Dépendance escrita por KarenAC


Capítulo 18
Capítulo 18 - Saudade


Notas iniciais do capítulo

Demorei mais do que o normal pra postar esse capítulo, me desculpem :~
Espero que gostem ^__^



De um certo ponto adiante não há mais retorno. Esse é o ponto que deve ser alcançado.

Franz Kafka

 

Marinette abriu os olhos sentindo o corpo todo doer como se tivesse dentro de um moedor de carne. Piscou uma meia dúzia de vezes antes de acostumar a visão à claridade e suspirou em alívio ao perceber que estava em seu quarto, puxando o celular para olhar a hora. Seis horas da manhã. Havia dormido menos de duas horas, mas era tudo o que conseguira antes de começar a se debater com pesadelos. Sabendo que a dor não lhe permitiria voltar a dormir, jogou as pernas para fora da cama, sentando-se enquanto esfregava as mãos no rosto.

Ouviu barulho no andar de baixo da casa e franziu a testa. Por pura sorte, conseguira chegar antes de seus pais acordarem e arrancou o aviso na geladeira que dizia que ela havia ido direto para a escola. Parecia que seu Talismã entrara em ação a tempo. Todavia, estranhava a calmaria. Será que seus pais ainda não havia encontrado as passagens da viagem? Ou será que Tikki não conseguira entregar as passagens a tempo? Sua cabeça começou a girar com conjecturas até que ouviu um grito do andar de baixo.

Automaticamente Marinette ergueu-se da cama, os olhos estalando em nervosismo. Ainda tonta de sono, ela colocou um pé a frente do outro apressadamente e abriu a porta do quarto, correndo para o andar de baixo. No meio da escada, deu de cara com sua mãe de olhos arregalados e respiração ofegante.

“Mãe! Você tá bem?” Marinette segurou os braços da mãe, olhando-a de cima a baixo para ver se ela estava ferida, mas parou quando não viu nada fora do normal e percebeu os olhos de Sabine marejarem “Tá machucada? O que aconteceu?”

“Olha isso, Mari! Olha isso!” Sabine dava pequenos pulos sobre um dos degraus da escada. Na mão, um papel sacudia.

Marinette suspirou em alívio. Então Tikki havia mesmo conseguido. Repreendeu-se mentalmente por ter deixado a apreensão e o estresse acumulado a fazerem esquecer o quanto Tikki era eficiente nas coisas que prometia.

“O que é isso?” Marinette perguntou fingindo estar surpresa enquanto descia as escadas atrás de sua mãe.

“É uma viagem! Nós ganhamos uma viagem! Aquele bilhete que o seu pai preencheu ano passado quando nós compramos a geladeira nova foi sorteado!” Sabine saltitava com o bilhete em mãos e o pai de Marinette apareceu na cozinha onde estavam com um sorriso de ponta a ponta das orelhas.

“Viu? Você ficou me dizendo que era bobagem!” Ton ria sozinho com as mãos na cintura e Marinette não pôde deixar de sorrir com a visão. Fazia muito tempo que não via seus pais tão felizes.

“Mas que legal, mãe!” Marinette deixou-se contagiar com a alegria dos dois “Pra onde é?” ela espiou o bilhete que Sabine segurava firmemente,

“Pra Flórida!” Sabine sorria enquanto falava “Imagina, andar de avião, atravessar o oceano! América!” Ton pegou Sabine pela mão e ambos começaram a dançar no meio da cozinha, fazendo Marinette rir de novo. Eles pareciam dois adolescentes.

“Mas Mari” Sabine parou abruptamente, o sorriso transformando-se em uma expressão de preocupação “Quem sabe você não vai com o seu pai? Lá tem a Disney, você ia adorar!”

“Nem pensar! Se a Marinette vai ir, você que tem que ir com ela! Eu fico!” Ton disse com um ar decidido.

“Vocês estão malucos?” Marinette ergueu as mãos para o alto “Faz quanto tempo que vocês não fazem algo juntos, mãe? Essa é a oportunidade perfeita!” Marinette procurava argumentos empolgantes para que a preocupação de seus pais não estragassem os planos.

“É, você tem razão.” Sabine baixou os olhos para o papel nas mãos, o rosto levemente corado “Mas eu não quero te deixar aqui sozinha, minha filha, é tanto tempo e a gente já precisa sair daqui a pouco pra não perder o vôo.” ela voltou a olhar Marinette com uma expressão de tristeza “E ainda tem a padaria.”

“Mãe!” Marinette riu enquanto abraçava a mãe “Eu vou ficar ótima! Tenho um milhão de trabalhos pra terminar e de costuras pra fazer, vou ficar tão ocupada que três semanas vão passar mais rápido do que três horas!” ela ria para os pais, mas na sua cabeça mil preocupações giravam, e ela rezava que estivesse pelo menos viva quando eles voltassem “E eu fico de olho na padaria, vai dar tudo certo! Vocês trabalharam bastante, teve bastante movimento nesses últimos dias, merecem uma folga! Merecem até uma segunda lua de mel.” Mari piscou para a mãe, fazendo-a corar.

“Ela tem razão, amor.” Ton colocou a mão sobre o ombro de Sabine “A Marinette já é adulta.” ele lançou um olhar de orgulho na direção da filha e Marinette forçou um sorriso, sentindo-se um lixo por estar mentindo para eles.

“Você tem aula agora?” Sabine perguntou.

“Tenho sim.” Marinette grunhiu “Mas tô com uma vontade imensa de ficar em casa.”

“Você sempre tem uma vontade imensa de ficar em casa, Marinette.” Ton a repreendeu e Mari ergueu os olhos para fitar o pai que era muito mais alto do que ela “Não é porque a gente não está aqui que você vai faltar.”

“Não, não vou faltar.” Marinette explicou-se rapidamente. Não não queria que aquele fosse um motivo para eles repensarem a viagem.

“Promete que vai ficar bem? Que vai comer bem e se cuidar?” Sabine firmou o olhar em Marinette e Ton estava logo atrás dela com a mesma expressão “Me liga se precisar, e fica de olho no celular pra eu te ligar quando estiver com saudade.”

“Prometo sim, mãe, pode deixar! Não se preocupem comigo, se divirtam!” e Marinette pensou que aquela era a segunda vez em menos de vinte e quatro horas que cruzava os dedos no meio de uma promessa “Boa viagem pra vocês!”

Sabine puxou a filha em um abraço e Marinette sentiu o pai laçar as duas com carinho, recebendo beijos nas bochechas simultaneamente. Ela amava a família mais do que tudo naquele mundo e não pensaria duas vezes antes de arriscar qualquer coisa para mantê-los a salvo. Sentia-se culpada por não poder contar toda a verdade para eles, mas prometeu para si mesma que quando eles voltassem ela sentaria com os dois e explicaria toda a situação, recebendo quaisquer punições que eles estivessem dispostos a dar. Eles eram ótimos pais e não mereciam ter uma filha que mentisse para eles o tempo todo.

“Então vamos fazer as malas!” Sabine sorriu abertamente e girou o corpo para olhar Ton, pegando a mão dele e puxando-o.

Marinette sentia o sorriso presente no rosto, e pensou que mesmo com todos os problemas, com todas as mentiras, frutos bons podiam ser colhidos. Ela anotou mentalmente que precisava agradecer especialmente à Tikki por aquilo. Os planos dela eram sempre os melhores.

Caminhou até a geladeira e pegou uma maçã, subindo as escadas preguiçosamente de volta para o quarto enquanto mastigava a fruta. Quando seus olhos caíram sobre a cama, sua cabeça latejou de cansaço, mas ela a sacudiu tentando espantar a tentação de voltar a dormir. Respirou pesadamente e foi até a cômoda, pegando uma muda de roupas limpas e se dirigindo ao banheiro para tomar um banho na tentativa de manter-se acordada.

Após o banho, se despediu dos pais uma última vez. Sabia que não os veria por três semanas, então o período de abraços, beijos e conselhos demorou mais do que ela pensava. Ela então se viu sozinha, e sentiu mais do que nunca o peso da responsabilidade nas costas. Pegou então os materiais da escola e trancou a casa, saindo em direção ao colégio.

Ela não contava com estar indo mais uma vez assistir aula com tão pouco tempo de sono, mas era necessário para manter seus pais despreocupados sobre suas atividades enquanto não estivessem ali, então valeria o sacrifício. Adentrou a escola e chegou na sala de aula, estranhando as poucas pessoas que ainda estavam lá, mas quando baixou os olhos para o relógio de pulso, entendeu o motivo. Na pressa, havia saído muito mais cedo do que realmente necessitava. Bufou, colocando a bolsa ao lado da cadeira e sentando-se com os olhos à frente e os pensamentos ao longe. Cruzou os braços sobre a mesa e apoiou a cabeça sobre eles, fechando os olhos. Com sorte, conseguiria tirar um cochilo de pelo menos uns vinte minutos até que a aula começasse.

Quando estava prestes a cair no sono, sentiu algo tocar sua cabeça e acariciar seu couro cabeludo com a ponta dos dedos. A sensação era gostosa e relaxante e ela sentiu-se sorrir com o toque.

“Isso tudo é sono?” ela ouviu a voz grave perguntar e abriu os olhos, vendo Nathanaël sentado em uma cadeira ao lado dela. Estava tão cansada que nem ouvira ele se aproximar.

“Não consegui dormir direito.” resmungou sem levantar a cabeça, ainda sentindo os dedos dele passando pelo meio dos seus cabelos “Se continuar fazendo isso eu vou dormir.”

“Ué, mas não era o que você tava tentando fazer?” ele sorriu de canto e Marinette franziu o nariz na direção dele.

Depois de tanto tempo sendo amiga de Nathanaël, Marinette descobrira que ele tinha um lado divertido que não mostrava a quase ninguém, provavelmente por causa da timidez que o assolava. Muitas noites eles haviam conversado horas ao telefone sobre a dificuldade que ele tinha de se relacionar com outras pessoas por ter medo de falar algo que não devia ou se comportar de alguma forma que as pessoas julgassem estranho, mas Marinette entendia e respeitava os limites dele, e talvez fosse justamente aquilo que o fizera se abrir tão facilmente com ela.

“Já terminou o trabalho de História?” a pergunta de Nathan fez Marinette gemer dolorosamente.

“Por favor, não me lembra disso.” ela fechou os olhos, aproveitando o cafuné. Não queria pensar naquele maldito trabalho.

“Mas é assim tão difícil?” Nathan franziu a testa na direção dela.

“Mais do que parece.” ela finalmente ergueu a cabeça e ele recuou o braço “Eu já comecei umas vinte vezes, mas não consigo terminar nunca!”

“Quer que eu faça pra você?” Nathanaël perguntou, apoiando o cotovelo na mesa e repousando o queixo na mão, espiando-a em meio às mechas ruivas, mas quando Marinette estava prestes a responder, uma voz explodiu à frente dos dois.

“Você não vai fazer coisa nenhuma, Nath!” os dois ergueram os olhos para ver Alya com as mãos na cintura e uma expressão furiosa no rosto.

“Não estraga minha felicidade, Alya!” Marinette atirou os braços sobre a mesa e se apoiou em uma posição de derrota.

“Pára de mimar ela, Nath! Quantas vezes você já fez trabalhos pra Mari? Ela tem que aprender a se virar!” Alya quebrou o quadril e olhou recriminadamente para Nathanaël, que se encolheu sob o olhar ameaçador.

“Eu só ofereci.” Nathan sacudiu os ombros e olhou para Marinette que franzia as sobrancelhas como se pedindo para que ele não desistisse.

“Eu tô vendo essa cara aí, Mari! Você faz esse beiço pro Nathanaël e ele faz tudo pra você! Você não tem vergonha?” Alya bateu com um caderno na cabeça de Marinette, fazendo-a gemer e Nathanaël riu.

“Tá tudo bem, Alya!” ele disse sorrindo para Alya “Eu não me importo.”

“Ela é quem tem que se importar!” a ruiva apontava para Marinette “Ela deve ter feito um ou dois trabalhos de História só durante o ensino médio todo, porque é sempre eu ou você que fazemos tudo!”

“Vocês estão sendo muito injustos comigo.” Marinette fez uma careta e cruzou os braços à frente do peito, fazendo Alya suspirar pesadamente e Nathan rir novamente.

“Você nunca vai aprender nada desse jeito, Mari!” Alya gemeu com a expressão suplicante de Marinette e jogou as mãos pro alto em sinal de rendição “Você sabem o que fazem! Vou lá na cantina pegar um café, querem alguma coisa?” Alya perguntou para os dois, que sacudiram a cabeça negativamente “Então se comportem, já volto.” ela deu as costas, saindo da sala.

Nathanaël se levantou da cadeira, colocando novamente a mão na cabeça de Marinette e abaixando-se a lado dela, a bochecha quase encostando na dela.

“Não conta pra ela, mas eu já fiz um trabalho extra pra você, levo na sua casa mais tarde.” Nathan sussurrou próximo ao rosto de Marinette e os olhos da garota acenderam em alegria.

“É sério? Você é demais, Nathan!” Mari sorriu abertamente e abraçou o pescoço do ruivo que corou na mesma hora.

“Você tem andado bem cansada na última semana, né? Eu sei que não tem sido fácil lidar com essas coisas.” Nathanaël murmurou, abaixado na altura dos olhos de Marinette enquanto indicava a classe de Adrien com a cabeça, fazendo Marinette erguer as sobrancelhas. Por mais incrível que parecesse, Adrien agora era o menor dos seus problemas “Mas eu tô aqui, tá?” o ruivo sorriu com carinho “Pra qualquer coisa que precisar.”

Marinette sorriu de volta para Nathanaël sentindo o coração aquecer. Ele sempre aparecia nas horas que ela mais precisava com palavras de conforto para lhe oferecer, e ainda assim ela escondia um mundo inteiro do qual ele não fazia parte. Pior do que aquilo, havia colocado ele em risco junto com todas as outras pessoas que amava. Marinette sentiu a culpa consumi-la quando pensou que não merecia pessoas tão boas e franziu a testa para conter a vontade de chorar que lhe arrebatou.

“Que cara é essa? O que houve?” Nathan deixou as sobrancelhas caírem sobre os olhos em preocupação, puxando novamente a cadeira e posicionando-a á frente de Marinette, virando o encosto para a frente e montando sobre ela com uma perna de cada lado.

“Nada, eu só tô cansada.” Marinette murmurou enquanto voltava a cruzar os braços sobre a mesa e apoiar o queixo sobre eles.

“Mari.” Nathanaël inclinou a cabeça “Eu te conheço melhor do que isso, olha o jeito que você tá.” ele estava com a testa franzida em preocupação.

“Que jeito?” ela ergueu os olhos para ele.

“Desse jeito.” ele cruzou os braços e franziu a testa com uma careta, fazendo Marinette rir.

“Deixa de ser idiota.” Marinette bateu no braço dele com o punho fechado e inflou as bochechas em indignação.

“Eu aqui preocupado e você me xinga e me bate!” Nathanaël coçou o braço e fingiu uma expressão de dor, mas em seguida um sorriso tímido se abriu novamente sobre os lábios “Mas se for pra te ver sorrir de novo, prefiro continuar sendo idiota.”

Marinette não conseguiu conter o sorriso. Nathanaël era um amigo muito melhor do que ela podia desejar, e sempre conseguia lhe fazer sorrir, de um jeito ou de outro. Desejou, por um segundo, contar tudo para ele, mas algo no fundo dos seus pensamentos a impediu, temendo que ele se envolvesse demais e acabasse se machucando. Se o silêncio pudesse protegê-lo, ela silenciaria.

“O sorriso eu já consegui, agora que tal me contar o que tá passando nessa sua cabecinha?” Nathanaël cutucou a testa dela com o indicador, fazendo-a piscar em reflexo.

“Eu tô bem mesmo, não dá bola.” ela sorriu na direção dele.

“Você não me engana, Cheng.” um dos cantos dos lábios dele se ergueu junto com uma sobrancelha e ela precisou segurar um sorriso com a expressão dele, suspirando. Ele nunca desistia.

“Nada, eu só...” ela tentou terminar a frase, mas as palavras morreram em sua garganta.

“Você só...?” ele a incentivou a continuar.

“Eu só acho que não mereço vocês.” ela baixou os olhos para a própria classe, demorando-os sobre os riscos na madeira.

“Vocês quem?” Nathan olhou para Marinette sob um ar de curiosidade.

“Você, Alya, meus pais” Marinette suspirou pesadamente, baixando o rosto “Vocês são muito bons pra mim.”

“Hey, não deixa essas coisas entrarem na sua cabeça” Nathanaël colocou a mão sob o queixo de Marinette, elevando o rosto para olhar nos olhos dela, a expressão séria “ Você não merece só a gente, Mari. Você merece o mundo todo.”  

Marinette entreabriu os lábios em surpresa, sentindo o coração acelerar. Não conseguia tirar os olhos de Nathan. Em qualquer outra situação, ela teria rido da frase dele, mas a profundidade no tom das palavras haviam pego Marinette de surpresa. O sinal da escola tocou e as pessoas começaram a chegar aos poucos, sentando-se em seus lugares, mas os olhares de Nathanaël e Marinette não se desviaram um do outro, até que ele abriu um sorriso e passou a mão nos cabelos ruivos, jogando as mechas para trás e suspirando enquanto erguia-se, colocando a cadeira que sentava de volta no lugar. Nathan abriu os lábios como se fosse dizer algo mas fechou-os, reabrindo novamente a seguir.

“Eu vou ir pro meu lugar.” ele se justificou enquanto colocava as mãos nos bolsos e parava à frente dela, os olhos turquesa ainda franzidos de preocupação. Marinette sabia que não era aquilo que ele havia planejado dizer para ela, mas se ele não havia dito, tinha seus motivos “Você vai ficar bem?”

“Vou sim, obrigada, Nathan.” ela sorriu tranquilamente.

“Mais tarde eu passo na sua casa pra levar o trabalho de História, pode ser?”

“Pode sim! Eu vou comprar uns pães pra gente tomar café!” Marinette falou se animando com a idéia.

“Comprar pães? Da última vez que eu olhei os seus pais ainda tinham uma padaria.” Nathanaël segurou um riso.

“Eles foram viajar, e você sabe que o fogão e eu nunca fizemos as pazes desde a última vez.” Marinette projetou os lábios em um beiço e Nathanaël riu, curvando-se enquanto lembrava do dia em que ela esquecera uma chaleira no fogo por tanto tempo que a água secou e a fumaça invadiu a casa inteira.

“Por favor, me espera antes de colocar a água no fogo.” Nathan ainda ria e Marinette acabou se contagiando, deixando o sorriso escapar. Não conseguia ficar chateada quando ele estava por perto “Até mais tarde, Mari.”

“Até mais!” Marinette abanou sorrindo e Nathanaël sumiu às suas costas no exato momento em que sentiu algo vibrar no seu bolso.

Marinette puxou o celular e viu que tinha uma mensagem na caixa de entrada de um número desconhecido. Olhou em volta antes de abri-la e franziu o nariz quando leu as palavras na tela.

[Você prometeu que ia me manter informado. Onde você está?]

Chat Noir. Ela espalmou a mão no rosto. Havia esquecido completamente dele, e pelo jeito também havia esquecido de adicionar o nome dele aos contatos do celular. Adicionou o número sob as letras “CN” e segurou um riso ao pensar no que Alya diria se soubesse que ela andava trocando mensagens com um cara que vagava pelas noites de Paris de máscara e roupa preta. Ela com certeza ia adorar fazer uma matéria no jornal sobre aquilo. Bateu os dedos nas letras do teclado na tela do celular, escrevendo a mensagem.

[Estou em aula, estou bem. Não se preocupe.]

[Aula? Você conseguiu dormir?]

[Dormi um pouco sim.]

[Tá bem, se cuida.]

Marinette bloqueou o celular e guardou-o de volta no bolso enquanto via Alya se aproximar com um copo de café quase vazio.

“Com quem você tava conversando?” Alya sentou-se enquanto perguntava.

“Com a minha mãe.” Marinette mentiu enquanto puxava os materiais da bolsa escolar “Ela saiu de viagem hoje de manhã.”

O silêncio de Alya fez ela erguer o rosto e procurar os olhos da amiga. Alya estava com os olhos arregalados e os lábios entreabertos em uma expressão de choque.

“Quê foi? O que houve?” Mari perguntou olhando para os lados e procurando o motivo do choque.

“Você deixou a sua mãe ir viajar?”

“Ué, claro. Por que não deixaria?” Marinette deu de ombros sem entender o espanto de Alya.

“E o ensopado que você me prometeu!?” Alya gemeu com os olhos franzidos e o corpo inclinado na direção de Marinette.

“Ai Alya, ela faz na volta.”

“Eu queria tanto aquele ensopado.” Alya choramingou sorvendo o último gole do café e Marinette riu, abrindo o caderno à sua frente enquanto o professor de Matemática entrava na aula.

Os dois primeiros períodos passaram rápido apesar do cansaço que Marinette sentia. Ela fez o máximo de esforço para se manter concentrada nas matérias, já que não tinha muito tempo para estudar fora dali, e aquilo também a ajudaria a tirar todas as preocupações que a estavam consumindo em sua vida como Ladybug. No final das contas, não era tão ruim ter ido à aula. Esse pensamento atravessou sua cabeça no exato momento em que viu Adrien entrar na sala e fazê-la mudar de ideia.

Ele atravessou a sala de aula calmamente e sentou-se na classe ao lado dela sem olhá-la, mas Marinette o espiou pelo canto dos olhos o tempo todo. Ele vestia uma calça jeans azul escura, uma camiseta preta lisa com uma estampa branca e um casaco de couro preto. Os cabelos loiros estavam molhados e rebeldes, como se ele recém tivesse saído do banho e a respiração era um tanto ofegante como se tivesse chegado correndo à escola. Ela percebeu quando ele se aproximou que a estampa na camiseta dele era o desenho de um leão rugindo e revirou os olhos. Ali estava Adrien Agreste, achando que era o macho alfa da face da Terra.

O terceiro período era de História, e Marinette passou o tempo todo suspirando e pensando em como se sentia culpada em ter Nathanaël sempre fazendo seus trabalho. Ela precisava dar um jeito na sua vida. A voz da professora soou enquanto escrevia no quadro, acordando-a de seus pensamentos.

“Por favor, abram na página 53. Quero que vocês façam uma leitura desse texto e me digam pelas informações citadas que período da Revolução Francesa ele representa.” Marinette grunhiu quando ouviu as palavras ‘Revolução Francesa’. Aquilo a estava perseguindo, definitivamente.

“Marinette.” a voz grave soou ao seu lado e ela girou a cabeça para encontrar o olhar de Adrien “Você trouxe o livro de História?” Marinette olhou-o por vários segundos antes de entender realmente a pergunta que parecia não fazer sentido saindo dos lábios dele, e sacudiu a cabeça positivamente “Posso sentar com você?”

“Não.” ela respondeu secamente, virando-se novamente para a frente “Senta com a Alya.” apontou para a ruiva, que sacudiu a cabeça negativamente, como se Adrien fosse responsabilidade de Marinette, não dela.

“Por favor.” Adrien pediu mais uma vez, as mãos unidas em uma prece “Senão eu vou ter que sentar com a Chloe.”

“Isso não parecia problema pra você antes.” Marinette respondeu lambendo a ponta do indicador folheando o livro, fingindo estar distraída com as páginas.

Adrien suspirou pesadamente e baixou o rosto para a própria classe. Marinette olhou-o de canto de olho e o viu erguer a cabeça procurando Chloe. Bem no meio da testa dele, uma ruga de angústia se aprofundava.

“Tá bem, que inferno.” Marinette grunhiu vendo a expressão de Adrien mudar para um sorriso aberto no mesmo instante “Mas fala com a professora ou ela vai achar que eu que esqueci meu livro.”

Adrien ergueu a mão e explicou a situação para a professora que aceitou a proposta dos dois usarem o mesmo livro, contanto que fizessem cada um seu trabalho. Ele puxou a classe e encostou-a ao lado da de Marinette, que colocou o livro sobre a divisão das duas para que ambos pudessem ler. No momento em que ele se aproximou, Marinette arrependeu-se imediatamente de ter aceito trabalhar com ele. O cheiro de sabonete e xampu que ele emanava invadiu o ar à sua volta, cercando-a como uma cobra que amordaça uma presa inofensiva.

Adrien virou o rosto para ela, sorrindo em agradecimento por ter emprestado o livro, os olhos verdes brilhando em calmaria. Ele baixou os olhos, concentrando-se no texto, mas ela não conseguia tirar os olhos dele. Passou as mãos no rosto, sentindo o cansaço acumulado nos músculos.

“Tá tudo bem?” ele perguntou sem olhar pra ela e Marinette se perguntou como ele conseguiu perceber que havia algo errado sem nem erguer os olhos do livro.

“Sim, sim. Só tô pensando no trabalho que tenho que entregar amanhã.” ela mentiu, mantendo.

“Nem fala, não fiz nada ainda.” Adrien gemeu sem tirar os olhos do livro.

“Nem eu.” Marinette franziu o nariz e viu Adrien virar-se para ela com um sorriso debochado no rosto “O que foi?” ela perguntou ao ver a expressão dele.

“Nada, só é bom poder falar com você sem sentir que tô correndo risco de vida.” ele riu baixinho e Marinette franziu a testa, fazendo esforço para não rir também.

“Não baixa a guarda, nunca se sabe quando pode acontecer.” ela olhou ele de canto e ele inclinou a cabeça na direção dela enquanto continuava rindo.

Há anos ela não o via rir daquele jeito. Há anos não o via tratá-la como uma garota normal. E Marinette sentiu os olhos lacrimejarem quando viu ali, sentado ao seu lado, o Adrien que havia perdido quatro anos atrás. Uma sensação quente parecida com saudade sacudiu seu coração, acordando algo que estava adormecido há muito, muito tempo.

 

Não, Marinette.

De novo não.



Notas finais do capítulo

Espero que tenham gostado, não deixem de favoritar e comentar se puderem ♥
Vou tentar voltar ao prazo dos capítulos novos dia sim e dia não, não se preocupem! ^^



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