Collide escrita por Allie Próvier


Capítulo 52
[2ªT] 14. Sorte


Notas iniciais do capítulo

VOLTEI!
Como eu disse lá no grupo no facebook, eu imaginava esse capítulo desde antes de começar essa temporada. Não tem nada de mais, na verdade (eu acho), mas pra mim ele é muito especial ♥
Espero que goste, boa leitura!




[2ª TEMPORADA]

Capítulo 14

 

Menina, seu toque
mantém meu coração batendo.
Sempre que você precisar de mim
eu estarei lá onde você estiver.

Parachute - Lonely With Me

 

   Estiquei meus braços e pernas, espreguiçando-me. Senti um colchão fofo abaixo de mim e um edredom grosso e quentinho ao meu redor. Sorri, virando meu corpo para cima e abrindo os olhos devagar. A luz do ambiente me atingiu e eu fechei os olhos rapidamente, gemendo. Eu sempre fechava as cortinas antes de dormir, será que havia esquecido dessa vez? 

   Aos poucos meus olhos foram se acostumando com a claridade e eu consegui abri-los totalmente. A primeira coisa que vi foi um violão sobre o colchão, ao meu lado. E o colchão, aliás, estava no chão. Sentei rapidamente, sentindo minha cabeça rodar. Suspirei, colocando as duas mãos na cabeça. Quando a vertigem passou, deixei minhas mãos caírem no meu colo e eu olhei ao redor, com os olhos arregalados.

   Onde diabos eu estava?

   A luz da manhã nublada entrava por duas janelas atrás de mim, uma de cada lado da cama. Havia um grande vaso com uma planta ao meu lado, junto com um rádio antigo. Parecia mais um quarto de universitário, só que mais limpo e organizado.

   Eu havia sido sequestrada? Tentei lembrar da noite anterior e tudo o que vinha à minha mente era eu passando vergonha em um palco e, logo depois, meu passeio na Times Square com Daniel. Eu estava no apartamento dele? Oh, meu Deus.

   Afastei o edredom grosso do meu corpo e que vi que eu vestia um conjunto quentinho de moletom cinza. O casaco e a calça maiores que o meu corpo, mas confortáveis. Meus pés estavam protegidos por meias e eu encontrei uma touca vermelha no travesseiro, provavelmente havia caído da minha cabeça durante o sono. Sorri. Daniel havia me embalado toda com essa roupa, como se eu fosse uma criança?

   Eu me senti envergonhada por ele ter me despido enquanto eu dormia e trocado minhas roupas, mas a vergonha se foi tão rápido quanto veio. Daniel já havia visto muito mais de mim. Foi o primeiro a ver algo além, aliás.

   Peguei a touca vermelha e levantei do colchão. Era grande e alto, e eu gostei da ideia de colocá-lo no chão. Saí do quarto e assim que coloquei os pés no pequeno corredor, senti o cheiro de chocolate quente. Suspirei, meu estômago roncando dentro de mim. Andei devagar pelo local, olhando tudo ao meu redor. Quando o corredor terminou, dei de cara com uma sala iluminada e uma pequena cozinha.

   Daniel cozinhava de costas para mim, sobre o pequeno balcão branco havia uma bandeja cheia de panquecas com mel, alguns potes de biscoitos e algumas frutas. Eu segurava a touca vermelha em minhas mãos, contra o meu peito, enquanto me aproximava do balcão. O lugar exalava masculinidade, mas não de um jeito ruim. Para um apartamento de homens, era até muito bem decorado e arrumado.

   Sobre a mesinha de centro da sala haviam revistas abertas e duas garrafas de cerveja vazias. E foi a única "bagunça" que eu avistei. Voltei meu olhar para o balcão ao mesmo tempo em que Daniel virava e dava de cara comigo. Ele quase pulou de susto, me olhando com os olhos verdes arregalados. Sorri, achando graça. Ele riu e revirou os olhos.

— Bom dia - ele disse. - Eu já ia chamá-la.

— Acordei bem assustada, devo frisar. - sorri, sentando em um dos bancos em frente a bancada, enquanto ele passava o chocolate quente para uma garrafa térmica. - O que aconteceu ontem?

   Daniel arqueou uma sobrancelha para mim, confuso, enquanto passava a bebida para a garrafa devagar e com atenção, para não derramar no balcão.

— Você não lembra? - ele perguntou, em um tom triste.

   Arqueei as sobrancelhas, em alerta. Não lembro de quê?

— O que... - balbuciei, confusa.

— Depois de tudo o que aconteceu, Ally... - ele suspirou, apoiando as mãos no balcão e me olhando com uma feição triste. Senti meu coração afundar dentro de mim. - Eu não acredito que significo tão pouco para você.

   Senti meu coração acelerar e abri a boca para perguntar o que havia acontecido, mas nada saía. E logo a expressão de desalento de Daniel deu lugar a um sorriso. Ele estava gargalhando. De mim. Bufei, revirando os olhos e pegando um biscoito em um dos potes para jogar na cara dele.

— Idiota - resmunguei, jogando outro biscoito nele. - Qual é o seu problema?!

— Desculpe, eu não resisti - ele falou, ainda sorrindo feito um idiota. - Você tinha que ver a sua cara.

   Cruzei os braços, olhando-o com irritação. Ele deu de ombros, dando um peteleco leve em minha testa.

— Não se preocupe, não aconteceu nada. - ele me tranquilizou, sorrindo carinhosamente para mim. - Pode ter certeza que se tivesse acontecido, você não esqueceria.

— Ah, entendo - assenti, pegando uma caneca que ele havia colocado no balcão e enchendo-a com o chocolate quente. - Você aprendeu a ser convencido assim na mesma escola onde aprendeu a fazer brincadeiras idiotas?

— Sim. - ele piscou um olho para mim, com aquele sorrisinho irritante. - Agora, coma. Seu estômago deve estar dando cambalhotas. Ele rugia enquanto você dormia.

   Bebi um gole da minha bebida quente, sentindo um alívio percorrer todo o meu corpo. Olhei-o com atenção, enquanto ele sentava ao meu lado e se servia de chocolate quente e penquecas também.

— Você estava... Lá? - perguntei. - Dormiu comigo?

— Espero que não se incomode com isso. - ele deu de ombros. - O sofá é péssimo para dormir e eu tive medo de você passar mal durante a noite estando sozinha.

— Por que não me levou para casa? - perguntei.

— Eu tentei. - ele sorriu um pouco, olhando para mim enquanto comia um pedaço da panqueca. - Mas você acormeceu no carro e não acordava de jeito nenhum. Já estávamos na frente do seu prédio e eu a chamei, sacudi, belisquei suas bochechas e nada adiantava. Então, eu a trouxe para cá.

— Obrigada. - sorri levemente. - E desculpe por isso. Deve ter sido por causa da bebida. Eu fico sonolenta e durmo muito pesado quando bebo.

   Ficamos conversando aleatoridades enquanto comíamos. O dia estava frio, mas era confortável ali dentro. Daniel pegou chantilly na geladeira, para colocarmos nas panquecas. Sacudi o frasco, olhando-o desconfiada.

— Há quanto tempo isso está nessa geladeira? - perguntei.

— Eu acho que... - ele virou um pouco a cabeça para o lado, pensativo. - Há muito tempo. Mas o que não mata, engorda. Passe isso para cá.

   Ele pegou o chantilly, sacudiu bem e jogou o conteúdo todo nas suas panquecas. Aquela coisa branca e convidativa me fez sorrir. Ele riu e colocou nas minhas panquecas também. Dei uma garfada e suspirei ao comer o primeiro pedaço. A mistura da panqueca, com o mel e o chantilly... Meu Deus, era divino. Eu definitivamente amo doces com toda a minha alma.

   Daniel se divertia me vendo comer com tanta felicidade. Então, Benjamin surgiu. Descabelado e vestindo apenas uma calça de pijama. Ele piscou diversas vezes em minha direção, confuso.

— Eu estou vendo coisas ou há uma Ally em nossa cozinha vestida como um teletubbies cinza? - ele perguntou baixinho.

   Revirei os olhos, mas ri da sua comparação. Eu realmente me sentia enorme naquele conjunto de moletom. Estava grande e largo em mim, mas era tão macio e confortável que eu nem me importava.

— Come alguma coisa - Daniel disse, apontando para a bandeja ainda cheia de panquecas. - Senão você vai passar mal o dia inteiro.

   Benjamin se arrastou ao nosso redor, indo para o outro lado do balcão e colocando algumas panquecas em um prato. Seus olhos estavam quase fechados e ele suspirava a cada movimento que fazia.

— Eu nunca mais vou beber - ele resmungou. - Dessa vez eu estou falando sério.

— Claro, assim como nas outras... - Daniel olhou para o alto, fingindo contar mentalmente. - Milhares de vezes que disse isso.

— Dessa vez é sério. - Ben disse em meio a um bocejo. - Eu vou comer no quarto. Quando pedirem o almoço me chamem.

   Ainda era nove horas da manhã. Eu ia avisar isso a ele, mas achei melhor não. Ele já havia sumido no corredor e eu olhei para Daniel, que tinha uma expressão preocupada no rosto enquanto comia. Sorri disfarçadamente. Para quem odiava o primo anos atrás, ele agora se importava bastante. Eu gostava de observar a relação deles dois.

   Durante alguns minutos de silêncio confortável entre nós, ouvi vozes animadas e uma música tocando no lado de fora. Olhei para Daniel, confusa, e ele sorriu ao parecer lembrar de algo. Ficou de pé e fez um gesto para que eu o acompanhasse. Ele abriu uma parte da grande janela da sala e sentimos o ar frio entrar. Eu me encolhi dentro do moletom, ficando ao lado dele e olhando para baixo.

   As ruas do bairro estavam cheias de pessoas e tudo estava decorado com luminárias chinesas vermelhas e arcos de luzes. Nas laterais da rua principal havia cercas de ferro, para dividir a rua das calçadas. Nenhum carro passava por ali, mas a quantidade de pessoas era absurda.

— Hoje é o começo do Ano Novo Chinês - Daniel disse.

— Começo?

— Sim, acho que dura uns quinze dias - ele explicou. - Para os chineses, é claro. Durante esses dias eles seguem alguns rituais tradicionais, coisas assim. Mas hoje tem a festa de comemoração, por isso está lotado.

   Um fogo de artifício foi lançado ao céu e eu pulei de susto. Daniel riu.

— Eles gostam de soltar fogos para afastar os maus espíritos, o azar e as energias ruins, também - falou, afastando-se da janela e voltando à cozinha.

   Permaneci onde estava, apoiada no batente da janela e olhando tudo encantada. Ignorei o frio que fazia e minhas mãos quase congelando.

— O que mais você sabe? - perguntei sorrindo, virando-me para Daniel.

   Ele me olhou de onde estava, enquanto colocava a louça suja dentro da pia. Arqueou uma sobrancelha para mim, provavelmente confuso com a minha curiosidade repentina, mas sorriu e continuou:

— Tudo que eu sei é que a cor vermelha é sempre predominante porque simboliza o movimento, a transformação e a vida. As mulheres gostam de usar vestidos dessa cor nesse dia, para atrair a sorte e o amor durante o ano. - ele sorria um pouco enquanto falava, parecia gostar de tudo aquilo também. - Também acontece a Dança do Dragão e a Dança do Leão, todas essas pessoas lá embaixo estão esperando por isso. Deve começar daqui a pouco. Hm... O que mais? Ah! Hoje é o primeiro dia de festejos, então é o dia de dar boas-vindas aos deuses do Céu e da Terra. Costumam evitar comer carne hoje, porque acreditam que isso ajuda a atrair uma vida longa e feliz.

— Nós podemos ir? - perguntei, voltando meu olhar para a rua.

   Senti Daniel se aproximar novamente e parar atrás de mim.

— Quer participar do festival? - perguntou. Eu assenti freneticamente e ele riu. - Tudo bem, podemos ir.

   Decidi, então, tomar um banho quente. Mas apenas quando terminei o banho e me enrolei em uma toalha, foi que lembrei que não tinha roupas. Suspirei, me achando uma idiota. Como pude esquecer? Ainda tinha as roupas que eu havia usado ontem, mas era apenas um vestido e um sobretudo. Fora as botas de saltos altos. Eu não queria vestir aquilo para participar de um festival, iria me sentir muito desconfortável.

   Tentava pensar em uma forma de adaptar minhas roupas quando ouvi batidas na porta do banheiro. Era Daniel. Abri uma fresta, olhando-o enquanto tentava esconder meu corpo quase desnudo atrás da porta. Ele riu do meu gesto, mas fingiu não perceber. Segurava algumas roupas.

— Alguma mulher que veio ficar com Benjamin esqueceu isso aqui, acho que podem te servir. - ele disse, me entregando as roupas. - Acho que será desconfortável se você usar o vestido de ontem.

   Sorri, agradecida. Daniel parecia adivinhar meus pensamentos. Fechei a porta e olhei as roupas que ele havia me dado. Havia uma calça jeans com pequenos rasgos propositais, uma blusa branca e outra verde simples, um suéter vermelho e uma blusa preta de mangas longas. Quem quer que Benjamin havia trazido para cá, provavelmente queria muito voltar.

   Optei pelo jeans, a blusa branca e o cardigan vermelho. Isso deveria me manter aquecida o suficiente. A calça jeans acabou ficando um pouco justa em mim, mas não estava desconfortável. Vesti tudo e tentei colocar meu cabelo no lugar. Ele havia ondulado levemente nas pontas, provavelmente por causa da minha exposição à neve e ao sereno ontem a noite. Achei um creme hidratante perdido no armário do banheiro e usei para passar no rosto e nas mãos. Tinha fragrância de perfume de bebê e eu ri, me perguntando qual dos dois homens barbados usava isso. Por fim, eu me achei bonita quando olhei meu reflexo. Simples e bonita.

   Saí do banheiro, entreguei as outras roupas que eu não iria usar à Daniel e ele foi deixá-las no quarto de Benjamin novamente, enquanto eu calçava minhas botas na sala. Daniel não demorou a voltar, já estava arrumado. Eu podia sentir seu perfume mesmo estando no outro lado da sala.

— Você está bonita - ele disse, me olhando com uma expressão suave e um brilho estranho nos olhos claros. - Mais bonita do que quando se maquia ou coisa assim.

   Apenas sorri um pouco, sentindo meu coração acelerar um pouco. Quando ele se virou para pegar suas chaves e carteira no balcão, eu fiquei observando suas costas, distraída. Era estranho ouvir algo daquele tipo... Cameron sempre dizia que eu ficava melhor quando eu me arrumava inteira. Quando íamos ao shopping, ele sempre fazia questão de me levar às lojas de roupas e maquiagens, para que eu comprasse coisas novas. As vendedoras diziam que eu era sortuda por ter um namorado assim, mas...

 

   Daniel voltou a me olhar e eu vi a touca vermelha em suas mãos, a mesma que ele havia colocado em mim para eu dormir. Sorri. Pendurei minha bolsa em meu ombro e ele encaixou a touca em minha cabeça delicadamente, ajeitando as laterais e os meus cabelos, antes de sairmos.

***

   Tudo naquele lugar era incrível.

   As cores, os cheiros, as pessoas. Eu não parava de sorrir para cada coisinha que via. Desde as lanternas e as decorações da festa, até as lojas mais simples com coisinhas chinesas e baratas. Eu sempre gostei bastante da cultura oriental, mas nunca havia visitado um lugar que se aproximasse tanto disso, muito menos os países de origem. Chinatown era repleta de chineses e seus descendentes, e todos sorriam amavelmente para mim.

   Estar com ele dessa forma novamente me fazia sentir que o tempo era irrelevante. Parecia que ainda éramos nós, há 6 anos. Como se nada houvesse mudado, como se não tivéssemos passado por tantas coisas separados. Como se nossas vidas não estivessem tão longe da realidade um do outro. E no fundo, eu desejava que não estivessem. A consciência e a culpa davam tapinhas em minha cabeça sempre que eu me distraía e me permitia pensar a respeito da realidade. Mas eu sou covarde. Empurrava as duas intrusas para o fundo da mente e focava em algo colorido ao meu redor, que Daniel me mostrava, para não acabar ficando louca.

   Em certo momento, quando paramos em uma pequena loja cheia de coisas bonitinhas e engraçadas, eu resolvi experimentar um arco de orelhas de coelho. Eram brancas e macias, cheia de pelinhos. Coloquei da cabeça e me olhei em um espelho que havia na parede, rindo de mim mesma. Daniel me observava com um leve sorriso e quando virei para ele, nós dois próximos demais, ele tocou em minha bochecha com as pontas dos dedos e a acariciou levemente. Meu sorriso vacilou, enquanto meu coração acelerava.

   Ele afastou seus dedos rapidamente, com uma expressão encabulada. Mordi o lábio inferior, fingindo que não havia percebido. Como se isso fosse possível. Ele riu e pegou seu celular no bolso, se preparando para tirar uma foto minha. Com certeza tentava disfarçar, mas eu ainda podia sentir seu toque quente em minha pele.

   Consciência e culpa, consciência e culpa.

   Ele tinha apenas a consciência, eu era a sortuda que possuía as duas.

   Daniel seguiu me mostrando as lojas e restaurantes que mais gostava, e conseguimos chegar a tempo de assistir a Dança do Dragão. Diversas pessoas participavam do desfile, enquanto a música contagiante tocava e todos dançavam, com roupas características e os grandes dragões de tecido que exibiam. Tirei fotos do máximo de coisas que consegui, mas me preocupei mais em assistir. Daniel tinha o braço sobre os meus ombros, para que eu não me perdesse no meio das pessoas.

   Depois de ter assistido as danças por tempo suficiente, resolvemos procurar um lugar para comer algo. As horas haviam passado e mal havíamos percebido. Daniel me levou a um restaurante que ele gostava muito e sentamos para fazer nossos pedidos. Optamos por levar a comida para almoçar em casa, já que Ben estava enfiado na cama e estava contando conosco para almoçar. Uma senhora nos atendeu, e logo descobri que ela era a dona do local. Era pequenininha e com cabelos bem brancos. Usava óculos redondo e tinha um sorriso doce. Após fazermos nossos pedidos, ela o levou para a cozinha e logo retornou com um pote de biscoitos da sorte.

— Estão fresquinhos, foram feitos hoje - ela disse, nos oferecendo. - É por conta da casa.

   Eu e Daniel nos entreolhamos, felizes, e pegamos nossos biscoitos.

— Lembrem-se que nós não escolhemos os biscoitos - ela disse baixinho, como se contasse um segredo. - Eles é que nos escolhem.

   Quebramos nossos biscoitos ao mesmo tempo e eu desenrolei o pequeno papel branco, lendo a mensagem:

   "Grandes mudanças esperam por você", o bilhete dizia.

   Era uma mensagem genérica. Provavelmente havia diversos biscoitos com aquela mensagem, mas aquelas palavras fizeram um arrepio absurdo passar por todo o meu corpo. Senti meu couro cabeludo ficar dormente com o formigamento e levei uma mão à cabeça, os pelos do meu braço todos arrepiados. Meu Deus.

   Olhei para Daniel e percebi que ele também estava arrepiado, seu olhar fixo no papel em suas mãos.

— O que diz no seu? - perguntei curiosa.

— Oh, não, querida - a senhora disse, dando um tapinha leve em minha mão. - Não devemos contar a nossa sorte à outras pessoas. Mesmo que, por vezes, pareça azar. O que tem que acontecer, deve acontecer.

   Fiquei olhando-a por alguns segundos e, por fim, assenti fracamente. Agradeci mais uma vez pela gentileza em nos dar os biscoitos e ela sorriu para mim de forma misteriosa, se retirando. Enrolei meu papel novamente e o guardei em minha carteira, como amuleto da sorte. Daniel fez o mesmo e ficamos em silêncio enquanto esperávamos o nosso almoço.

   Quando voltamos ao apartamento, encontramos Ben igual a um mendigo vasculhando a geladeira. Ainda vestia a calça do pijama, mas agora tinha um cobertor cobrindo a cabeça e enrolado em seu corpo. Quando ouviu o barulho da porta fechando, seu olhar voltou-se para nós dois. Arqueei uma sobrancelha, assustada.

— Graças a Deus - ele suspirou, fechando a geladeira. - Achei que teria que almoçar biscoitos e água.

— Toma vergonha nessa cara - Daniel resmungou, colocando as sacolas sobre o balcão. - Trouxemos comida, mas você só vai comer quando tomar um banho.

— Qual é, Daniel...

   Ben tentou pegar uma das sacolas, mas Daniel beliscou uma de suas mãos e Ben riu.

— Você é pior que nossas mães - ele disse. - Não coma tudo enquanto eu tomo banho.

— Tanto faz.

— Não o deixe comer tudo, Ally - Ben disse, me olhando com uma falsa expressão sofrida. - Guarde alguns rolinhos primavera para mim.

— Pode deixar. - pisquei para ele e ele piscou de volta.

   Deixei minha bolsa no sofá e tirei as botas, ficando apenas de meias. Dentro do apartamento estava bem mais quentinho. Ajudei Daniel a separar as comidas e arrumamos tudo sobre a mesinha de centro da sala. Sentamos no chão, sobre o tapete felpudo e quentinho, e ele ligou a TV enquanto comíamos. Como era domingo, não havia nada de emocionante passando na TV, então Daniel colocou em um jogo de basquete que estava sendo transmitido e ficamos assistindo.

   Vez ou outra eu o olhava de soslaio, observando a forma como ele comia e assistia ao jogo atentamente. Percebi que ele estava comendo com os hashis como se tivesse feito aquilo a vida inteira, enquanto eu comia meu yakissoba com garfo. Eu fiquei observando, tentando entender como ele segurava aqueles pauzinhos com tanta maestria. Ele acabou percebendo o meu olhar e sorriu um pouco, um dos cantos de seus lábios sujo com molho teryaki.

— Como você faz isso? - perguntei, tentando parecer menos idiota. - Como segura os hashis?

— Vou te ensinar - ele disse, parecendo feliz e satisfeito em fazer aquilo. Deixou sua comida de lado e pegou os hashis extras sobre a mesa, tirando-os da embalagem e me entregando. - Cada pessoa segura da forma que acha melhor, mas basicamente você segura um deles com os três últimos dedos, para formar uma "base", enquanto o polegar e o indicador manuseiam o outro para pegar a comida.

   Ele mexia em meus dedos, colocando-os na posição certa enquanto me explicava tudo. Mexi os pauzinhos da forma que ele havia explicado e arregalei os olhos, sorrindo. Fui até o yakissoba e testei, rindo feito uma criança ao conseguir agarrar a comida e levá-la à boca sem deixar nada cair.

— Não acredito! – exclamei eufórica, sem conseguir me conter de felicidade. - É tão simples!

— Sim, depois que você aprende nunca mais esquece - falou sorrindo.

— Obrigada, Daniel... - murmurei, sorrindo abobalhada enquanto pegava um pedacinho de frango e ficava observando-o. - De verdade.

   Daniel ficou me observando em silêncio com uma expressão carinhosa. Me senti envergonhada na hora, por parecer tão boba. Ben apareceu na hora certa, de banho tomado e vestindo um pijama de flanela.

— Que expressão boba de felicidade é essa, Ally? - perguntou enquanto pegava sua comida e se jogava no sofá atrás de nós. - Ganhou na loteria?

— Não, eu aprendi a usar hashis! - sorri abertamente, mostrando minhas mãos segurando os pauzinhos.

   Ben ficou me olhando com uma expressão de tédio, enquanto comia seu yakissoba. Revirei os olhos, voltando minha atenção para o jogo, e ele riu. Passou uma mão nos meus cabelos, bagunçando-os.

— Tão feliz com uma coisa tão boba. - ele suspirou. - É por isso que nós te amamos, garota.

***

   No fim do dia, eu tinha que voltar para a minha casa.

   Como Daniel disse que eu poderia ficar com as roupas que estava vestindo, eu apenas guardei meu vestido da noite anterior em minha bolsa e deixei o sobretudo para levar nas mãos. Daniel entrou no quarto enquanto eu arrumava minhas coisas e foi até seu closet, procurando um casaco para vestir. Eu havia ido à Taberna de carona com Eve ontem à noite, então ele teria que me levar em casa hoje.

   Arrumei tudo e fiquei sentada no colchão, esperando-o pegar seu casaco. Meu olhar flagrou o violão de antes, no meio do edredom. Puxei as cobertas, revelando mais do instrumento. Eu nunca tinha visto um daquele tipo. Ele parecia ter sido esculpido de uma árvore, realmente. Tinha um tom escuro de madeira e possuía leves detalhes, muito semelhante à um tronco de árvore. Era lindo.

— Eu toquei um pouco enquanto você dormia - Daniel disse, se aproximando enquanto vestia sua jaqueta. - Mas você estava praticamente em coma alcóolico, então não ouviu.

   Passei a ponta dos dedos pelo violão, observando seus detalhes com cuidado.

— Pode tocar algo para mim na próxima vez que eu vier - falei, dando de ombros.

   Daniel arqueou as sobrancelhas, surpreso o que eu disse, mas deu seu familiar sorriso torto e assentiu. Estendeu uma mão para mim e eu a aceitei, levantando de onde estava.

— Aliás, qual é a da cama no chão? - perguntei enquanto saíamos do quarto. - Eu gostei da ideia.

— A cama antiga me fazia ter dores nas costas - ele explicou. - Um dia, coloquei o colchão no chão e nunca dormi tão bem na minha vida. Vendi a cama e não quero saber de uma tão cedo. - deu de ombros.

   Ben estava no sofá da sala, todo enrolado em sua coberta e ainda assistindo o jogo. Fui até ele para abraçá-lo e ele me puxou, fazendo-me cair sobre ele no sofá. Seus braços se apertaram ao meu redor, enquanto ele nos girava e ficávamos deitados de lado, frente a frente.

— Não vai embora... - ele lamuriou, com uma expressão triste. - Daniel vai me torturar quando você for. Ele parece bonzinho agora, mas quando estamos sozinho ele me faz varrer o chão mesmo estando de ressaca.

   Sorri, apertando sua bochecha e dando um beijinho em sua testa.

— Se comporte, Benjamin - falei. - E tente não beber demais. Seu fígado agradece.

— Eu sei, eu sou um idiota. - ele suspirou. - Mas a desilusão que sofri ontem por causa de Caroline foi demais para o meu coração.

— Você vai superar.

— Eu sei que vou. - ele piscou para mim, um sorriso cretino nos lábios.

   Revirei os olhos e ele beijou minha bochecha rapidamente.

— Agora vá, porque Daniel está quase me trucidando por eu estar deitado e abraçado com a garota dos sonhos dele - Ben cochichou.

   Senti minhas bochechas esquentarem e saí do sofá. Daniel realmente nos olhava parecendo muito incomodado com a situação. Tentei controlar um sorriso, mas Ben não fazia questão de controlar nada. Riu da cara do primo e ficou elogiando meu perfume, enquanto saíamos do apartamento.

***

   Foi estranho voltar ao meu apartamento, depois de um dia inteiro com Daniel.

   Deixei minhas chaves sobre o balcão da cozinha e larguei meu sobretudo e a bolsa no sofá. Gregory apareceu miando alto e eu o peguei no colo, enchendo-o de beijinhos na cabeça. Sentei no sofá e ele se aconchegou em seu colo, aproveitando as carícias que eu fazia. Olhei ao redor, suspirando.

   Um apartamento grande, branco, frio e vazio.

   Respirei fundo, jogando minha cabeça para trás e encarando o teto sobre mim. Tateei minha mão ao meu lado, procurando pelo meu celular. Assim que o peguei, disquei o número de Cameron. Chamou seis vezes antes de cair na Caixa Postal. Tentei outra vez e, novamente, ninguém atendeu.

   Deixei o aparelho de lado, sentindo-me uma casca vazia. Olhei ao redor novamente, chegando à conclusão de que a única coisa que eu tinha de verdade estava sobre o meu colo, miando baixinho e ronronando enquanto olhava fundo nos meus olhos.

— Você é o único que me entende, Greg - murmurei, coçando atrás de sua orelha rosada. - E também é a coisinha mais linda desse mundo.

   Ele miou em resposta, empurrando sua cabeça contra a minha mão querendo mais carinho. Sorri fracamente. Se ele falasse, eu podia ter certeza absoluta de que nossas conversas seriam assim:

   "Então, Allison Jones, minha querida humana, essa era a vida incrível que você queria? Um apartamento bonito, um (quase) noivo, um bom emprego e tudo em uma cidade incrível?"

   Sim.

   "E está sendo como você sempre sonhou?"

   Não chega nem perto.



Notas finais do capítulo

Ai, gente. Como eu disse lá no grupo também (quem não participa do grupo tá perdendo as fofocas e os avisos que digo, HAHAHA) esse é o último capítulo com a vida "boa" da Ally. A partir do próximo capítulo já começam as tretas. QUE TÁ PREPARADA? HEHEHE.
Eu queria agradecer também a cada leitora que comenta, gente. Eu morro de amores com as palavrinhas de vocês, sério. Cada comentário é um sorriso bobo meu. E às leitoras que não comentam: EU AMO VOCÊS TAMBÉM ♥
Espero MUITO que estejam gostando da história e espero que gostem do que está por vir! Logo trarei o próximo capítulo!
Bjbjbjbjbjbjbj

P.S: Eu sempre sigo, é só ir no link pra saber dos segredos:
https://www.facebook.com/groups/209079426170113/?ref=bookmarks ♥



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