Collide escrita por Allie Próvier


Capítulo 46
[2ºT] 8. Novas chances


Notas iniciais do capítulo

AI MEU DEUS FINALMENTE!!!
Me desculpem pela demora, gente. O final do ano foi bem corrido e só agora consegui finalizar esse capítulo. Espero que tenham tido um ótimo natal e ano novo! Que tudo de bom aconteça para todos nós em 2017 e que seja um ano de muitas realizações ♥
Espero que gostem do capítulo!




[2ª TEMPORADA)
CAPÍTULO 8

 

 

Sempre que fico assim, eu simplesmente não sei o que dizer.

 

Porque não podemos ser nós mesmos como éramos ontem?

New Order - Bizarre Love Triangle

 

   Passei todos os dias após a noite de Natal tentando encontrar algo que me distraísse. Um filme, uma música, uma atividade. Qualquer coisa que me arrancasse todos os pensamentos insistentes que me assolavam. E eles incluíam...
— Oh, Daniel! - Eve exclamou, surpresa. Meus olhos voaram em sua direção automaticamente, enquanto ela clicava em algo na tela do seu celular. - Ele acabou de me enviar uma solicitação de amizade.
— Legal. - murmurei, tentando disfarçar meu coração descompassado e focando minha atenção na revista em minhas mãos.
— Mas quem disse que eu quero ser sua amiga, hein, cretino? - Eve resmungou baixinho. - Mas vou aceitar, só para não dizer que eu sou uma megera.
— Certas coisas não podem ser disfarçadas. - murmurei.
   Não demorou nem três segundos para uma almofada voar em direção ao meu rosto e Eve me xingar, enquanto eu ria.
   Eu tentei ignorar tudo aquilo e me convencer de que não passaria de uma mera conversa sob a neve, mas era complicado. Ele estava na minha cabeça praticamente 24 horas por dia, me atormentando. Eve percebia, eu sabia disso pela forma como ela olhava com aqueles olhos claros e avaliativos - por vezes recriminadores também - me observando nos meus momentos de distração. Eve percebia tudo. E eu fingia que nem sabia o que estava acontecendo.
   Depois que a neve caiu e eu apertei a mão de Daniel, nós voltamos ao apartamento como se nada tivesse acontecido. Todos nos olharam com curiosidade e uma malícia no olhar, mas fingimos não perceber. Eu reclamei da dor no estômago e voltei ao meu quarto. Daniel permaneceu na sala e provavelmente inventou alguma história sobre ter me encontrado desnorteada e bêbada pela rua, debaixo da neve, e me resgatou como um herói sob as luzes natalinas da cidade.
   Mas o pior não era a neve, luzinhas e apertos de mão. Nem seu sorriso, seus olhos ou aquele cabelo que me dava vontade de passar a mão e puxar a todo instante. Nem a sua voz ou... Enfim. O problema era que, aparentemente, Eve e Jack gostam muito mais do Benjamin agora e estão super amiguinhos. E a consequência disso era que no Ano Novo teríamos mais uma dose de desespero.
   Para mim, no caso. Porque eu tenho certeza que Daniel fará questão de aparecer novamente. Mas para Eve, Jack e Benjamin tudo será felicidade e fogos de artifício. Mas os primeiros sinais de loucura começaram a aparecer dois dias antes do Ano Novo, quando eu comecei a jogar pimenta em meus dedos para que não roesse todas as minhas unhas. Eu vinha tentando exterminar essa mania e não seria Daniel Sullivan que me faria voltar a cometer atos de desespero e auto destruição. Quando a vontade de roer as unhas passou, veio os pensamentos: O que irei vestir? O que ele irá vestir? O que eu digo quando ele chegar?
   Então, para me distrair e limpar a mente, eu decidi ir correr no parque. Vesti uma roupa fresca e meus tênis esportivos, e corri. Corri até sentir todo o ar sendo arrancado de mim e cair em um banco do parque, ofegante e sentindo que iria desmaiar. Agarrei minha garrafinha de água com as duas mãos e bebi o líquido em grandes goladas. Logo meu corpo foi se acalmando e eu voltei a respirar tranquilamente. E quando eu me vi totalmente serena e observando os passarinhos ao meu redor, eu ouvi:
— Daniel! - minha mente deu um estalo e eu olhei ao redor, em alerta. Uma mãe corria atrás de seu bebê, de aparentemente três anos. - Volte aqui, Daniel! Cuidado!
   Respirei fundo e desviei o olhar, sentindo toda a tranquilidade sendo sugada de mim. Olhei as horas em meu relógio de pulso e decidi que era hora de voltar para casa.
   Também tentei ocupar a minha mente com a lista de filmes que eu planejava assistir. Ela crescia cada vez mais e eu nunca lembrava de assisti-los. Então eu fiz um pote de pipoca, peguei meu cobertor fofinho, deitei no sofá da sala com Eve e Jack e selecionamos os filmes que iríamos ver. Tudo ia bem, até que estranhamente as coisas começaram a fazer sentido demais para mim. Garotas sendo largadas, bailes de formatura, choros, amores em Nova York, caras lindos e divertidos demais para serem reais. E de repente eu estava tomando as dores das protagonistas para mim e xingando Deus e o mundo.
   Então, quando Eve e Jack começaram a me olhar estranho e a dizer: "Calma, Ally, é só um filme. Por que você está irritada, brigando conosco, jogando pipoca na TV, xingando os atores e chorando?", eu decidi que era hora de parar. Com os filmes, quero dizer. Porque continuei chorando e xingando os personagens no quarto enquanto arrumava minha cama para dormir.
   E então, o dia 31 de Dezembro chegou. Fazia um frio de doer os ossos e eu passei metade do dia encolhida debaixo de um cobertor no sofá. Eve preparava algumas coisas para mais tarde, já que Benjamin (e com certeza O Penetra) viria para o apartamento. Eu e Jack assistíamos uma maratona de Sharknado, o pior filme já criado. Depois dele vem todos os outros filmes com crocodilos monstruosos, cobras gigantes e derivados. Eve assistia algumas partes enquanto preparava a comida e ria do absurdo que os filmes eram.
   Eu consegui me manter tranquila durante boa parte do dia. Assisti filmes ruins, conversei com Jack sobre teorias do Universo e alienígenas, discuti com Eve porque ela ficava rebatendo o que eu dizia só para me provocar e preparei um bolo de chocolate maravilhoso para comermos mais tarde. Um ótimo dia. Até que o momento decisivo chegou.
(...)
   Eu, Eve e Jack já estávamos há alguns minutos no Central Park, esperando por Benjamin. Meus olhos passeavam por todo o local e eu batia meu pé no chão, nervosa. Respirei fundo e repeti para mim mesma, diversas vezes, que eu não devia estar desse jeito. Não mesmo. Era como voltar à adolescência, quando eu ainda era uma boba que ficava ansiosa por qualquer besteira envolvendo Daniel.
   Isso é ridículo.
— Chegaram! - Eve disse animada.
   Meu coração deu um pulo e minhas pernas fraquejaram na mesma hora. Engoli em seco, me achando uma idiota. Meu Deus, eu tenho que parar com isso. Virei-me para a direção que Eve olhava, atrás de mim, e avistei Benjamin vindo em nossa direção. E logo atrás dele, é claro...
— Olha, Ally, o seu amorzinho veio também. - Eve sorriu, me provocando.
— Você está insuportável hoje. - resmunguei.
— Eu também amo você. - ela riu. - Oi, Ben!
   Revirei os olhos quando Eve abraçou Benjamin animadamente e Jack também. Logo ela cumprimentou Daniel com dois beijinhos no rosto e eu revirei os olhos. Eveline Walker sabia como ser falsa tanto quanto sabia me irritar.
   Ben me olhou e abriu os braços, com um sorrisinho nos lábios. Minha irritação momentânea se dissipou e eu o abracei apertado. Estranhamente, eu sentia falta dele. Ben havia se tornado um amigo muito importante para mim. E na hora que saí de seus braços e me virei para Daniel, eu congelei. Meus lábios ficaram congelados em um meio sorriso, enquanto eu me mantinha estática sem saber o que fazer. Mas em menos de três segundos ele me puxou para ele e me abraçou apertado.
   Fechei os olhos, sentindo o perfume que emanava do seu pescoço. Tinha um tom amadeirado e minhas mãos formigaram, ansiando para tocar nele também. Mas me contive. Ele logo me soltou e sorriu fracamente para mim, com um brilho esquisito no olhar.
— Ok, já chega. - Ben resmungou, segurando meu pulso e me puxando delicadamente para perto dele. - E o seu noivo, Ally?
   Pude ouvir Daniel bufar baixinho atrás de mim, mas ignorei. Eve sorriu maleficamente e cruzou os braços. Eu podia jurar que ele estava adorando aquela provocação de Benjamin direcionada à Daniel.
— Está bem. - falei, sem graça pela situação. - Ele virá daqui a alguns dias.
— Estou louco para conhecê-lo. - Ben sorriu. - E você também, não é, Daniel?
   Olhei para Daniel pelo canto dos olhos e pude vê-lo trucidar o primo com os olhos. Eve sorria feito uma idiota, enquanto Jack tentava conter uma risadinha. Haja paciência.
   Logo todos nós encontramos um bom lugar para assistir ao show que acontecia e eu comecei a sentir fome. Havíamos jantado antes de sair de casa, mas eu comi bem pouco porque não estava com fome. Agora, porém, meu estômago gritava dentro de mim. Olhei ao redor à procura de carrinhos de comida, até que avistei um à alguns metros de distância.
— Gente, eu vou dar um pulinho ali para comer algo. - falei, quase gritando para que me ouvissem sob a música que cantavam no palco. - Já volto.
   Eu ia me virando para sair quando Eve agarrou meu braço, com os olhos arregalados.
— Espera aí! - ela disse, todos os olhos em cima de mim agora. - Está muito lotado para você ir sozinha, está louca?
— Eu vou com ela. - Daniel se prontificou rapidamente, e todos os olhares viraram-se para ele. Inclusive o meu. - Também estou com fome.
   Eve semicerrou os olhos para ele, desconfiada. Prendi a respiração, sem saber como reagir. Eve ainda segurava meu braço e encarava Daniel, Jack encarava Eve, Benjamin encarava todos. Que bela situação. Logo o olhar de Eve caiu sobre mim, parecia receosa. Assenti fracamente e ela me soltou devagar.
— Qualquer coisa é só gritar. - ela disse, voltando a encarar Daniel. - Se ela sumir, eu...
   Daniel revirou os olhos e pegou na minha mão descaradamente, sem vergonha alguma. Foi me puxando em direção ao carrinho de cachorro-quente e eu tentei tirar minha mão da sua, mas seus dedos agarravam os meus como aço. Tentei ignorar o calor dela, a sensação e tudo aquilo. Respirei fundo.
   Ignore, Ally. Ignore.
   A fila estava um pouco comprida e eu já sabia que passaríamos uns dez minutos ali, no mínimo. Entramos em nosso lugar na fila e Daniel continuou com a minha mão na sua. Aquilo estava me irritando.
— Eu não sou uma criança, você sabe. - resmunguei. - Já pode me soltar.
   Ele arqueou uma sobrancelha para mim, sorrindo levemente enquanto soltava a minha mão devagar.
— Você não costumava reclamar disso. - ele disse com um sorrisinho irritante, colocando suas mãos nos bolsos do sobretudo e olhando para frente, como se me ignorasse.
   Abri a boca para dar-lhe uma resposta afiada, mas as palavras ficaram presas na garganta. Suspirei irritada e foquei meu olhar no moço que preparava os cachorros-quentes.
   Eu e Daniel parecíamos duas crianças implicantes que decidiram parar de se falar e que não querem dar o braço a torcer. Ele com seu sorriso contido e eu com meu bico de insatisfação. Mas apesar disso, no fundo, eu sentia uma coisa se revirando dentro de mim. Se espalhava do meu peito para o corpo inteiro, formigava as minhas mãos, arrepiava a minha nuca e fazia meu coração bater num ritmo descompassado. Ou era arritmia, ou era uma alegria estranha por causa da presença ao meu lado.
   Eu preferia que fosse arritmia.
   Eu sentia o olhar de Daniel sobre mim vez ou outra. E quando eu colocava meus olhos nele, ele desviava os seus rapidamente. Suspirei, sentindo que aquilo não daria certo. Eu precisava me manter distante dele. Ficamos nesse joguinho por um tempo, até que chegou a nossa ver de sermos atendidos. Pedimos dois cachorros-quentes e o senhor começou a prepará-los. Quando ficaram prontos eu abri minha bolsa para pegar minha carteira, mas Daniel passou na minha frente e pagou ao senhor.
— Espere aí, eu...
— Já paguei. - ele disse, me interrompendo.
   Suspirei contrariada e peguei meu cachorro-quente, logo começando a ir na direção em que os outros estavam. Mas Daniel me segurou pelo pulso delicadamente no meio do caminho. Virei-me para ele rapidamente e seu olhar fez minhas pernas amolecerem.
— Ally, eu... - ele suspirou. - Podemos sentar ali enquanto comemos? - perguntou, apontando para um banco vazio à alguns metros. - Eu gostaria de conversar com você.
   Fiquei dividindo meu olhar entre seu rosto e o banco até que, por fim, concordei. Caminhamos até lá enquanto eu dava uma mordida em meu lanche e meu estômago se acalmava. Um pouco. Sentamos lado a lado e ficamos comendo em silêncio, observando o fluxo de pessoas indo e vindo. De onde estávamos não dava para ver muito bem a Eve, o Jack e o Ben. E eles com certeza não conseguiriam nos ver. Daniel foi o primeiro a terminar de comer e bateu com as mãos em seu colo, para se livrar de algumas migalhas de pão. Logo ele se encostou melhor no banco e colocou as mãos nos bolsos do sobretudo, enquanto respirava profundamente e observava a fumacinha de frio saindo da sua boca.
   Fiquei olhando-o por alguns segundos, distraída, mas logo tratei de voltar a olhar em direção ao show.
— Então, o que queria conversar? - perguntei seca.
   Ele sorriu fracamente, com o olhar fixo à sua frente.
— Quando foi que você ficou tão nervosa? - ele perguntou. - Você era mais tranquila, garota.
— Eu sou tranquila. - resmunguei. - Eu apenas...
— Está incomodada com a minha presença? - perguntou baixinho, olhando para mim em seguida.
   Ficamos nos olhando por um tempo, até que eu dei mais uma mordida em meu cachorro-quente para tentar fugir do contato visual. Eu sabia que isso não daria certo. Não mesmo. Daniel continuou com sua atenção em mim enquanto eu tentava encontrar uma resposta para a sua pergunta. Porque se eu dissesse que estava, sim, incomodada com a sua presença isso seria um claro sinal de que ele ainda causava sensações em mim. E se eu dissesse que não estava incomodada, eu estaria mentindo. E eu não gosto de mentiras. Mas em alguns casos...
— Não. - dei de ombros. - Não estou incomodada, está tudo bem.
— Você continua mentindo mal pra caralho. - ele riu alto.
   Revirei os olhos, irritada. Fiquei de pé num pulo para ir embora, mas ele me segurou pelo pulso novamente e me puxou, fazendo-me cair sentada no banco novamente.
— Sossegue. - ele pediu, com um sorriso nos lábios. - Por favor.
   Respirei fundo, enfiando o último pedaço de pão na boca e mastigando com raiva, enquanto tirava as migalhas da minha roupa. Daniel me observava com uma expressão risonha.
— Me desculpe por isso. - ele disse quando terminei de me limpar. - Eu queria conversar com você sobre isso no natal, mas você estava quase caindo na calçada, então...
— Vá direto ao ponto, Sullivan. - falei. - Logo os outros ficarão preocupados com o nosso sumiço.
   Ele assentiu e virou um pouco seu corpo na minha direção, apoiando um cotovelo no banco.
— Eu só queria te pedir desculpas por tudo. - ele disse, o sorriso de antes totalmente desfeito. - Eu sei que isso não resolve nada, mas... Eu estou feliz por poder te reencontrar. E eu queria que recomeçássemos tudo isso, que tentássemos esquecer e...
— Recomeçar? - perguntei, em choque. - Daniel, o que você pensa que...
— Eu não quis dizer nesse sentido. - ele disse, me interrompendo. Engoli em seco, minhas mãos trêmulas sobre o meu colo. - Eu queria que pudéssemos voltar a ser amigos. Você foi a melhor amiga que tive, Allison.
— Ah, jura?
   Ele fechou os olhos, respirando fundo. Cruzei meus braços.
— Tente deixar a ironia um pouco de lado. - ele suspirou. - Por favor. Eu estou falando sério. Eu sinto a sua falta e não queria que esse clima esquisito ficasse entre nós. Quero poder conversar com você, quero saber como você está, quero te mostrar as coisas mais legais de Nova York e...
— Daniel, você... - o interrompi, passando as mãos no rosto. Ele ficou em silêncio. - Você sabe que isso não vai dar certo. Não depois de tudo. Sermos "amigos" agora seria no mínimo...
— Ridículo? - perguntou, um sorrisinho se formando em seus lábios avermelhados pelo frio. - Quem se importa?
   Senti vontade de dizer que: EVE SE IMPORTA, JACK SE IMPORTA (mas garantiu que me apoiaria), BENJAMIIN SE IMPORTA, CAMERON COM CERTEZA SE IMPORTARIA... Mas eu não. E a constatação disso me fez sentir um alívio estranho e uma pontade repentina de felicidade dentro de mim. Como se fosse uma bela surpresa, uma coisa que eu esperava há tempos e não sabia...
   Mas uma coisa que eu sei, com muita convicção, é que não vai dar certo. Porque na última vez que decidimos ser "amigos", as coisas tomaram rumos totalmente diferentes do que imaginávamos. E estar aqui agora, olhando nos olhos dele  e ouvindo-o me pedir por uma segunda chance de fazer parte da minha vida é...
— Eu sei que você está com medo. - ele disse baixinho. - Eu também estou. Passei tanto tempo me martirizando pelo que fiz que...
   Ele engoliu em seco e eu desviei o olhar do seu, passando a observar meus próprios pés.
— Eu prometo que não tentarei nada. - ele disse. - A não ser que você queira ou peça, então...
   Revirei os olhos e fiquei de pé, cruzando os braços. Olhei para ele de cima e pude ver o sorriso divertido em seu rosto.
— Você é um idiota. - falei seriamente, e seu sorriso foi desmanchando aos poucos. - Mas tudo bem. Eu aceito.
   Ele piscou os olhos rapidamente como se não acreditasse e ficou de pé rapidamente.
— Podemos ser amigos. Mas se você tentar qualquer coisa, eu...
 - Eu prometo. - ele riu, pegando a minha mão gelada entre as suas e cruzando seu dedo mindinho com o meu. - Eu serei o melhor amigo que você terá na vida, Allison Jones.
— Não diga isso perto da Eve. - bufei. - Ela já está irritada com você o suficiente.
— Bom saber. - ele sorriu.
   Balancei a cabeça, em choque por tudo o que aconteceu, e comecei a andar em direção aos outros. Daniel me acompanhou sorrindo de orelha a orelha ao meu lado. Quando Eve bateu os olhos em nós dois, suspirou em alívio e olhou desconfiada para Daniel e seu grande sorriso.
— Está sorrindo assim por quê? - perguntou, delicada como um coice.
— Por causa da novidade. - Daniel disse.
   Jack e Benjamin pararam de conversar e o olharam com curiosidade. Eve arqueou uma sobrancelha.
— Que novidade? - Jack perguntou, com um sorrisinho em minha direção.
   Oh, céus. Senti meu rosto pegar fogo enquanto Daniel sorria provocativo para Eve.
— Ally acaba de me promover ao posto de melhor amigo. - ele disse. - Isso não é ótimo?
   Eve me olhou com uma expressão de ironia. Senti vontade de pegar um dos fogos de artifício que logo seriam explodidos e jogar em cima de Daniel. Não por achar que Eve sentiria ciúmes por causa dele, mas sim porque ela com certeza me acharia uma tremenda idiota.
— Depois conversamos. - ela disse. - Agora fiquem quietos aqui porque é quase meia-noite.
   Ela voltou a se virar para Ben e Jack - que sorria feliz para mim, com certeza achando tudo aquilo muito engraçado - me ignorou totalmente. Respirei fundo, tentando controlar meus nervos, e olhei para Daniel pelo canto dos olhos. Ele piscou para mim. Desviei o olhar.
   Eu queria poder ficar irritada com ele por mais tempo, mas isso não aconteceria. Também queria não sentir minhas mãos tremerem e minhas pernas bambearem, e nem me sentir afetada pelo seu pedido e sua voz rouca. Queria poder me livrar dele. Esquecê-lo. Extingui-lo. Não sentir a mínima vontade de estar próxima a ele ou de ouvi-lo.
   Mas quando o relógio bateu 00:00, os fogos explodiram em mil cores no céu, ele me envolveu em seus braços em um abraço quente e apertado e disse em meu ouvido:
— Eu prometo que não vou te decepcionar.
   Eu soube: ele ainda estava impregnado em cada parte de mim. Da raiz dos cabelos até as unhas dos pés. Me envolvendo em toda aquela sensação de paz que eu não senti em abraço algum, em todos esses anos.
   Rodeei sua cintura com meus braços, retribuindo o abraço, desejando que dessa vez - por favor— eu não me perdesse.
(...)
   Eve jogou sua bolsa no sofá e sentou-se, retirando as sandálias dos pés. Comecei a retirar meu sobretudo enquanto suspirava de cansaço.
— Você é inacreditável. - ela disse o que eu já esperava. - Sério.
— Eve, por favor...
— Eu não vou me meter. - ela levantou as mãos, suspirando. - Você sabe o que faz, eu não posso te dizer o que fazer. Mas se ele fizer algo, eu juro que enterro ele na mesma vala que enterrarei seu noivo um dia.
— Eve... - Jack resmungou, recriminando-a, enquanto procurava algo na geladeira.
— Não venha com esse tom de voz. - Eve revirou os olhos. - Você também não gosta daquele idiota do Cameron.
— Mas isso não é motivo para você ameaçar jogar as pessoas em uma vala.
— Eu não sou obrigada a...
— Chega! - pedi, cansada daquela discussão. - Vai dormir, Eve. Você nem se aguenta em pé de tanto sono.
— Você aceita voltar a ser amiguinha daquele cretino, e eu é que preciso ir dormir. - ela bufou. - Você é inacr...
— Inacreditável, eu sei. - revirei os olhos. - Nem eu acredito em mim. Agora vai dormir.
   Eve semicerrou os olhos para mim e ficou de pé, me abraçando e beijando meu rosto. Sorri um pouco, enquanto ela andava lentamente até seu quarto. Suspirei sentando em uma das cadeiras altas da bancada. Massageei minhas têmporas, sentindo uma leve dor de cabeça. Era quase três horas da manhã, eu precisava dormir.
— Aqui, coma. - Jack disse, atencioso, colocando um pratinho com uma fatia do bolo de chocolate que eu havia feito na minha frente. - Isso vai fazer tudo melhorar.
   Sorri fracamente, comendo um pedaço do bolo. Estava tão bom.
— Quem me dera isso melhorasse tudo. - murmurei. - Eu sinto que estou metendo os pés pelas mãos. Tomando decisões sem pensar. Se o Cameron souber disso tudo, eu...
— Quem se importa com o que ele irá pensar? - Jack arqueou uma sobrancelha, apoiando os cotovelos na bancada e me olhando com sua expressão tranquila. - Ele não manda na sua vida, Ally. Você é dona das suas decisões.
— Mas eu sei que não irá dar certo, Jack. - insisti. - Voltar a ser amiga de Daniel é...
— Suicídio? - ele riu um pouco. - Ou algo provocador e irresistível demais, e você teme que volte a se apaixonar por ele?
   Fiquei mastigando lentamente, enquanto mantinha meu olhar fixo nos olhos dele. Balancei a cabeça negativamente, voltando a remexer o bolo com o garfo.
— Não, Jack. Não é isso.
— Pare de mentir para si mesma... - ele gemeu, agoniado. - Apenas aceite, Ally. É muito mais fácil lidar com as coisas quando aceitamos como elas são. Isso não te torna mais fraca ou idiota.
— Me torna totalmente estúpida.
— Não. - ele apertou meu nariz levemente. - Apenas prova que você é humana. Se permita fazer o que tem vontade e o que te dá felicidade. Esquece o que os outros vão pensar.
   Abaixei meus olhos para o bolo e Jack suspirou. Beijou minha testa ternamente em seguida.
— Eu vou dormir. Descanse também, amanhã é outro dia. - ele sorriu, cantarolando: - Um novo ano já começou...
   Ri baixinho, enquanto o observava sumir no corredor. Terminei de comer meu bolo e botei a louça suja no lava louças. Fiquei um bom tempo debaixo da água quente do chuveiro, deixando-a cair sobre os meus ombros tensos enquanto lembrava de cada detalhe dos últimos dias. Logo saí do banheiro e vesti um pijama quentinho. Deitar em minha cama, no fim de tudo, me fez suspirar em alívio. Mas eu não conseguia dormir.
   Fiquei olhando para o teto, como de costume. Eu ainda podia ouvir as pessoas comemorando nas ruas, a quatro andares abaixo de mim. Era um novo ano e toda aquela coisa de recomeços, novas metas e sonhos. Todos animados com a entrada de um novo ano como se isso resolvesse todos os seus problemas. Como se o mundo voltasse ao ponto de partida naquele momento, como se tudo que passou pudesse ser esquecido. Todos os erros cometidos. Todas as chances desperdiçadas. Todo o medo.
   Como se houvesse uma segunda chance garantida para tudo; como se desse vez houvesse certeza de que daria certo.
   Meu celular tocou ao meu lado, no travesseiro. Suspirei ao ver que se tratava de uma mensagem de Cameron.
   "Feliz ano novo, amor. Logo estaremos juntos novamente. Amo você."
   Fiquei com os dedos na frente da tela do aparelho, com a mente totalmente enevoada e sem saber o que responder. Por fim, disse apenas que o amava e estava esperando a sua chegada. Voltei a colocar o celular ao meu lado novamente e segundos depois ele voltou a tocar. Voltei a pegá-lo achando que era Cam outra vez, mas minha respiração ficou presa ao ver o nome "desconhecido". Cliquei na foto do remetente e o rosto sorridente de Daniel apareceu, preenchendo toda a minha tela.
   POV Daniel
   Bebi mais um gole de vinho, enquanto sentia o ar frio da cidade batendo contra o meu rosto. Abaixo de mim, a população de Chinatown estava em êxtase. Apesar de ter o próprio festival do Ano Novo Chinês deles, em fevereiro, eles também se animavam com o nosso ano novo. Pessoas para todos os lados, turistas tirando fotos. Peguei meu celular e fui até os meus contatos, clicando no nome de Ally. Sua foto apareceu na minha frente. Seu cabelo curto, batendo acima dos ombros, e seus olhos castanhos e amendoados. As bochechas rosadas como sempre e aquele sorriso bobo. Passei um dedo sobre a sua foto, fazendo carinho na tela como um adolescente abobado.
— Feche essa janela, Daniel. - Benjamin resmungou, passando pela sala e indo até a cozinha. - Pelo amor de Deus, está fazendo cinco graus negativos. Qual é o seu problema?
   Suspirei, me desencostando da janela e fechando-a. Andei até o sofá e me joguei no mesmo, bebendo mais um gole do meu vinho. Passei uma mão gelada no rosto, tentando acordar do torpor em que eu me encontrava há horas.
— Ela é tão bonita. - suspirei. - Eu senti tanto a falta dela.
— Começou... - Benjamin resmungou, me olhando por cima da bancada da cozinha com um copo de água na mão. - Desencana, Daniel. A Ally está noiva.
— Obrigada por dizer isso pela milésima vez. - semicerrei os olhos. - Eu ainda não tinha entendido.
— Olha, eu não quero desanimar você e nem te contrariar...
— Sério?
   Benjamin suspirou, vindo até mim e se jogando ao meu lado no sofá. Voltei a beber meu vinho, enquanto ele parecia pensar no que me dizer.
— Eu só estou preocupado. - ele disse. - Com vocês dois. Eu vi o que tudo aquilo causou em você. E apesar de não ter estado com ela naquele momento, eu imagino muito bem o efeito que teve nela.
— Eu não vou fazer aquilo novamente.
— Eu sei que não vai. - Benjamin sorriu um pouco. - Você é meu irmão, cara. Eu confio em você, apesar de te achar um tremendo idiota. O problema é que a Ally está noiva agora. Tem outro cara no jogo e ela não é a pessoa mais centrada do mundo para tomar decisões.
   Ficamos em silêncio por um tempo, ambos pensativos.

 

New Order - Bizarre Love Triangle


— Eu fico feliz só por poder estar com ela. - falei. - Como amigos.
— Mas isso não será para sempre. É óbvio que você quer se aproximar dessa forma para depois dar o bote. - ele revirou os olhos. - E o problema está exatamente aí. Em qual será a reação dela quando isso acontecer.
— Eu dou um jeito. - suspirei. - Eu vou reconquistá-la. Eu posso mostrar que posso fazê-la mais feliz do que o tal Cameron.
   Benjamin riu alto, dando tapinhas no meu ombro. O olhei confuso.
— Boa sorte. - ele arqueou as sobrancelhas para mim, ficando de pé e indo em direção à cozinha. - O cara é advogado, arrumadinho e do tipo que toda mulher sonha ter.
   Dei de ombros, encarando Benjamin enquanto ele parava no meio do caminho até o seu quarto.
— Você também era assim. - respondi. - E foi comigo que ela quis ficar no final.
   Ele revirou os olhos e mandou o dedo do meio para mim, indo para seu quarto em seguida. Respirei fundo, com um sorriso idiota. Eu não estava totalmente confiante e seguro de mim. Não mesmo. Longe disso. Mas eu tinha esperança - aquela fagulha lá no fundo do coração, que geralmente nos faz agir impulsivamente - e isso bastava. Eu via a forma como Ally me olhava. A forma como seus mãos ficavam trêmulas e seus olhos brilhavam quando eu me aproximava. Minha presença ainda causava sensações nela, assim como a presença dela me fazia perder a noção da realidade. Só existia ela, apenas.
   Peguei meu celular e cliquei no nome dela novamente.
   "Obrigada", digitei. "E feliz ano novo, garota."



Notas finais do capítulo

Ai, gente. ♥
Será que vai ter gente ainda magoada com o Dan e xingando a Ally? HAHAHAHA. E como será as coisas com a vinda do Cameron? E será que a amizade deles dará certo? SERÁ?
Me contem o que acharam, porfavô. ♥
Logo trarei o próximo!

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