Collide escrita por Allie Próvier


Capítulo 49
[2ªT] 11. Cameron Hayes


Notas iniciais do capítulo

GENTE!!! Mil desculpas pela demora! Minha internet ficou 1 semana sem funcionar e só hoje conseguiram consertar, fiquei maluca. O lado bom é que adiantei os capítulos, então podem ficar tranquilos que o próximo COM CERTEZA sairá mais rápido, porque já tá pronto! hahahaha.
E para quem estava achando a vida da Ally muito linda e ótima: Nesse capítulo começa a desgracinha. Espero que gostem, HAHAHA. ♥




[2ª TEMPORADA]

Capítulo 11

 

 

E à noite eu te seguro para mim

e espero que você apareça.

Allman Brown - Foolish Love

 

 

   POV Ally

   Respirei fundo quando mais uma mensagem da minha mãe chegou. Passei as mãos no rosto, deixando o material do novo livro que estava analisando de lado e apoiando os cotovelos na minha mesa.

   Danielle: "Sinto muito, filha. Surgiram vários imprevistos e tenho um trabalho importante no estúdio no próximo fim de semana. Não poderei levar Gregory."

  Eu entendia que ela era uma pessoa ocupada, é claro. Ainda mais agora que possuía seu próprio negócio e tinha trabalho redobrado. Mas a falta que eu sentia da minha bola de pelos era absurda e sim, eu queria chorar. Muito. Já havia comprado várias coisinhas novas para o meu gato, inclusive uma cama macia e linda que eu sabia que ele nunca iria usar (ele gostava mesmo de dormir no canto do sofá e na minha cama). 

   Estava ansiosa pela chegada dele. Estava mais ansiosa pela chegada do meu gato do que pela chegada do meu noivo, para falar a verdade. Eu sou patética.

   E bastou pensar em Cameron Hayes que o celular vibrou novamente. Era uma mensagem dele.

   Cameron: "Boas notícias! Consegui resolver algumas pendências e poderei ir na semana que vem. Finalmente."

   Passei os olhos pela sua mensagem diversas vezes, totalmente desanimada pela última mensagem da minha mãe. Porém, na sétima vez que li as mesmas palavras, meus olhos brilharam. Sorri animada e respondi rapidamente, meus dedos ávidos na tela do celular.

   Ally: "Isso é ótimo!!! Você poderia trazer o Gregory, então? Minha mãe estará ocupadíssima, você é minha única salvação. Por favor..."

   Ele visualizou minha mensagem e demorou três minutos para responder. Passei os três minutos com os olhos fixos na tela do celular, cutucando-a com o dedo quando estava prestes a apagar. Logo ele começou a digitar uma resposta e eu suspirei. Não duvidava que ele dissesse não ao meu pedido, visto que nunca gostou do meu gato. 

   Cameron: "Tudo bem. Falarei com a sua mãe para trazê-lo na véspera da viagem."

   Sorri abertamente, aliviada. Agradeci a ele e escutei duas batidas na porta da sala. Logo a cabeça cacheada de Manu apareceu, me olhando com curiosidade.

— Que bom que está animada, Ally! - ela sorriu. - Porque a reunião com Bill Parker começará daqui a cinco minutos e ele já está te esperando.

   Meu sorriso murchou e ela riu, achando graça. Revirei os olhos e guardei meu celular dentro da gaveta da mesa, reunindo minhas pastas e anotações para a reunião.

— Ele está de mal humor hoje? - perguntei, me preparando psicologicamente para mais uma longa reunião com Bill Parker, o autor mais temperamental que tínhamos. 

— A pergunta certa é: Quando ele não está de mal humor? - Manu suspirou, me olhando com dó. - Quer que eu pegue um café cheio de açúcar para você?

— Por favor - suspirei ao passar por ela. - E traga aqueles biscoitinhos também. Bill adora aquilo, talvez ele fique mais calmo quando comê-los.

   Manu assentiu e correu para pegar o café e os biscoitos. Me dirigi para a sala de reuniões e respirei fundo ao tocar na maçaneta. E ao abrir a porta, coloquei o meu melhor sorriso no rosto e cumprimentei todos animadamente. Todos sorriram para mim. Menos Bill, é claro.

— Detestei a fonte que utilizaram no texto - foi a primeira coisa que ele disse ao pôr os olhos em mim. - Mudem isso.

   Senti meu sorriso estremecer em meu rosto. Richard McClean, o editor-chefe, bebeu quase todo o seu café de uma vez. E Manu, a salvadora da pátria, entrou na sala equilibrando uma garrafa térmica e vários biscoitos. Os olhos de Bill brilharam ao ver os biscoitos, mas ao voltar seu olhar para mim sua carranca se fez presente novamente.

   Seria uma longa reunião.

***

   No fim do dia eu encostei no fundo do elevador e pedi por misericórdia.

   Meus pés estavam me matando por causa dos sapatos altos e eu estava louca para chegar em meu apartamento. Eu estava com uma vontade absurda de comer mingau e não entendia o motivo. Suspirei ao pensar em um mingau quentinho com bastante canela em cima. Céus, eu precisava disso.

   Quando as portas do elevador abriram, eu tentei apressar o passo para sair logo do prédio. O hall de entrada ficava sempre lotado de pessoas nesse horário, era insuportável. Passei pelas portas giratórias e, ao colocar os pés na calçada, meu olhar flagrou uma figura conhecida logo à frente. Lá estava Daniel Sullivan com as mãos nos bolsos da calça jeans, uma blusa social meio amarrotada, uma bolsa carteiro de couro pendurada no ombro e um sorriso contido para mim.

   Meu Deus, ele era a personificação perfeita de um jornalista que vive à base de café e tenta te convencer de teorias da conspiração envolvendo o governo. E ainda assim era tão bonito que...

— O que faz aqui? - perguntei enquanto me aproximava dele. - Não devia estar entrevistando noivos ou sendo uma estrela do rock?

— Isso é o que farei amanhã - ele deu de ombros. - Hoje eu sou apenas um cara solitário pelas ruas de Nova York.

   Arqueei uma sobrancelha e ele sorriu um pouco de lado. Percebi que apesar de manter aquela postura descontraída, tinha algo muito errado em seu olhar. 

— Você quer... - comecei, incerta do que falar. - Beber algo? Sair para... Beber algo?

   Daniel riu um pouco e assentiu fracamente. Andamos lado a lado pela calçada lotada de pessoas indo e vindo. Sugeri que fôssemos no meu carro, mas ele insistiu que fôssemos no dele. Apenas concordei, sem querer iniciar uma discussão. Eu estava bem cansada e louca pela minha cama, mas não podia negar que estava curiosa. Definitivamente algo tinha acontecido. Mesmo após tantos anos, eu conseguia sentir nitidamente quando ele não estava bem.

   Entramos em seu carro e a primeira coisa que vi foram copos de café e uma caixa de donuts cheia de farelos no banco de passageiro. Daniel deu uma risadinha sem graça e jogou tudo no banco de trás rapidamente. Sorri um pouco para tranquilizá-lo - afinal, meu carro também não era a coisa mais limpinha do mundo - e sentei no banco, logo afivelando o cinto de segurança.

— Aonde você quer ir? - ele perguntou quando ligou o automóvel. - Algo diferente ou Taberna do Viking?

   Suspirei indecisa. Era estranho estar na Taberna, porque o Viking ficava nos olhando como se pensasse: "Eu sei o que vocês fizeram no verão passado." Por outro lado, era o local mais próximo de Greenwich Village e isso seria bom, já que eu teria que voltar para casa depois. Então, optei pelo local de sempre.

   Daniel dirigiu em silêncio e parecia bem pensativo. Eu quis perguntar o que havia acontecido, mas não sabia como falar, então fiquei quieta. A rádio estava sintonizada na estação de músicas antigas que eu adorava ouvir em casa e isso me fez sorrir. Rapidamente meus pensamentos me levaram à algumas noites atrás, quando dançamos Cruisin Together na minha sala, antes de sermos pegos no flagra. 

   Meu coração bateu um pouquinho mais forte com as lembranças.

— Eu sentia falta disso - ele disse baixinho, ainda com os olhos na rua à frente.

— De quê?

— De olhar para o banco de passageiro e ver você. - ele sorriu um pouco. - Isso me lembra de quando saíamos à noite para andar a toa por São Francisco.

   Olhei as luzes da cidade ao nosso redor, a noite se aproximando... Era exatamente assim. E era uma das coisas das quais eu mais sentia falta.

— Depois parávamos em uma lanchonete qualquer e comprávamos batata-frita com cheddar. - suspirei, sorrindo com a lembrança. - Bons tempos.

— Eu nunca mais comi isso. - ele fez uma expressão confusa. - Meu Deus, eu nunca mais comi batata-frita com cheddar desde que nos separamos, Jones.

— Não brinca. - arqueei uma sobrancelha para ele. - Fala sério, Sullivan. É a coisa mais simples do mundo.

— Eu nunca mais procurei. - ele deu de ombros. - E de qualquer forma, também nunca achei por acaso. Tem coisas que só fazem sentido com certas pessoas, eu acho.

   Engoli em seco, sem saber o que dizer. Voltei meu olhar para a rua e logo chegamos em nosso destino.

***

   Daniel colocou a caneca de chopp na mesa com força, me olhando com uma expressão incrédula.

— Você só poder estar brincando comigo - ele falou. - Como assim você já tem quase trinta anos e ainda não gosta de cerveja?!

— Ei! - belisquei seu braço e ele riu, massageando o local. - Olha como fala com uma dama. Eu só tem vinte e quatro anos, estou na flor da idade. - bufei, bebendo mais um gole do meu chopp e fazendo careta no fim. - E não, eu não gosto de cerveja, apesar de achar que esse chopp está razoável.

— Qual é o seu problema, Ally? - Daniel perguntou. - É sério. Não que cerveja seja algo de gosto divino, mas é bom. Refresca.

— É amargo demais. - dei de ombros. - Depois de um tempo acostumamos com a sensação ruim, então dá para beber. Mas no começo é horrível.

   Daniel me olhou em silêncio e apoiou um cotovelo na mesa, enquanto bebia mais um gole da sua bebida. Desenhei círculos na umidade do vidro da caneca, distraída.

— Você parece acostumada demais com sensações ruins - ele disse baixinho, me observando seriamente. - Isso não é algo com o qual devemos nos acostumar.

   Olhei para ele sem saber o que dizer. Apertei meus lábios um no outro, dando de ombros. Bebi mais um pouco do chopp. Daniel não tirava seus olhos de mim.

— Depois de um tempo não faz diferença. - sorri um pouco, tentando tranquilizá-lo. Ou a mim mesma. Aquele assunto nunca me levava a um bom caminho. - Mas me fale de você, pois eu sei que há algo errado. O que houve?

   Ele me olhou um pouco surpreso, mas logo suspirou e mordeu o lábio. Parecia pensar no que dizer. 

— São só alguns assuntos familiares - ele disse. - Minha mãe e meu padrasto, a mesma merda de sempre. Nunca muda.

   Permaneci quieta, com o olhar sobre ele. Após alguns segundos ele entendeu que eu queria entender o que se passava, então encostou-se melhor na poltrona e fixou seu olhar no meu. Estávamos sentados em um canto mais reservado do local, onde haviam poltronas e era bem mais tranquilo. Muito melhor para conversar do que o balcão do bar, onde geralmente ficávamos.

— Eu já te contei sobre o quanto George é um idiota e sobre a minha mãe insistir em estar com ele - Daniel começou a falar. - O principal motivo das nossas discussões é esse. Ela evita me contar, mas eu sei o que acontece. - seu olhar voltou-se para a bebida enquanto ele passava o dedo indicador na borda da caneca, levemente. - Só um cego não veria as marcas roxas e aquele sorriso forçado dela.

   Senti uma pontada incômoda no peito. Engoli em seco, desviando meu olhar do seu rosto e bebendo mais um gole. Eu sabia que a relação da mãe dele com o padrasto não era das melhores, mas não sabia que havia chegado àquele ponto. Saber aquilo doeu em mim como uma facada, mesmo que eu não a conhecesse. E isso me trouxe lembranças que eu queria esquecer.

— Ela deveria... - gaguejei, tentando limpar minha mente. - Ela deveria ir embora, não tem que aguentar uma coisa dessas. Isso é...

   Minha voz sumiu e eu senti meus olhos arderem absurdamente. Daniel me olhou confuso e preocupado. Minha garganta doía e eu sabia que estava tudo voltando. Oh, merda.

   Levantei rapidamente e fiz um sinal com as mãos, pedindo para ele esperar. Corri até o banheiro e fui até a primeira pia que vi, abrindo a torneira com as mãos totalmente trêmulas. Molhei meu rosto e nuca, enquanto respirava fundo. Tentei fazer o exercício que Eve praticava comigo, mas era difícil sozinha.

   Respire e expire, respire e expire. Profundamente.

   Quando senti a dor na garganta aliviar, eu me apoiei com as mãos na bancada de mármore e abaixei a cabeça. Fechei os olhos com força, tentando evitar que tudo voltasse à minha mente. Mas estar de olhos fechados era ainda pior, tudo o que eu via era o que a minha mente me mostrava. Levantei meu rosto e olhei meu reflexo no espelho. Os olhos vermelhos, o rosto pálido. Sequei meu rosto e nuca, continuando com o exercício respiratório. Logo estava um pouco melhor.

   Devo ter demorado no banheiro, pois quando voltei à mesa Daniel estava prestes a levantar e ir atrás de mim. Ele me olhou assustado quando sentei-me à sua frente. 

— O que foi isso? - perguntou.

   Dei de ombros, com um leve sorriso nos lábios.

— Nada - falei. - Está tudo bem, foi apenas um enjoo. Vamos pedir outra bebida?

   Ele não pareceu acreditar em mim, mas assentiu. Mudou o assunto e começou a falar sobre os casamentos que já havia trabalhado. E aos poucos eu me senti bem novamente.

***

   O dias passaram como um borrão.

   Quando me dei conta, já era sábado. Cameron já estava a caminho de Nova York e eu estava de pé na área de desembarque, roendo os dedos. Foram longos vinte minutos de espera, até que ele apareceu. Eu tenho que admitir que apesar de ter sentido sensações estranhas em todos esses dias e não estar muito ansiosa para vê-lo, - talvez porque na última vez que nos vimos havíamos discutido feio - eu ainda achava ele muito bonito. Mas estranhamente não tanto quanto...

— Finalmente! - ele disse, sorrindo abertamente enquanto largava suas coisas no chão e me abraçava forte, me levantando. - Você está tão diferente!

   Ele encheu meu rosto de beijos e eu sorri. Eu havia sentido falta desse tipo de contato. Rodeei seu pescoço com os braços e ele pressionou seus lábios nos meus com fervor. Só paramos de nos beijar quando eu ouvi um miado familiar.

   Arregalei os olhos, me separando de Cam e me agachando em frente à caixa de transporte azul. Os olhinhos amarelos e arregalados de Gregory encontraram os meus e eu me controlei para não chorar.

— Oh, meu Deus... - murmurei chorosa, colocando um dedo dentro da caixa pela grade de plástico enquanto ele esfregava seu rostinho contra meu dedo. - Você está assustado por causa do voo, não é? Eu senti tanto a sua falta...

— Quase o perderam. - Cam suspirou, pegando suas bagagens novamente. - Eu tive que ameaçar processar todo mundo até o encontrarem. Viajar com animais só dá dor de cabeça.

   Ignorei sua última frase e peguei a caixa de transporte, ficando de pé.

— Obrigada. - sorri para Cam. - Está pronto para conhecer sua nova cidade?

— Eu já vim algumas vezes. - ele deu de ombros enquanto andávamos até a saída do aeroporto. - Estou mais ansioso por outra coisa...

   Senti sua mão deslizar da minha cintura para o meu quadril. Eu ri levemente nervosa e andei um pouco mais rápido à sua frente. Cam riu, provavelmente achando que eu estava de charme. 

   Quando chegamos ao carro, ajudei-o a guardar suas coisas no porta-malas e coloquei a caixa de Gregory no banco de trás. Cam entrou no banco de passageiro com uma expressão incomodada.

— Posso dirigir? - ele perguntou.

   Novamente isso. Cameron e sua mania de querer controlar tudo a todo momento. Toda vez que ele andava de carro comigo, queria dirigir. Mesmo que o carro fosse meu. Tentei controlar a vontade de bufar e enfiei a chave da ignição rapidamente, sorrindo fracamente para ele.

— Você ainda não sabe o caminho - falei. - Quando seu carro chegará?

— Em alguns dias. - ele deu de ombros olhando pela janela e eu sabia que ele estava meio irritado por eu estar dirigindo. - Espero que logo. Aliás, por que você não trocou de carro quando veio para cá? Esse carro está uma lástima, Allison.

   E lá vamos nós novamente... Cameron e a sua mania de criticar o meu carro como se eu dirigisse um pedaço de sucata.

— Eu gosto dele - falei, dirigindo para fora do estacionamento. - E ele ainda está ótimo. Não preciso ficar trocando de carro todo ano apenas para suprir a minha mania por grandeza.

   Quando terminei de falar, mordi a ponta da língua. Merda, eu perdi o controle. Engoli em seco e mantive meu olhar à frente, mas senti o olhar de Cameron em mim. Porém, ele se manteve em silêncio e ligou o rádio enquanto voltava sua atenção para a paisagem à nossa volta outra vez.

   Céus, eu sentia que isso não daria certo.

***

   Quando chegamos no apartamento, a primeira coisa que fiz foi correr até o meu quarto e soltar Gregory lá. Ele miou estridentemente para mim quando saiu e eu o abracei apertado, enquanto o todo de sua cabeça peluda de beijos. Ele esfregou seu rostinho contra o meu e eu deixei cair algumas lágrimas, porque eu não era de ferro. Eu amava tanto aquele gato que doía. Já havia dois potinhos no canto do quarto, um de ração e outro de água. Como ele ainda não estava acostumado com o local, eu o deixaria dentro do meu quarto para ele se adaptar aos novos cheiros. Deixei algumas roupas minhas sobre a cama e ele logo foi até elas, sentindo o cheiro familiar. Mais tarde eu o deixaria andar pelo apartamento.

   Saí do quarto, fechando a porta, e encontrei Cam na cozinha pegando um copo de suco.

— Esse lugar é bem legal - ele disse, apoiando-se no balcão e olhando para a sala. - Mas por que não escolheu um lugar mais próximo do centro?

— Queria um apartamento em frente ao Central Park? - eu ri, me jogando no sofá. - Não podemos pagar por algo assim e eu também gostei muito desse bairro. É tranquilo, arborizado, bonito...

— Eu poderia pagar. - ele arqueou uma sobrancelha para mim, me interrompendo. - Ally, eu sempre disse que quando vivêssemos juntos você poderia ter tudo o que quisesse. 

— E eu sempre disse que não quero isso. - dei de ombros, querendo fugir daquele assunto. - Você vai gostar daqui, é um ótimo lugar. 

   Cam me observou por alguns segundos em silêncio e por fim deu de ombros. Terminou se beber o seu suco e logo veio até mim, sentando ao meu lado. Passou um braço pelos meus ombros e me puxou para si. Suspirei, deitando meu rosto em seu peito e passando um braço por cima do seu abdômen.

— Você parece bem mais decidida - ele disse baixinho, pensativo.

   "E isso incomoda você", eu pensei.

   Fechei meus olhos com força e tentei jogar os sentimentos conflituosos dentro de mim para o fundo da minha mente. Cam estava aqui, era meu (quase) noivo, teríamos uma vida juntos... Era o que eu sempre quis, certo? Quero dizer, era o esperado. Sempre planejamos casar, ter uma vida perfeita, filhos e coisas do tipo. Estávamos no caminho certo.

   Eu acho.

***

   A semana passou rápida em certos momentos e com lentidão em outros.

   Quando fomos visitar Eve e Jack, pareceu uma eternidade. Eve forçou uma simpatia inexistente a todo momento, tratando Cam com uma cordialidade admirável, mas fazia expressões enfezadas sempre que ele virava as costas. Porém, o jantar correu tranquilamente e Eve conseguiu se controlar virando várias taças de vinho. Ela o odiava. Não havia dúvidas disso.

   E em momentos que deveriam ser lentos e proveitosos, o tempo correu. E esse era um desses momentos. Suspirei baixinho, encarando o teto acima de mim. Cam ressonava tranquilo ao meu lado, com apenas o edredom tapando a sua nudez da cintura para baixo. Virei-me de bruços e afundei o rosto no travesseiro, tentando não gritar de frustração.

   Eu me sentia mal da cabeça aos pés. Levantei com cuidado para não acordá-lo e fui até o banheiro do quarto, me trancando lá dentro. Liguei o chuveiro e me enfiei debaixo dele, esfregando todo o meu corpo com o sabonete e tentando tirar aquela sensação ruim de mim.

   Era uma mistura de repulsa com tristeza. Eu odiava sentir isso. E o que eu vinha segurando há dias aconteceu: eu chorei feito uma criança. Deixei a água quente cair sobre mim e retirar toda a espuma do meu corpo, enquanto eu chorava sem parar. Depois passei as mãos no rosto e funguei, me recriminando. Porque eu o recebi aqui, eu estou com ele há anos, eu o aceitei de volta. Em todas as vezes que ele foi, eu o deixei voltar.

   Eu não sabia o que se passava comigo. Porque eu amava Cam, eu acho. Eu gostava dele e o queria, porque... Porque era isso que planejávamos, era isso que sempre esperamos acontecer. Geralmente as pessoas não simpatizavam muito com ele, mas gostavam de nós dois como casal. Nos achavam bonitos juntos e todos sempre falaram que teríamos uma linda vida juntos, mas por que eu sinto toda essa merda me colocando para baixo?

   Quando ele me tocava eu fingia que era o céu, mas me sentia no inferno. E depois, eu não sentia nada. 

   Engoli o choro e saí do box, me enrolando em uma toalha macia. Saí do banheiro em silêncio e vi que ele ainda dormia. Enxuguei-me e vesti um pijama quente. Saí do quarto fechando a porta e encontrei Greg no sofá da sala, todo encolhido. Assim que sentiu minha presença, levantou seus olhos para mim e miou baixinho. Sorri um pouco enquanto sentava no sofá e o colocava sobre o meu colo. Ele se aconchegou na posição que queria e voltou a dormir.

   Fiquei passando meus dedos suavemente em seus pelos branquinhos e macios, enquanto olhava a paisagem pela janela ao lado do sofá. Já devia ser quase três horas da manhã. Avistei meu celular em cima da mesinha de centro e me estiquei com cuidado para não acordar Greg. Peguei o aparelho e verifiquei as notificações. Havia mensagens de Eve, algumas da minha mãe, outras de Manu. Respondi rapidamente a todos e uma mensagem nova chegou. 

   Daniel: "Insônia?"

   Sorri fracamente, sentindo um pequeno alívio se espalhar pelo meu corpo.

   Ally: "Antes fosse isso. E você?"

   Daniel: "Resolvi rever todos os filmes do Batman e agora não consigo dormir."

   Ally: "Por que? Também fica sonhando com o sorriso do Christian Bale? Eu te entendo."

   Daniel: "Tenho que admitir que Christian Bale é um belo espécime. Mas não, eu só queria ser o Batman e fico pensando no quanto isso seria incrível. Ele é o melhor."

   Ally: "Eu queria ser a mulher-gato."

   Daniel: "Oh, meu Deus. Isso foi uma cantada? Tipo, você está mesmo dando em cima de mim, Jones?"

   Eu gargalhei e acabei acordando Greg, que me olhou com uma expressão confusa. Fiz carinho em sua cabeça e digitei uma resposta para Daniel.

   Ally: "Eu não sei. Talvez eu esteja dando em cima do Bale."

   Daniel: "Bom, quando souber me avisa. Estou ao seu dispor."

   Ally: "Saberei quando você virar o Batman."

   Daniel: "Meu Deus, estamos flertando por mensagens. Isso é tão sexy. Você será a primeira a saber a minha identidade secreta."

   Fiquei sorrindo debilmente olhando para a tela do celular. Eu me sentia mais tranquila. Esse era o efeito que Daniel Sullivan tinha sobre mim. 

   Ally: "Preciso dormir agora. O meu gato não aguenta mais ser incomodado pelas minhas risadas."

   Enviei a mensagem e tirei uma foto de Greg em meu colo, olhando a câmera com sua típica expressão emburrada. Daniel riu assim que a enviei.

   Daniel: "Os animais parecem mesmo com seus donos. Boa noite, Jones."

   Quando voltei ao quarto eu me enfiei debaixo da coberta e me cobri até o queixo. Cam revirou-se na cama e pude ouvi-lo suspirar, enquanto passava um braço pela minha cintura e me puxava um pouco para ele. Fechei os olhos e adormeci rapidamente.

***

   Já fazia alguns dias que eu vinha pedindo a Cam para me ajudar com as paredes da sala, mas ele me enrolava. Eu entendia que ele era muito ocupado e estava atolado de trabalho, já que havia chegado na cidade há apenas alguns dias e começou em um escritório novo, mas ele podia tirar ao menos trinta minutos para me ajudar com a bendita pintura.

   Por isso, assim que o sábado chegou, eu acordei bem cedo e coloquei uma blusa velha e manchada que eu tinha. Um dia ela havia sido uma bela blusa com a estampa de um unicórnio sentado em uma nuvem colorida, mas agora ela estava tão puída que o unicórnio era a última coisa a ser notada nela. Por isso era ótima para trabalhos manuais. Separei as latas de tinta que eu havia comprado e os pincéis, e deixei-os a mostra no meio da sala. Fiquei sentada no sofá, de braços cruzados e batendo os pés no chão enquanto esperava Cam acordar. Ele não iria fugir de mim agora, porque até onde eu sabia, ele não precisava ir ao escritório nos fins de semana.

   Quando ouvi a porta do quarto ser aberta eu parei de bater os pés e sorri. Mas meu sorriso desmanchou no momento em que o vi de terno e com uma pequena mala na mão.

— O que é isso? - perguntei confusa. - Aonde você vai?

— O que é isso? - ele perguntou, olhando para as tintas e pincéis e minha expressão incrédula. - Eu tenho que ir à Los Angeles. Viagem de última hora.

— Como assim? Para quê? - fiquei de pé rapidamente enquanto ele ia até a cozinha comer algo. - Não faz nem duas semanas que você está aqui e já tem "viagens de última hora"?

— Meu pai me mandou uma mensagem mais cedo, ele precisa de mim - ele disse, se servindo com uma xícara de café. - Desculpe, Ally. Não posso te ajudar com a pintura.

— E quando poderá? - perguntei, cruzando os braços novamente e observando-o beber o maldito café.

— Eu não sei. - ele suspirou, dando de ombros. - Eu voltarei na segunda bem cedo e irei direto para o escritório. Nos vemos a noite e eu te ajudo com isso.

   Mordi o lábio inferior para não gritar. Fiquei observando todos os seus movimentos enquanto ele bebia o café, pegava um biscoito no meu pote de biscoitos, comia tudo e em seguida limpava os lábios com um guardanapo qualquer e vinha até mim, me dando um beijinho rápido.

— Não fique com essa cara - ele pediu. - Eu realmente queria te ajudar, mas agora eu não posso. Você sabe que eu sou ocupado.

— É, eu sei - murmurei assentindo. - Tudo bem, eu faço sozinha.

    Ele revirou os olhos, me olhando com cansaço.

— Pare com esse sentimentalismo. Eu vou te ajudar, mas não agora. - acariciou meu rosto suavemente com os dedos e me beijou novamente. - Espere eu voltar e eu te ajudarei. Amo você.

   Ele pegou suas coisas e saiu, enquanto eu permanecia de pé entre a sala e a cozinha.

   Voltei para a sala e sentei novamente no sofá. Greg estava sentado no tapete à minha frente, lambendo suas patas gordinhas. Quando terminou a limpeza, me olhou com uma expressão de tédio. Respirei fundo, olhando para as paredes ao meu redor. A pintura era nova, havia sido feita pelo proprietário antes de eu alugar, mas eu não gostava da cor. Era um tom marfim, bem clarinho. Não era feio, mas eu também não gostava. Queria pintar tudo de branco e o proprietário do apartamento havia autorizado, então eu não via a hora de mudar aquilo. E queria mudar hoje.

   Pensei em chamar Eve para me ajudar, mas logo lembrei que hoje ela estaria em uma confraternização na escola onde ela trabalhava e Jack foi acompanhá-la. Então, optei por chamar Ben.

   Digitei uma mensagem rápida perguntando se ele estava ocupado. Ele logo respondeu:

   Benjamin: "Estou atolado em um projeto, Ally. Não poderei colocar os pés fora de casa nesse fim de semana. Por quê? Precisa de ajuda em algo?"

   Ally: "Entendo. Eu queria mãos extras para me ajudar a pintar algumas paredes, apenas. Mas tudo bem, eu dou um jeito aqui. Boa sorte no seu projeto, espero que dê tudo certo."

   Suspirei e joguei o celular no sofá, decidida a fazer aquilo sozinha. Não era algo tão difícil, afinal. Eu já havia ajudado a minha mãe a pintar o apartamento em São Francisco, há alguns anos, então sabia como fazer.

   Liguei meu rádio antigo na estação de músicas antigas e cantarolei Phill Collins enquanto arrastava os móveis para o meio da sala, forrava todo o chão com jornais e misturava a tinta. Greg, vendo toda aquela bagunça, se esgueirou para a cozinha e ficou me olhando de longe. Eu me dividia entre cantarolar as músicas que tocavam e conversar com Greg, enquanto completava a pintura de quase metade da primeira parede, quando a campainha tocou.

   Olhei confusa para a porta e deixei o pincel no chão. Limpei as mãos na minha blusa velha e fui até a entrada, destrancando a porta. E vocês podem imaginar qual foi a minha expressão quando vi Daniel Sullivan de pé na minha frente.



Notas finais do capítulo

Já tem gente odiando (MAIS) o Cameron? HAHAHAHA. Ai, Ally, se toca logo da bosta que tu tá fazendo, socorro.
Espero que tenham gostado do capítulo! E quem já participa do grupo la no Facebook, já sabe o spoiler LINDINHO que postei esses dias, do próximo capítulo, HAHAHAHA. Quem não participa e quer ver, corre aqui: https://www.facebook.com/groups/209079426170113/
Por favor, comentem! Me digam o que acharam! A quantidade de comentários diminuiu MUITO de uns capítulos pra cá :( preciso mesmo saber o que estão achando da história, sério. É muito importante pra mim!
Logo trarei o próximo capítulo, mores ♥



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