Collide escrita por Allie Próvier


Capítulo 8
8. Acolhida


Notas iniciais do capítulo

Ai, vocês são tão lindas, sério. Fico pulando de felicidade com cada um dos comentários, obrigada! ♥
Espero que gostem do capítulo!




CAPÍTULO 08

“Porque eu prefiro ficar sozinho,

mas você está fermentada em meus ossos.”

Jaymes Young – Habits Of My Heart

 

   Daniel se debruçava sobre o livro aberto na cama, apontando os cálculos com o lápis enquanto me explicava cada passo da montagem da fórmula. Na terceira linha eu sentia que iria ter uma síncope, me joguei de costas nas almofadas.

— Chega, pelo amor de Deus. – gemi, colocando as mãos no rosto. – Vamos dar uma pausa. Eu não agüento mais.

— Esse é o primeiro dia e você já está assim. – ele bufou, largando o lápis sobre o livro. – Você tem que correr atrás, Ally. Caso contrário vai repetir o ano.

— Eu vou correr atrás. – falei como se fosse um absurdo ele pensar que eu fazia o contrário. – Mas não agora. No momento eu quero apenas respirar com calma e comer alguma coisa.

   Ele revirou os olhos, esticando os braços e levantando da cama.

— Vamos descer, vou preparar algo para comermos.

   Eu o segui com prazer, agradecendo internamente. Era terça-feira, o primeiro dia de reforço. Resolvemos começar logo no dia seguinte após o Sr. Kyle conversar conosco. De início as aulas seriam na minha casa, mas como é uma zona de conforto, Daniel achou que não daria certo. Então, sugeriu que fossem em sua casa, assim não corria o risco de eu dormir em cima dos livros e cadernos.

   Ele era realmente bem ingênuo em relação a mim se acreditava nisso. Aquelas almofadas na sua cama eram confortáveis demais, e ele nem imagina que eu cochilei duas vezes enquanto tentava resolver um cálculo. Sorte que ele não percebeu, estava ocupado mexendo em algo no seu celular na hora.

   Tanya estava na cozinha preparando o jantar. Como sempre, a comida cheirava divinamente bem. Senti o estômago roncar e sentei em um dos bancos altos da bancada, enquanto Daniel ia até a geladeira pegar algo para comermos.

— Jantará conosco hoje, Ally? – Tanya perguntou, vindo até a bancada e pegando minhas mãos entre as suas, esperançosa. – Por favor.

   Olhei para Daniel, indecisa, e ele deu de ombros. Por ele tanto faz, como sempre. Aceitei o convite de Tanya, afinal, Eve estaria ocupada com a mãe hoje à noite e eu acabaria sozinha em casa. Tanya ficou animada por eu jantar com eles e foi até os armários, pegando ingredientes para alguma sobremesa que ela jurou que eu iria adorar. Sorri diante da sua animação. Ela parecia ser bem caseira, e gostava de cuidar de todos. Era muito carinhosa.

   Daniel preparou misto-quente para nós dois e eu o ajudei a levar os sucos de volta para o quarto. Voltamos a sentar na cama e ele ligou a TV. Passeou pelos canais enquanto eu abocanhava meu misto-quente e gemia de prazer. O queijo estava totalmente derretido, eu amava aquilo.

    Depois de cansar de procurar algum programa legal, Daniel acabou deixando em um filme qualquer de adolescentes. Assistimos em silêncio enquanto comíamos.

   Eu me sentia um pouco mais à vontade com Daniel, mas grande parte disso era porque eu me forçava a agir naturalmente. Tentava ao máximo esquecer tudo o que houve e parecer tranqüila, afinal, teria que me encontrar com ele todos os dias para estudar. Seria complicado se ficássemos muito estranhos um com o outro como antes. Daniel parecia pensar e fazer o mesmo.

   Mas, ainda assim, não voltamos ao que éramos antes.

   Eu estava terminando de beber meu suco quando senti o celular vibrar no bolso. O peguei distraidamente, sem tirar os olhos da TV. Quando desbloqueei a tela e abri o Whatsapp, paralisei.

   “Eu preciso falar com você, Ally. Atenda minhas ligações, por favor.”

     Respirei fundo, deixando o suco de lado e voltando a guardar o celular. Daniel recolheu a louça suja e deixou sobre a escrivaninha. Desligou a TV e resolvemos voltar aos estudos. Meu humor havia mudado totalmente. Ele me olhou de forma estranha, mas não perguntou nada. Tentei ocupar minha mente com números e esquecer a mensagem.

(...)

   O pai de Benjamin era absurdamente parecido com ele.

   Ben havia puxado os cabelos loiros de Tanya, mas os olhos claros e o sorriso definitivamente eram do pai. Antony chegou bem na hora do jantar, com uma expressão cansada, mas ficou feliz ao me conhecer. Parece que Tanya já havia falado sobre mim e ele estava ansioso para conhecer a “menina especial que conquistou o coração de pedra de Daniel”. Tudo que fiz foi sorrir, bem simpática.

   Ah, se eles soubessem...

   O jantar foi tranqüilo e divertido. Antony conversava bastante com os meninos sobre muitas coisas e estavam sempre rindo. Daniel era mais reservado, mas bem participativo e o peguei rindo de verdade diversas vezes. Isso não era tão comum quando estava perto de mim. Tanya conversava comigo sobre comida e lojas legais no centro da cidade. Ela me passou o endereço de uma loja legal de roupas e uma receita de mousse de chocolate. Ela me perguntou sobre minha família e contei vagamente sobre os meus pais. Nesse momento, Antony e os meninos prestaram atenção em nossa conversa. Falei bem rápido sobre a separação dos meus pais e foquei mais na minha mãe, contei sobre seu emprego e suas viagens.

— Você fica sozinha no apartamento? – Tanya perguntou, parecendo preocupada.

— Sim. – falei, sorrindo levemente. – Mas eu consigo me virar bem.

— Mas não é solitário? – ela perguntou.

— Pode ser perigoso também, você é só uma menina. – Antony disse.

   Olhei de um para o outro. Benjamin também me observava como seus pais e Daniel tinha a cabeça baixa, remexendo a comida em seu prato.

— É tranqüilo. – assegurei, me sentindo um pouco envergonhada com aquela atenção toda. – Na maior parte dos dias a minha melhor amiga fica lá comigo, ou eu durmo na casa dela.

— Se acontecer algo, pode confiar em nós, querida. – Tanya disse, segurando minha mão sobre a mesa.

   Apenas assenti, totalmente sem graça. Antony sorriu levemente para mim, concordando com a esposa. Logo todos voltaram a falar sobre os treinos dos Lions e o próximo campeonato. Fiquei observando-os em silêncio. Fazia muito tempo que eu não participava de um jantar em família assim. Tudo bem, eles não eram a minha família, mas eu me sentia bem com eles. Mais leve, mais tranqüila.

   No fim do jantar, ajudei Tanya a levar os pratos para a cozinha. Era o dia de Daniel lavar a louça, então resolvi ficar na cozinha para ajudá-lo.

— Pode ir para a sala, se quiser. – ele disse, começando a colocar os pratos na lava-louças. – Eu logo termino aqui.

    Neguei, ajudando-o a separar as louças. Acabou sendo realmente rápido. Comecei a secar as mãos e meu celular começou a tocar. O tirei do bolso e a palavra “Pai” piscava na tela.

   Ignorei a chamada e coloquei o celular de volta no bolso. Daniel ficou me olhando.

— Ignorando ligações dos admiradores secretos? – ele balançou as sobrancelhas.

— Quem me dera fosse isso. – murmurei. – Acho melhor eu ir.

   Daniel assentiu e saímos da cozinha. Ele me acompanhou até o quarto para eu pegar as minhas coisas e ficou me olhando em silêncio enquanto eu guardava meu caderno e os livros.

— Pode ficar mais, se quiser. – ele ofereceu. – Deve ser realmente chato ficar sozinha naquele apartamento.

— Já estou acostumada, Daniel. – sorri fracamente. – Mas obrigada, mesmo assim. Sua família é bem legal.

   Saímos do quarto e demos de cara com Benjamin no topo das escadas. Ele olhou para mim e sorriu. Aquele sorriso torto, que me deixava desnorteada.

— Já vai? – ele perguntou e eu assenti. – Vê se aparece mais vezes, é legal te ter aqui. Pode voltar quando quiser.

   Eu ia agradecer, mas Daniel me pegou pelo cotovelo e saiu me puxando escada abaixo. Benjamin riu e acenou para mim. Acenei de volta, enquanto tentava não tropeçar nos degraus. Quando chegamos ao fim da escada, puxei meu braço de volta e olhei brava para Daniel. Ele fingiu não perceber.

— Já vai, Ally? – Tanya perguntou. – Fique mais.

— Eu preciso ir, tenho que acordar cedo amanhã. – falei.

   Tanya me abraçou carinhosamente e beijou meu rosto. Prometeu fazer outra sobremesa gostosa para o dia seguinte, já que eu voltaria. Eu tinha a sensação de que ela gostava de conquistar as pessoas pelo estômago.

   Devo dizer que está funcionando e eu aprovo totalmente.

   Eu me despedi de Antony com um abraço rápido e Daniel me acompanhou até o carro. Como sempre, ele não desgrudou da minha janela até me ver colocando o cinto de segurança. Afastou-se do carro quando o liguei e acenou rápido, enquanto me observava ir embora. Pelo espelho retrovisor eu pude vê-lo ainda parado na calçada, observando eu me afastar. Quando eu estava virando a esquina ele começou a voltar para dentro de sua casa.

    E o desconforto no lado esquerdo do peito voltou aos poucos.

(...)

   Contei para Eve sobre as ligações e mensagens do meu pai.

   Eu não agüentava mais segurar e ela insistiu para que eu contasse o que estava acontecendo. Ao contrário do que pensei, ela me aconselhou a atender as ligações. Bati o pé e disse que não, mas ela continuava insistindo que eu devia encarar tudo de frente de uma vez.

   Eu estacionei em frente a sua casa e entrei com ela, para pegar algumas anotações de matemática que ela queria me emprestar, para me ajudar a estudar. Eu logo iria para a casa de Daniel para fazer isso, mas seria bom ter suas anotações para revisar depois. Vanessa me recebeu com um abraço apertado, como sempre, e me pediu para passar a noite lá. Eu falei que ia pensar e qualquer coisa ligaria para elas, mas eu sabia que não daria. Acabaria saindo da casa de Daniel tarde, se Tanya insistisse para que eu jantasse lá novamente (o que com certeza aconteceria) e não queria incomodá-las.

   Eve me deu suas anotações, explicou algumas coisas para que eu entendesse melhor a sua forma de escrita e organização e depois que guardei tudo em minha bolsa, ela ficou me olhando com as mãos na cintura.

— Você não vai me ouvir, vai? – ela parecia chateada. – Você nunca ouve a voz da razão.

— Exato. – sorri.

— Ally, por favor...

— Não, Eve. – eu a interrompi. – Sério, não quero pensar nisso agora.

— Tudo bem. – ela levantou as mãos, se rendendo. – Mas sabe que pode conversar comigo sempre que precisar.

   Eu a abracei, agradecendo. Eve era mais o que uma amiga para mim. Era uma das únicas pessoas que eu tinha na vida, era minha irmã. Eu a amava tanto que às vezes nem entendia.

   Cheguei rapidamente na casa de Daniel. Ele já me esperava sentado nas escadas que levavam à porta de entrada, mexendo distraidamente em seu celular. Levantou os olhos quando ouviu o barulho do meu carro e guardou o aparelho no bolso do casaco. Ele parecia mais a vontade hoje, de calça e casaco de moletom e uma blusa do Nirvana. Saí do carro com minha bolsa cheia com caderno, livros e apostila. Ele riu ao ver-me bufar ao pendurar a bolsa no ombro e estendeu a mão, tirando a bolsa de mim e carregando. Nem deu tempo de agradecer. Ele entrou em sua casa e eu o segui.

— Onde está Tanya? – perguntei, estranhando ela não ter aparecido para me receber.

— Saiu para comprar algumas coisas para o jantar. – ele respondeu, subindo as escadas na minha frente.

— Benjamin já chegou?

— Não. – ele respondeu, parecendo mais grosso do que o normal. – Por quê? Ansiosa para vê-lo?

   Revirei os olhos e fiquei quieta, para não mandá-lo à merda. Entramos em seu quarto e ele deixou minha bolsa sobre a cama. Seus livros e caderno já estavam abertos sobre ela.

   E voltamos para a doce matemática.

(...)

   Eu estava sentada no sofá da sala de estar, assistindo o noticiário, enquanto Daniel preparava um lanche para nós dois. Fiquei passeando pelo Facebook, entediada. Revirei os olhos várias vezes ao ver as fotos do pessoal do colégio e seus textos melosos para os namorados e amigos. Compartilhei algumas coisas bonitinhas que vi pela timeline e ainda ria de uma piada quando me deparei com uma foto.

   Meu dedo ficou parado no ar. Fiquei olhando sem piscar para a tela, tentando digerir o que via.

   Leonard Jones havia postado uma nova foto. Ele e sua esposa, ambos sorridentes, sentados em um sofá bonito. No colo dele, um garotinho de três anos que também sorria abertamente, com alguns dentinhos faltando. E no colo de sua esposa, um bebê vestido em uma roupinha rosa.

   Tentei evitar a sensação esquisita que se apossou do meu peito, mas foi impossível.

   Meu pai parecia feliz com sua nova família.



Notas finais do capítulo

E aí está mais um pedaço do mistério, hahahaha. Já dá para ter uma ideia do problema da Ally em relação a seu pai, né? No próximo teremos toda a explicação disso, junto com um momento BEM amorzinho entre ela e o Daniel, hehe. ♥
Comentem o que acharam do capítulo! :D



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