Collide escrita por Allie Próvier


Capítulo 53
[2ªT] 15. Novamente, perdão


Notas iniciais do capítulo

Vocês queriam problemas na vida da Ally.
Tá aqui O Problema na vida da Ally.
Espero que gostem, HSAUSAS. Boa leitura ♥




[2ª TEMPORADA]

Capítulo 15

 

Eu não estou bem, mas está tudo bem.
Não vá embora, eu vou assumir a culpa
antes de ficarmos com nada.
Não sei se eu vou ficar bem sem você,
espero que eu fique bem sem você.

Gnash - Feelings Fade

 

   A segunda-feira chegou e, junto dela, flores.

   Havia um grande buquê de margaridas sobre a minha mesa quando cheguei ao trabalho naquela manhã. Me permiti sorrir um pouco, imaginando que seriam de Daniel. Mas meu sorriso murchou involuntariamente ao pegar o bilhete e ver o nome de Cameron escrito nele.

   “Jantar hoje, às 19:00”, dizia o bilhete.

   Os cachos de Manu apareceram na porta, me olhando com curiosidade. Forcei um sorriso, enquanto ela vinha animada olhar as flores.

— Quem foi o cavalheiro que enviou essas flores? – ela perguntou sorridente.

— Cameron – falei, tirando meu sobretudo e deixando-o sobre as costas da cadeira. – Meu noivo.

— Você é sortuda, Jones – ela suspirou, toda romântica.

— É... – murmurei, deixando meu corpo cair na cadeira. – Eu acho que sou.

   Manu arqueou uma sobrancelha, desconfiada, e sentou da frente para mim. Cruzou as pernas e juntou as mãos sobre o colo, me olhando de forma analisadora.

— O que houve, Ally?

— Como assim?

— Não tente me fazer de boba. – ela revirou os olhos. – Já faz um tempo que você não parece tão bem.

— Não é nada – falei, tentando parecer o mais sincera possível. – Não se preocupe. Só estou um pouco cansada, eu acho.

— Do trabalho? – perguntou.

   Manu me olhava nos olhos com atenção e uma preocupação nítida. Ela era uma garota muito boa, eu a adorava. Suspirei, balançando levemente a cabeça. Eu sentia um alvoroço dentro de mim, um misto de sensações e sentimentos. Me sentia confusa.

— De tudo – falei baixinho.

   Ela não disse nada. Apenas me olhou pensativa por alguns segundos, parecendo pensar no que eu disse, e esticou o braço sobre a mesa, me estendendo a mão. Sorri fracamente, colocando a minha mão sobre a sua.

— Podíamos sair juntas um dia, o que acha? – ela perguntou. – Sem a correria do dia a dia.

— Claro. – sorri. – Vamos marcar algo.

   Ela piscou para mim e logo voltamos ao trabalho. Ela leu em voz alta todos os meus compromissos do dia e eu organizei minhas coisas, para começar a trabalhar. Eu esperava que isso me distraísse o suficiente para esquecer o que se passava dentro de mim.

***

   Dirigi no modo automático de volta para casa.

   Pensei em macarrão, pudim, Gregory e Netflix em todo o caminho. Estava louca para chegar em casa e me afundar no sofá, em um pijama quentinho. Mas apenas quando abri a porta do apartamento, eu lembrei...

— Está atrasada – Cameron disse, sentado na poltrona todo arrumado e perfumado. – Saiu tarde?

— Olá para você também. – suspirei, trancando a porta.

   Ele sorriu um pouco, da forma que fazia quando achava graça em algo, mas não tanta graça assim. Ficou de pé e me abraçou quando passei por ele, no caminho até o quarto. Retribui ao abraço de forma mecânica. Ele beijou minha bochecha de leve e logo seus lábios estavam em meu pescoço. Olhei para o alto, sobre o seu ombro, sem ânimo algum para o que quer que fosse.

— O que há? – perguntou, afastando-se um pouco de mim. – Está irritada comigo?

— Não, Cam. Eu apenas... – balancei uma mão, sem saber o que dizer. – Quer mesmo sair hoje?

— É claro, nós mal aproveitamos a minha primeira semana aqui – falou, me olhando desconfiado. – Por que não quer sair?

— Estou cansada.

   Ele revirou os olhos e olhou seu relógio de pulso.

— Nós temos vinte minutos para sair, antes que cancelem a reserva que fiz. – sorriu, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha. – Tome um banho e se sentirá mais relaxada.

   Desisti de discutir. Apenas assenti e fui para o quarto, arrancando o vestido e os saltos altos. Suspirei ao olhar para o closet e ver que eu teria que vestir vestido e saltos novamente. Conhecendo Cameron, eu sabia que ele provavelmente havia reservado uma mesa em algum restaurante fodidamente caro.

   Tomei um banho quente e tentei relaxar, mas sabia que teria que ser rápida. Escolhi um vestido qualquer e procurei um sapato que combinasse. Fiz uma maquiagem rápida e simples, e prendi meus cabelos em um coque. Cameron chamou meu nome, me apressando. Bufei. Peguei uma bolsa pequena e coloquei meu celular, carteira e um batom. Quando entrei na sala, Cam estava de pé ao lado de uma janela, observando a vista. Quando notou minha presença, sorriu.

— Você está linda – ele disse. – Vamos?

  Eu tentei não dormir no carro, a caminha do restaurante, mas foi difícil. Acabei cochilando após alguns minutos e acordei apenas quando senti o carro parando. Olhei ao redor, confusa, e vi que havíamos chegado. Suspirei ao ver que se tratava de um restaurante francês. Eu não era muito fã de comida francesa – apenas das sobremesas – mas Cam sempre ignorava isso. Fomos recebidos pelo maître e ele nos guiou até a mesa que Cam havia reservado. Era mais afastada, em um local mais silencioso, ao lado de uma janela que tinha vista para um pequeno jardim de inverno iluminado com várias luzinhas. O lugar era bonito.

   O garçom trouxe os cardápios e eu passei meus olhos por ele, apertando os lábios. Preços tão altos para coisas tão pequenas. Cam chamou o garçom e começou a perguntar sobre os vinhos, e eu me controlei para não revirar os olhos. Eu não podia culpa-lo, afinal. Ele foi criado no meio desse ambiente, gostava de tudo isso. Por fim, ele fez seu pedido ao garçom.

— Já escolheu? – perguntou. – Quer ajuda?

— Não. – dei de ombros, deixando o cardápio sobre a mesa. – Eu vou querer uma sopa de cebola. E... – voltei a olhar o cardápio rapidamente. – Uma porção dessas torradinhas temperadas.

      O garçom me olhou com desdém, mas anotou meu pedido e se retirou. Controlei minha vontade de bufar. Toda vez era a mesma coisa, era exatamente por isso que eu detestava frequentar esses lugares. Eu pedia o que havia de mais simples e eles me olhavam como se Cam estivesse fazendo um ato de caridade ao me trazer aqui.

   Senhor, dai-me paciência.

— Por que não pediu um Lapin à la moutarde? – Cam perguntou. – Você gostou na última vez que provou.

— Porque eu não sabia que se tratava de carne de coelho. – revirei os olhos, fazendo-o rir.

— Então... – ele continuou olhando o cardápio, procurando por outras coisas que eu me recusava a comer mesmo sem nunca ter provado. – Foie Gras? Eles servem um ótimo aqui, com salada.

— Você sabe como fazem isso? – perguntei perplexa, arqueando uma sobrancelha.

   Cameron bufou e revirou os olhos, apoiando o queixo sobre as mãos.

— Até onde eu sei, você não é vegetariana, Allison. Muito menos uma daquelas ativistas histéricas. – ele reclamou. – Por que essa implicância?

— Por que é repulsivo! – falei, como se fosse óbvio. – Como você espera que eu coma um patê que foi gerado a partir de uma tortura animal?

Jesus...— ele suspirou, apoiando-se melhor em sua cadeira.

— E me desculpe se isso o deixa escandalizado, mas comer carne de coelho, escargots ou glândulas de vitelo não são as coisas mais atrativas do mundo para mim. – continuei falando, sem conseguir me controlar. – Eu não sei como você consegue.

— O que há com você hoje? – perguntou atônito.

— Eu estou igual a todos os outros dias.

— Não, Allison. – ele riu sem humor. – Você não é insuportável dessa forma todos os dias.

   Eu o olhei em silêncio, absorvendo duas palavras. O garçom chegou no mesmo momento, servindo nossas taças com vinho e se retirando em seguida. Cameron me ignorou, enquanto bebia sua bebida com um prazer nítido estampado no rosto. Ou queria fingir que não havia dito o que disse, ou realmente não se importava.

   Desviei meu olhar para o jardim de inverno enquanto bebericava o vinho, sem nem ao menos sentir seu gosto. Ficamos em um silêncio desconfortável por alguns minutos, até nossos pedidos chegarem.

   Comi minha sopa rapidamente, no automático. Eu só queria sair daquele lugar para conseguir respirar direito.

— Temos um jantar para ir nessa semana – ele disse de repente, quebrando o silêncio. – Um colega do trabalho nos convidou.

— Hm. – bebi mais um gole do vinho, forçando-o a descer goela abaixo. – Qual o nome dele?

— Richard Clark – respondeu. – E sua esposa se chama Andrea.

   Assenti, encerrando o assunto. Cameron ficou me olhando por alguns segundos em silêncio, parecendo querer ler minha expressão. Logo balançou a cabeça negativamente, de leve. Estava irritado.

   Terminamos nosso jantar e ele pagou a conta. Apenas quando coloquei os pés na calçada e respirei o ar frio e poluído de Nova York, foi que me senti bem novamente. Senti a mão de Cam em minhas costas, me guiando em todo o caminho até o carro, em completo silêncio. Quando entramos no veículo, ele desatou a falar:

— Se não quer sair comigo, basta dizer – resmungou. – Tem ideia do quanto é irritante e constrangedor quando você dá esses ataques?

— Eu disse que não queria sair! – falei, sentindo meu sangue ferver. – E desde quando dar a minha opinião sobre as coisas é “ataque”?

— Eu queria apenas que tivéssemos uma noite normal juntos, como antes! – ele levantou a voz, me olhando irritado. – É difícil entender isso? Você tem transformado tudo em discussão, Allison!

   Eu o olhei perplexa, sem entender o motivo daquele show todo. Eu estava cansada, sim. E irritada, e com sono. Havia deixado isso bem claro antes de sairmos, mas ele ignorou. E agora quer me cobrar mil sorrisos e disposição? Sabendo que eu nem ao menos queria estar ali?

— Quem está transformando isso em uma discussão é você – falei enquanto ele dirigia para fora do estacionamento. – Eu disse que não queria sair, mas você insistiu. Eu falei que não queria comer a porra do coelho, mas você se irritou. O que quer de mim?

— Desde quando você fala dessa forma? – Arqueou uma sobrancelha, atônito. – Pelo amor de Deus.

— Que forma?

— Da mesma forma que a Eve fala. – Ele bufou, transtornado. – Cheia de... “Porras” e “merdas”.

   Eu quase dei uma gargalhada, mas sabia que ele iria ficar mais irritado. Controlei um riso e virei meu rosto para a janela. Preferi ficar em silêncio, afinal, não adiantaria dizer nada.

— Você mudou, Allison. – ele disse, segurando o volante com força. – Algo em você está estranho. Depois que você veio para cá, é como se...

   Sua voz morreu. Seus olhos olhavam para o trânsito à nossa frente, confusos.

— Eu não sei. – ele suspirou. – Não é a mesma coisa.

   Aquilo me irritou. Profundamente. Desviei o olhar dele e virei para a janela novamente, com mil coisas passando em minha cabeça. Eu não havia mudado quem eu era, continuava sendo a mesma pessoa de sempre. Cameron possuía aquela mania irritante de querer que eu fosse o que ele achava que eu devia ser, e quando eu me recusava, ele ficava escandalizado.

   “Você devia comer isso, Allison.”

   “Você devia gostar desse estilo de música.”

   “Por que não experimenta aquele vestido? Ficaria melhor em você.”

   “Por que não tenta deixar seu cabelo crescer? Eu acho que ficaria mais bonito.”

   Eu me esforçava para ser o tipo de pessoa que ele queria que eu fosse, mas... tem momentos que não dá. E em dias especiais, quando tudo o que eu quero é ficar na minha cama descansando, ele quer me forçar a sair e ainda quer se irritar por eu não me portar da forma que ele acha mais adequada.

   Se Eve estivesse aqui, ele ouviria muitos porras e merdas. Talvez assim ele se acostumasse melhor com isso e percebesse que qualquer pessoa normal fala isso quando está farta de algo.

— Se não gosta do que eu sou, basta ir, Cameron – falei lentamente. – É bem simples.

   Ele ficou em silêncio. Eu não insisti em prolongar a conversa. Formei minha bolha de reclusão ao meu redor, focando minha audição na música que tocava baixinho no rádio do caro e inundei minha mente com outras coisas. Tarefas para o dia seguinte, compromissos do trabalho, a ração que eu tinha que comprar para o meu gato, a lista de compras para casa.

   Meu peito doía e era desconfortável. Quando estávamos “bem”, eu sentia que tinha algo errado e entalado em minha garganta. Quando discutíamos, eu me sentia terrivelmente mal. Era um ciclo vicioso e confuso, eu detestava isso.

   Quando chegamos ao apartamento, eu fui direto para o quarto. Deixei minha bolsa e sapatos dentro do closet e arranquei o vestido de mim, me sentindo muito melhor. Abri a gaveta de pijamas para encontrar algo confortável e senti as mãos de Cameron pousarem sobre a minha cintura, levemente. Fiquei parada. Ele rodeou minha cintura com seus braços e afundou o rosto em meu ombro, respirando fundo.

   Eu sabia o que vinha agora.

— Me desculpe – ele disse baixinho. – Eu não devia ter agido e falado daquela forma, fui um idiota. Eu amo você, Ally. Mais do que tudo.

   Ele deu um beijinho em meu ombro, minha pele gelada contrastando com seus lábios quentes. Continuei parada, com os olhos fixos nas roupas penduradas à minha frente.

— Eu não quero que fique esse clima estranho entre nós dois, eu preciso de você. Está sendo difícil para mim também. Eu sinto falta de Los Angeles, dos meus pais... – ele suspirou, virando-me para ele e me olhando com seus olhos castanho-claros. – Foi muito confuso ver você indo embora de repente.

   Assenti levemente. Ele me abraçou apertado, passando as mãos em minhas costas desnudas. Senti meus olhos arderem e logo ficarem marejados. Eu estava irritada com ele, mas meu peito doía absurdamente. Acabei abraçando-o de volta, automaticamente.

— Promete que não irá me deixar? – ele perguntou baixinho. – Por favor.

   Senti um bolo se formar em minha garganta. Senti vontade de gritar. Queria correr, mas minhas pernas estavam travadas, bem ali. Como sempre.

   Então, me resumi a murmurar um “sim” antes de ele me beijar e me prender a ele, como em todas as noites.

***

   A semana estava demorando a passar. Cada dia parecia durar uma eternidade, até que a quinta-feira chegou.

   Eu e Cameron iríamos ao jantar na casa do amigo dele e eu não podia estar mais desanimada. Eu tentava pensar coisas positivas e ficar feliz, mas me sentia péssima durante a maior parte dos dias. Eu realmente não entendia o motivo. Era um desânimo e mal-estar que me consumiam.

  Eu terminava de me maquiar para o jantar, ouvindo Cameron na sala conversando sobre o trabalho com alguém ao celular, quando ouvi o meu próprio apitar sobre a bancada do banheiro. Deixei o rímel de lado e peguei o aparelho, vendo o nome de Daniel piscando na tela. Sorri, clicando na conversa rapidamente.

   Daniel: “Alguém está interessada em ir à Taberna hoje? Ouvi dizer que a cerveja de lá é ótima.”

   Meu sorriso murchou. Mordi o lábio inferior, pensando no que dizer.

   Ally: “Há alguém que adoraria ir, sim. Mas infelizmente não pode. Algo sobre um jantar com advogados e esposas pacatas.”

   Daniel: “Uau, parece tentador. Há coisa melhor do que advogados em uma competição de egos e esposas que os aplaudem?”

   Ally: “Melhor do que isso só aquela cerveja amarga. Se bem que até isso me cairia bem agora.”

   Daniel: “Foge comigo.”

   Senti minha respiração ficar presa. Aquele familiar calor se espalhando pelo meu peito. Sorri, sentindo um incômodo nos meus olhos e garganta. Respirei fundo olhando para o alto e fechando os olhos com força.

   Não coloque o meu auto controle e juízo à prova, Sullivan. Por favor.

— Ally?

   Sobressaltei onde estava, bloqueando a tela do celular automaticamente e olhando para o espelho à minha frente, vendo o reflexo de Cameron na porta do banheiro. Ele me olhava com curiosidade.

— Estamos atrasados – ele disse. – Você está bem? Parece vermelha.

   E eu estava, sim. Sentia meu rosto pegar fogo. Balancei a cabeça, forçando um sorriso enquanto colocava o celular sobre a bancada novamente e pegava o rímel.

— Estou bem – respondi, tentando manter a voz normal. – Já estou terminando de me arrumar, me dê mais cinco minutos.

   Ele assentiu e voltou para a sala. Eu me apoiei na bancada com as duas mãos e olhei profundamente para eu mesma no espelho. O vestido bonito e rodado, o cabelo perfeitamente arrumado, a maquiagem bem feita. Um ar de mulher da mais alta classe que eu nunca imaginei para mim.

   Às vezes eu sentia falta de me enfiar apenas em um jeans e um cardigan, e sair para qualquer lugar.

***

   A casa de Richard e Andrea Clark era muito bonita.

   Ficava no Brooklyn e era anormalmente grande para um casal e dois filhos. Fomos recebidos pelo casal e, enquanto Richard e Cameron iam para a sala beber algo, Andrea me puxou para a cozinha. Sentei em um dos bancos altos da ilha enquanto ela me servia com um suco.

— O jantar está quase pronto – ela disse. – Eu dispensei a empregada hoje, resolvi eu mesma preparar o jantar.

— Oh, o cheiro está muito bom. – Elogiei com um sorriso.

   Ela era agradável, mas eu não pude deixar de me sentir entediada rapidamente. Andrea desatou a falar sobre seus filhos – John, de seis anos e Laura, de três – e sobre os problemas de comportamento que ela vinha enfrentando com eles.

— Às vezes é tão difícil, Allison – ela suspirou, enquanto provava um pouco de molho. – As pessoas acham que ter filhos é fácil, mas é muito complicado. A babá me ajuda diariamente, mas ainda assim eu preciso de descanso as vezes.

— Entendo. – Virei o copo de suco, louca para que o jantar ficasse pronto logo.

— Oh, aqui estou eu falando sobre o quanto meus filhos me estressam logo para você, que é tão jovem! – Ela riu. – Me desculpe, imagino que isso deve te assustar. Provavelmente você e Cameron planejam ter bebês logo, não é?

   Tossi, quase me engasgando com o suco. Andrea ria, enquanto eu sorria totalmente sem graça.

— Não, nós não... – tentei explicar, mas fui interrompida.

   Cameron apareceu ao lado de Richard, o paletó já havia desaparecido e ele vestia apenas a blusa social azul-marinho. Um pequeno copo de uísque em mãos. Os dois homens sorriram para nós. Richard foi até a esposa e a beijou rapidamente, enquanto ia até a geladeira.

— Estão se divertindo? – Cameron perguntou.

    NÃO!

— Sim! – Andrea disse, toda risonha. – Allison é adorável, você tem uma linda noiva, Cameron.

— Sim, eu tenho – ele disse, me abraçando pelos ombros e sorrindo para mim. – Do que estavam falando?

— De crianças – Andrea respondeu. – Para quando vocês planejam os bebês de vocês?

— Que pergunta inconveniente, Andrea – Richard resmungou, deixando uma garrafa fechada de vinho sobre a ilha e indo pegar taças. – Eles são jovens, ainda há tempo para pensarem nisso.

— Mas é importante começar a pensar desde já. – Ela revirou os olhos.

— Ainda não sabemos, mas provavelmente logo – Cameron respondeu.

   Arregalei os olhos para ele, confusa. Ele piscou para mim e me beijou rapidamente, virando seu uísque em seguida. Andrea sorriu para mim, satisfeita com a resposta dele.

   Vai ser uma longa noite.

   O jantar ficou pronto e todos nós nos reunimos na sala de jantar. Os filhos do casal já haviam jantado e estavam dormindo, sob a supervisão de uma babá que eu não vi em momento algum. Richard e Cameron discutiam sobre algo relacionado a um processo judicial que estavam resolvendo juntos, enquanto Andrea me bombardeava com informações sobre o bairro e as casas da vizinhança.

— Seria ótimo se vocês viessem morar aqui no Brooklyn após o casamento – ela dizia. – Há ótimas casas para quem irá iniciar uma família.

— Ainda não sabemos como vamos fazer em relação a isso – respondi. – Provavelmente continuaremos no nosso apartamento.

— Mas não é pequeno? – ela perguntou, parecendo preocupada.

— É o suficiente para nós dois. – Dei de ombros.

— Ah, não é possível! Quando eu morava em um apartamento, me sentia confinada. – Ela suspirou. – Minha sorte foi que Richard me resgatou e, quando casamos, viemos para essa casa.

   A menção do nome do marido captou a atenção dele. Logo ele e Cameron se envolveram em nossa conversa e Andrea explicou o que estávamos falando. Richard repetiu as palavras dela – “vocês deviam morar aqui, há ótimas casas para quem quer iniciar uma família, é um ótimo bairro...” – e Cameron ouvia com atenção.

— É uma boa ideia – ele disse. – Eu já estava mesmo procurando por casas.

— Desde quando? – Arqueei uma sobrancelha, surpresa. – Você não me disse isso.

— Eu não disse porque você se apaixonou perdidamente por aquele apartamento minúsculo e que mais parece uma floresta. – Ele riu, Richard e Andrea o acompanharam e ele explicou: – Ela encheu o apartamento de plantas e coisas do tipo. É um horror.

— Com uma casa vocês não teriam esse problema. – Andrea piscou um olho para mim. – Temos espaço para um jardim enorme.

   Me controlei para não revirar os olhos e pedir, PELO AMOR DE DEUS, que tomassem conta de vida deles. Eu sei que estavam tentando ser agradáveis, e eu acho isso bem legal, de verdade, mas não quando isso inclui a minha vida e os meus gostos. Cameron se animou e começou a falar das minhas plantas, meu gato, o pouco espaço do apartamento (na opinião dele, porque eu achava o lugar até grande demais para duas pessoas) e o bairro “estranho”.

— O Brooklyn se encaixa mais no estilo de vida de vocês – Richard disse, cheio de certeza. – A vizinhança daqui é bem mais... refinada, digamos.

   O quê?

— Provavelmente seremos vizinhos logo – Cameron sorriu.

   Richard e Andrea ficaram animados e os três brindaram. Bebi os três goles de vinho que restavam em minha taça de uma só vez, desviando o olhar deles.

***

   Sexta-feira amanheceu com um sol tímido, mas ainda estava bem frio, principalmente para mim que vivi toda a minha vida na Califórnia. Talvez eu nunca me acostumasse com o clima daqui. Terminei de me vestir para trabalhar e, quando fui pegar minha bolsa no closet, vi a mala de Cameron aberta no chão e cheia até a metade. Parei onde estava, olhando-a fixamente. Ele passou por mim distraidamente, indo até a mala e colocando sua escova de dentes dentro dela.

— O que é isso? – perguntei.

— Terei de ir à Los Angeles novamente. – Ele suspirou, me olhando com culpa. – Você entende, não é? Meu pai ainda precisa de mim para algumas coisas no escritório.

   Balancei a cabeça e peguei minha bolsa. Cameron segurou meu braço antes de eu sair do closet, me puxando para ele.

— Não fica chateada comigo – ele pediu, segurando meu rosto e me beijando. – Segunda pela manhã estarei de volta.

— Terá algum fim de semana em que você poderá ficar aqui? – perguntei, seca. – Ou seu pai irá precisar de você para sempre, mesmo tendo outros dois filhos também advogados?

   Cam me olhou irritado e me soltou, voltando à sua mala.

— Não comece, Ally – resmungou. – Está duvidando de mim? Eu estou trabalhando para dar uma boa vida à nós dois, lembra?

   A mesma história de sempre. Como se eu dependesse dele para alguma coisa. Resolvi ignorá-lo e tomei café da manhã rapidamente, antes que ele aparecesse na cozinha. E quando terminei de engolir um pedaço de pão e um copo de leite, saí para o trabalho.

   Passei o dia inteiro em reuniões, leitura e copos de café. No meio da tarde, comecei a sentir um mal estar horrível e um incômodo na garganta. Eu não conseguia mais ler uma palavra do livro a minha frente. Chamei Manu e pedi que ela trouxesse água para mim. Ela voltou em menos de dois minutos, me olhando com preocupação.

— Você não parece bem – falou, me observando beber a água apressadamente.

   Sua mão veio direto para a minha testa e ela arregalou os olhos.  

— Você está fervendo, Allison! – falou assustada. – Precisa ir para casa.

— Não, ainda está cedo – falei, deixando o copo vazio sobre a mesa. – Eu preciso terminar esse livro ainda hoje.

— Está maluca? Você mal consegue manter seus olhos abertos. – Cruzou os braços, me olhando com irritação. – E sua voz está rouca como o inferno.

   Ela tinha razão. Eu sentia o calor vir de dentro, meus olhos estavam pesados e sonolentos. Engoli em seco, sentindo minha garganta arranhar. Ah, droga. Com certeza era amigdalite. Suspirei, apoiando meu rosto nas mãos.

— Eu tenho que ligar para alguém vir te buscar – ela disse, preocupada. – Não posso deixa-la dirigir assim.

— Manu, calma – falei lentamente, vendo-a quase se descabelar. – Eu não estou morrendo, acho que é amigdalite. Eu vou ficar bem.

— Ainda assim, não posso deixa-la dirigir assim. Você pode ficar distraída e passar mal ao volante. – Suspirou. – Me passe o número de alguém que possa te buscar.

— Não há ninguém – lamuriei, massageando minhas têmporas. – Meus amigos estão trabalhando a essa hora.

— E onde está seu noivo?

— Em Los Angeles.

— Fazendo o quê?!

— Eu também gostaria de saber.

   Manu ficou me olhando. Aquilo já estava me dando nos nervos, mas nem forças para reclamar eu tinha. Meu pescoço e garganta doíam muito, e a dor começava a subir para a cabeça.

— Tem que ter alguém – ela insistiu.

   Respirei fundo e o rosto de Daniel me veio à mente. Eu não devia, sabia disso. Eu devia manter o máximo de distância possível dele, mas Manu tinha razão. Eu realmente não teria condições de sair daqui sozinha e o único que provavelmente poderia me buscar a essa hora, era ele.

   Liguei para ele e passei o celular para Manu, que o pegou rapidamente. Minha garganta doía e minha voz estava rouca, então provavelmente ele não entenderia nada que eu dissesse. Não demorou a Manu se apresentar e falar pelos cotovelos sobre como eu estava péssima, ardendo em febre e praticamente morta em minha sala, precisando urgentemente de alguém que me levasse ao hospital com urgência, caso contrário eu provavelmente morreria drasticamente devido a uma horrível infecção na garganta.

   Obrigada, Manuella. Eu devia pedir a ajuda dela caso um dia quisesse inventar que estava doente para não vir trabalhar.

   Ela me devolveu o celular e eu o guardei em minha bolsa.

— Ele estará aqui em dez minutos – ela disse. – E a propósito, que voz sexy ele tem. Sério, eu adorei. Vou esperar lá embaixo com você, para me certificar de que nada de ruim aconteça.

   Arqueei uma sobrancelha, pendurando minha bolsa em meu ombro.

— Claro, é exatamente isso que você quer. – Revirei os olhos, fazendo-a rir.

   Manu segurou em um dos meus braços e realmente foi melhor assim. A febre fazia o meu corpo inteiro enfraquecer e havia momentos em que minha mente desligava. Eu estava com muito sono. Na frente do prédio havia um pequeno jardim com alguns bancos. Manu me colocou sentada em um deles e sentou ao meu lado, segurando a minha mão.

— Não esqueça de me enviar notícias, por favor – ela disse.

— Ok – murmurei, piscando lentamente. – Eu mando assim que chegar em casa.

   Logo Daniel apareceu, todo esbaforido. Seus olhos arregalados me olhavam de cima a baixo, preocupado e confuso. Uma jaqueta casual por cima da blusa social preta, os cabelos numa confusão em sua cabeça e a barba por fazer. Parecia ter corrido uma maratona. Manu ficou de pé num pulo, sorrindo toda simpática.

— Oi! – ela falou, animada demais para quem estava tão preocupada há minutos atrás. – Que bom que veio rápido, Ally está...

— Quase morrendo, preparem a minha cova! – falei dramática, levantando as mãos para o alto, com a voz absurdamente rouca. – Avise ao Sr. White o que aconteceu, Manu.

— É claro. – Ela assentiu, me abraçou rapidamente e deu um beijinho em minha bochecha. – Cuide dela, Daniel.

   Ele assentiu, olhando para mim como se eu fosse despencar a qualquer momento. Suspirei, andando na direção de onde ele havia vindo. Ele se apressou para se colocar ao meu lado e pegar minha mão, colocando-a em seu braço.

— Me desculpe por isso, você devia estar ocupado – falei. – Mas eu não tinha mais ninguém para ligar.

— Está tudo bem, eu já estava indo para casa – falou. – Precisamos ir ao médico para ele te receitar um remédio. Você tem ideia do que pode ser?

— Amigdalite – respondi de prontidão.

   Daniel fez uma careta, parecia agoniado.

— Eu sempre tinha isso, por fim preferi fazer a cirurgia para arrancar as amígdalas – falou.

— Eu ia retirá-las quando era pequena, mas tive medo. – Suspirei. – De qualquer forma, pode me deixar no hospital. Eu posso pegar um táxi depois.

   Daniel não me deu resposta, apenas revirou os olhos e me guiou até onde seu carro estava estacionado. Ele me ajudou a sentar, pegando a minha bolsa pesada e colocando-a no banco de trás. Puxei o cinto de segurança quase sem força, sentindo meu corpo relaxar no banco.

   O caminho até o hospital foi silencioso. Sem rádio ligado, sem músicas.

 



Notas finais do capítulo

Ai, gente, me diz se esse Cameron não é um DOCE? HAHAHAHA.
Eu já vi vocês com raiva da Louise, mas não imaginei que o Cameron iria gerar tanto alvoroço e ódio no coração assim (mentira, imaginei sim, inclusive queria isso), HAHAHAH.
Os problemas começam agora e ainda tem é coisa pra acontecer :) ansiosa pra mostrar pra vocês!
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SE VOCÊ AINDA NÃO PARTICIPA DO GRUPO, pelo amor de DanAlly (ou BenAlly *eca, gente, hahahah*), corre pra participar: https://www.facebook.com/groups/209079426170113/?ref=ts&fref=ts
Os maiores segredos rolam nesse grupo. E as maiores prévias/spoilers também!!! E, inclusive, as melhores fotos e vídeos dos personagens. ♥
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Comentem, me digam o que acharam! Logo trarei o próximo capítulo ♥
Bjbjbjbjbjbj, amo vocês!



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