Collide escrita por Allie Próvier


Capítulo 51
[2ªT] 13. Um dia saberemos


Notas iniciais do capítulo

ALELUIA, NÉ.
Vamos logo ao capítulo, HAHAHAHA.
Espero que gostem ♥




[2ª TEMPORADA]

Capítulo 13

 

Porque aquela garota pegou meu coração
e eu não o quero de volta.

EDEN - sex

 

   POV Daniel

   Eu prometi a mim mesmo que daria um tempo para Ally refrescar a cabeça e não tentar me matar. Mas eu não aguentava esperar. 

   Eu sabia que no dia anterior fomos longe demais, mas não era a minha intenção. Quero dizer, não era a minha intenção naquele momento. Eu realmente fui até ela para ajudá-la com a pintura, não com outro propósito. Mas eu não aguentei me segurar quando vi a forma como ela estava reagindo à mim. A falta que eu sentia dela era muito grande e eu sabia que isso era mútuo.

   Mas como sempre, temos a velha e incômoda consciência. Pensando melhor agora, eu sabia o quanto ela devia estar se martirizando por tudo, considerando que agora é noiva. Mas ainda assim, eu não pude me segurar. Mais uma vez. Por isso liguei para ela no domingo, às três da tarde. Só quando já havia chamado quatro vezes foi que eu bufei e me xinguei por estar ligando. Era muito óbvio que ela não me atenderia, eu devia apenas ter mandado uma mensagem e...

Alô.

   Meu coração deu um salto e eu gaguejei, sem saber o que dizer. Tossi e, por fim, consegui colocar a voz para fora.

— Oi - falei, minha voz rouca como o inferno.

   Porra, você é um idiota, Daniel. Mesmo.

O que quer?— ela perguntou, muito mais séria do que o normal.

— Hoje é noite de karaokê - falei devagar. - Benjamin vai e gostaria de saber se você... Se você...

Se quero ir?

   Murmurei um "sim" bem baixo e pude ouvi-la suspirar no outro lado da linha. Eu podia sentir a sua insegurança e indecisão, mesmo longe. Ela sabia que Benjamin não havia dito nada, é claro. Porque se ele a chamasse, o faria por si mesmo, não mandaria recados através de mim. Mas, de qualquer forma, ela estava pensando. E atendeu a minha ligação. Isso era algo, depois de tudo o que houve.

Eu não sei se poderei ir— ela respondeu. - Será que horas?

— Começa às sete horas - falei rapidamente, com o olhar fixo na janela ao meu lado. - Seria muito bom se você fosse. 

   Ela murmurou algo incompreensível, bem baixinho, e eu fechei os olhos com força. Meu coração acelerado. Eu sentia que estava piorando tudo, cada vez mais. 

— Escute, Ally... - murmurei. - Me desculpe por ontem. Aquilo não devia ter acontecido. Não quero que as coisas fiquem estranhas entre nós, porque...

   "Porque eu te amo", eu quis completar. Mas se eu fizesse isso era capaz de ela sumir de vez, e eu preferia vê-la ao lado de Cameron Hayes do que ver isso acontecer.

— Porque somos amigos agora. - finalizei. - Me desculpe.

Tudo bem. - pude imaginá-la sorrindo, ao menos um pouco. - Eu tentarei ir. Talvez nos encontremos lá.

   Finalizamos a ligação e eu joguei o celular ao meu lado na cama, deitando em seguida. Passei as mãos no rosto com força, repuxando minha pele e grunhindo. Aquela situação toda me deixava ansioso e agoniado. Eu queria que pudéssemos voltar ao que éramos antes, mas eu sabia que seria impossível. Enquanto ela estivesse noiva, eu não passaria de um amigo antigo. 

   Pensei em mil formas de tentar arruinar seu noivado, como naqueles filmes de romance que ela me fazia ver há anos atrás. Mas logo me senti um idiota e recriminei a mim mesmo. Quem eu queria enganar? Jamais seria capaz de fazer isso. Tudo o que me restava era esperar e ver o que aconteceria - e talvez, só talvez, fazê-la me enxergar novamente. Cameron podia tê-la como noiva agora, mas eu a tive e tenho de muitas outras formas. No fundo, sei que isso conta muito. Ally e eu temos uma ligação forte e eu sei que pode passar o tempo que for... Essa ligação não vai se romper.

— Se você demorar mais dez minutos para sair desse quarto, eu não vou mais - Ben falou, aparecendo em minha porta. - Que cara de derrota é essa?

— Não é nada - resmunguei, levantando rapidamente. - Vamos logo, os caras já estão nos esperando.

   Ben pareceu querer dizer alguma coisa enquanto me observava calçar meus tênis, mas balançou a cabeça como se me achasse louco e ficou em silêncio. Trancamos o apartamento e fomos para a Taberna do Viking, onde Emmett e Carlos já nos esperavam para arrumarmos o local. Viking, como sempre, só ficava dando ordens e dizendo como queria a arrumação, enquanto fingia que estava empurrando coisas para nos ajudar. 

   O local abriria às sete horas da noite, então passamos as três horas seguintes arrumando tudo e testando todos os esquipamentos para ver se estava tudo certo. Não iríamos cantar hoje, mas os clientes iriam. Aquele talvez fosse o evento mais divertido da Taberna, porque os clientes frequentavam assiduamente e todos faziam questão de participar, mesmo os que cantavam horrorosamente mal. E a graça era justamente essa.

   Apesar de não ser dia de show, os clientes sempre pediam para que eu cantasse algo. Não adiantava fugir. E como Emmett, Carlos e Viking colocavam toda a pilha do mundo e me empurravam até o palco, atiçando ainda mais todos os presentes, eu não tinha muita escolha. Mas hoje, em especial, eu não estava no clima para isso. Talvez pelo nervosismo e a dúvida. Eu sentia, bem no fundo, que havia uma grande chance de Ally não ir. E se ela não viesse, eu sentia que estaria longe de reconquistar a confiança dela novamente. Aquilo estava me corroendo por dentro. 

   Benjamin percebeu meu estado de espírito, mas nada disse. Apenas ficou me observando de canto e franzindo os lábios. Emmett também me olhava como se quisesse me perguntar algo, enquanto Carlos tagarelava como sempre e não notava nada. O que menos notava algo era ele, para variar. Mas isso era bom. Ao menos com ele eu podia fingir que nada me afligia, enquanto os olhares de Ben e Emmett me faziam querer gritar. 

   Tudo ficou pronto bem a tempo da abertura e logo os primeiros clientes começaram a chegar. Visitantes novos, moradores das redondezas, clientes assíduos que saiam do trabalho e sempre vinham se distrair aqui. Em frente ao palco o espaço estava vazio, para que houvesse espaço para quem quisesse dançar. Sempre tinha as pessoas mais animadas da festa, que bebiam e não conseguiam ficar paradas ao som de vozes berrantes e esganiçadas, e queriam dançar. Então, deixávamos um espaço vago. 

   Viking começou a ficar ocupado e nós fomos para a mesa que sempre ocupávamos nesses dias, próxima ao palco, encostada na parede, onde haviam poltronas confortáveis. Começamos a beber nossas cervejas e todos conversavam, enquanto eu observava o movimento do local com atenção. Meus olhos voltando-se à entrada a todo momento. E quando eu levava meu copo aos lábios para beber mais um gole de cerveja, Ben deu um tapa forte em meu braço, quase derrubando todo o líquido em cima de mim. Arregalei os olhos para ele, irritado, mas ele me ignorou totalmente. Seu sorriso ia de orelha a orelha e ele olhava para algo atrás de mim.

— Ela chegou! - ele disse, afoito. - Caroline está aqui, vá lá! Rápido!

— Agora? - perguntei, deixando o copo sobre a mesa e limpando minha mão molhada com um guardanapo. - Deixe para mais tarde.

— Enlouqueceu? - ele me olhou como se eu fosse louco. - Mais tarde dará tempo de outros homens irem para cima dela. Você tem que ir lá agora.

   Bufei, estressado. Carlos e Emmett riam. Levantei, lançando um último olhar cortante a Ben, e fui até Caroline. Ela era a irmã mais nova de Viking e quase sempre estava no bar, o ajudando. Como ela era um poço de escárnio e mau-humor, não sabíamos muito sobre ela, a não ser o que Viking nos contou: ela estava terminando a faculdade de Direito e não estava interessada em namoro. Ainda assim, aquilo não havia feito Benjamin perder o interesse. Ele tentava se aproximar dela constantemente, mas nunca funcionava. Ela simplesmente fingia que ele não existia.

   Então, sobrou para mim, é claro. Caroline estava arrumando os copos do bar na parede quando eu apoiei meus cotovelos no balcão, chamando-a. Ela se virou com uma sobrancelha arqueada, mas sorriu um pouco para mim. Entre todos nós, ela parecia desgostar menos de mim.

   Desgostar menos, não gostar mais. Era isso que Caroline fazia.

— Ah, oi - ela respondeu. - Quer algo?

— Na verdade, sim. - engoli em seco, sentando-se em um dos bancos altos e sem saber como iniciar aquela conversa. - Então, Caroline. Tem um amigo meu que está muito interessado em você e queria muito o seu telefone.

   Se eu dissesse que era Benjamin, ela provavelmente pegaria um daqueles copos de vidro e o arremessaria daqui até o outro lado do local. Mas mesmo diante da minha mentira, ela não era boba. Seu olhar voou até a nossa mesa, onde Ben nos olhava tentando disfarçar. 

— É para o seu primo, não é? - ela me olhou cansada. - Ele nunca irá desistir?

— Não enquanto achar que tem alguma chance. - dei de ombros.

   Ela respirou fundo, cruzando os braços e se apoiando no balcão. Seu rosto bem próximo ao meu. Ela arqueou uma sobrancelha e disse, lentamente:

— Pois diga a ele, de uma vez por todas, que eu sou lésbica. 

   Mordi o lábio inferior, tentando não rir. Ela percebeu e se afastou, com um sorriso. Virei um pouco o rosto para olhar Ben, que nos observava cheio de expectativa, e não aguentei. Gargalhei alto e Caroline mandou um beijo para Ben, logo voltando ao seu trabalho. Voltei à mesa com um sorriso idiota no rosto, arrancando olhares curiosos de todos os três.

— O que ela disse? - Ben perguntou, desesperado. - Conseguiu o telefone dela?

— Não, mas ela disse que você terá altas chances com ela - falei, sentando ao seu lado. - Quando você se transformar em uma mulher.

   Emmett e Carlos arregalaram os olhos, rindo audivelmente. Ben continuou me olhando sem entender e eu quase senti pena dele. Quase. Quando ele entendeu o que eu queria dizer, murchou na poltrona e encostou a testa na mesa, murmurando coisas incompreensíveis. 

— Eu sempre soube - Emmett disse, observando Caroline. - Eu sabia que tinha algo muito estranho. 

— Eu sempre suspeitei - Carlos coçou o queixo, olhando pensativo para Caroline. - Ela sempre atendeu as mulheres com um sorriso e falava conosco quase rosnando. 

— Talvez porque vocês não paravam de perturbá-la. - revirei os olhos. 

   Carlos balançou as sobrancelhas e deu de ombros. Eles nunca teriam jeito. Então, de repente, os olhos de Carlos arregalaram-se e ele sorriu abertamente para mim.

— Olhe para trás - ele disse. - Mas tente não desmaiar.

   Olhei rapidamente e meu coração saltou ao ver Ally entrando, as mãos nos bolsos do sobretudo e olhando ao redor à procura de alguém. Sorri, ficando de pé rapidamente. Ao seu lado estava Eve, que acenava para Viking de longe.

— Vai lá, garanhão - Emmett riu. - Chame-as para sentarem conosco.

— Se vocês prometerem não fazer vergonha. - arqueei uma sobrancelha, enquanto Carlos e Emmett olhavam-se fingindo inocência.

   Quando virei novamente na direção delas, as duas me avistaram. Eve sorriu e pude ver Ally hesitar, me olhando com certo receio. Ótimo. Depois de 6 anos eu beijo a mulher por quem sou apaixonado desde sempre e quando ela me vê no dia seguinte, parece querer fugir.

   Isso é realmente ótimo.

 

   POV Ally

   Eve me cutucou com o cotovelo disfarçadamente, enquanto andávamos na direção de Daniel. 

— Melhore essa cara e finja que nada aconteceu - ela cochichou para mim.

   Eu podia sentir minhas pernas fraquejarem e minhas mãos formigarem. Meu olhar passou pelos seus cabelos escuros, seguindo a linha do seu maxilar marcado e ele sorriso aberto em minha direção. Eu queria morrer ali mesmo. Eve foi a primeira a abraçá-lo, agradecendo pelo convite mesmo sabendo que ele não havia a convidado, exatamente.

   "Eu preciso ir para ver a cara de embaraço de vocês!", ela havia dito. De qualquer forma, eu realmente precisava dela lá, porque... Bem, porque eu não queria ir sozinha. Mas queria ir. Caso contrário, passaria meu domingo em casa, afundada no sofá, conversando com o meu gato e me perguntando por que diabos o meu (quase) noivo não atendia as minhas ligações.

   Daniel voltou sua atenção para mim e eu sorri levemente, abraçando-o. O seu perfume amadeirado atingiu minhas narinas em cheio e eu suspirei, passando meu nariz na pele de seu pescoço sem perceber. Senti seu corpo se retesar e abri os olhos rapidamente, me afastando rapidamente. Ele me olhava intensamente, seus olhos verdes levemente mais escurecidos. Como ontem.

   Meu Deus. 

— Então, é melhor nos sentarmos - Eve disse, nos olhando com um sorriso contido. Ela havia percebido. 

   Eve sentou primeiro, arrastando-se na poltrona circular e ficando ao lado de Benjamin. Sentei ao lado dela e Daniel veio por último, ficando na ponta do banco. Cumprimentamos a todos e olhamos curiosamente para Benjamin semi-morto, com a testa na mesa.

   Eve o cutucou e ele apenas resmungou algo, levantando a cabeça e envolvendo nós duas em um abraço.

— Vocês duas são as únicas mulheres que eu conseguirei ter na vida - ele disse melancólico. - Vocês e a minha mãe.

— Considerando que Ally e Eve já são quase casadas... - Carlos disse. - A única mulher da vida é a sua mãe, mesmo. Lamento.

   Benjamin semicerrou os olhos para ele e nós rimos. 

— Eu vou buscar bebidas para vocês - Emmett falou, ficando de pé. - Vem me ajudar, Carlos.

   Agradecemos, falamos o que gostaríamos de beber e eles se retiraram logo em seguida. Eve e Ben engataram em uma conversa sobre alguém chamada Caroline e eu suspirei, sentindo o olhar de Daniel sobre mim. Olhei para ele e ele desviou o olhar, sem jeito. Sorri.

— Ei - falei baixinho, atraindo a sua atenção. - Está tudo bem.

   Ele ficou me olhando por um tempo e, por fim, sorriu um pouco. Seus ombros ficaram visivelmente relaxados. Eu também estava nervosa depois de tudo, mas sabia que não adiantaria manter aquele sentimento. Sempre fomos amigos e agora... Bem, agora isso era tudo que tínhamos. E eu não queria perdê-lo. Daniel era toda a calmaria que eu não vinha tendo em minha vida há um bom tempo e eu não queria perder isso.

   Eu me sentia uma cretina por sentir tudo isso, mas não podia evitar. Eu gostava dele, sempre gostei. E as sensações que ele me causa sempre foram algo que eu não podia controlar. Daniel tinha, sim, um efeito catastrófico sobre mim. E eu odiava admitir que gostava, mesmo com a minha mente gritando o tempo inteiro que isso era errado, errado, errado.

   As horas foram passando em meio a bebidas e conversa. Emmett e Carlos eram muito engraçados e era muito fácil gostar deles. Enquanto Carlos tinha aquele sorriso contagiante e não parava de fazer piadas e provocar os amigos, Emmett era mais tranquilo. Talvez por ser o mais velho do grupo - algo em torno de 30 anos - e já ser casado. 

   No início, a maior parte das pessoas ficou envergonhada em ir cantar lá na frente. Mas aos poucos, contanto que o local enchia e todos iam ficando menos sóbrios, os shows começaram. De início iam em duplas, mas logo havia várias pessoas se arriscando a cantar sozinhas. Cantavam, em sua maioria, músicas antigas e sucessos dos anos 80 e 90. Em certo momento eu já havia parado de beber e o meu estômago doía de tanto rir, após um homem cantar "You're Beautiful", do James Blunt.

— A parte boa é que quem estiver realmente na fossa, vai rir horrores disso e melhorar na hora - Eve falou, enquanto bebia um gole da sua cerveja e quase engasgava em seguida, quando o homem começou a cantar o refrão novamente.

   Ao fim da música, todos batemos palmas, é claro. Benjamin assoviou e gritou "esplêndido!". O homem saiu do palco meio trôpego, mas sorrindo de orelha a orelha. Devia estar se achando o novo James Blunt, realmente.

   Então, para a nossa surpresa, Viking saiu do bar e subiu ao palco. Carlos e Emmett sorriram, mais animados que o normal. Arqueei uma sobrancelha, prestando atenção ao que Viking dizia ao microfone.

— Como sempre, hoje teremos a dupla sorteada! - ele sorria, com sua longa barba e seus olhos claros e felinos passando por todos no local. - Para quem não sabe, em todas as noites de karaokê nós escolhemos duas pessoas para subirem aqui e cantarem juntas.

   Eu juro que senti um arrepio percorrer toda a minha espinha nesse momento. Olhei para Daniel, mas ele tinha seu olhar arregalado e fixo em Viking. Ele parecia receoso.

— Então, para dar mais emoção a esse momento, vamos ao holofote! 

   Uma luz forte e branca acendeu sobre Viking no palco. Logo ela passeou por todo o local e todos riam, escondendo-se quando ela passava por cima de suas cabeças. Então, a luz apagou. Eu nunca vi aquele local tão silencioso como naquele momento. E cerca de três segundos depois, a luz acendeu com força em cima de mim e Daniel.

— Lá estão os sortudos! - Viking sorriu como uma criança, enquanto eu e Daniel congelávamos onde estávamos. - Venham, não fiquem tímidos!

— Puta merda - resmunguei, colocando as mãos no rosto.

   Eve, Benjamin, Carlos e Emmett riam, bebendo suas cervejas e esgueirando-se para o canto das poltronas, deixando apenas eu e Daniel na visão de todos.

— Cantem! - Viking disse, puxando um coro.

   Logo todos batiam palmas e gritavam "Cantem! Cantem! Cantem!". Eu queria um buraco para me esconder, de verdade. Eu ri nervosa e tentei falar que cantava horrivelmente mal, mas ninguém me escutou. Então, Daniel segurou meu pulso e me pôs de pé, me arrastando com ele até o palco. Eu não sentia minhas pernas. Senti um formigamento subir pelas minhas pernas, tomar conta do meu corpo e nublar minha mente. Talvez fosse a bebida ou talvez fosse desespero.

   Meu coração acelerava absurdamente quando subimos no pequeno palco e Viking nos dava dois microfones.

— Agora - ele dizia, como um apresentador de circo - joguem "par ou ímpar" para decidirem quem escolherá a música!

   Daniel suspirou e me olhou, num misto de cansaço e receio. Minhas mãos tremiam ao redor do microfone.

— Fica tranquila - ele piscou para mim. 

   E eu fiquei. Quero dizer, tranquila. Mas não totalmente. Ao menos ele ganhou no jogo e foi escolher a música, mas eu não sabia se aquilo era bom ou ruim. Céus, eu não cantava. Nunca. Se eu cantasse na frente de alguém, era porque eu amava muito essa pessoa e acreditava que não havia mais nada a esconder.

   Eu cantava com Eve. Cantava com a minha mãe e com Vanessa. Cantava com Gregório. E parando para lembrar agora... Eu sempre cantava com Daniel, em nossos passeios noturnos por São Francisco. Mas nunca, nunca, cantei com Cameron.

   Mas ainda assim, cantar na frente de um bar inteiro, com Eve e Benjamin me olhando de forma cômica... Isso era demais. Graças a Deus as luzes de iluminação do palco foram ficando mais fracas e amareladas, quase românticas. O local pareceu mais aconchegante de repente. Passei os olhos rapidamente pela platéia. Todos nos olhavam com sorrisos fofos e ansiosos pela música. Eu não sei por que, mas de repente o clima engraçado de antes desapareceu e todos estavam na mesma pose dos shows comuns de Daniel.

   E então, eu percebi. É óbvio. Quando meu olhar caiu sobre Daniel, eu entendi aquelas expressões ansiosas e os olhares relaxados. Daniel tomava conta daquele lugar como se tudo fosse dele. Possuía uma postura em cima daquele palco pequeno, um jeito peculiar de segurar o microfone... Ele tinha uma presença incrível, mas nem parecia se dar conta disso. Ele não usava mais a jaqueta preta. Minutos atrás sentiu calor e a tirou. Vestia apenas o jeans escuro, a familiar blusa branca que abraçava o seu corpo e aquele cabelo preto desgrenhado. Suas bochechas levemente rosadas pelo álcool e umedecendo os lábios com a ponta da língua ao se virar para mim, após a escolher a música.

   Senti algo esquentar em mim e não era por causa do calor.

— Só relaxe - ele sorriu. - Eu escolhi uma que você sabe.

   Eu estava mais tranquila, mas não porque estava confiante. Era efeito do choque. Meu corpo inteiro poderia cair a qualquer momento se eu fraquejasse. Daniel se aproximou de mim e ficamos frente a frente. E então, a música começou. E eu fechei os olhos na hora, um sorriso se espalhando pelo meu rosto.

— Eu não acredito que... - falei baixinho, abrindo meus olhos novamente e o olhando. - Você não fez isso.

— Eu fiz - ele sussurrou. - Eu assisti esse filme seis vezes depois que nos separamos. Ainda não vejo nada de mais nele, mas tenho que admitir que a trilha sonora...

   Eu realmente não acreditava que ele havia escolhido "Someday We'll Know", do New Radicals. Mas na versão da Mandy Moore - que protagonizava o filme - com o Jonathan Foreman. Era uma das músicas mais marcantes que tocava no filme "Um Amor para Recordar", que eu lembro de ter recomendado a Daniel certa vez, por ser um dos meus filmes preferidos da vida.

Mandy Moore ft. Jonathan Foreman - Someday We'll Know

   Eu não acreditava nisso. Não acreditava em Daniel. E era esse tipo de coisa que me fazia ficar cada vez mais... 

   Meu Deus, sério. Ele é inacreditável.

   Como eu ainda estava nervosa, ele cantou o primeiro trecho em meu lugar e eu dei continuidade logo após.

 

90 miles outside Chicago

Can't stop driving, I don't know why

So many questions, I need a answer

Two years later, you're still on my mind

What even happened to Amelie Earhart?

Who holds the stars up in the sky?

Is true love just due once in a lifetime?

Did the captain of the Titanic cry?

[Estou a mais de 140 quilômetros de Chicago

Não consigo parar de dirigir, não sei por quê

Tantas perguntas, preciso de uma resposta

Dois anos depois, você ainda está na minha mente

O que foi que aconteceu com Amelie Earhart?

Quem segura as estrelas lá no céu?

É verdade que o amor verdadeiro só 

acontece uma vez na vida?

Será que o capitão do Titanic chorou?]

 

   Danitel tinha um sorriso de lado e contido para mim, enquanto cantava me olhando nos olhos. Não sei se  ele fazia de propósito, mas aquilo me ajudou a me manter de pé, firme, enquanto cantava da melhor forma que conseguia.

 

Someday we'll know

If love can move a mountain

Someday we'll know

Why the sky is blue

Someday we'll know

Why I wasn't meant for you

[Um dia saberemos

Se o amor consegue mover uma montanha

Um dia saberemos

Por que o céu é azul

Um dia saberemos

Por que eu não nasci para você]

 

   Daniel me rondou lentamente no palco, enquanto cantávamos juntos. Meu olhar o seguiu, um sorriso bobo em meus lábios. Ele cantava com tanta vontade e tanta vida... Era incrível assisti-lo a certa distância nas suas apresentações comuns, mas estar aqui, ao lado dele, enquanto ele canta elevava a experiência em um  grau que eu não sabia explicar. Era incrível. 

 

Does anybody know the way to Atlantis

Or what the wind says qhen she cries?

I'm speeding by the place that I met you

For the 97th time

Tonight

[Alguém sabe o caminho para Atlântida?

Ou o que o vento diz quando ela chora?

Estou passando pelo lugar onde conheci você

Pela 97ª vez

Esta noite]

 

Someday we'll know

If love can move a mountain

Someday we'll know

Why the sky is blue

Someday we'll know

Why I wasn't meant for you

(Yeah, yeah, yeah, yeah)

Someday we'll know

Why the Samson loved Dalilah

One day I'll go

Dancing  on the moon

Someday we'll know

That I was the one for you

[Um dia saberemos

Se o amor consegue mover uma montanha

Um dia saberemos

Por que o céu é azul

Um dia saberemos

Por que eu não nasci para você

(Yeah, yeah, yeah, yeah)

Um dia saberemos

Por que Sansão amou Dalila

Um dia eu irei

Dançar na lua

Um dia você saberá

Que eu era o único para você]

 

   Daniel segurou uma das minhas mãos enquanto me rodopiava no palco. O público gritou e assoviou, batendo palmas e cantando junto. Eu me sentia mais leve enquanto ele me fazia acompanhá-lo e sorria. Aos poucos, meu corpo relaxou de verdade. A melodia antes do refrão nos fez dançar, enquanto as pessoas nos acompanhavam à nossa frente.

 

I bought a ticket to the end of the rainbow

I watched the stars crash in the sea

If I could ask God just one question

Why aren't you here with me

Tonight?

[Comprei um ingresso para o fim do arco-íris

Assisti as estrelas caírem no mar

Se eu pudesse fazer a Deus apenas uma pergunta

Por que você não está aqui comigo

Esta noite?]

 

Someday we'll know

Why the sky is blue

Someday we'll know

Why I wasn't meant for you

(Yeah, yeah, yeah, yeah)

Someday we'll know

Why the Samson loved Dalilah

One day I'll go

Dancing  on the moon

Someday we'll know

That I was the one for you

[Um dia saberemos

Se o amor consegue mover uma montanha

Um dia saberemos

Por que o céu é azul

Um dia saberemos

Por que eu não nasci para você

(Yeah, yeah, yeah, yeah)

Um dia saberemos

Por que Sansão amou Dalila

Um dia eu irei

Dançar na lua

Um dia você saberá

Que eu era o único para você]

 

  Cantamos o último refrão e vimos Carlos, Emmett e Benjamin dançando - junto a outras pessoas - na frente do palco, enquanto batiam palmas e cantavam junto conosco. Em certo momento, minha voz morreu no meio da frase e eu ri, sendo acompanhada por Daniel. A música acabou em seus acordes finais e todos bateram palmas. Eu e Daniel demos as as mãos, fazendo uma reverência, e  deixamos os microfones de lado. Descemos do palco e os rapazes nos abraçaram.

— Foi como ver Audrey Hepburn cantando uma música brega e ruim! - Carlos disse, aos berros para ser ouvido sobre o falatório do lugar. - Você estava linda, Ally. Parabéns!

   Eu ri alto, enquanto voltávamos para nossa mesa. Eve estava com o rosto apoiado nas mãos e um grande sorriso nos lábios. Quando nos viu voltando, gargalhou.

— Meu Deus, só eu lembrei do primeiro filme de High School Musical? - ela perguntou, arrancando mais risadas de nós. - Mas tenho que admitir que foi muito bonitinho, sério. Vocês dois tem muita química em cima de um palco. E aliás, Ally, onde você escondeu aquela voz?

— Doce e melódica - Benjamin sorriu, fazendo gestos com as mãos, já em alto estado de embriaguez. - Como um anjo...

— Vocês são ridículos - falei, com um sorriso idiota e feliz. 

   E eu estava mesmo feliz. De uma forma que eu nem mesmo entendia. 

   Passamos mais um bom tempo juntos, bebendo e assistindo aos outros cantores da noite. Mas quando deu uma hora da manhã, decidimos ir embora. Todos recolhemos nossas coisas e fomos pagar a conta. Viking deu um abraço em mim e Eve, pedindo para voltarmos mais vezes, e antes de sairmos ele piscou para mim com um sorrisinho escondido sob a barba loira. Sorri quando pisei no lado de fora, sentindo o ar frio bater contra o meu rosto.

   Viking havia feito aquilo de propósito, é claro. Eu me perguntava o quanto ele sabia da nossa história. Eve ajudava Benjamin a ficar de pé, já que ele trocava os pés de tão bêbado, enquanto caminhávamos pela calçada. Havíamos estacionado os carros praticamente no mesmo lugar, então o caminho era o mesmo.

— Ally - Daniel chamou, atraindo a minha atenção. - Quer dar uma volta?

   Parei onde estava, olhando-o confusa enquanto fechava mais meu casaco ao meu redor. A noite ficava bem mais fria nessa horário.

— Agora? - perguntei, colocando parte da minha franja atrás da orelha e vendo-o assentir. - Tipo... Agora mesmo?

— Agora mesmo. - ele revirou os olhos. - Quero dizer... Antes eu teria que deixar Benjamin em casa, mas...

   Suspirei, pensativa. Será que era uma boa ideia? Mordi meu lábio inferior, a dúvida me corroendo. 

— Podemos fazer o seguinte: você me acompanha enquanto eu deixo Ben em casa. - Daniel sorriu levemente. - Então você decide se estendemos ou não. Posso te deixar em casa depois.

   Por fim, eu concordei. Minha mente gritando para eu ir direto para a minha casa, me refugiar debaixo dos meus cobertores com o meu gato e tentar ligar pela milésima vez para o meu (quase) noivo que não me atendia. Mas o meu coração, bem...

   Ele sentia falta dos passeios noturnos. 

***

EDEN - sex

   Após deixarmos Benjamin em casa e Daniel subir até o apartamento com ele, para se certificar de que Ben não cairia nas escadas e dormiria bêbado nos degraus, nós resolvemos estender o passeio. E eu descobri que às duas horas da madrugada ainda havia vida e cores em Nova York. Andamos de carro pelas ruas, Daniel apontava para tudo o que via e eu prestava atenção em tudo, encantada. Apoiei meus braços na janela, colocando a cabeça um pouco para fora para conseguir observar melhor os arranha-céus iluminados.

   O vento frio contra o meu rosto e EDEN tocando no rádio. Daniel sabia mesmo como trazer memórias boas de volta e conquistar uma garota. E então, eu me peguei com os olhos marejados, em dúvida se era pelo frio ou de emoção.

   Que lindo, Allison Jones. Chorando como uma adolescente ao reviver sensações antigas. Mas eu não conseguia evitar. A nostalgia me atingiu com tanta força que eu tive que limpar algumas lágrimas fugitivas com a manga do casaco. Pude ver Daniel sorrindo um pouco ao ver minha expressão chorosa e suspirei.

— Acho que merecemos um café - ele disse. - E por sorte, estou avistando uma Starbucks aberta.

— Santa Starbucks — murmurei.

— Amém, Starbucks.

   Sorrimos um para o outro e Daniel estacionou o carro na primeira vaga que encontrou. Andamos juntos, lado a lado. Então, ele pegou minha mão e a colocou em seu braço, de forma que ficamos praticamente de braços dados.

— Você precisa de luvas - ele disse, mais para si mesmo, ao ver minhas mãos brancas e geladas. 

— Eu ia comprar luvas, mas preferi comprar uma roupinha de tubarão para o meu gato - falei, suspirando de tristeza. - Ele odiou a roupa.

— Eu não sei por que as pessoas ainda tentam controlar os gatos. - Daniel sorriu, a fumaça branca de frio saindo dos seus lábios a cada palavra que ele dizia. - Eles são totalmente donos de si. Pode ter certeza que quando ele quiser a roupa, ele irá vesti-la sozinho.

— Espero que sim, porque gastei trinta dólares nela - falei rindo.

   Daniel me olhou espantado e balançou a cabeça, como se me achasse louca.

— Você é insana— ele murmurou. - Estava bêbada quando fez isso?

— Não, totalmente sóbria. - sorri, enquanto ele abria a porta do estabelecimento para eu entrar.

— Então é mais perigosa do que pensei. - ele riu.

   Após comprarmos nossos cafés, Daniel resolveu me levar para ver a Times Square. Havia voltado a nevar, mas isso não o desanimou. As ruas estavam cheias de neve e eu podia sentir os flocos sobre o meu cabelo. Daniel segurou em minha mão, me guiando enquanto eu olhava para tudo ao meu redor.

— Nessa época não fica tão iluminada nesse horário - ele disse, enquanto andávamos calmamente. - Mas, para mim, esses são os melhores dias para vir aqui.

— Por que?

— Porque temos o lugar todo para nós - ele sorriu levemente, olhando para o alto.

   Realmente, comparando às outras épocas do ano, o lugar parecia até abandonado. Algumas poucas pessoas passavam, indo e vindo. Alguns mais felizes e menos sóbrios do que outros. Mas ainda assim, eu achei o lugar lindo e senti um calorzinho em meu coração. 

   "Porque temos o lugar todo para nós", ele havia dito. Isso soou bom para mim.

   Fiquei um bom tempo olhando para o alto, para todas as propagandas que piscavam chamativas e não percebi o que Daniel fazia, até sentir um flash em meu rosto. Olhei em sua direção rapidamente, flagrando-o. Ele riu sob o meu olhar arregalado.

— Eu não resisti - ele disse. - Ficou boa, olha.

   Realmente havia ficado boa. Na foto estava eu, de lado, bebendo meu café e com um olhar bobo para o alto. A neve caía ao meu redor e meu casaco azul fazia um contrasto bonito com a neve branca ao fundo. Meu cabelo escuro e curto todo salpicado com flocos de neve. Olhei para Daniel, que estava bem próximo a mim me mostrando a foto. Seu perfume misturado ao cheiro leve de cerveja e café. Parecia uma boa mistura, agora.

— Isso também me dá o direito de tirar uma foto sua - falei, tirando o celular do bolso da calça e abrindo a câmera. - Faça uma pose bem bonita.

   Daniel revirou os olhos e abriu os braços, na perfeita pose de turista. Eu gargalhei, quase derrubando o café. Ele riu junto comigo e cruzou os braços de frio, balançando a cabeça negativamente.

— Eu não sei se vou aguentar mais cinco minutos nesse frio. - ele suspirou. 

   Controlei meus risos e tirei uma foto rápida dele. As luzes da Times Square ao fundo. Ele sorria de lado, arqueando uma sobrancelha para mim. Suas bochechas e ponta do nariz rosados e seus olhos verdes mais brilhantes do que nunca. Então, me aproximei dele quase pulando de frio e posicionei a câmera na nossa frente. Ele me olhou por um instante, com um sorriso contido, mas logo voltou seu olhar para frente. Sorrimos para a foto, eu com meu sorriso tímido e ele com seu típico sorrisinho e olhar irônicos. 

   Fiquei alguns segundos olhando para a tela do celular, observando cada detalhe da foto. Suspirei, sentindo uma sensação boa passar pelo meu corpo, e eu sabia que não era devido ao álcool que ainda corria pelo meu sangue. O nome disso era felicidade, mesmo. Do tipo que eu não sentia há muito tempo.

   Resolvemos voltar ao carro, porque estava ficando cada vez mais frio e nossos narizes já estavam vermelhos. Quando entramos no quentinho do carro, fungamos juntos e rimos.

— Isso vai render um resfriado. - ele choramingou. 

   Fomos todo o caminho bebericando nosso café e observando o movimento nas ruas. Mas em certo momento, enquanto ouvíamos Vallis Alps tocando em seu pendrive, eu senti meus olhos fecharem lentamente. 

   E tudo o que vi após isso foi a escuridão.

 



Notas finais do capítulo

AI GENTE, que saudadinha deles dois nesses momentos ♥
Além de tudo, Daniel sempre foi amigo da Ally e a amparou e esteve com ela em diversos momentos. Eu amo escrever momentos simples desse tipo entre eles, porque aquece meu coração, hahahaha. E NO PRÓXIMO CAPÍTULO acontecerá coisas que eu planejava desde antes de começar essa temporada, tô doida pra postar logo, mas pra isso preciso de comentários com as opiniões de vocês, HAHAHA. Quero muito saber o que estão achando e o que gostariam que acontecesse também ♥
E ESTÃO VENDO ESSA MANIP AMORZINHO NO FINAL? Foi a Laura, uma leitora, que fez e me mandou lá no grupo de leitoras! Queria agradecer de novo, porque como eu disse é bem difícil encontrar montagens da Lily Collins com o Matthew Daddario, então fiquei muito feliz MESMO ♥ e encaixou direitinho com o contexto desse capítulo, já que eles tiraram uma foto juntos na Times Square ♥
Então, quem ainda não participa lá do grupo, CORRE PRA PARTICIPAR! É só ir no link: https://www.facebook.com/groups/209079426170113/
Logo trarei o próximo capítulo!
Amo vocês ♥



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