Collide escrita por Allie Próvier


Capítulo 7
7. Onde há fumaça...


Notas iniciais do capítulo

EU TÔ TÃO FELIZ!!!! hahahahaha.
Gente, sério, o último capítulo recebeu vários comentários e leitoras novas, eu tô muito animada com isso! Sejam bem-vindas e espero que continuem gostando, e se não gostarem, falem também que aí eu dou um jeito nisso! hahhaha.
Como agradecimento, resolvi trazer esse capítulo rapidinho, em menos de 1 dia, porque sim. ♥




CAPÍTULO 07

“Onde há fumaça, em breve terá fogo, o que poderia trazer má sorte.

Eu estive olhando muito pra você.”

Jessie Ware – Wildest Moments

 

   Eve falava algo sobre um trabalho que teria que entregar na próxima semana, mas eu não conseguia prestar atenção ao que ela dizia. Pisquei rapidamente, tentando focar o olhar na rua e parar de dirigir no automático, antes que acabasse nos matando. Eve parou de falar e ficou me observando, mas não disse nada. Ela não dizia mais nada nos últimos dias, na verdade. Geralmente ela me colocava contra a parede e insistia para eu dizer o que estava sentindo. Mas graças a Deus ultimamente ela tem me dado espaço.

   Quando eu estava indo para a primeira aula, senti meu celular vibrar no bolso da calça. Um arrepio percorreu minha espinha. Parei no meio do corredor e peguei o aparelho. Era o meu pai novamente. Engoli em seco e ignorei a chamada, outra vez. Ele não iria fazer tudo aquilo novamente, me fazer sentir especial e depois me deixar de lado.

   Para falar a verdade, eu já estava bem cansada de ser tratada dessa forma.

   Quando joguei o celular dentro da bolsa e levantei o rosto, dei de cara com Daniel. Eu estava de um lado da entrada da sala e ele do outro, de frente para mim. Alguns alunos entravam na sala, passando entre nós dois. Ele pareceu querer dizer algo, mas entrei antes que ele pudesse. Fui sentar perto da janela, como sempre, e ele sentou no outro lado da sala. A aula seguiu normalmente.

(...)

   O corredor poderia ser renomeado e passar a ser chamado de “ponto de encontro com Yui e Jane”, porque era exatamente isso que ele se tornou. Eu mal havia aberto o meu armário para guardar os livros e finalmente ir para casa, quando as duas apareceram ao meu lado de repente, com aquelas expressões de quem passa a vida se dedicando a infernizar a vida dos outros.

   Não é possível que elas não tenham mais nada de útil para fazer. Sério.

— O que é agora? – perguntei antes que elas dissessem qualquer coisa, sentindo meu sangue ferver. – Não podem me dar um minuto de paz?!

— Nossa, alguém está irritada hoje. – Yui riu. – Soubemos que você esteve na casa do Benjamin há alguns dias atrás.

— Para visitar Daniel. – resmunguei, com o rosto quase dentro do armário enquanto resgatava um pacote de balas perdido no fundo dele. – Por que?

— Por nada. – Jane sorriu sonsa. – Apenas achamos... Interessante.

— É bem interessante você namorar logo o Daniel, que é primo de Benjamin. – Yui despejou seu veneno. – Tem passe livre para ver Benjamin sempre que quiser, não é mesmo?

   Revirei os olhos, guardando as balas em minha bolsa.

— Também seria interessante se vocês calassem a boca. – falei, olhando para as duas com a paciência esgotada. – Eu estou farta de aturar vocês com essa merda. Vocês não me conhecem, não sabem nada sobre mim e nem sobre o que estão falando.

   Yui arqueou as sobrancelhas, sem desmanchar o sorriso cínico. Ela cruzou os braços, parecendo satisfeita com a minha irritação.

— Então nos deixe conhecer você, Ally. – ela pronunciou meu nome com uma falsa voz doce. – Diga, qual é o problema entre você e Daniel?

   Bati a porta do armário com força, para não acabar agarrando o pescoço dela. Jane pulou onde estava, me olhando com os olhos azuis arregalados.

— Eu não sei, Yui! – falei alto demais, atraindo alguns olhares. – Que merda! Por que não pergunta para ele? Aproveita e diz que eu também quero saber qual é a merda do problema dele!

   Eu não devia ter dito tantos “merda”. Se alguém da coordenação me ouvisse, eu estaria em apuros. Larguei as duas no corredor e saí a passos duros até o estacionamento, sentindo meu corpo trêmulo. Meus dias já vinham sendo uma porcaria e aquelas duas não me davam uma folga. Eu não sei por que inventei toda aquela história. Agora, com essa mudança de temperamento de Daniel, estava tudo ruindo novamente. Senti vontade de jogar tudo para os ares e deixá-las inventarem a merda que quisessem. Era a palavra delas, - duas garotas fofoqueiras que não me conheciam em nada – contra a minha. Dane-se minha imagem, dane-se o que Benjamin acharia, dane-se Mia e sua corja inteira.

   Eu já tinha os meus próprios problemas fora desse colégio, não era obrigada a aturar a vida de merda que aquelas duas provavelmente levavam para se preocupar tanto com o que eu fazia ou deixava de fazer.

    Desci as escadas que levavam ao estacionamento correndo, sem olhar direito por onde andava. Acabei esbarrando com força em alguém e levantei o rosto rapidamente, me desculpando. Senti meu coração pular dentro do peito.

— Eu estou bem. – Benjamin sorriu, mas seu sorriso desapareceu ao ver meu estado. – Você está legal?

   Apenas balancei a cabeça querendo fugir dele e lhe dei as costas, voltando a andar até o meu carro. Maldito cara bonito, maldito sorriso. Meu coração parecia querer sair pela boca. Era tudo culpa dele.

(...)

   “Eu vou daqui a pouco, estou terminando de arrumar minha mochila.” – digitei para Eve.

   “Ande logo, minha mãe comprou sorvete e aqueles pães de mel que você gosta (eca).”

   Eu sorri para a tela do celular e comecei a digitar uma resposta. Mas antes que terminasse, a campainha tocou. Fiquei tensa instantaneamente. Não estava esperando ninguém. Respirei fundo, deixando o celular de lado e andando devagar até a entrada. Olhei pelo olho mágico, tensa, e soltei o ar com calma quando vi que era Daniel.

   Mas o ar ficou preso novamente ao perceber que ele também não devia estar ali. Eu nem sei qual foi a última vez que ele pisou no meu apartamento, na verdade. Parece ter sido há décadas.

   Abri a porta totalmente confusa e ele levantou os olhos para mim. Os braços cruzados na frente do peito forte, um ombro encostado no batente da porta. Engoli em seco. Ele ficou apenas me encarando com um olhar duro, os olhos sempre verdes e bem claros agora mais escuros. Ele parecia irritado.

— Quer entrar? – perguntei num fio de voz.

   Ele nem me esperou abrir espaço, saiu passando por mim e esbarrando em meu ombro. Bem delicado. Foi direto para a sala e ficou parado, de pé e com as mãos nos bolsos da calça jeans, andando de um lado para o outro. Tranquei a porta e fui até ele.

— Qual é o seu problema? – ele perguntou.

   Oi? Eu devia fazer essa pergunta, não?

— Você que veio até aqui e está quase abrindo um buraco no meu chão. – arqueei uma sobrancelha, cruzando os braços. – Então, qual é o seu problema?

   Ele sorriu com escárnio, também cruzando os braços e parando bem na minha frente, a poucos centímetros do meu corpo. Pude sentir o cheiro do seu perfume e tive que levantar a cabeça para conseguir olhá-lo nos olhos.

— O meu problema, Allison, é que você não consegue segurar essa maldita língua. – ele falou entre dentes. – Por que mandou aquelas duas virem atrás de mim me fazendo perguntas imbecis?

— O que? – eu estava bem confusa. – Não mandei ninguém ir até você. Do que está falando?

— Yui e Jane vieram atrás de mim perguntando por que eu e você estamos “dando um tempo”. Tive que aturar aquelas duas agarradas no meu pé, com aqueles sorrisos cínicos e fazendo perguntas sem sentido. Sabia que, aparentemente, você pode estar querendo me trair com Benjamin? – ele riu novamente, sarcástico. – Aliás, já deve estar me traindo, pelo o que elas dizem.

   Passei as mãos no rosto, suspirando. Eu não imaginei que elas realmente fossem atrás dele. Parece que caçam um motivo qualquer para nos importunar.

— Você sabe como elas são. – respondi. – Desculpe por isso, não imaginei que elas fossem atrás de você. Elas vieram me perguntar sobre o nosso problema e eu só mandei elas perguntarem para você, não imaginei que realmente fossem fazer isso.

   Daniel bufou, dando-me as costas e andando pela sala, com uma expressão pensativa e irritada.

— É um saco ter que aturar tudo isso. – ele resmungou. – Não sei por que resolvi te ajudar.

— A porta está bem ali. – apontei, irritada. – Não precisa me aturar, Daniel. Se você quer que isso acabe, é só falar.

— Eu só estou dizendo que tudo isso é irritante, não sei por que você abaixou tanto a guarda a ponto de duas garotas que nem são próximas a você perceberem essa sua paixonite pelo Benjamin. – ele desconversou.

— Não é uma “paixonite”. Eu gosto dele há anos. Não desdenhe do que não sabe.

   Fui para a cozinha e ele veio em meu encalço, parecendo surpreso pelo o que eu disse. Abri a geladeira e peguei a garrafa de água com as mão um pouco trêmulas.

— Vai dizer o que agora? – ele riu, debochado. – Que Benjamin é o amor da sua vida? Sua alma gêmea? Você é idiota, Allison?

   Larguei a garrafa de água e o copo em cima da bancada, sentindo meu sangue ferver. Daniel estava mais insuportável do que nunca.

— O único idiota aqui é você, Sullivan! – falei, minha voz subindo cada vez mais. – Que age como uma criancinha mimada, que faz as pessoas se aproximarem de você para depois descartá-las como brinquedos!

— Oh, me desculpe se feri seus sentimentos, querida. – ele levantou as mãos, sarcástico. – A culpa não é minha se você se apega tão rápido a qualquer um que seja no mínimo legal com você. Três dias longe e você veio atrás de mim como uma menininha apaixonada.

   Arregalei os olhos, pasma. Ele realmente disse aquilo? Coloquei as mãos na cintura, ficando na frente dele e me controlando para não estapeá-lo.

— O único motivo pelo qual eu falo com você, Daniel, é porque eu sou apaixonada por outro. – falei entre dentes. – Caso contrário, eu juro que faria questão de nem olhar para a sua cara! Você é um arrogante, grosseiro e eu preferia que você nunca tivesse...

   Eu não soube quando aconteceu, muito menos como. Mas quando me dei conta do que acontecia, fiquei estática, em choque. Suas mãos seguravam meu rosto com força, enquanto seus lábios pressionavam os meus. Espalmei minhas mãos em seu peito, tentando afastá-lo, mas uma de suas mãos saiu do meu rosto e foi parar no meio das minhas costas, me puxando e apertando contra ele. Seus lábios mexeram sobre os meus, e não pude evitar retribuir. Senti um choque percorrer todo o meu corpo, enquanto minhas mãos agiam por conta própria e agarravam sua blusa.

   Daniel aprofundou o beijo e eu estremeci quando sua língua entrou em contato com a minha. Éramos mãos e línguas e eu não tinha idéia do que estava acontecendo. Ele nunca havia me beijado daquela forma, nunca havia me beijado de verdade.

   Minhas mãos foram em direção à sua nuca e envolvi seu pescoço com meus braços, enquanto ele envolvia minha cintura com suas mãos e me pressionava contra a bancada. Pude sentir sua pele esquentando contra a minha, seus lábios acariciando os meus em uma dança enlouquecedora. Minha mente nublou no meio de tudo isso e eu só sentia que devia corresponder a tudo aquilo.

   E tão rápido quanto começou, acabou. Daniel se afastou de mim bruscamente. Ficamos nos olhando com os lábios entreabertos e ofegantes. Ele me olhava parecendo confuso, e eu ainda sentia o seu toque nas minhas costas e cintura.

— O que foi isso? – perguntei rapidamente. – Você...

   Antes que eu pudesse falar qualquer coisa a mais, ele me deu as costas e eu só ouvi a porta do apartamento sendo aberta e, em seguida, ser fechada com força. Estremeci onde estava, me apoiando na bancada com as duas mãos. Levei os dedos aos lábios, tremendo da cabeça aos pés. Meu coração batia descompassado. Engoli em seco.

   Era totalmente errado, mas... Eu queria mais daquilo.

(...)

   Não tive coragem de contar sobre o beijo para Eve. Daniel sempre me beijava quando ainda ficávamos mais do que vinte minutos na presença um do outro fora do refeitório, mas eram sempre selinhos bobos. Ele nunca me segurou daquela forma, ou me puxou como se precisasse do meu toque. Eu já havia ficado com outros garotos, é claro. Nunca namorei, mas também não ficava trancafiada em casa sendo uma virgem imaculada.

   Quero dizer, virgem eu sou. Mas não tão imaculada.

   O problema é que nenhum outro cara me fez sentir tudo aquilo. Nunca havia sentido o choque pelo corpo, os arrepios, a sensação de ser desejada. Era intenso, quase sufocante, mas de uma forma boa. Muito boa. E eu não sabia o que pensar disso, porque era Daniel que havia me proporcionado tantas sensações novas e diferentes de uma vez só, como uma explosão. E eu estou muito, muito irritada com ele por tudo. Por estar sendo um idiota, por ter se afastado, por me dizer coisas grosseiras, por ser um babaca o tempo inteiro sem me esclarecer o motivo. Mas eu desejava tudo aquilo novamente, na mesma intensidade da raiva.

   Meu Deus, eu estou tão confusa. 

   O fim de semana passou como um borrão. Passei o sábado e domingo na casa de Eve, fingindo que estava tudo bem e me esforçando para parecer tranqüila, mesmo que por dentro eu estivesse um turbilhão de emoções. E na manhã de segunda-feira, fomos para o colégio. Ignorei quatro chamadas do meu pai nesse meio-tempo. Eu não conseguia lidar com tudo isso acontecendo ao mesmo tempo.

— Allison. – o Sr. Kyle, meu professor de matemática, me chamou de repente. – Venha até aqui.

   Voltei à realidade e percebi que ele havia me chamado mais de uma vez. A sala já estava praticamente vazia, os últimos três alunos passavam pela porta. Mas Daniel estava de frente para a mesa do professor, parecendo tão confuso quanto eu. Peguei minha bolsa e meu livro, temerosa, e fui até eles.

— Suas notas estão cada vez piores. – Sr.Kyle disse para mim, parecendo preocupado. – E seu desenvolvimento nas aulas não está sendo muito bom.

— Me desculpe, eu estou com alguns problemas... – falei, sabendo que aquilo não era uma boa desculpa. – Eu vou me esforçar.

— Eu espero que realmente faça isso. – ele disse. – Por isso, gostaria que Daniel te ajudasse.

   Daniel arregalou um pouco os olhos para ele e em seguida suspirou, olhando para cima. Engoli em seco.

— Não é preciso, Sr. Kyle. Eu posso estudar sozinha. – garanti, mas sem confiança alguma, porque eu realmente sou horrível em matemática. – Prometo que vou melhorar.

   O professor balançou a cabeça, descrente, e voltou seu olhar a Daniel.

— Eu gostaria que você desse um reforço a ela, Daniel. Posso te dar pontos extras e de participação por isso. – ele disse.

   Olhei para os dois, surpresa. Daniel deu de ombros, parecia um pouco descontente, mas aceitou. Sr. Kyle mandou nós dois nos organizarmos e nos liberou em seguida. Eu e Daniel saímos da sala lado a lado, ambos mudos. Abracei meu livro contra meu peito, sem saber se devia falar algo depois do que houve entre nós dois. Estar perto dele era estranho.

— Temos que ver os dias e horários. – ele disse. – Pode ser depois da escola, se estiver tudo bem pra você.

— Sim.

— E do jeito que você está indo mal, acho que é melhor nos encontrarmos todos os dias. Pelo o menos até a próxima avaliação, para te deixar em dia em todas as matérias que foram dadas até agora.

— É.

   Daniel parou de andar. Percebi quando estava a alguns passos à frente. Também parei onde estava e me virei, olhando para ele. Ele me observava com uma sobrancelha arqueada e as mãos nos bolsos do casaco. Desviei o olhar do seu, sem graça, e fiquei olhando para o chão.

   Daniel respirou fundo e revirou os olhos, voltando a andar em seguida. O segui até o refeitório, onde nos encontramos Eve já sentada e comendo um hambúrguer. Ela nos olhou desconfiada quando chegamos juntos e semicerrou os olhos para mim, com um leve sorrisinho nos lábios. Engoli em seco, apenas balançando a cabeça disfarçadamente, enquanto me sentava.

— Pode ir sentar com os seus amigos. – falei para Daniel quando ele se sentou ao meu lado. Ele me olhou irritado. – Se quiser.

— Eu quero ficar aqui. – ele foi curto e grosso.

   Apenas assenti, sem saber o que fazer. Ele voltou a levantar e foi pegar algo para comer. Escondi o rosto nas mãos, tentando voltar a agir como uma pessoa normal.

— Vocês estão cada vez mais estranhos. – Eve cochichou. – O que houve dessa vez?

— Depois eu explico.

   Daniel voltou para a mesa rapidamente e colocou uma bandeja na minha frente. Havia um hambúrguer, um suco e um bolinho de chocolate. Olhei da bandeja para ele, sem entender.

— Eu não queria comer hoje. – murmurei. – Não precisava...

— Apenas coma.

   Ele nem olhou para mim. Apenas sentou e começou a comer seu lanche, enquanto mexia em algo em seu celular. Eve voltou a sorrir sugestivamente e eu suspirei, engolindo o lanche sem vontade.

   Eu definitivamente não o entendia.



Notas finais do capítulo

Somos todas #TeamDaniel? hahahaha. Muitas estão curiosas em relação ao pai da Ally, e nos próximos dois capítulos isso será mais esclarecido! Espero que tenham gostado, deixem um comentário dizendo o que estão achando ♥



Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "Collide" morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.