Dépendance escrita por KarenAC


Capítulo 14
Capítulo 14 - Sopro


Notas iniciais do capítulo

Só avisando que tô postando mais tarde porque precisei parar de tremer antes.
Tá avisado.



Quando o futuro deixou de ser uma esperança e se tornou uma ameaça?

Chuck Palahniuk

 

“Temos que tirar essas pessoas daqui.” Chat Noir disse enquanto corria até uma mulher na primeira fileira de cadeiras vermelhas acolchoadas do Teatro Adyar.

Ladybug cerrou os dedos com força na volta do ioiô. Onze pílulas. Era tudo o que ela tinha, e não era o suficiente nem para a primeira fileira.

“A gente precisa achar a bomba!” Ladybug bradou na direção de Chat.

“Não, isso é perda de tempo. Precisamos focar no que temos mais chance de resolver.” ele falou calmamente, como se estivesse em transe, a cabeça agindo muito mais rápido que seus impulsos enquanto examinava o colarinho das pessoas na plateia. Ladybug ergueu as sobrancelhas ao ver o que ele estava fazendo.

 

Ele quer saber se é um truque.

Se eles estão com a Papillon.

 

Ladybug suspirou pesadamente, pensando que ainda tinha muito o que aprender. Ela confiava demais no que lhe diziam.

“Joaninha” a voz de Plagg a acordou de seus devaneios “Usem a Tikki. Ela pode ajudar.”

Ladybug girou o pescoço rapidamente, direcionando o rosto para olhar Tikki que ainda pendia desacordada, enrolada por correntes, e correu até o palco calculando a distância entre o solo e a cadeira. Arremessou o ioiô, prendendo-o em volta da grossa cadeia de anéis de ferro que Ladybug calculou ser resistente o suficiente para segurar as duas. Então, puxou o fio duas vezes para se assegurar que estava bem preso.

“Ladybug, não! É muito perto do tanque!” Chat gritou da borda do palco, mas ela apenas franziu a testa e ergueu as pernas do chão.

Ladybug apoiou um dos pés na borda do tanque e impulsionou o corpo para cima, dobrando os joelhos no exato momento em que seus pés quase tocaram o ácido, escalando o cordão do ioiô a seguir. Atrás dela, Chat esfregou as mãos no rosto em alívio vendo ela prender uma perna em cada lado da cadeira, como se montasse a cavalo na frente de Tikki, e se agarrar com uma das mãos no fio do ioiô acima da cabeça das duas.

“Tikki! Tikki, acorda!” Ladybug aninhou a mão direita na bochecha de Tikki, percebendo o rosto que parecia plácido mas tinha profundas olheiras marcadas sob os olhos “Tikki, por favor! Nós precisamos de você!”

“Ladybug, coloca a escuta no ouvido dela.” Plagg pediu calmamente e Ladybug obedeceu, encaixando o dispositivo na curva da orelha de Tikki no exato momento em que a corrente desceu mais uma vez. Ladybug estava segura apenas por uma mão, e o desequilíbrio foi inevitável.

Chat Noir viu a corrente descer trinta centímetros em um solavanco e Ladybug balançar, perdendo a estabilidade. No segundo seguinte, notou que ela estava de cabeça para baixo, agarrada firmemente com as coxas nas laterais da cadeira, e as pernas de Chat fraquejaram sob o corpo ao ver os cabelos escuros pendendo na direção do tanque de ácido. Ele nunca conseguiria pegá-la daquela distância, e a imagem das consequências lhe causou náuseas.

“Puta merda.” Chat praguejou, sentindo o coração parar por um segundo, e precisou tocar o peito para ter certeza que ainda estava respirando. Se ele não infartasse aquela noite, provavelmente viveria para sempre.

Ladybug firmou as pernas na volta da cadeira, agarrando-se com ambas as mãos na corda do ioiô que ainda estava enrolada nas correntes. No instante em que impulsionou o corpo para cima, os olhos dela encontraram o azul das íris de Tikki, e ela precisou respirar fundo para não começar a chorar ali mesmo ao ver a amiga acordada.

“Você veio.” Tikki falou em um meio sorriso, e Ladybug sentiu sua visão turvar com as lágrimas.

“Claro que eu vim!” Ladybug abraçou Tikki com força e afastou-se em seguida “Nós precisamos soltar você!”

“Eu e o Plagg damos um jeito nisso. Você e o Chat tem que tirar essas pessoas daqui.” Tikki respondeu seriamente e Ladybug percebeu que sem toda a maquiagem e as roupas coloridas ela parecia muito mais madura.

“Eu só tenho onze pílulas, Tikki!” Ladybug olhou para Tikki e em seguida para Chat, esperando uma solução, mas ele sacudiu a cabeça negativamente.

“Tem outro jeito” Tikki começou “Lá!” ela ergueu a cabeça na direção ao alto da parede no fundo do salão e Ladybug semicerrou os olhos, percebendo uma pequena abertura no andar dos camarotes “Aquela é a sala de projeção, por onde eles dissolveram o Akuma no ar.”

“Por isso eu não achei marcas no corpo deles.” Chat disse pensativo, referindo-se à plateia.

“Cinco pílulas devem ser o suficiente.” Tikki assentiu e prosseguiu, olhando fixamente para Ladybug “A fórmula do antídoto também é estável pra inalação. Abre as cápsulas e dissolve o pó no líquido do vaporizador. Rápido!” Ladybug concordou em um movimento rápido de cabeça, saltando acrobaticamente em direção ao solo para logo em seguida correr para fora do palco.

“Chat! Fica de olho nela!” Ladybug gritou enquanto passava por Chat

“Toma cuidado. Por favor.” a voz rouca chegou aos ouvidos dela como uma cobrança da promessa que ele a tinha feito assumir, e ela parou brevemente para olhá-lo.

“Você também.” ela sorriu e voltou à corrida.

Ladybug passou pelo corredor entre as cadeiras sentindo o coração preso na garganta, o rosto focando à frente e a mente sobrevoando os corredores que Chat havia desenhado na tablet, a adrenalina acessando cada canto de sua memória. Seu calcanhar girou rapidamente para subir a escada que apareceria à direita antes mesmo de ela vê-la, e seu corpo foi jogado para cima, os pés pulando os degraus de três em três. Ao chegar ao topo, virou à direita novamente, e seus lábios ergueram-se em um sorriso reflexo ao enxergar a pequena porta branca no corredor curvo, não pensando duas vezes antes de puxá-la e abri-la sem diminuir a velocidade da corrida.

A sala era minúscula e ao fundo uma complexa máquina encontrava-se encostada na parede, o que ela assumiu ser o vaporizador. Ladybug passou a língua pelos lábios ressecados na corrida, tentando controlar a ofegância e o tremor nas mãos. Um bloco de plástico era o centro da máquina que estava sobre uma alta mesa de ferro, ladeada à esquerda por um recipiente de vidro dividido no meio por uma placa transparente. Metade dele continha líquido e a outra estava vazia. Ela aproximou o rosto do receptáculo, inspirando apenas para certificar-se que o conteúdo da primeira divisória de vidro era mesmo água.

“E esse vazio era onde estava o Akuma.” ela afirmou para si mesma, percebendo uma fina linha seca nas laterais do vidro que indicava que o recipiente estava cheio há não muito tempo atrás.

Ela segurou o ioiô nas mãos trêmulas, demorando alguns segundos para abri-lo. Enquanto girava o objeto na mão, espiou pela abertura da sala de projeção querendo saber como Chat e Tikki estavam, mas o espaço era tão pequeno que ela não conseguia enxergar nada. A sala era quase claustrofóbica de tão fechada, e o som pouco se propagava através das paredes grossas, possivelmente para impedir que quem a usasse durante os shows não atrapalhasse a plateia.

Ladybug sentiu o ioiô abrir com um estalo entre as mãos que chacoalhavam e suavam frio. Ela colocou-o sobre a caixa principal da máquina, apoiando-o enquanto retirava as cápsulas de antídoto das pequenas divisórias uma a uma, abrindo-as e dissolvendo com cuidado o conteúdo de cada uma dentro da água.

“Merda.” ela amaldiçoou quando a terceira cápsula estourou no meio dos dedos trêmulos que não controlaram a força, desperdiçando o pó sobre seus pés.

Ela se odiou por deixar o nervosismo tomar conta de suas ações. Respirou profundamente, lembrando das técnicas de meditação. Seis cápsulas a menos depois, o pó branco se misturava vagarosamente na água enquanto Ladybug procurava o que acionava a máquina, até notar a presença de um brilhante botão preto na lateral direita do aparelho. Levou a mão até ele, hesitantemente. Fechou os olhos quando sentiu o dedo descer sobre o botão e a máquina ativar, borbulhando imediatamente o líquido no recipiente de vidro e lançando um vapor branco para fora da máquina.

No andar de baixo, Chat Noir via Tikki se contorcendo cuidadosamente em meio às correntes, inspirando e expirando para adaptar a musculatura e utilizar as articulações a seu favor. Ambos sabiam que qualquer movimento em falso poderia acionar o detonador, mas Chat sentiu um fio de suor escorrer por baixo de sua máscara negra quando notou que a cadeira estava ainda mais perto do tanque e que Tikki não tinha muito tempo. Plagg estava em silêncio já há algum tempo na escuta, após Tikki tê-lo xingado uma meia dúzia de vezes por pressioná-la.

Um som metálico vibrou pelo ambiente e o chiado do vapor adentrou o salão, indicando que Ladybug havia conseguido diluir as cápsulas. Chat respirou profundamente, aliviado, e focou a visão para o alto, onde Tikki estava prestes a soltar as pernas das correntes e livrar-se. Ele virou-se para a plateia, onde algumas pessoas começavam a se mover nas cadeiras. Sabia que deveria guiá-las para fora do prédio, mas não queria deixar Tikki sozinha.

“Vai!” Tikki gritou notando a hesitação dele “A gente precisa evacuar o prédio antes do ácido chegar até o cadeado, ou vamos todos morrer aqui dentro!” os olhos dela estavam vermelhos de cansaço e suas olheiras profundas indicavam que ela estava agindo em instinto puro.

“Eu consigo quebrar a corrente, a gente pode impedir a explosão!” Chat bradou de volta, a calma sendo quebrada pelas palavras de Tikki.

“Não! Esse detonador é ultrassensível! Um movimento em falso e a gente pode botar tudo a perder.” Tikki respondeu soltando uma das pernas vagarosamente do meio da correntes.

“Ela tem razão.” Plagg confirmou pela escuta “Eu já mandei o resto do pessoal cercar o perímetro e avisei a polícia. A essa hora eles já evacuaram os prédios em volta. O pior que vamos perder vai ser o teatro.”

“Vai, Chat! Tira eles daqui!” Tikki ordenou uma última vez, terminando de se soltar, e Chat obedeceu girando nos calcanhares.

Ele correu até a plateia, vendo algumas pessoas começarem a recobrar a consciência e os ajudava a levantar das cadeiras de estofado vermelho.

“O que aconteceu? Onde eu estou?” um homem alto no meio da plateia perguntou na direção de Chat, com um olhar confuso, olhando em volta enquanto limpava a saliva no canto da boca com as costas da mão.

“Atenção, senhores!” Chat gritava em frente ao palco “Vocês foram sequestrados e trazidos pra cá, mas estamos aqui pra ajudar vocês! Por favor, saiam pelas saídas de emergência nas laterais do palco!” ele acenava com as mãos para cima, indicando as saídas de emergência. Não podia dizer que havia uma bomba no prédio, ou o pânico tomaria conta de todos e as consequências seriam piores “Rápido, por favor!”

Chat Noir viu as pessoas demorarem a reagir, mas logo começaram a se erguer e sair. Ele ajudava os mais idosos e pessoas que ainda não estavam completamente conscientes a caminhar, apoiando-os sobre os ombros e alcançando a conhecidos e familiares para que pudessem ser levados para fora. Chat girou o pescoço na direção de Tikki no exato momento em que ela estava pousando os pés sobre o chão da madeira escura no palco, livre da cadeira acima do tanque. Ele viu quando ela encostou a lateral do corpo no vidro do tanque de ácido e impulsionou-se com os pés, tentando movê-lo, mas ao que Chat tinha calculado mentalmente, aquele tanque cheio devia pesar cerca de uma tonelada. Mesmo com os dois empurrando juntos, seria impossível movê-lo.

Chat Noir foi até Tikki, vendo que ela ainda não havia desistido, e colocou a mão em seu ombro, sacudindo a cabeça negativamente. Não tinha jeito. Não tinha solução. Tikki ergueu os grandes olhos azuis na direção dele, a testa franzida e os lábios crispados de quem estava prestes a chorar.

“Esquece isso, Tikki. A gente dá um jeito depois.” ele olhou para baixo, percebendo que ela era muito mais baixa que ele, e sorriu tristemente “Vamos tirar o resto dessas pessoas daqui.”

No andar acima, na sala de projeção, Ladybug viu o líquido com o antídoto borbulhar, fazendo o vapor sair em um chiado alto enquanto a máquina tremulava trabalhando, e sorriu tão abertamente com alívio que seu maxilar estalou. Ela ouvia o coração pulsando nos ouvidos, mas logo seu sorriso sumiu quando virou de costas para sair e viu a porta fechada atrás de si. Ela tinha certeza que a tinha mantido aberta. Colocou a mão na porta, empurrando-a com as duas mãos, mas a madeira nem se moveu. Atirou o corpo, forçando-a, mas ela não cedeu. Os chutes também não funcionaram. Era como se algo muito pesado a estivesse mantendo emperrada.

“Você se importa demais, Ladybug.” a voz masculina soou abafada do outro lado da porta “Esse é o seu ponto fraco.”

“Quem é você?” ela gritou, socando a ponta com a lateral dos punhos fechados “Abre isso!”

Uma risada ressoou do outro lado, debochando, quase como se estivesse se divertindo, e ela apoiou os antebraços na porta, golpeando a madeira com força até seus músculos começarem a doer.

“Eu posso abrir, mas você tem certeza que quer ir lá fora?” Ladybug parou de bater na porta, ofegante “E arriscar todas as coisas importantes pra você?” ela sentiu as sobrancelhas erguerem em choque. Ele era da Papillon, com certeza.

“Eu estou saindo justamente pra proteger o que vocês estão destruindo, seus desgraçados!”

A gargalhada que saiu como resposta foi tão alta e repentina que ela sentiu-se dar um passo para trás em reflexo, como se estivesse se afastando de um animal perigoso.

“Que língua afiada, Ladybug! Isso não é palavreado digno de uma dama. Muito menos de uma dama tão respeitada por todos como você.” ele riu novamente, dessa vez mais baixo.

“Cala essa boca! Você não sabe nada sobre mim!” ela golpeava a porta, forçando-a com o próprio corpo, até que resolveu se afastar para atingir a madeira com o ioiô. Talvez quebrando a porta ela conseguisse uma abertura para sair de lá.

“Minha querida joaninha” o tom de sarcasmo escorria pelas frestas da porta e atingia os ouvidos de Ladybug “Eu sei mais sobre você do que você imagina.”

Ela não conseguiu responder. Do que ele estava falando?

“V-Você está blefando!” ela sentia-se confiante, mas a gagueira denunciava seu nervosismo.

“Será que estou mesmo, Marinette?”

Uma vertigem a golpeou na cabeça, e ela precisou se apoiar na porta para não cair, as lágrimas beliscando enquanto acumulavam nos olhos que ela não conseguia piscar. Ela tentou falar, mas sua boca abriu e fechou, e a voz não saiu. Suas mãos tremiam. Seus pés formigavam.

“O que você quer de mim?” a voz raspava na garganta, arranhando como se ela estivesse engolindo vidro.

“Na verdade, diferente do que você deve ter escutado por aí, nós da Papillon somos muito compreensivos.” a voz saiu séria, mas ela conseguiu sentir o tom de sarcasmo no meio das palavras “Então, por conta disso, estamos dispostos a manter a sua identidade em segredo caso você trabalhe pra nós.”

“O q-quê?” ela perguntou, esperando que ele repetisse o que havia dito e lhe desse tempo para pensar, para entender o que estava acontecendo.

“Nós temos tentado te contatar já há algum tempo, mas digamos que tem sido... difícil.” Ladybug percebeu que a voz saiu incerta, quase trêmula. Aquilo era raiva? Frustração, talvez?

“Do que você tá falando?” ela falava enquanto sentia a cabeça latejar como se tivesse levado uma pancada na nuca.

“Desde que notamos o seu potencial temos tentado te trazer pro nosso lado, inclusive um dos nossos melhores agentes foi ordenado a te colocar para dentro da organização.” ele fez uma pausa, como se pensasse o que dizer a seguir, e continuou “Você é uma garota esperta e conseguiu se desviar das nossas investidas, mas isso só nos faz querer você mais ainda.”

“Se eu sou tão importante por que vocês estavam tentando me matar?” ela bradou na direção da porta “Por que estavam tentando roubar o antídoto?”

“Como se rouba algo que é seu?” ela ouviu ele grunhir do outro lado, como se estivesse exausto “Essas cápsulas foram tiradas de dentro da Papillon por um dos seus, Ladybug. Elas foram roubadas de lá. Era nossa única chance de reverter os efeitos indesejados do Akuma, e a Miraculous nos tirou isso.” as palavras saíram amargas “E ninguém estava tentando te matar. Peço mil desculpas em nome da Papillon se ficou parecendo isso, mas nós estávamos apenas tentando te capturar. Você vale mais viva do que morta pra gente.”

“Usando um franco-atirador!?” ela juntou forças e bradou, para a seguir ouvir a risada do outro lado da porta.

“As balas não eram pra matar você. Acredite, se fossem, você não estaria aqui agora.”

Ladybug estava imóvel, mas sua respiração era ofegante como se estivesse correndo uma maratona de muitos quilômetros.

“Nós te daremos os detalhes pessoalmente, mas eu posso prometer que você só tem a ganhar com essa proposta.” Ladybug se afastou quando notou algo silvar por baixo da porta, percebendo um cartão preto chegar a seus pés com um número de telefone gravado em branco “Essa é uma linha segura e exclusiva.” Ela notou que novamente ele sorria entre as palavras “Pra você perceber o quanto é importante, o chefe fez questão de guardar uma linha só pra você, Ladybug.”

Ela piscou tentando manter o raciocínio ativo, as palavras dele ecoando pelas paredes da sala como um sonho distante e os olhos cravados no pequeno retângulo branco a seus pés.

“E se eu disser que não?” ela ergueu o rosto como se pudesse ver quem estava do outro lado, como se pudesse olhar nos olhos dele e desafiá-lo.

“A Papillon vai destruir tudo que você ama.”

Ladybug baixou a cabeça e sentiu os joelhos dobrarem sob o corpo, afundando-se no carpete vermelho. Ela procurava soluções, cavando no pouco de raciocínio que lhe restava em meio ao desgaste emocional, mas o pavor a tomava nos braços e a abraçava, sufocando as palavras no meio das cordas vocais, como se uma mão agarrasse seu pescoço e a impedisse de respirar.

“Por que você não abre a porta e fala isso na minha cara?” ela ameaçava, mas suas mãos tremiam incontrolavelmente ao lado dos braços, e só piorou quando ele riu “Você é um covarde!”

“Eu sou só uma agulha no palheiro, Ladybug. Não sou páreo pra você. Mas posso ter orgulho de dizer que os eventos de hoje foram arquitetados por mim, sim.”

Tudo à volta de Ladybug era silêncio, mas dentro de sua cabeça seu próprio nome ainda ecoava, saído dos lábios da mesma pessoa que havia planejado todo aquele terror dentro do teatro, sequestrando Tikki e pendurando-a acima de um tanque de ácido.

“Tudo o que aconteceu aqui hoje foi planejado por mim, incluindo o fato de vocês terem soltado a Tikki, e deixamos vocês interferirem porque era a única maneira de te interceptarmos. Se quiséssemos que a sua amiga fosse morta, nós nem teríamos feito aquela primeira ligação.” a voz dele tinha um tom de vitória “Como eu já disse, nós somos compreensivos. Vamos esperar a sua resposta até o final do mês.” Ladybug quase conseguia imaginá-lo sorrindo, confiante por tê-la nas mãos.

No próximo segundo, ela ouviu os passos do outro lado da porta se afastarem, mas pararam não muito longe antes de continuar.

“E caso algum dos seus amigos te convença a mudar de ideia, pergunte ao Chat Noir sobre a Farfalle. Pergunte o que eles tem escondido de você sobre a Miraculous. Acredito que a história vai ajudar a te convencer.” ele seguiu andando e os passos desapareceram, deixando-a afogada em um silêncio aterrorizante.

 

Eles sabem que eu sou.

Sabem onde eu moro.

Sabem quem é a minha família.

Meus amigos.

Sabem quem eu sou.

Sabem que eu sou.

 

De todas as armas que alguém poderia usar contra ela, aquela era a pior de todas. E depois daquela noite, ela sabia que eles não estavam brincando. Que a Papillon não pensaria duas vezes antes de causar mal para as pessoas com quem ela importava. Antes de matar alguém. Tikki, Plagg, Alya, Sabine, Tom, Nathanaël, Adrien.

 

Adrien.

Adrien.

 

Ela não sabia o motivo, mas Adrien continuava na lista das pessoas com quem ela se importava. Continuava lá, o nome escrito em letras pequenas e riscado muitas vezes, mas ainda lá. Ainda tatuado no coração dela.

Ela levou uma das mãos lentamente até a porta, empurrando-a, e a madeira cedeu facilmente sob seus dedos, rangendo enquanto abria. Ele a havia soltado para tomar sua decisão. Ladybug juntou o cartão no meio dos dedos e ergueu-se devagar, cambaleante, andando pelo corredor sem ter certeza para onde ia. Tudo havia sido apagado de sua memória. Os mapas, os planos, os motivos de ela estar ali. Ela já não se importava mais. Seria melhor se morresse. Se aquela bomba explodisse embaixo de seus pés e a levasse embora dali.

Perto da saída do teatro, Chat Noir via a última pessoa sair, mas ainda não havia avistado Ladybug.

“Tikki, você viu a Ladybug?” ele gritou sobre a cabeça das pessoas que começavam a ser dispersas pelos policiais do lado de fora do Teatro Adyar.

“Ela não tá com você?” Tikki franziu a testa gritando em resposta do outro lado do grupo de pessoas, e Chat não pensou duas vezes antes de virar-se e correr de volta para dentro do teatro.

Chat Noir atravessou o salão e remeteu um olhar rápido até o palco, vendo metade das pernas da cadeira onde Tikki estava sendo corroídas pelo ácido no tanque, mas não parou de correr até alcançar as escadas para o segundo andar, os olhos procurando pelo uniforme vermelho. Um sorriso radiante abriu-se no rosto dele quando avistou Ladybug caminhando em sua direção, mas suas sobrancelhas caíram sobre os olhos pesadamente quando notou a maneira com que ela andava. Os ombros estavam baixos, curvados sobre o tronco derrotadamente, o rosto baixo para o chão e os passos incertos, como se não tivesse pressa em sair dali.

“Ladybug!” ele correu até ela e colocou as mãos sobre seus ombros, trazendo-a de volta ao presente.

Ela sentiu-se ser sacudida e ao erguer o queixo encontrou os olhos questionadores de Chat Noir sob a máscara negra. Ela demorou o olhar no rosto dele, imaginando se ele seria capaz de acordá-la daquele pesadelo horrível. Se seria capaz de tirá-la daquele inferno que a afundava mais e mais, sugando-a para baixo como um lamaçal de areia movediça. Ela sentiu as pálpebras piscarem e algo molhado descer pelo seu rosto. Era estranho. Ela não sentia nada. Não tinha dor, não tinha raiva, não tinha nada. E ainda assim, seu corpo lutava sob a camada anestesiada dos seus pensamentos.

Chat Noir arregalou os olhos ao ver as lágrimas descendo pelo rosto de Ladybug e em um ímpeto retirou as mãos do ombro dela. Quando baixou a cabeça para procurar ferimentos viu o cartão no meio dos dedos dela sobre e deu um passo para trás, trancando a respiração na garganta.

“Eles te pediram pra entrar pra Papillon.” Chat murmurou em uma afirmação, vendo-a assentir.

 

Está acontecendo de novo.

Tudo de novo.

 

“Vamos dar o fora daqui.” ele disse, agarrando o punho dela no meio dos dedos e se virando, mas não conseguiu seguir caminhando.

“Eu vou ficar. Não tenho mais forças para continuar.” ela murmurou, inclinando a cabeça para o chão e esfregando o cartão no meio dos dedos “Desculpa” ela ergueu os olhos, sorrindo tristemente na direção dele “Eu cruzei os dedos.”

Chat Noir fez uma careta de dor, como se tivesse levado um soco. Olhar para Ladybug ali era como se olhar no espelho quatro anos antes, e ele quase conseguia sentir novamente as mesmas sensações. O gosto amargo na boca. A perda de forças nos braços e pernas, os pensamentos de derrota girando na cabeça como um carrossel infernal, incentivando a desistir de tudo.

“Vamos.” ele insistiu novamente, puxando-a pelo punho, mas o corpo dela pesou sobre os calcanhares, e ela não se moveu, os olhos presos no chão.

Chat Noir lembrava de vê-la arriscar a própria pele por motivos nobres que ele nunca tivera, e amaldiçoou o mundo que destruía pessoas como ela. Que rasgava almas como a dela, retalhando-as por dentro até transformá-las em pessoas como ele. Ele não veria aquilo acontecer frente a seus olhos. Não de novo.

Rapidamente, Chat Noir empurrou Ladybug contra a parede e prensou os lábios nos dela, intensamente, sem pensar duas vezes. O toque macio foi aprofundado, e no próximo segundo ele notou que ela retribuía, aceitando-o, recebendo-o, reagindo. Ele então se afastou devagar, ainda sentindo o calor do beijo intenso sobre os lábios e deparou-se com os olhos dela se abrindo e olhando-o com o mesmo fogo que ele já vira ali tantas vezes.

“Você vai seguir vivendo, vai continuar resistindo.” ele falava como uma ordem ofegante próximo aos lábios de Ladybug, os antebraços apoiados na parede, um em cada lado da cabeça dela “Nem que eu precise soprar essa vontade dentro de você a cada dez segundos.” e tomou-a novamente pela mão, sentindo dessa vez ela colocar um passo a frente do outro e acompanhá-lo.



Notas finais do capítulo

Água de melissa pra todo mundo antes de dormir, tá?
Beijo no coração de vocês, até o próximo capítulo ♥