância segura.

Ela descobrira durante uma noite assistindo documentários que o ioiô era utilizado como arma em alguma regiões filipinas, e percebeu que poderia usá-lo tanto para proteção quanto para deslocamento. Ela e Tikki fizeram uma pesquisa de materiais e vários protótipos até chegarem no resultado ideal. O corpo do ioiô era feito de uma mistura complexa de aço e titânio, e o fio resistia até cinco vezes o peso do corpo de Marinette. Ela podia usar a arma para atordoar inimigos e escalar construções quando fosse preciso. No início teve muita dificuldade em se adaptar à técnica, mas depois de um ano, ela usava o ioiô quase como se fosse outro membro de seu corpo.

Marinette trancou a porta do quarto e se vestiu, colocando o uniforme e olhando-se no espelho que refletia sua imagem de corpo inteiro. Segurou a máscara feita do mesmo material do uniforme a colocou-a sobre os olhos, cobrindo metade de seu rosto e protegendo sua identidade. Em pouco mais de um minuto, deixou de ser Marinette para se transformar em Ladybug.

Pegou o celular e procurou o contato de Tikki, digitando a mensagem:

Tikki, me transforme

 

Aquele era o sinal de que ela estava pronta para a missão. Menos de um segundo depois, apareceu na tela uma foto e uma mensagem.

 

Oliver Dunard, 43 anos.

Sub-gerente da empresa de biotecnologia BioSans

Le Bains Douches

 

Ladybug torceu o nariz. A Le Bains Douches era a típica boate de gente cheia do dinheiro. O casarão enorme estava sempre lotado e os seguranças podiam barrar a entrada de qualquer pessoa que tivessem vontade, sem nem precisar dar explicações. Um paletó amassado podia ser motivo suficiente para fazer com que eles te mandassem de volta para casa sem nem passar pela primeira entrada.

Por causa da alta segurança e público seleto, boatos diziam que lá dentro era um dos melhores lugares da cidade para selar grandes acordos ou desfazer parcerias perigosas sem chamar muita atenção. Àquele ponto, toda a Le Bains Douches era mais uma fortaleza de negócios do que uma boate propriamente dita. Aquela era a segunda missão que Ladybug recebia naquela boate, e ela não estava muito feliz com aquilo.

Da primeira vez que fora até a Le Bains, precisara ficar metade da noite sobre o prédio em frente em pleno inverno, congelando até os ossos, enquanto esperava o cliente sair do local para escoltá-lo em segurança até em casa. Na hora que ele saiu, estava tão bêbado que se enfiara no primeiro beco que vira e conseguira arrumar briga com uma gangue local. Ladybug voltara para casa com três hematomas a mais e a cota de paciência esgotada.

“Ai Tikki, você me enfia em cada uma.” Ladybug resmungou enquanto olhava a tela do celular, memorizando os dados que lhe foram fornecidos e deletando a mensagem. Guardar informações daquela natureza era arriscado demais.

Ela subiu as escadas que ficavam no canto do quarto, chegando até o mezanino, e abriu a claraboia para a cobertura da casa, saindo enquanto sentia o vento frio da noite de Paris. A lua brilhava cheia e clara, e o ar cheirava a flores. Era final de primavera, e se não fosse pelo motivo de estar saindo de casa para colocar a vida em risco, quase conseguia achar aquela noite agradável.

Ladybug lançou o ioiô na direção da torre do prédio em frente, atirando o corpo para o ar e deixando-se levar em um embalo de queda livre. Mal havia tocado os pés no próximo prédio e já arremessava o ioiô contra o próximo pilar, movimentando-se rapidamente em um voo sem asas pelo meio das construções parisienses. Percebeu o sorriso chegar nos lábios com a sensação de liberdade e manteve o ritmo até avistar a boate.

Pousou o corpo sobre o mesmo local que usara da primeira vez em que estivera ali,  escondendo-se atrás de duas esculturas de gárgulas e mantendo sua imagem nas sombras. Quanto menor a possibilidade de ser vista, maior a chance de que sua missão fosse um sucesso. A tarefa era simples: Esperar o cliente sair da boate e escoltá-lo até seu destino em segurança.

No momento em que Ladybug preparava-se para sentar sobre o prédio, ouviu um baque surdo atrás de si e uma sombra apareceu na visão periférica. Ela sentiu o coração disparar e, sem pensar duas vezes, puxou o fio do ioiô e atirou o corpo contra a figura, amarrando as mãos dele nas costas e empurrando-o contra a parede de tijolos.

“Calma, calma.” ela ouviu a voz masculina soar, abafada pela chaminé contra o rosto. Ele usava um capuz e ela não conseguia definir o rosto dele.

“Quem é você?” ela falou baixo entre os dentes, empurrando mais ainda o rosto dele contra os tijolos.

“Você é a Ladybug?” ele perguntou e ela sentiu o corpo contrair em apreensão.

“Eu perguntei quem é você!” ela empurrava o rosto dele mais ainda contra a parede com a mão espalmada, pressionando-o para conseguir uma resposta. Não podia arriscar ter sua missão comprometida. Não podia arriscar ser descoberta.

“Calma, eu sou o Chat Noir!” ele pronunciou em uma voz urgente e ela relaxou, desamarrando as mãos dele e se afastando em um passo.

Chat Noir era uma cabeça mais alto do que ela. Vestia uma roupa de couro preta justa ao corpo, com detalhes pouco visíveis na luz noturna que indicavam alguma espécie de proteção anti-projéteis, continuando sobre a cabeça como um capuz cujas pontas se assemelhavam a orelhas de gato. Sobre os olhos, usava uma máscara negra parecida com a dela, mas ela estranhou o fato de que as pupilas dele eram fendadas. Não, não eram os olhos dele. Era um óculos de visão noturna. Ladybug sentiu uma sobrancelha levantar em curiosidade. O equipamento dele parecia bem mais sofisticado que o dela.

Ela virou de costas e voltou o olhar para a entrada da boate, preocupada em ter perdido o cliente de vista naquele meio minuto em que fora distraída. Sentiu ele se aproximar e se abaixar a seu lado.

“Desculpa pela aproximação, eu achei que você estava me esperando.” ele explicou em murmúrio e ela não sabia se ele estava falando baixo para não chamar atenção ou para esconder a identidade no timbre de voz.

“Eu sabia que você viria, mas tenho coisas mais importantes para me preocupar agora.” ela não estava nada feliz com a presença dele ali. Nunca trabalhara em equipe, e não sabia se ele tinha capacidade de acompanhar o ritmo dela.

“Eu estou aqui pra ajudar.” ela ouviu firmeza na voz dele e virou-se para olhá-lo nos olhos pela primeira vez. A expressão no rosto dele era decidida. Ele parecia estar falando bastante sério.

“Então faça isso.” Ladybug colocou o dedo indicador no queixo de Chat Noir, virando o rosto dele na direção que ela olhava, para a entrada da boate. No silêncio da noite ela ouviu ele emanar um sorriso.

Alguns minutos haviam se passado sem os dois se movimentarem do ponto onde estavam, e Ladybug sentia que algumas vezes o olhar dele caía sobre ela, mas não quis perder a atenção da entrada da Le Bains Douches. Um segundo e podia perder o cliente de vista. No momento em que ela lembrou da foto do cliente no celular, algo lhe passou pela cabeça.

“A Tikki comentou que a sua missão é diferente da minha. Por que você está aqui?” ela falou sem tirar os olhos da entrada da boate, onde um grupo de jovens quebrava garrafas no chão enquanto era expulso pelos seguranças.

“A missão é diferente, mas o local é o mesmo.” ele explicou e ela virou-se para olhá-lo, mas ele estava com o rosto fixo na entrada da boate. Ladybug percebeu que ele apertou os olhos levemente, como se tivesse enxergado algo à distância, e voltou o olhar para a entrada da Le Bains Douches, onde avistou o cliente.

Oliver Dunard aparentava bem menos do que os seus informados 43 anos. Parecia até mais jovem do que a foto que recebera, mas o figurino dele podia ser a explicação daquela impressão. Ele vestia um terno sob medida azul escuro e seu cabelo negro estava impecavelmente penteado para trás. Seus sapatos estavam tão bem engraxados que Ladybug acreditava que mais um pouco e seria possível ver seu próprio reflexo ali mesmo de onde estava.

“Alvo avistado.” Ladybug indicou com a voz firme, sentindo-se contrair em antecipação.

Antes que deixasse a ansiedade tomar conta de seus movimentos, ela ergueu-se sobre as pernas e atirou o ioiô ao longe, impulsionando-se para o prédio em frente, seguindo Oliver enquanto ele caminhava pela calçada em frente à Le Bains. Ela franziu a testa quando percebeu que ele seguiu por mais duas quadras sem entrar em nenhum carro.

“O que ele tá fazendo?” ela sussurrou para si.

“Ele não vai entrar em um carro.” ela ouviu a voz de Chat soar do seu lado e ficou um pouco surpresa por ele estar conseguindo acompanhá-la e por tê-la ouvido em um simples sussurro. Percebeu que ele usava técnicas avançadas de parkour para se mover sobre os prédios e um bastão para impulsionar-se sobre obstáculos mais elevados. Uma ruga profunda estava curvada sobre a testa dele. Na mesma hora, ela percebeu que havia algo errado.

“Como assim não vai entrar?” ela franziu a testa sem tirar os olhos de Oliver. O homem andava calmamente com as mãos nos bolsos, como se passeasse em uma tarde de sol. À frente, os prédios se tornavam menores, até dar espaço para um bairro de casas baixas.

Ladybug sentiu a língua estalar contra o céu da boca ao ver os prédios sumirem. Ela não gostava de aceitar missões em zonas com construções baixas. Aquilo dificultava sua movimentação e arriscava sua identidade, mas ela precisava seguir em frente. A missão era escoltá-lo, e ela nunca falhava em suas missões.

Todos os clientes que ela escoltava costumavam usar algum tipo de meio de transporte para se locomover de um local a outro, e grande parte deles usava veículos blindados. Ela sentiu os olhos crisparem na direção do homem. Por que ele estava se arriscando? Ela viu Oliver virar uma esquina, mas quando fez o mesmo percurso atrás dele, se deparou com uma rua deserta. Ele avia desaparecido.

“Fique atrás de mim.” ela viu Chat Noir pular na sua frente e correr por cima dos telhados com uma velocidade assustadora.

Ela sentiu fogo arder no fundo de seus olhos. Ele estava lhe dando ordens? Primeira noite de missão e ele estava achando que podia mandar nela? Apertou os dedos com força na volta do iôiô e lançou-o ao longe, correndo com velocidade e alcançando Chat Noir.

“Quem você acha que é pra me dar ordens?” ela sentiu a voz sair com rispidez pelo meio dos lábios, mas antes que pudesse pular para o próximo telhado, algo estourou perto de seu ouvido, e ela percebeu que foi puxada para o lado. Tiros. Alguém havia atirado nela.

Os ouvidos de Ladybug foram preenchidos por um silvo agudo e alto. Sentiu-se pressionada entre uma parede e o corpo de alguém e conforme o zumbido desaparecia, uma voz surgia no ambiente.

“Você está bem?” Chat Noir estava à frente dela, com a testa franzida.

Ladybug sentia-se tonta e a sensação piorou quando notou que Chat levou os dedos na direção da orelha dela descendo o toque pelo pescoço e cabelos, explorando a pele em busca de ferimentos. O contato lhe causou uma forte vertigem, e ela empurrou-o, livrando-se da proximidade.

“Eu estou bem, foi só um susto.” ela sentiu o rosto aquecer e virou-se na direção de onde o tiro havia sido disparado. Percebeu um brilho ao longe.

“Akuma.” Chat começou, franzindo os olhos.

“O quê?” Ladybug sentiu a voz sair com mais desespero do que previa e Chat cruzou a sua frente, sacudindo o bastão no ar, se preparando para pular.

“Eles querem você.” Chat falou, virando para trás e Ladybug sentiu os lábios entreabrirem “Vamos.” ela sentiu algo agarrar sua mão e no próximo segundo eles estavam indo em direção ao local onde devia estar localizado o atirador.

“Você quer me explicar o que está acontecendo? O que é akuma? E quem são eles?” ela puxou a mão, soltando-se dos dedos dele e parando no meio do caminho. Sentia o peito subir e descer com a respiração ofegante.

“Nós precisamos ir atrás dele. Se não o neutralizarmos, você vai estar em perigo.” Chat se aproximava e ela sentiu-se dar dois passos para trás em um reflexo.

“Por que eu? Quem é você? Que porra toda é essa?” ela segurou a cabeça com as próprias mãos, tentando juntar pedaços de informações que não se encaixavam. Ela apenas cumpria ordens. Apenas cumpria missões. Por que alguém estaria atrás dela?

Chat percebeu que ela estava perdendo o controle. Devia ter conversado com ela antes daquilo tudo ter começado. Ele tentara dizer para Plagg que seria muita coisa para explicar no meio da confusão, mas ninguém lhe dera ouvidos. Agora ele precisava buscar a mente dela que estava começando a fugir. Deu três passos largos e a agarrou pelos ombros, focando os olhos nos dela.

“Ladybug, me escuta!” ele elevou a voz, juntando o rosto dela entre as mãos e aproximando-o do dele para que ela não perdesse o foco.

“Por que você está aqui?” ele viu os olhos dela fitarem seu rosto e a voz soar baixa e confusa.

“Porque você é minha missão.” as palavras de Chat cortaram o silêncio e fizeram Ladybug sentir o chão desaparecer sob seus pés.



Notas finais do capítulo

Caaaalma, que tudo vai ser explicado nos mínimos detalhes a seu tempo!
Mas sim, vai ter um monte de mistério, conspirações e tretas, podem ficar preparados! ♥