Dépendance escrita por KarenAC


Capítulo 29
Capitulo 29 - Fantasmas


Notas iniciais do capítulo

O quê!? Dois capítulos seguidos novos? Será que a Karen surtou?
A resposta é: Ainda não, mas tá quase! Hiuaheiahsuieh! Brincadeira!
Só tive um tempo livre e resolvi colocar na ativa as ideias que estavam fresquinhas na cabeça!
Aproveitem! :D



A minha consciência tem milhares de vozes,

E cada voz traz-me milhares de histórias,

E de cada história sou o vilão condenado.

William Shakespeare

 

O táxi estacionou sem pressa, as rodas crepitando sobre o asfalto molhado da madrugada. De uma das portas de trás desceu o rapaz de moletom cinza escuro com o capuz sobre a cabeça para se proteger da fina garoa que descia como uma lembrança da tempestade de horas antes. Ele pagou um valor alto ao taxista pela corrida e pela discrição, então deu a volta na traseira do carro e abriu a porta do outro lado, onde uma figura feminina se apoiou em seu ombro para caminhar, os cabelos negros também protegidos por um capuz. Ambos agradeceram ao motorista e viram o carro seguir seu rumo enquanto se apoiavam melhor um no outro para seguir em frente.

O grande portão de arabescos retorcidos erguia-se entre os altos muros amarelos, dizendo às pessoas de fora que elas não eram bem-vindas, não importava quem fossem. Não importava nem mesmo se as pessoas fossem Marinette, uma garota ferida precisando de abrigo ou Adrien, o rapaz que era, mesmo após tantos anos, o legítimo dono daquele lugar.

O caminhar de ambos era cambaleante e quem soubesse da situação dos dois diria que era por causa dos ferimentos de Marinette, mas quem mais demorava a colocar um pé em frente ao outro era Adrien. A cada metro que os muros e o portão cresciam frente aos dois, mais memórias reapareciam dentro da cabeça do garoto, sendo transformadas em toneladas que começavam a pesar em suas costas e dificultar seus passos.

“Você tá bem?” Marinette perguntou ao perceber que o braço de Adrien que lhe apoiava começou a flexionar com uma força fora do normal ao redor dela.

“Sim.” a palavra saiu tremida o suficiente para que nenhum dos dois acreditasse nela, mas em um acordo silencioso não se falou mais sobre aquilo.

Chegando à beira do portão, Marinette afastou-se de Adrien esperando que ele pegasse a chave do grande cadeado que cerrava a entrada da mansão, porém o rapaz não se moveu, os olhos ainda fixos no ferro negro que o separava da entrada da casa, o rosto encharcado em suor. Marinette respirou fundo e estendeu a mão na direção do loiro, flexionando duas vezes os dedos; um pedido que ele atendeu sem pensar duas vezes, entregando o molho de chaves a ela. 

“Eu faço isso aqui, mas aquela lá é sua.” ela falou olhando para a porta da grande casa enquanto girava facilmente a chave no cadeado dourado, abrindo-o com um estalido e soltando as pesadas correntes que desceram por entre as grades, o bater metálico ecoando pela rua deserta.

Adrien ofereceu novamente o apoio do braço à Marinette, mas ela sacudiu a cabeça negativamente. Queria andar sozinha sobre as próprias pernas e com as próprias forças, mas mais do que aquilo queria ver Adrien fazer o mesmo. Entregou as chaves de volta nas mãos do rapaz e recuou, esperando que ele caminhasse em direção ao lugar de onde havia fugido por tanto tempo.

“Você quer que eu te deixe sozinho pra-“

“Não!” Adrien virou-se bruscamente em um brado suplicante e Marinette vislumbrou os olhos verdes iluminados pelo poste da rua agora quase negros pelas pupilas dilatadas em tensão “Não.” ele pigarreou e consertou o tom de voz, virando o rosto claramente envergonhado consigo mesmo pelo descontrole emocional “Prefiro que você fique por perto.”

“Tá, tudo bem. Então eu fico.” Marinette assentiu e manteve-se logo atrás dele.

Ela o viu olhar na direção da porta da mansão como se à frente houvesse um gigantesco inimigo a ser derrotado. Como se algo fosse capaz de tirar a vida dele ali mesmo caso ele desse um passo em falso. E pela ofegância de Adrien e a maneira incerta que ele caminhava, Marinette quase acreditou que aquilo fosse possível, mantendo-se sempre um passo atrás.

Então, muitos metros à frente de Adrien, a grande porta da entrada foi aberta, jogada para trás, e Adrien paralisou onde estava, seguido por Marinette. Passos de salto alto ecoaram velozes pela escadaria, correndo desesperadamente em direção ao portão. A cabeleira loira da mulher soltou-se do coque que fixava o alto de sua cabeça, uma cachoeira esvoaçante embalada pelo desespero, a maquiagem antes impecável se manchando o rosto sob espessas lágrimas. Ali, correndo na direção de Adrien estava Amélie Agreste. A mulher que havia dado a vida a ele. A mulher que não deveria estar viva.

“Adrien! Vamos! Rápido! Vamos!” ela bradou em plenos pulmões, os olhos fixos nos dele.

Adrien sentiu o ar lhe faltar nos pulmões, a saliva secando dentro de sua boca enquanto uma onda gelada subiu pela mão direita no momento em que começou a erguê-la na direção de sua mãe, os olhos arregalados fixos em cada movimento que ela fazia. Ele sabia o que acontecia a seguir. Aquilo tudo era familiar demais. Os pés dele formigavam colados ao chão e duas grandes gotas de suor escorreram pela lateral do seu rosto.

“Adrien! Eles estão chegando! Por favor, vamos pro carro!” ela gritou novamente, cada vez mais perto dele.

No meio do movimento de levantar o braço, o rapaz viu sua mãe estender os dedos em sua direção, pronta para alcançá-lo, mas antes mesmo de sentir o tão desejado toque ele fechou a mão estendida em um punho, lutando contra cada segundo do desespero que lhe corria pelas veias, contra cada pulso de energia que lhe mandava agarrar a mão dela e segui-la. E então ela chegou ao lado dele, mas os olhos de Adrien haviam fechado. Ele não estava olhando. Não mais.

 

De novo.

De novo essa maldita alucinação.

 

Sentiu o familiar perfume de orquídeas acariciar-lhe a face enquanto a imagem de sua mãe se despedaçava no ar como pó jogado ao vento, e Adrien respirou fundo como se precisasse de cada miligrama daquilo preenchendo seu corpo para viver. Como se aquela fosse a droga mais potente de todas a lhe ocupar o sistema nervoso. E ele queria. Ele precisava. Desejava.

 

Ela não está aqui.

Ela nunca mais vai estar aqui.

 

“Adrien?” a voz de Marinette arrastou o corpo de Adrien de volta à realidade, mas a mente dele continuou no passado, presa ao dia em que viu sua mãe pela última vez. Presa ao dia em que podia tê-la salvo, tê-la arrancado daquela maldita cidade, mas que falhou miseravelmente.

 

É a minha cabeça.

Está tudo dentro da minha cabeça.

São os efeitos colaterais do Akuma de novo.

É essa merda no meu sangue gritando de novo.

 

“Adrien...” Marinette chamou novamente, e ele apenas percebeu que a garota estava mais próxima porque sentiu a mão dela sobre seu ombro “Você tá bem?”

Ele abriu os lábios, pronto para dizer que sim, que estava ótimo, que não havia nada errado, que tudo ficaria bem. No momento em que seus lábios entreabriram para proferir as palavras, o que saiu foi um soluço seguido por lágrimas que correram copiosamente de seus olhos. Ele levou a mão à boca para conter o descontrole, mas seu peito pulava em um choro tão convulsivo que seu corpo curvou-se para a frente, enquanto ele pressionava os lábios com as duas mãos, abafando os sentimentos que transbordavam, tentando engoli-los de volta. Tentando com todas as forças que ainda tinha mandá-los de volta para dentro, para onde estavam alojados por anos.

 

Ela não está aqui.

Nunca mais vai estar aqui.

E a culpa é minha.

É toda minha.

 

“Ssshh, calma. Eu tô aqui. Vai ficar tudo bem. Vai ficar tudo bem.” Marinette abaixou-se ao lado de Adrien, juntando o garoto em um abraço e sentindo-o tremer e soluçar.

“É minha culpa.” a voz dele saiu cheia de tanta dor que Marinette sentiu o próprio peito doer “É tudo minha culpa, Marinette. Tudo isso.” ele abriu os braços em direção à mansão, à Paris, ao mundo inteiro.

“Não, Adrien, não é. Nada disso é culpa sua.” ela falou convicta, soltando-o do abraço enquanto se abaixava na frente dele para fitá-lo nos olhos “Tudo o que você fez foi pensando nas outras pessoas. Você só queria que todos ficassem bem, que todos estivessem protegidos, não foi?” Adrien assentiu com a cabeça, fungando enquanto respirava fundo “Você sempre pensou nos outros antes de si mesmo, sempre foi assim.” sem pedir permissão ela ergueu a manga do moletom de Adrien, abrindo ao céu da noite as manchas escuras cicatrizadas no braço dele “E isso aqui foi o que você ganhou. Isso e toda essa dor que você carrega. Não é vergonha chorar, Adrien. Eu já te disse, já chega de aguentar essa merda toda sozinho. Chega de passar por tudo sozinho. Chega.”

Marinette se inclinou na direção do garoto e o tomou em um abraço apertado ao qual ele respondeu deitando a cabeça sobre o ombro dela, deixando-se levar pelo apoio do qual fugiu por tantos anos. Minutos depois ele havia se acalmado e os dois se afastavam, trocando sorrisos ternos enquanto se erguiam. Marinette acenou positivamente com a cabeça, os olhos cheios de convicção e segurança. Adrien se alimentou daquela visão e girou nos calcanhares, retornando à batalha que tomara como perdida.

Ele então colocou os passos frente um ao outro, indo em direção à porta que há anos evitava enquanto sentia Marinette a lhe seguir. Puxou o molho de chaves e separou entre elas a maior de todas, colocando-a na fechadura em um movimento único e girando-a para acabar com aquela tortura de uma vez por todas.

Marinette estava atrás de Adrien, consciente da respiração ofegante e dos ombros trêmulos que tentavam se manter calmos. Fechou as mãos em punhos, controlando-se para não invadir o espaço dele. Era hora de ver Adrien limpar o sangue seco das próprias asas e alçar voo, ainda que ela mesma estivesse tendo dificuldade em conter as lágrimas que lhe aqueciam as pálpebras ao saber o tamanho da dor que ele sentia ao confrontar seu passado.

Um estalo e a porta estava aberta. O grande salão de entrada estava impecavelmente limpo e a luz azul da noite penetrava por cada vidraça do alto das paredes, iluminando a vasta escadaria à frente dos dois. Ele pressionou um grande interruptor na parede e todo o salão se iluminou em amarelo e branco, a claridade tão grande que Marinette precisou piscar algumas vezes para acostumar a visão à luz.

Adrien tirou o capuz do moletom e sacudiu as mechas loiras, fixando os olhos verdes no topo dos degraus onde um gigantesco retrato pendia. Nele, Amélie vestia um elegante vestido perolado e estava sentada em uma confortável poltrona cor de vinho enquanto Adrien e Gabriel Agreste vestiam ternos grafite e estavam em pé logo atrás dela, um de cada lado, uma mão em cada ombro e um suave sorriso perpassando os lábios dos três. Uma família perfeita. Uma família destruída.

“Eu tinha esquecido como ela era linda.” Marinette disse ao lado de Adrien, e ele sabia que ela estava falando de Amélie.

Amélie Agreste sempre fora o pilar daquele lugar. Não importava o quanto a sociedade achasse que Gabriel era o dono do império da BioSans, ela sempre fora a força que movia a empresa, a família e tudo à sua volta. Alguém que era amada e admirada por onde passava, que inspirava coragem e determinação em cada ação feita, em cada palavra dita.

“Era sim.” ele sorriu enquanto falou e se deu conta que há muito tempo não falava sobre sua família com outras pessoas.

“Ela foi uma vez na escola explicar para a professora que você estava em uma viagem de negócios representando o seu pai e que precisaria faltar aquela semana.” Marinette deu alguns passos à frente, passando por Adrien, ainda com os olhos no quadro no topo da escada.

Adrien olhou a garota à frente que retirava o capuz do moletom emprestado e precisou respirar fundo para conter as sensações que se confundiam em seu peito. De todas as situações onde tinha imaginado receber Marinette em sua casa, aquela era a última que passaria por sua cabeça. Ergueu os olhos para o grande retrato e suspirou enquanto ouvia a garota de cabelos azulados falar.

“Lembro que fiquei olhando pra ela e pensando em como vocês eram parecidos, em como ela parecia fazer parte de um mundo tão diferente do meu.” ele baixou os olhos na direção da garota “Mas ela parecia preocupada aquele dia, como se sentisse culpa por você estar fazendo o que fazia.” Marinette ergueu a mão enfaixada e acariciou a moldura do quadro “Eu devia ter percebido. Devia ter imaginado que algo não estava bem. Mas eu só conseguia pensar em mim mesma, em como você não me contava nada, em como eu me sentia inferior.”

“Você nunca foi inferior, Marinette.” Adrien começou, subindo as escadas “Eu só não sabia como lidar com as coisas, como interagir direito com as pessoas.” Então sorriu tristemente “Pra falar a verdade, talvez eu saiba menos ainda agora.”

Marinette não conseguia tirar os olhos do grande quadro. Não conseguia tirar os olhos do antigo Adrien que havia deixado Paris e quebrado seu coração. Ali estava ele, o sorriso sincero puxando os lábios para cima, os cabelos loiros cuidadosamente arrumados e a pose de um garoto que tinha o mundo nas mãos. Ela precisou estreitar a visão para ter certeza que ele não sairia da pintura e pararia à sua frente, pedido desculpas por tudo o que havia acontecido e dizendo que era tudo uma brincadeira. Que os anos estavam de volta e tudo ficaria bem. Que os pais dele ainda estavam vivos. Que a Papillon e a Miraculous não existiam. Que eles podiam voltar a ser crianças de novo, a ser felizes de novo.

“Eu ficava pensando...” Marinette murmurou “Queria saber se só eu pensava no que havia acontecido. Se só eu sentia falta do que...” a voz dela diminuiu, até sumir.

Adrien a observava e sabia ao que ela se referia. Aquela era uma conversa entre ela e o Adrien do passado. Era uma conversa entre ela e um fantasma, e ele fechou os olhos e baixou a cabeça ao perceber que aquele lugar não estava cheio de memórias dolorosas para ele, mas também para ela. Aquele era o calvário dos dois.

Ele subiu as escadas, colocando a mão sobre o ombro dela e fazendo-a se virar. Os olhos azuis de Marinette estavam cheios de lágrimas e sua testa estava franzida com o esforço de não deixá-las cair, porém bastou olhar para o rosto de Adrien para que elas descessem pela face.

“Eu sinto tanta falta do passado, Adrien. Tanta.” um soluço irrompeu pelos lábios de Marinette, sacudindo seus ombros.

Adrien olhou para a garota ferida sofrendo à sua frente e não conseguiu conter mais os sentimentos que enchiam seu coração. Ele a tomou em um abraço apertado, colocando seu queixo sobre a cabeça dela e fechando os olhos, e então rezou com todas as forças. Rezou para que um dia tudo aquilo acabasse, para que eles pudessem ser felizes de verdade. Rezou para que Marinette tivesse a vida que ela merecia, mesmo que ele não fizesse parte dela. Mesmo que o destino dele fosse, para que ela pudesse seguir em frente, desaparecer para sempre.

“Desculpa.” ela murmurou baixo contra o peito dele e Adrien se afastou, olhando-a nos olhos sem entender “Estar aqui é muito pior pra você e eu tô agindo desse jeito. Minha cabeça não tá funcionando direito.” ela terminou de falar forçando um sorriso enquanto secava as lágrimas.

“Sua cabeça nunca funcionou direito.” Adrien puxou o canto dos lábios em um riso debochado e ela franziu a testa fingindo uma careta ofendida “Não era só você que pensava no que tinha acontecido.” ele continuou em tom sereno sem tirar os olhos dos dela “Eu também sinto falta do passado, e só Deus sabe como eu faria as coisas de outro jeito se soubesse que tudo acabaria assim.”

“Eu deveria ter ido atrás de você.” Marinette agarrou firmemente o moletom nas costas de Adrien “Eu deveria-“

“Não adianta, Mari. Não adianta mais a gente pensar no que poderia ou deveria ter acontecido. Nada disso vai resolver. A dor é inevitável. Não vamos tornar ela ainda maior nos torturando.”

Adrien respirou fundo e toda a pose confiante que ele costumava demonstrar começou a se desmanchar “Nós não temos mais o passado, Marinette. Nada vai voltar. Nada do que nós éramos ou tínhamos vai voltar. Nada do que você era vai voltar.” ele a olhou fixamente, as sobrancelhas curvadas sobre os olhos, o rosto próximo ao dela, as testas quase se tocando ”Nada do que eu era vai voltar. Você entende isso? Você está bem com isso?” os lábios de Adrien cerraram como se ele tivesse medo da resposta.

 

Se eu não for mais quem eu era, você ainda me aceita?

Se eu estiver quebrado demais para seguir em frente, você ainda me aceita?

 

Marinette ergueu a mão e tocou o rosto dele, os olhos azuis fixos nos verdes e nenhuma palavra precisou ser dita quando ela corou e sorriu suavemente, aproximando-se e tocando a testa na dele. Aquilo era mais do que suficiente para Adrien saber que estava tudo bem, que eles conseguiriam superar fosse o que fosse se estivessem juntos. Sem pensar duas vezes, Adrien fechou as pálpebras e baixou os lábios em direção aos dela, os dedos entrelaçados nos cabelos da garota enquanto a puxava devagar para perto, para sentir o gosto que tanto desejava.

 

Pai. Mãe.

Essa é a garota que eu escolhi.

Ela faz coisas com o meu coração que eu não entendo.

Ela me faz sentir coisas que eu nunca senti antes.

Tudo bem se eu tentar ser feliz?

Depois de tudo que eu fiz, será que eu ainda posso tentar ser feliz?

 

Marinette sentiu os lábios macios de Adrien pousarem sobre os seus e a sensação foi tão forte que cobriu as suas dores como uma compressa morna. Ela fechou os olhos e retribuiu com carinho, aproveitando cada segundo do toque. Ergueu a mão e levou-a à nuca dele, entremeando os dedos nas mechas loiras enquanto sua outra mão repousava sobre o peito do garoto que subia e descia calmamente com a respiração compassada. Ela então abriu os lábios, permitindo que o beijo fosse aprofundado, mas um estouro atrás deles fez com que os dois se largassem rapidamente e girassem os pescoços na direção do barulho de olhos arregalados.

“Esse inferno dessa cidade não tem um taxista que preste!” Alya marchava porta adentro, fazendo Adrien perceber que havia esquecido a porta entreaberta. Logo atrás dela, Nino entrava de cabeça baixa com uma pequena mala na mão.

Nino era um pouco mais alto que Adrien e bem mais alto do que Alya, pelo menos uma cabeça de diferença da garota. A pele bronzeada contrastava com a do amigo, assim como os cabelos negros em pequenos cachos que cobriam sua cabeça, escondidos sob um largo boné cor de laranja. Ele adentrou a mansão timidamente, em passos bem mais lentos do que os de Alya, fazendo Adrien inclinar a cabeça ao estranhar o comportamento do amigo que normalmente era bastante expansivo.

“Você!” Alya bradou e apontou o dedo em riste para Adrien, subindo os degraus em direção ao casal “Eu espero que você tenha uma história muito boa pra ter me feito buscar esse cafajeste! Por mim ele podia ter ficado mofando naquele aeroporto até inventarem um avião rumo à puta que pariu que carregasse ele daqui.”

Alya tinha as sobrancelhas furiosamente curvadas sobre os olhos enquanto escalava a escadaria em passos certeiros. Ao se aproximar dos dois, a ruiva tomou Marinette em um abraço apertado, sem tirar os olhos queimando em raiva de cima de Adrien.

“Eu não quero ver esse cara nunca mais na minha frente, você tá entendendo?” ela falou baixo entre dentes para o loiro, que engoliu a seco e acenou positivamente com a cabeça “Ótimo. E você, mocinha” ela soltou Marinette e girou os olhos cor de mel na direção da amiga “Olha só o seu estado.” a expressão em seu rosto suavizou como se esquecesse que estava furiosa no exato momento em que olhou a amiga, e o abraço foi retomado.

Marinette olhou para Adrien sobre o ombro de Alya, sinalizando com os olhos para que ele pegasse Nino e saíssem dali. Ela sabia melhor do que ninguém o quanto a amiga ficava bipolar ao enfrentar situações sobre as quais não tinha controle. Ela perdia a razão, e mais do que aquilo, perdia o filtro das palavras. O rapaz mais do que prontamente obedeceu, descendo as escadas devagar para que seus passos não fossem escutados enquanto pegava Nino pelo braço. Ele sabia que controlar Alya era uma tarefa difícil demais até mesmo para ele.

“E é bom que achem algo pra eu comer, porque eu não consegui nem jantar por causa de vocês três!” Alya gritou ainda abraçada em Marinette, e Adrien correu para a cozinha, arrastando Nino consigo “E algo muito gostoso!” ela completou enquanto os garotos apressavam os passos em corrida.

Ao chegar à grande cozinha, Adrien apoiou as mãos nas coxas, gaspeando por ar enquanto erguia o rosto para fitar Nino.

“Meu Deus, Nino!” Adrien exasperou-se ao ver o amigo de perto e a grande área abaixo do olho direito dele que começava a ficar roxa “O que diabos é isso?”

“Isso aqui, cara...” Nino murmurou tocando o próprio rosto enquanto olhava para um ponto fixo atrás de Adrien com um sorriso bobo lhe cruzando o rosto “Foi o amor que me acertou.”

“O quê?” Adrien torceu a boca no meio da pergunta, uma das sobrancelhas erguidas.

“Ela me deu um soco, bem aqui.” o moreno apontou para a mancha no rosto, sorrindo abertamente, como se tivesse contado uma ótima notícia, caminhando a seguir na direção dos armários da cozinha para procurar por comida.

“Quê? Mas por quê?” Adrien perguntou porque conhecendo Nino havia um motivo mais do que plausível para aquilo ter acontecido.

“Ah, cara. Você não deve lembrar.” Nino sacudiu a mão no ar, de costas para Adrien, enquanto abria a terceira porta de armário vazia.

“Lembrar do quê?” ver Nino vasculhando os armários e demorar a lhe responder estava tirando a paciência de Adrien “Pára de procurar coisa aí, meu! Tá tudo vazio A gente pede uma pizza ou sei lá.”

“Porra, uma casa desse tamanho sem comida. Que puta desperdício.” Nino bufou ao ver a expressão impaciente no rosto de Adrien e decidiu explicar “Da última vez que eu vim, quando cheguei em casa lá em Viena comecei a ver um monte de filme com coisas francesas porque achei tudo muito maneiro. Daí assisti aquele musical lá, lembra? Eu te contei que-“

“Ah não, cara. Você não fez aquilo.” Adrien sacudiu a cabeça em negativa e deu alguns passos para trás, apoiando o quadril no balcão no meio da cozinha e passando a mão na testa.

“Tá brincando? E perder essa oportunidade?” Nino riu e bateu uma palma no ar.

“Você-“ Adrien começou, os lábios se curvando em um sorriso incrédulo, mas Nino prosseguiu.

“Ela chegou e perguntou se eu era o Nino, e aí eu olhei pra essa garota. Ruiva. Ruiva, cara!” Nino deu um pulo e soltou um grito de alegria “Cheia de curvas. Quente. Gata. Gata pra-“

“Conta logo!” Adrien inclinou-se para a frente, vendo o brilho extasiado nos olhos de Nino.

“Aí eu coloquei as duas mãos nos ombros dela, bem assim.” Nino fez o mesmo com Adrien, o rosto sério “Olhei bem no fundo dos olhos dela e disse, no melhor francês que eu pude pronunciar-“

Voulez-vous coucher avec moi.” Adrien e Nino falaram juntos a frase que era nada mais nada menos do que um convite para uma noite de sexo, e os dois caíram na risada ao final, gargalhando tanto que chegaram a curvar os corpos para a frente enquanto seguravam o abdome.

“E aí, bam, tomei um soco! E ia ser bem no meio da cara se eu não tivesse desviado! Sabe quantas garotas já me deram um soco? Sabe?” Nino se virou para Adrien, a expressão do rosto divertida.

“Não sei. Quantas?” Adrien sorriu de canto.

“Nenhuma, cara! Nenhuma!” Nino levantou as mãos para o teto “Ela é o amor da minha vida, patrão!” ele riu, e Adrien o seguiu.

“Puta merda, cara. Você é doente!” o loiro ainda se recuperava do acesso de riso, secando as lágrimas no canto dos olhos “Você não conhece a Alya, ela não é qualquer uma pra cair nessas suas cantadas fajutas.”

“Só sei que não vou precisar mais de uma gata francesa.” Nino olhou para cima como se enxergasse um anjo descendo dos céus “Eu acabei de achar uma tigresa.”

Adrien entreabriu os lábios, pronto para dizer ao amigo que aquela era uma batalha perdida, que Alya era mais fogo do que ele podia apagar, mas sacudiu a cabeça negativamente e suspirou fundo, contendo as opiniões para si mesmo e começando a se arrepender de ter chamado Nino e Alya para ficarem juntos sob o mesmo teto. Aquela era uma bomba prestes a explodir que Adrien havia armado, e agora era tarde demais para voltar atrás.



Notas finais do capítulo

Espero que tenham gostado desse capítulo, eu li e reli umas 20 vezes e mexi em várias partes antes de publicar! Pode não parecer, mas por causa dos altos e baixos de sentimentos é bastante difícil escrever esses tipos de capítulo e fazer as transições de forma natural D:

Não esqueçam de deixar seus votos e comentarem, eu adoro ler tudo o que vocês escrevem, morro rindo toda vez com as reações de vocês! Hiauheiuahse!

Muuuuuuuuuuuito obrigada por serem tão incríveis! ♥



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