Dépendance escrita por KarenAC


Capítulo 12
Capítulo 12 - Omissão


Notas iniciais do capítulo

Desculpem a demora!
Eu tardo mas não falho ♥



É uma grande habilidade saber esconder a própria habilidade.

François La Rochefoucauld

 

Marinette sentiu as pálpebras piscarem algumas vezes antes de conseguir abrir os olhos. Sentiu uma agulhada na têmpora esquerda e levou a mão até a cabeça para conter a dor. Seus olhos flutuaram para a visão do teto escuro cheio de grossas vigas de ferro atravessadas que ela não reconheceu. Jogou o corpo para cima em um impulso e sentiu uma forte vertigem bater em sua cabeça e jogá-la de volta ao travesseiro.

“Cuidado, levanta devagar.” a voz grave, porém suave, retumbou próxima e ela semicerrou os olhos para adaptar a visão, até identificar Chat Noir sentado aos pés dela com os olhos cravados na tela de um laptop.

Marinette apoiou a mão direita ao lado do corpo e levou à esquerda até à cabeça, no mesmo local onde a têmpora ainda latejava, olhando em volta. Percebeu que estava no esconderijo de Chat, mas o cômodo parecia diferente. As mesas e computadores não estavam lá. Ela segurou a respiração quando olhou para baixo e não se viu dentro do uniforme de Ladybug.

“C-Como eu vim parar aqui?” ela perguntou, sentindo a gagueira entregar seu nervosismo.

“É uma boa pergunta, moça.” Chat respondeu retirando algo da boca e olhando-a curioso sob a máscara de visão noturna, e Marinette notou que ele comia um pirulito. O capuz cobria metade do rosto dele, mas ela conseguiu ver o maxilar dele contrair “Eu achei você caída aqui em frente. Você estava em pânico.”

Só então, ela percebeu onde realmente estava. Abaixo de si estendia-se um colchão de casal muito maior e mais alto do que o que ela tinha em casa, um cobertor macio e verde cobrindo-lhe o corpo até a altura do peito. A lateral esquerda do colchão estava apoiada na parede, e Chat estava sentado perpendicularmente à Marinette, com as costas apoiadas em um travesseiro alto contra a parede e as pernas esticadas sobre o colchão. Ela corou ao perceber que a ponta dos pés dela encostavam na lateral das coxas dele e que ambos estavam embaixo do mesmo cobertor.

Ao lado direito do colchão viu pilhas de livros cujas lombadas ela não conseguia ler daquela distância e lâmpadas pendiam de longos fios presos ao teto, iluminando o lugar com fracas luzes amarelas. Atrás da cabeceira deles, uma grande janela dividida em retângulos de vidro dizia que o dia lá fora estava prestes a dar lugar à noite.

“O seu nome é Marinette, não é?” a voz dele a chamou de volta à realidade, e ela sentiu os dedos agarrarem o cobertor verde sobre o colo em reflexo.

“Sim. E você é Chat Noir.” Marinette juntou toda a coragem do mundo e lançou-lhe um olhar desafiador.

Chat segurou a risada, mas não conseguiu conter o sorriso. Ali estava a Marinette que ele conhecia, segura e confiante mesmo nas situações mais absurdas.

“Então você lembra quando eu me apresentei.” ele teve que baixar o olhar novamente para a tela do laptop ou não conseguiria segurar a expressão de alívio em vê-la consciente.

“S-Sim.” ela mentiu. Lembrava de ter chegado ao beco, e depois tudo não passava de um borrão escuro e confuso.

“Está se sentindo melhor?” Chat perguntou, digitando rapidamente algo no teclado.

“Estou sim, obrigada. Desculpa atrapalhar o s-senhor.” ela se atrapalhou com o pronome, não sabendo exatamente como se dirigir à ele, mas a risada que ecoou pelo ambiente dizia que ele não esperava a maneira com que foi endereçado.

“Senhor não, Marinette. Nós temos praticamente a mesma idade.” ele olhou divertido para ela.

“Temos?” ela perguntou, erguendo uma sobrancelha “Como você sabe?”

Ele inclinou a cabeça para o lado sem tirar os olhos do laptop e ela seguiu o movimento, notando que no chão, aos pés do colchão, estava a carteira dela sobre a bolsa escolar.

“Você mexeu nas minhas coisas?” Marinette perguntou, sentindo o peito palpitar e se perguntando mentalmente se havia deixado algo lá dentro que entregasse sua identidade como Ladybug.

“É sério?” Chat olhou-a com incredulidade e seus lábios se curvaram em um sorriso que não alcançou seus olhos, voltando o rosto para a tela do computador enquanto sacudia a cabeça negativamente “Você é incrível.” ela notou que havia desaprovação na voz dele.

“O que você quer dizer com isso?” ela apertou o cobertor entre os dedos e sentiu a testa franzir quando notou que Chat Noir suspirou pesadamente, fechando o laptop e deixando a mão sobre a tampa enquanto falava, sem virar o rosto para ela.

“Você vem parar no meio do nada, eu te coloco aqui pra dentro, te ofereço meu colchão e meu cobertor e você me agradece me julgando por mexer nas suas coisas?” ele girou a cabeça para olhá-la em um tom acusatório.

“Gentileza não te dá o direito de mexer nas minhas coisas.” ela inclinou a cabeça na direção dele e encolheu as pernas, cruzando os braços sobre os joelhos e crispando os lábios.

“Eu acho que você não faz ideia da sua posição, Marinette.” ela sentiu um calafrio subir sua espinha quando seu nome saiu dos lábios dele em uma voz grave e o olhar verde caiu sobre ela. Por algum motivo, era como se ele tivesse poder sobre ela sabendo seu nome.

“Do que você tá falando?” ela desafiou o olhar dele, mas sentiu-se engolir a seco.

“Você sabe quem eu sou? Sabe onde está?” ele começou a empilhar as perguntas e ela notou que ele se moveu de onde estava inclinando-se na direção dela “Sabe se tem mais alguém aqui? Sabe se está segura comigo?”

No próximo minuto, Marinette percebeu a que ele se referia. Ali, ela não era Ladybug. Era só uma garota desconhecida que havia entrado no esconderijo de um vigilante. Um esconderijo. Um local que teoricamente ela não deveria saber que existia, pertencente a alguém cuja identidade deveria ser mantida em segredo a todo custo. Ela sabia demais e ele, com certeza, não deveria considerá-la de confiança. Sentiu o quadril mover-se para trás em reação ao perceber que ele rastejava sobre o colchão na direção dela como um felino que cerca sua presa antes de abatê-la.

“Você n-não me machucaria.” ela sentiu as palavras saírem de sua boca, mas não conseguiu acreditar nelas.

“Não?” ele a olhava seriamente por baixo das sobrancelhas enquanto se aproximava “Você não me conhece, como pode ter tanta certeza?.” as cordas vocais dele vibraram ameaçadoramente e Marinette puxou o ar e o trancou, como se estivesse prestes a mergulhar em um lago muito fundo.

Ela queria dizer que o conhecia. Que sabia que ele não seria capaz de ferí-la. Que vira a bondade e a gentileza no olhar dele, e que ele não faria aquilo, porém toda a confiança desapareceu no momento em que a parede gelada encontrou suas costas, lhe avisando que ela não teria mais para onde recuar enquanto ele avançava.

Chat Noir estava com o corpo sobre o de Marinette, ambos apenas separados pelo cobertor verde, os joelhos dela encostando em seu peito enquanto ela se encolhia contra a parede. Ele aproximou o rosto vendo-a arregalar os olhos e corar no momento em que os lábios dele entreabriram próximos aos dela, viu-a engolir a seco e cada músculo no corpo dela contrair, mostrando o quanto ela estava apavorada, mas o olhar azul continuava ali, impassível sobre o dele, fixo, desafiando-o, testando-o.

As pálpebras dela flutuaram, as pupilas dilatadas focadas no olhar dele sob a máscara de visão noturna, e ela sentia os batimentos cardíacos dele sobre os próprios joelhos, o peitoral encostando em suas pernas ao subir e se afastando ao descer com a respiração lenta sob o uniforme. Marinette percebeu a temperatura de seu corpo subir, e não sabia se a causa era o cobertor ou Chat Noir. Ou ambos.

Chat Noir gargalhou, cobrindo a boca, e se afastou, sentando novamente aos pés dela.

“Retiro o que eu disse, você não é incrível.” ele sacudia os ombros enquanto ria, espiando-a sobre o capuz negro em uma expressão cética “Você é inacreditável.”

Marinette ainda sentia o coração palpitar enlouquecidamente e o calor da respiração dele perto dos seus lábios quando notou que ele havia se afastado.

“E-Eu preciso ir. Está ficando escuro.” Marinette virou o corpo no colchão, enfiando desajeitadamente as sapatilhas cor-de-rosa nos pés enquanto corava.

“Está sim.” Chat disse olhando para a janela atrás deles com o olhar distante, e Marinette viu uma sombra de preocupação cruzar o rosto dele, mas não quis comentar.

Ela se levantou e notou que fora o colchão, a pilha de livros e as lâmpadas, o lugar não passava de um grande cômodo vazio. Em um canto distante, uma fonte de luz e a ponta de um corrimão branco indicavam que aquele era o acesso pela escada para o andar de baixo, e que eles estavam em um andar mais alto que a garagem que ela conhecia como Ladybug.

“Você dorme aqui?” ela perguntou enquanto ia até o lado dele e juntava a própria bolsa do chão, guardando a carteira e fechando o zíper.

“Às vezes.” Chat respondeu em um tom de quem não queria tocar no assunto, então Marinette não insistiu.

No momento em que ela girou o corpo para sair, algo segurou-a, e ela baixou os olhos para ver os dedos dele enrolados sobre o punho esquerdo dela. Chat Noir não havia erguido a cabeça, o que fazia com que ela não conseguisse identificar a expressão no rosto dele naquele momento. Todavia, colocando-se no lugar dele, ela entendeu as palavras no meio do silêncio.

“Você pode confiar em mim.” ela falou com seriedade, enquanto se virava na direção dele, mas ele não se moveu. Parecia estar avaliando a situação.

“Como eu posso saber?” ele disse em um murmúrio, sem levantar o olhar na direção dela.

“Abre o bloco de notas aí.” Marinette suspirou, apontando para o laptop, e Chat não se moveu por alguns segundos antes de largar o pulso dela e reabrir a tampa do computador, vendo a luz da tela religar à sua frente.

Ela se agachou, girando o laptop que estava sobre o abdome dele em sua própria direção e colocando as mãos sobre o teclado, começando a digitar. Chat Noir observava o brilho da tela refletindo na íris dos olhos dela e a leve ruga que cruzava a testa em concentração, demorando-se hipnotizado nos traços faciais delicados, sentindo os lábios subirem em um sorriso quando percebeu que, apesar de tudo, ela não havia mudado muito naqueles últimos quatro anos, e um farfalhar de borboletas percorreu seu estômago quando o toque dos dedos dela nas teclas transmitiam vibrações sobre os músculos de seu abdome.

“Pronto.” ela ergueu-se, e ele virou a tela, sentindo as sobrancelhas levantarem em surpresa “Está tudo aí. Meu nome completo, número de documentos, endereço, telefone.” ela suspirou, pensando se um dia se arrependeria daquilo “Tudo que você precisa saber sobre mim caso me considere um risco.”

Marinette olhou-o sob as pálpebras, vendo-o percorrer com os olhos as linhas que ela havia escrito no bloco de notas “Se quiser conferir com os meus documentos, eles estão aqui.” ela levou a mão até o zíper para abri-lo, mas parou quando viu Chat se mover, fechando o computador com um estalido e colocando-o sob o braço enquanto se erguia do colchão.

“Você precisa ter mais cuidado em quem confia, Marinette.” Chat a repreendeu, fazendo menção com a cabeça para que ela o seguisse.

“E você também.” ele ouviu a voz dela soar em suas costas e sorriu para si mesmo.

Inacreditável.

 

●  ●  ●  ●  ● 

 

Marinette passou pela porta da padaria e cumprimentou os pais antes de entrar em casa, explicando que havia chegado um pouco mais tarde pois ficara no atelier de costura terminando algumas peças. Odiava mentir para eles, porém seria bem mais complicado contar que tivera uma crise de pânico e fora parar no esconderijo de um cara desconhecido no meio de um beco de Paris. Sacudiu a mão no ar como se pudesse espantar os eventos daquele dia e andou até a cozinha, percebendo que sua mãe já estava com o jantar preparado.

A parte preferida de Marinette conforme o inverno ia chegando era comer o ensopado que sua mãe fazia. Na verdade, era a única coisa que ela considerava remotamente suportável sobre o inverno. Deixou o delicioso aroma entrar por suas narinas e serviu-se um generoso prato antes subiu para o quarto. Quando estava quase alcançando a escrivaninha onde normalmente sentava-se para jantar enquanto lia as notícias do dia, percebeu que seu celular vibrava na bolsa e atendeu com um sorriso quando viu o nome na tela.

“Oi, Alya!” Marinette enfiou uma grande colherada do ensopado na boca.

“Oi o caramba!” Alya gritou do outro lado da linha “Quê que tá havendo, Marinette? Você anda se comportando muito estranho!”

“Nada não, Alya, já te falei hoje cedo o que aconteceu! Tô com uma pilha de coisas pra fazer, isso tudo tá me sufocando.” ela percebeu que Alya silenciou por alguns segundos.

“Eu vi quando o Adrien e o Nathanaël saíram da aula atrás de você, Mari.” a ruiva colocou a informação na conversa casualmente, mas Marinette sabia que ela esperava uma reação.

“É, eles foram ver se eu estava bem, mas foi só isso.”

“Só isso? Tinha que ver a cara do Nathanaël quando ele voltou pra sala de aula. Parecia que estava prestes a explodir. A cara dele era quase da mesma cor do cabelo! Foi assustador.”

“Deve ter sido alguma coisa com o Adrien.” Marinette respondeu, enchendo a boca com mais uma colherada de ensopado.

“Você tá comendo enquanto fala comigo?” Alya perguntou e Marinette segurou um riso.

“Tô sim, ué.”

“É o ensopado da sua mãe?”

“Aham.” Marinette sacudiu a cabeça em sinal positivo, mesmo sabendo que a amiga não podia vê-la.

“Tá gostoso?”

“Uma delícia.”

“Eu te odeio, sabia?” Alya resmungou e Marinette riu, quase se engasgando. Sabia que Alya gostava do ensopado de sua mãe tanto quanto ela.

“Quer vir jantar aqui na sexta? Eu peço pra ela fazer de novo!” Marinette sorriu pensando na ideia. Sentia falta da presença de Alya para lhe animar, especialmente naqueles últimos dias.

“Você tá comprando meu silêncio com comida, Cheng? Acha que eu sou fácil assim?” Alya bradou do outro lado da linha, e Marinette teve que afastar o celular da orelha.

“Acho.” Marinette respondeu enquanto mastigava.

“Desgraçada, eu odeio quando você tá certa.” Marinette riu e Alya bufou “Mas você vai na aula amanhã, né?” o tom de brincadeira na voz da ruiva se transformou em preocupação.

Marinette parou a colher no ar antes de enchê-la novamente, deixando-a descansar no prato com cuidado. Aquela noite seria a noite em que ela iria buscar Tikki, a noite em que ela e Chat Noir iriam invadir o buraco onde a tinham escondido para arrancá-la de lá com unhas e dentes, e repentinamente todas as certezas sobre dia seguinte e futuro sumiram da cabeça de Marinette.

“Eu vou tentar, mas não sei.” ela respondeu hesitante.

“Marinette...” Alya murmurou no meio de um suspiro.

“Eu só tive um dia muito cheio hoje, e ainda preciso terminar esse trabalho sobre a Revolução Francesa.” Marinette gemeu com a verdade que brotava no meio de suas mentiras. Já era quarta-feira e ela só tinha até sexta-feira para entregar aquele trabalho.

“Eu já terminei o meu.” Alya respondeu, mas antes que Marinette pudesse dizer qualquer coisa, adicionou “E não, não empresto, você vai fazer o seu sozinha dessa vez, Mari!”

“Mas, Alya...” ela choramingou.

“Se você aparecer na aula amanhã eu prometo que penso duas vezes.”

“Isso é jogo sujo!” Marinette fez uma careta, sabendo que aquela possibilidade era praticamente nula.

“É sim, mas ainda assim é jogo!” Alya riu “Tá, vou te deixar aí com o seu ensopado antes que você tenha dor de barriga por causa da inveja que eu tô sentindo. Amanhã a gente se fala. Entendeu? Até amanhã!” Alya enfatizou a última palavra, mostrando a Marinette que fazia questão que ela não faltasse aula no dia seguinte.

“Tá bem, até amanhã!” Marinette riu e desligou, sentindo-se suspirar.

Já fazia alguns dias que não ria daquele jeito. Sentia falta das pessoas que a faziam rir. Sentia falta de Alya, de Tikki. Baixou a cabeça para o prato quase vazio e algo embrulhou seu estômago com os pensamentos, lhe tirando o resto de apetite. Ela baixou os olhos para o relógio de pulso que indicava 19h20.

Marinette levantou-se e foi até o meio do quarto, sentando-se sobre o tapete e cruzando as pernas embaixo de si, em posição de lótus, enquanto fechava os olhos. Havia aprendido a meditar com um dos seus primeiros professores de artes marciais e descobriu na meditação uma forma de esvaziar sua mente para que apenas pensamentos que ela permitia lhe ocupassem a cabeça. A técnica ajudava a aumentar os níveis de concentração e encontrar a paz que fugia dela nos últimos dias. Havia alguns meses que ela não meditava, e acreditou que a crise que tivera mais cedo talvez fosse uma das consequências daquilo.

Após cerca de meia hora de meditação, Marinette alongou o corpo, sentindo cada músculo agradecer o exercício e as articulações melhorarem a elasticidade. Precisava estar pronta para o que esta a por vir, fosse o que fosse.

 

●  ●  ●  ●  ● 

 

Chat Noir desceu os pés sobre as lajotas da cobertura do prédio da Miraculous, vendo que o vermelho do sangue da noite anterior não estava mais ali. Plagg havia insistido que limparia tudo sozinho, então Chat teve tempo de se concentrar no plano do resgate de Tikki.

“Plagg?” ele chamou sob o capuz enquanto caminhava agência adentro, sentindo o cheiro do material de limpeza que tomava o local.

“Aqui nos fundos!” a resposta veio de longe, e Chat seguiu o percurso do som, chegando até o depósito que antes servira de enfermaria para os ferimentos de Plagg.

Plagg estava com um lenço na cabeça e um pano pendurado na frente da cintura, guardando os materiais de limpeza nas prateleiras do armário. Chat estava prestes a rir com a visão, quando percebeu que o que servia como avental de Plagg estava manchado com marcas em vermelho, tingindo de sangue o tecido.

“Você tá machucado?” Chat perguntou se aproximando e Plagg olhou para baixo, percebendo a que Chat se referia.

“Não é meu.” a resposta foi seca, mas tinha um fundo de dor, e Chat franziu a testa, imaginando se enquanto Plagg limpava a Miraculous, se perguntara quanto daquele sangue era de Tikki.

Plagg tirou o lenço da cabeça e esfregou os cabelos morenos repicados, passando a mão no rosto a seguir, deixando transparecer o cansaço. Ele provavelmente levara horas limpando aquele lugar.

“Vou fazer um café, quer?” Chat ofereceu, indo até uma mesa no canto da sala principal da agência que, por um milagre, fora intocada, preservando a cafeteira.

“Nossa, o dia que eu negar café me dá um tiro.” Plagg removeu o avental da cintura e o jogou descuidadamente sobre uma das prateleiras do depósito, seguindo Chat e sentando-se na cadeira giratória que agora não tinha mais uma das rodinhas, erguendo os braços para o alto em um alongamento demorado.

“Eu estou com a planta do lugar aqui.” Chat puxou de dentro do uniforme negro um tablet, pressionando o dedo indicador na tela e digitando a senha para então girar o dispositivo e colocá-lo sobre a mesa à frente de Plagg, enquanto voltava para dar atenção à cafeteira “A rota do resgate está nas próximas imagens, é só arrastar pro lado.”

Os olhos verdes do moreno fixaram na tela do aparelho enquanto ele se inclinava e apoiava o cotovelo na mesa, descansando a testa sobre a palma da mão. Plagg confiava cegamente nos planos de Chat, mas lembrar que Tikki estava presa em um daqueles cômodos cheios de círculos e anotações fazia seu sangue ferver e sua cabeça latejar.

Plagg tinha plena consciência que Tikki não era uma dama qualquer em perigo. Ela podia ter a aparência inocente e o gosto por acessórios e roupas que aparentavam ingenuidade, mas ele sabia bem do que ela era capaz, e sentiu os lábios subirem timidamente em um sorriso quando levou insconscientemente a mão até o ombro esquerdo, esfregando sobre a roupa a larga cicatriz na pele que continha as lembranças do primeiro encontro deles.

“O que achou?” Chat largou o copo fumegante à frente de Plagg enquanto assoprava o próprio copo de café entre as mãos.

“Parece perfeito.” Plagg respondeu, recostando-se para trás na cadeira “Já chamou a joaninha? Precisamos colocar isso em prática antes do horário da entrega.” o moreno sorveu ruidosamente um gole do café quente, lançando um olhar que avaliava Chat sobre o copo, em meio a fumaça da bebida.

“Eu achei que você faria isso.” Chat Noir respondeu em um tom casual, mas Plagg notou algo de nervosismo sob as palavras.

“Eu?” Plagg jogou os pés sobre a mesa, inclinando-se para trás na cadeira e empurrando a tablet para o lado com o calcanhar “Achei que vocês já tinham mais... Como se diz?” Plagg fez uma pausa, olhando para o teto dramaticamente “Intimidade.”

“Ela é minha parceira de trabalho, Plagg. Não viaja.” Chat escondeu-se atrás de um gole no copo, mas enfiou a mão direita dentro do uniforme, tirando o celular do bolso.

“Tá bem, não tá mais aqui quem falou.” Plagg seguia bebendo o café, porém seus ouvidos prestavam atenção na voz de Chat ao telefone.

“Alô, quem fala?” uma pausa aconteceu “Ladybug, é o Chat Noir. Nós precisamos colocar o plano em andamento. Pode vir até a Miraculous?” o silêncio de Chat indicava que ela estava respondendo do outro lado da linha “Tá ok, estamos te esperando. Até mais.”

“Viu? Não foi tão difícil.” Plagg forçava um tom sério, mas Chat conseguia detectar o deboche no meio das sílabas.

“Ah, cala a boca, Plagg.” Chat guardou o celular dentro do uniforme.

“Falando em cala a boca” Plagg retornou à posição sentada na cadeira, voltando os olhos para o tablet “Você já falou com a Marinette?” Chat Noir gemeu em reflexo ao ouvir o nome de Marinette “Parece que sim” Plagg adiantou-se, sorrindo de canto “E parece que não foi muito bem.”

“Eu não falei com ela ainda.” Chat disse enquanto apertava levemente os dedos ao redor do copo agora vazio em suas mãos “Não do jeito que deveria falar.” ele suspirou pesadamente “E nem sei se vou conseguir.”

“Não dá pra te entender, Adrien.” Plagg provocou e Chat olhou-o recriminadamente por usar seu nome civil “Não foi por isso que você passou quatro anos na Itália comendo o pão que o diabo amassou?”

“Foi.” Chat dobrou o copo nas mãos, começando a abrir o plástico em tiras como uma banana sendo descascada “Mas eu fiz muito mal pra ela, Plagg. Mal demais.” ele sentiu a voz falhar e pigarreou para se recompor.

“Você sempre foi de meter os pés pelas mãos.” Plagg concordou com a cabeça “Mas se você não explicar exatamente o que aconteceu, ela nunca vai entender.” Plagg apoiou o cotovelo no joelho, inclinando-se na direção de Chat e olhando-o sob as sobrancelhas franzidas “E sabe que se não fizer isso, mais cedo ou mais tarde ela vai acabar sabendo pela boca de outra pessoa.”

“Você não ousaria.” Chat rugiu baixo, sentindo as cordas vocais vibrarem enquanto sua garganta sufocava sob o uniforme em nervosismo.

“Eu não!” Plagg jogou as mãos para cima, simbolizando que as armas que tinha nunca usaria contra ele “Mas o mundo dá voltas, bichano, e as vidas da gente se interligam de formas estranhas.”

“Ela tá muito longe desse mundo, Plagg.” Chat sentiu um suspiro sair em alívio com o próprio pensamento.

“Eu não apostaria minha vida nisso.” Plagg respondeu enquanto via Chat andar até a lixeira para descartar o copo de plástico rasgado.

Chat Noir lançou-lhe um olhar como se achasse que, de uma hora para outra, seu amigo havia enlouquecido completamente, porém sentiu a testa enrugar ao lembrar que a experiência de Plagg o ensinara a esconder informações importantes no meio de frases que, à primeira vista, pareciam não fazer sentido.

“Você sabe de algo que eu não sei?” Chat ergueu uma sobrancelha, cruzando os braços sobre o peito estufado.

“Eu sei muitas coisas que você não sabe.” Plagg sorriu mostrando os dentes, enquanto via Ladybug pousar silenciosamente na plataforma da cobertura atrás deles e adentrar a agência.



Notas finais do capítulo

Capítulo mais leve e com um monte de coisas escondidas nas entrelinhas que provavelmente vocês só vão entender mais adiante xD
Eu demorei mais pra postar porque tenho tido dores terríveis nas costas de tanto ficar em cima do computador ;____;

Mas vou fazer o máximo pra trazer o próximo capítulo o mais rápido possível!
Não esqueçam de favoritar e me dizer o que acharam!
Obrigada por lerem ^_____^