Collide escrita por Allie Próvier


Capítulo 9
9. Mágoa


Notas iniciais do capítulo

Devo frisar que fico cada vez mais LOCA com os comentários de vocês, hahahaha. Fico tão feliz que estejam tão envolvidas na história quanto eu estou!
Cá estou com mais um capítulo (CHEIO DE EXPLICAÇÕES, ALELUIA), espero que gostem. ♥
P.S: Tem música nesse capítulo, passarei a colocar mais a partir de hoje, pra dar mais clima, hahaha. Então, quando verem o nome da música en negrito, é só abrir em outra janela/aba pra ouvir enquanto lê!




CAPÍTULO 09

“Feche os olhos enquanto coloco meus braços ao seu redor

e faço de você inquebrável.”

Jamie Scott - Unbreakable

 

   Um novo bebê. Eu tinha um novo irmão, ou nova irmã, a julgar pela roupa toda rosa que o bebê usava. Então é por isso que meu pai tem insistido tanto para falar comigo. Lembro que quando meu primeiro irmão nasceu - seu nome é Lucas – há três anos, logo após ele e minha mãe se separarem, ele também insistiu bastante para falar comigo, mas eu consegui ignorá-lo até ele desistir. E agora, três anos depois, uma nova criança.

   Ele tentou falar comigo nesse meio tempo, mas eram ligações esporádicas. Ignorei todas, obviamente. Não queria saber dos seus novos filhos, muito menos dele.

   Saí do transe em que me encontrava quando ouvi Daniel chamando o meu nome. Levantei os olhos da tela do celular e o olhei, me sentindo um pouco aérea. Daniel segurava duas latinhas de refrigerante e me ofereceu uma, enquanto me olhava com curiosidade. Aceitei a bebida e voltei a olhar para o celular, mas quando Dan sentou-se ao meu lado, bloqueei a tela rapidamente e joguei o celular em meu colo. Abri a latinha no automático, com os olhos fixos na TV à nossa frente.

— Me diz. – ele disse de repente.

— Não.

— Então realmente tem algo. – ele ficou me olhando, enquanto eu bebia um gole do refrigerante gelado. – Allison, o que houve?

   Suspirei, balançando a cabeça negativamente. Eu não queria falar sobre aquilo. Na verdade, no fundo, eu queria. Mas eu sabia que no momento em que abrisse a boca para falar qualquer coisa sobre aquilo sairia uma avalanche de coisas e eu seria invadida por aqueles sentimentos novamente. Eu preferia ignorar, não pensar, fingir que não havia visto a foto, fingir que ele não existia, do que reviver aquilo tudo novamente.

   Daniel me observava de uma forma que me fazia ter vontade de me jogar sobre ele e pedir um abraço. Aquele olhar de “eu estou aqui” que ele também fez no Píer, quando saímos juntos pela primeira vez, ao me perguntar de quem eu gostava. Aquela expressão de que me ouviria desabafar sobre qualquer coisa, que me apoiaria, que estaria ali por mim. Mas ele não estaria. Seu afastamento era prova disso.

— Eu estou bem. – sorri levemente. – Não é nada.

— Eu já disse que você é péssima em mentir.

   Revirei os olhos, saindo do sofá e voltando para o quarto. Daniel desligou a TV e veio atrás de mim, correndo nas escadas. Assim que passei pela porta de seu quarto, ele entrou rapidamente, fechando a porta atrás de si. Algo me dizia que eu não conseguiria fugir dele.

— Você vai sentar aí e me contar. – ele disse, autoritário, apontando para a cama enquanto sentava-se na cadeira da escrivaninha, de frente para mim. – Há dias você está esquisita, até Eve veio falar comigo sobre isso, e você não diz qual é o problema.

— Eve foi falar de mim pra você? – perguntei, sentando na cama e olhando-o irritada. – O que vocês andam falando pelas minhas costas?

— Ela está preocupada. – ele disse, em defesa. – E eu também.

— Ah, jura? – eu ri com escárnio. – Realmente isso é notável. Você realmente parece bem preocupado comigo enquanto me ignora como se eu fosse um verme.

— Você é tão exagerada.

— Talvez. Mas você também é um péssimo mentiroso.

— Eu não estou mentindo. – ele suspirou. – Ally, por favor, conversa comigo. Eu sei que tenho sido um idiota, e não me orgulho disso, mas...

   Passei as mãos no rosto, respirando fundo. Aquela conversa e aquelas desculpas estavam piorando o meu humor. Ficamos em silêncio por um tempo, até ele levantar de onde estava e se sentar ao meu lado.

   Céus, eu precisava tanto, tanto conversar com alguém. Mas se falasse com Eve, ela viria com o discurso de sempre. E sem condições de ligar para a minha mãe. Primeiro, ela estava em outro continente. Segundo, eu jamais disse e jamais diria o que sinto em relação ao meu pai para ela.

   Daniel colocou uma mão sobre o meu ombro e eu afastei um pouco o rosto de minhas mãos, olhando para ele.

— Eu não vou conseguir falar com você olhando para mim. – murmurei.

Daughter - Youth

   Ele arqueou as sobrancelhas e pareceu pensar um pouco. Em seguida, levantou-se e foi até o interruptor do quarto. Apagou as luzes e o cômodo ficou totalmente escuro. Tateei a cama ao meu redor e senti sua presença próxima a mim. Senti a cama afundar onde ele esteve sentado antes e suas mãos tatearam sobre as minhas.

— Vem aqui. – ele disse baixinho.

   Daniel me puxou delicadamente para mais perto dele e quando vi, estávamos deitados lado a lado. Com o corpo virado para cima, olhando para o teto, se desse para enxergá-lo realmente. Daniel largou minhas mãos e eu as repousei sobre a barriga, suspirando. Só dava para ouvir nossa respiração.

— Pode falar. – ele disse. – Agora não posso ver seu rosto.

   Tentei evitar o sorriso que se espalhou pelo meu rosto, mas foi impossível. Ele era realmente esperto, e aquilo era realmente útil e reconfortante. Apertei meus dedos uns nos outros e mordi o lábio inferior.

— Há quatro anos, o meu pai traiu a minha mãe. – eu comecei. – O casamento deles já não estava muito bom, eles brigavam bastante, mas isso fez tudo ruir de vez. Eu não queria que eles se separassem, eu era bem próxima dele. Mas minha mãe quis o divórcio e ele aceitou. Foi morar em Carmel e eu continuei vivendo com a minha mãe. Um ano depois, ele se casou e sua nova esposa engravidou. Foi quando minha mãe decidiu se dedicar à fotografia e conseguiu seu emprego dos sonhos. Ele tentou entrar em contato comigo diversas vezes, mas eu sempre ignorei. Minha mãe ainda mantém contato com ele, para conversar sobre mim e o dinheiro que ele me manda, mas eu nunca mais falei com ele. Mas nos últimos dias ele tem insistido bastante, muito mais do que antes. E agora, na sala... – minha voz foi morrendo e eu engoli em seco, sentindo meus olhos arderem. – Ele postou uma nova foto no Facebook. Parece que nasceu mais um bebê.

   Daniel ficou em silêncio por um tempo, talvez esperando que eu dissesse mais alguma coisa, mas a história já havia acabado.

— Não tem vontade de conhecer seus irmãos? – ele perguntou baixinho.

   Senti um nó se formar na minha garganta e me controlei para não chorar. Não iria fazer isso, não aqui na cama de Daniel com ele ao meu lado.

— Sinto. – falei num fio de voz, torcendo para ele não notar como eu estava. – Mas ele tem uma nova família agora. Quando eu os vejo, a sensação que tenho é que não há espaço para mim novamente na vida dele.

— Ele é seu pai, Ally. Você sente falta dele e ele claramente sente a sua. – ele afirmou. - Você devia enterrar o passado e reatar a relação de vocês.

   Fiquei em silêncio. Uma lágrima rolou pelo meu rosto, se desmanchando em meu cabelo. Passei os dedos sobre ela para secá-la e funguei sem querer. Ótimo, estou chorosa e melequenta novamente. Daniel se remexeu ao meu lado e o senti deitar de lado, virado para mim.

— Qual é a mágoa que você guarda? – ele perguntou suavemente.

   Ele estava mais próximo de mim. Eu conseguia sentir o calor emanando do seu corpo, aquecendo o meu braço esquerdo.

— Nenhuma. – respondi rapidamente, baixinho.

— Mentirosa. – pude senti-lo sorrir um pouco, e fiz o mesmo.

   Pensei no que diria. De alguma forma estranha, eu sentia necessidade de ser totalmente sincera com Daniel. Era esquisito como eu sempre tentava disfarçar o que sentia e pensava quando conversava com Eve, mesmo confiando totalmente nela, e como sentia que não só podia – mas devia— ser totalmente sincera com Daniel. Era o mesmo que ser sincera comigo mesma. Eu sentia falta disso.

— É confuso. – falei, quase sussurrando. – Eu me senti tão abandonada quando ele se foi. Minha mãe viveu no automático por dias até se recompor, enquanto eu engolia tudo e fingia que estava tudo bem comigo para cuidar dela, mesmo que por dentro eu só desejasse que tudo voltasse ao normal. E quando ele se casou novamente e teve outro filho... Foi como se eu tivesse sido trocada. Por que ele não quis ficar comigo? Por que não pediu a minha guarda?

— Tirá-la da sua mãe naquele momento seria demais, Ally. – ele disse, também sussurrando. – Tanto para você, quanto para ela.

— Eu sei. – suspirei. – Mas fiquei muito tempo me perguntando por que ele nem ao menos quis. Ele nunca voltou para me visitar. Apenas ligava, e eu sentia que o fazia por obrigação. Eu amo o meu pai, Dan. – admitir isso fez minha voz embargar, tentei engolir o choro. – Sinto falta dele, mas ainda fico com isso na cabeça. Que ele podia ter voltado, podia ter me buscado em um sábado qualquer para tomar um sorvete ou qualquer coisa. Todos esses sentimentos me consomem e eu não sei o que fazer sobre isso. Eu não queria que ele ligasse para marcar data e horário, eu queria que ele me surpreendesse, que acordasse um dia e decidisse me fazer uma surpresa. Mas ele preferiu formar outra família. Fazer surpresas para outros filhos.

   Fechei os olhos com força, passando as mãos no rosto. Minhas bochechas estavam quentes, com certeza deviam estar vermelhas. Fiquei em silêncio, tentando controlar a respiração e me acalmar. Daniel ficou em silêncio ao meu lado, e quando sequei os últimos resquícios de lágrimas, senti um braço de Daniel passar por cima da minha cintura. Ele se aproximou mais de mim e agora seu abdômen encostava em meu braço esquerdo inteiro, enquanto eu sentia sua respiração batendo no topo da minha cabeça. Paralisei onde estava, me sentindo mais calma e mais nervosa ao mesmo tempo.

   Ele não disse nada, apenas ficou ao meu lado, respirando calmamente em meu cabelo. Prestei atenção no barulho suave da sua respiração, a única coisa que dava para ser ouvida no quarto escuro. Sua mão firme na minha cintura, me aproximando e prendendo a ele de uma forma que nunca fizeram antes.

   E de alguma forma, eu senti que era ali onde devia estar.

(...)

   Cheguei em casa e deixei a bolsa e as chaves em cima do sofá. Eu me dirigi até o banheiro, tirando a roupa no caminho, para tomar um banho. Tudo o que eu disse a Daniel preenchia minha mente, e eu ainda sentia seu toque na minha cintura. Eu não sabia o que pensar sobre tudo aquilo. Já não bastava o meu pai confundindo a minha cabeça, agora Daniel parecia não se decidir se ficava afastado ou se ficava próximo demais de mim.

   Aquilo estava indo longe demais, a começar por aquele beijo na minha cozinha. Senti um arrepio percorrer minha espinha, enquanto a água quente do chuveiro caía sobre mim. Daniel não parecia apaixonado por mim, definitivamente. Talvez estivesse querendo brincar comigo, já que aparentemente não havia mais ninguém disponível para ele. A não ser que ele adorasse aquelas meninas do fã-clube, com seus olhares ansiosos e sorrisos mostrando todos os dentes.

   Suspirei, me sentindo cansada. Só faltava isso. Daniel querer brincar comigo, já que perante todos nós já somos namorados, de qualquer forma. Eu devia ter especificado no começo de tudo que a imagem de casal seria apenas na frente das pessoas, e não entre quatro paredes também, quando estávamos apenas nós dois. Talvez, se tivesse feito isso, não tivesse acontecido tudo aquilo...

   Mas eu não posso negar que gostava. Tudo bem, eu era apaixonada por Benjamin e ainda sentia minhas pernas bambearem sempre que ele sorria e chegava perto de mim, ele era maravilhoso, mas uma garota tem o direito de se divertir também. Principalmente quando o cara por quem ela é apaixonada já namora uma menina maravilhosa e que parece a Pocahontas, enquanto você só parece... Bom, Allison Jones. Isso resume tudo.

   E ter um cara como Daniel me puxando, apertando, beijando e cheirando o meu cabelo era um ótimo remédio para baixa auto estima, devo deixar claro. Principalmente quando fazia séculos desde que me envolvi com alguém e só ficava babando pelo namorado de Mia pelos cantos, como uma maníaca.

   Se Daniel quer brincar, então vou entrar nesse jogo. Afinal, as chances de ele mostrar o mínimo de paixão verdadeira parece quase nulo. Eu definitivamente não consigo imaginá-lo apaixonado.

   Saí do banho minutos depois, me sentindo revigorada. Eu me sentia mais leve. Conversar com ele e expor tudo o que eu sentia realmente havia me feito bem. Vesti meu pijama e ouvi meu celular tocar na sala. O peguei enquanto penteava meu cabelo com os dedos de uma mão. Era uma mensagem de Daniel.

   “Minha tia pediu para a minha namorada não fugir amanhã, porque ela planeja preparar uma lasanha para o jantar que, segundo ela, minha namorada não irá resistir.”

   “Sua namorada está salivando enquanto pensa em lasanha.”

   “Fico imaginando você sozinha nesse apartamento.”

   Arqueei uma sobrancelha, intrigada com sua mensagem. Por que isso agora?

   “Sozinha, comendo macarrão instantâneo e assistindo filmes de adolescente dos anos 90. Eu não poderia querer outra vida. Só falta um gato.” – respondi.

   As pessoas tinham que parar de achar que eu vivia encolhida no escuro, mergulhada em um poço de tristeza e solidão, por morar sozinha. Às vezes era solitário, sim. E às vezes, em épocas de TPM, eu realmente me encolhia no escuro e mergulhava em um poço de solidão e tristeza, mas nada que Eve não resolva em dois tempos, aparecendo aqui ou me arrastando para a casa dela para eu me entupir de doces.

   Daniel respondeu com uma foto. Mostrava apenas as suas pernas vestidas em uma calça de pijama, com um pote de macarrão instantâneo em seu colo e à sua frente, na TV, passava O Clube dos Cinco.

   “Acho que somos almas gêmeas, querida.”— ele mandou após enviar a foto.

   Um sorriso se espalhou pelo meu rosto. Daniel parecia estar voltando novamente.

(...)

   Sexta-feira chegou deixando todos alvoroçados. Ia ter um pequeno festival de música no Dolores Park e Eve falava daquilo há dias, sempre perguntando se eu iria mesmo, porque ela me conhece bem. Sabe que eu digo que vou, distraída, e quando chega no dia eu desmarco tudo porque quero ficar deitada comendo bolo e vendo filmes ruins.

   Mas como eu já havia confirmado dezenas de vezes, não podia mais desmarcar. Mas eu precisava sair e fazer algo diferente, e gosto desses festivais. Até perguntei se Daniel gostaria de ir conosco ontem, quando ainda estava em sua casa (e depois de ter chorado no ombro dele no escuro), mas ele disse que não estava afim.

   Assim que cheguei do colégio, tomei banho e me arrumei. Estava terminando de arrumar a minha bolsa quando o meu celular tocou. Suspirei, sabendo quem ligava antes mesmo de olhar na tela. O celular parou de tocar e logo em seguida, começou de novo. Ele estava insistente.

   Fiquei parada, esperando a ligação cair na caixa postal novamente. Não demorou. Estiquei o braço sobre a cama para alcançar o aparelho e lá estavam: 2 chamadas perdidas de “Pai”.

   Fiquei olhando para a tela do celular por um tempo, sentindo certo desconforto. Lembrei de toda a minha conversa com Daniel no dia anterior. E sem pensar muito no que fazia, mandei uma mensagem para Leonard Jones.

   “Me liga às 23:30. Poderei atender nesse horário.”

   Não esperei sua resposta. Peguei minha bolsa, joguei o celular dentro dela no silencioso e saí do apartamento. Eu não sabia se faria aquilo realmente, mas ainda assim me senti mais tranqüila.



Notas finais do capítulo

Como lidar com Daniel, gente? ♥
Eu tô tão apaixonada por ele que escrevo as cenas dele com um sorriso todo bobo, sério, hahaha. Comentem o que acharam (e o que acham que vai acontecer)! :D



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