Collide escrita por Allie Próvier


Capítulo 43
[2ªT] 5. Impulsos


Notas iniciais do capítulo

Posso ouvir um ALELUIA? HAHAHAH.
Capítulo dedicado a Tathajovi, que recomendou a fic no último capítulo! Muito obrigada, amore ♥
Espero que gostem!




[2ª TEMPORADA]
CAPÍTULO 5

 

E se você me perguntar se eu o amo, eu mentiria.

Taylor Swift - I'd Lie


   POV DANIEL
   Minhas mãos tremiam.
   Tive que me forçar a manter a atenção no microfone a nas pessoas que nos assistiam, mas a todo momento meus olhos me levavam a ela. Ao cabelo curto e levemente ondulado nas pontas, ao sorriso fácil, aos olhos amendoados. Ela era uma mulher agora. Mas apesar do ar adulto e mais maduro, ainda tinha os mesmos gestos e olhar.
   Eu não me aguentava mais em mim. Queria sair daquele bendito palco, ir até ela e perguntar: "Como assim?"
   Como assim Allison Jones está em Nova York?
   Como assim Allison Jones está aqui, na minha frente?
   Como assim Allison Jones está aqui, em Nova York, na minha frente, com Benjamin?
   Como assim aquele idiota não me contou nada sobre isso?
   Eu queria correr até ela, fazer mil perguntas, abraçá-la. Queria jogar Benjamin numa parede e enfiar o punho naquele sorriso que ele direcionava a ela tão facilmente, como se tudo estivesse bem, como se nada fosse totalmente confuso pra caralho. Mas eu tinha que me controlar. Tinha que me manter são e tranquilo, terminar de cantar o que eu tinha para cantar e assim que tudo acabasse, eu iria até ela e...
   E eu não sei.
   Fechei os olhos enquanto cantava e o olhar vazio dela me atingiu. Ela correu para fora quando eu a vi. Fui até a mesa deles e Benjamin quis discutir comigo, me mandou ficar afastado. E quando ela voltou eu achei que poderíamos conversar, mas a forma como ela me olhou... Durou 1 segundo e meio, eu acho. E eu não sabia mais o que fazer. Porque ela passou por mim como se eu fosse um desconhecido. Sentou à mesa como se eu não estivesse ali e sorriu para o garçom como se não fizesse ideia de quem eu era.
   Voltei ao palco e cheguei a pensar que ela tivesse sofrido um acidente e perdido a memória. Acontece naqueles filmes, às vezes acontece na vida real. Talvez tivesse batido a cabeça e esqueceu apenas de mim. Mas eu sabia que estava tudo lá, todas as lembranças. Porque quando eu abri os olhos novamente, no meio da música, os olhos castanhos e magoados estavam focados apenas em mim.
   Eu tinha que falar com ela.
   Ao fim do repertório, falei algumas palavras ao microfone. Eu e os caras da banda rimos ao ouvirmos todos pedindo por mais músicas. Mas estávamos exaustos, não tinha jeito. Bill, o dono do bar e meu amigo, veio até nós.
— Obrigada, gente. - ele disse, batendo nas nossas mãos todo sorridente. - O bar está liberado para vocês, como sempre.
— Eis a melhor parte da noite. - Emmett, o baterista, disse. - Não sei vocês, mas eu vou beber algumas e ir embora.
— A patroa já está ligando? - Carlos, o guitarrista e baixista, arqueou uma sobrancelha e cutucou Emmett provocativo. - Tadinho de você...
— Não enche, porra. - Emmett resmungou.
   Revirei os olhos e olhei ao redor, procurando por Ally. Arregalei os olhos ao ver a mesa vazia. Meu coração acelerou enquanto eu varria todo o local à procura deles, mas não encontrava um sinal.
— Merda. - rosnei, passando uma mão no cabelo e puxando levemente. - Eu tenho que ir! - falei para os caras, que pararam de se provocar e me olharam confusos.
   Quando abriram a boca para me questionar, eu dei as costas e corri toda a extensão do bar até a saída. Respirei fundo quando meu rosto entrou em contato com o ar gélido da rua. Engoli em seco, olhando ao redor rapidamente. Nem um sinal de Ally ou Benjamin. Passei as mãos no rosto, nervoso. Tirei meu celular do bolso da calça e liguei para o número de Benjamin. Só caía na Caixa Postal. Tentei outra vez, e outra, e novamente. Ele estava me ignorando.
   O único jeito seria confrontá-lo em casa.
   Entrei no bar novamente e avistei Carlos e Emmett sentados no bar, conversando com Bill. Sentei ao lado deles e pedi uma cerveja. O olhar dos meus amigos caiu sobre mim. Bill colocou a garrafa de vidro na minha frente e se apoiou no balcão, me encarando profundamente com seus olhos cinzas e a barba grossa e loira. Parecia um viking nervoso à espera de explicações. Não era a toa que eu preferia chamá-lo de Viking do que de Bill. Não havia apelido melhor para ele.
— Pode começar. - Emmett começou. - Quem era aquela belezinha?
— Não sei do que vocês estão falando. - falei baixo, bebendo um gole da cerveja.
— Acha mesmo que não vimos quando você foi na mesa daquela garota? - Carlos arqueou uma sobrancelha. - Nunca o vi tão desesperado quanto no momento em que ela correu para fora do bar.
   Bebi mais dois goles da cerveja, tentando manter minha boca ocupada. Mas eles não me deixariam passar dessa.
— Espere aí... - Viking riu, fechando os olhos. - Aquela é a tal Alice?
— Quem é Alice? - Emmett e Carlos perguntaram juntos.
— Dessa eu nunca ouvi falar. - Carlos sorriu.
— Nem eu. - revirei os olhos. - Nunca houve Alice alguma.
— Não era esse o nome... - Viking resmungou, passando uma mão na testa e tentando lembrar. Suspirei. - Seria Alana...? Audrey...?
   E então, o que eu temia aconteceu. Carlos e Emmett arregalaram os olhos e quase cuspiram a cerveja, enquanto viravam-se afoitos para mim e me sacudiam pelos ombros.
Allison! - eles gritaram juntos, atraindo alguns olhares para nós. Eu quis um buraco para me enfiar. - Caralho, aquela era a...
— Ok, chega de gritos. - falei, passando uma mão no rosto enquanto a outra apertava a garrafa de vidro. - Sim, era ela.
— Rapaz, ela era bonita mesmo. - Viking deu tapinhas no meu ombro e eu semicerrei os olhos para ele, que riu. - Parabéns.
    Revirei os olhos, bebendo o que restava da cerveja e largando a garrafa sobre o balcão. Cruzei os braços, sentindo meu humor péssimo. Eu estava nervoso, frustrado e ansioso. E todo aquele alvoroço dos meus amigos não contribuía em nada.
— Vamos lá, anime-se. - Carlos disse. - Até onde você nos contou, ela morava na Califórnia, não é? E agora está aqui.
— É justamente isso que eu não entendo. - falei. - E ela ainda estava com Benjamin.
— Esse teu primo é um baita de um filho da... - Emmett resmungava. Lancei um olhar cortante para ele, que se calou na hora. - Enfim, você não devia confiar tanto nele. Eu não confio desde que ele bebeu as minhas cervejas no apartamento de vocês. Eu havia guardado para beber durante o jogo e ele...
— Não temos tempo para as suas lamentações agora, Emmett. - Carlos o interrompeu. - Temos um caso mais sério aqui, que é: O que diabos você ainda está fazendo aqui e por que não foi atrás dela ainda, Sullivan?
   Os três pares de olhos caíram sobre mim. Olhei para os três, desnorteado. Abri a boca para responder, mas nada saiu. Suspirei, apoiando o rosto nas mãos.
— O nome disse é medo, rapazes. - Viking riu, sua voz grave e risonha. - O medo da rejeição.
— Não é medo. - suspirei.
— Então é o quê? - Emmett arqueou uma sobrancelha. - Ao invés de correr atrás da garota que é o motivo das suas lágrimas  de bêbado há anos, você está aqui, deixando o seu primo dar atenção a ela no seu lugar. Qual é, Daniel. Você já foi melhor do que isso.
— Olha, vocês não estão me ajudando. - levantei as mãos, saindo do banco alto e dando dois passos para trás. - Eu vou embora porque amanhã cedo eu tenho trabalho. Grandes notícias me esperam. Depois a gente se vê.
— Não esqueça do jantar na semana que vem! - Emmett disse, a voz alta e as bochechas já rosadas devido ao álcool. - Cadence ficará chateada se você não for!
— Não vou esquecer. - sorri forçadamente, vendo Carlos e Viking rindo. - Devo levar algo?
Advil, porque a minha sogra vai estar lá e eu vou precisar. - Emmett lamuriou, meio cabisbaixo, mas logo os olhos voltaram a brilhar. - Mas pode levar umas cervejas também.
Advil e cerveja. - Carlos levantou sua garrafa, como se brindasse. - Melhor combinação. Estou começando a considerar a possibilidade de aceitar o convite e ir também.
  Emmett começou a resmungar e eu revirei os olhos. Os dois nunca cansariam de provocar um ao outro. Acenei para Viking e ele acenou de volta, um sorrisinho escondido sob a barba espessa. Voltei a vestir minha jaqueta quando saí do pub. Dezembro estava chegando e o frio estava começando a dar as caras de vez. Suspirei, esfregando uma mão na outra para tentar aquecê-las. Andei até o estacionamento no outro lado da rua e me enfiei dentro do carro, me sentindo ainda mais ansioso do que antes.
   Queria chegar ao apartamento logo e falar com Benjamin. Ele me devia explicações, mesmo que, tecnicamente... Não devesse. Mas eu as queria.
   Dirigi a uma velocidade um pouco acima da permitida, mas ignorei isso. Só de pensar que Ally estava aqui, em Nova York, tão perto... Esteve a alguns metros de mim por três horas, e eu nem ao menos consegui ouvir sua voz direito. Isso era surreal. Não pude evitar sorrir ao lembrar que eu nem ao menos iria ao pub hoje. O combinado era eu e os caras irmos tocar amanhã, no domingo, mas calhou de irmos hoje porque amanhã Emmett teria um compromisso com sua esposa, Cadence. Talvez isso fosse o famoso "destino".
   Céus, só de lembrar dela... Estava tão bonita, tão madura. Tão diferente de antes, mas ainda era Allison Jones. Ela poderia mudar o que quisesse em si mesma - cabelos, estilo, modo de falar - mas jamais perderia a essência. Aquela coisa só dela, aquilo que fazia ela ser quem ela era. Eu vinha me martirizando durante todos esses 6 anos por ter perdido tudo isso. Por ter sido um imbecil, por ter pensando apenas em mim mesmo. Eu nunca encontraria alguém como ela. Eu até tentei, mas foi inútil.
   E vê-la novamente nessa noite com aquele cabelo curtinho, o vestido branco e aquele sorrisinho familiar que ela sempre dava no meio de uma conversa, me fez enlouquecer. Só então eu percebi a merda que eu realmente havia feito e que eu deveria consertar. Porra, eu precisava dela.
   E precisava dar um soco nas fuças de Benjamin, que me escondeu tudo. Quem ele pensava que era para fazer isso? Depois de todo esse tempo, sabendo o que eu pensava e ansiava... Ele era um cretino.
   Subi as escadas do prédio de dois em dois degraus, impaciente para esperar pelo elevador. Assim que cheguei ao sexto andar, tirei as chaves do bolso da jaqueta apressado e abri a porta do apartamento. Acendi as luzes. Nada.
   Tranquei a porta e retirei os sapatos, deixando-os de lado na entrada. Os sapatos de Benjamin não estavam ali, sinal de que realmente não havia chegado. Acendi as luzes e fui até a cozinha. Bebi um copo de água gelada, tentando acalmar a tremedeira das minhas mãos. Eu estava uma pilha. Não aguentava esperar.
   Arranquei a jaqueta de mim e a joguei sobre o sofá, junto com as chaves do carro e a carteira. Abri a grande janela da sala e o ar frio bateu contra o meu rosto. Respirei fundo e apoiei os cotovelos na janela, observando o bairro. Chinatown estava iluminada e alvoroçada, como sempre. As diversas lamparinas chinesas percorriam a rua e muitas pessoas andavam de um lado para o outro. O cheiro de comida subiu rapidamente e eu senti meu estômago roncar, apesar de não aguentar mais comer Pato à Pequim, Yakissoba e Rolinhos Primavera.
   Porém, acabei vestindo minha jaqueta e calçando meus tênis novamente. Fui até um restaurante que havia no outro lado da rua e comprei Rolinhos Primavera para viagem e uma Coca-Cola.
   Não é a toa que a minha mãe reclama no meu ouvido sempre que pode. Meus hábitos alimentares eram péssimos desde que eu e Benjamin decidimos morar em Chinatown só porque esse era o último bairro no qual nossas mães esperavam que um jornalista e um publicitário fossem morar. Mas não era de todo ruim; era um lugar bem animado e as pessoas eram legais. Já aprendemos até algumas palavras em chinês, apesar de não saber muito bem o que elas significam.
   Voltei para o apartamento e me joguei no sofá, com a caixa de rolinhos no colo e um copo de refrigerante na mão. Fiquei olhando a tv desligada e tentando me concentrar no gosto da comida, mas a cada minuto meu olhar caía sobre o relógio em meu pulso. Porra, o que Benjamin estava fazendo? Será que ele havia ido deixar Allison em casa? Se eu bem me lembro, acho que o casal que os acompanhava eram Eve e Jack...
   Eles haviam saído juntos propositalmente? Tipo... Tipo um encontro de casais?
   Mastiguei devagar, enfezado, e forcei a comida a descer goela a baixo. Se esse cara não chegasse em dez minutos, eu...
   Ouvi uma chave girar na fechadura da porta de entrada e olhei rapidamente naquela direção.
— Oh. - Benjamin disse, fechando a porta atrás de si e me olhando com uma expressão levemente insegura. - Você.
— Que merda você estava pensando... - falei devagar enquanto deixava a comida e o copo na mesa de centro e ficava de pé. - Quando me escondeu que ela...
   Ben me interrompeu, levantando as mãos como se se rendesse.
— Não venha querer me julgar, Daniel. - suspirou. - Você sabe muito bem o motivo.
— Você devia ter me contado! - falei, minha voz aumentando o tom gradativamente. - Depois de tanto tempo ela aparece aqui e você sai com ela por aí como se fosse seu maldito dono!
— Como é que você chega a essas conclusões absurdas? - arqueou uma sobrancelha, enquanto retirava seu casaco e o largava no sofá, jogando-se na poltrona ao lado em seguida. - Pare de gritar e senta aí.
— Não me venha com essa falsa tranquilidade agora, Benjamin. - falei entre dentes, pegando minha louça suja em cima da mesa e indo até a cozinha. - Me poupe dessa merda, você devia ter me contado. Mas não contou, porque é um duas caras do caralho.
   Joguei a louça dentro da pia e bufei, passando as mãos no rosto. Apoiei minha cintura na bancada e cruzei os braços, olhando Benjamin por cima da ilha da cozinha.
— Me poupe você dessa merda. - ele revirou os olhos, me olhando com raiva. - Fez o que fez e agora acha que tem razão para falar dessa forma? Você acha o quê? Que ela está louca para te reencontrar também?
— E você sabe se está ou não? - arqueei uma sobrancelha, sentindo meu sangue esquentar.
— Sei. - ele sorriu, deboche exalando por cada poro. - Porque a minha presença ela quer por perto, já você conseguiu foder com tudo. Ou estou errado?
   Respirei fundo apertando as mãos em punho e me controlando para não esganá-lo. Benjamin ficou de pé e pegou suas coisas no sofá, indo em direção ao corredor que levava aos quartos em seguida.
— Cara, é sério... - ele parou no meio do caminho, o sorriso cretino de antes desfeito e me olhando com uma expressão vazia. - Deixe-a em paz. Ela está noiva.
   Senti meu sangue gelar, enquanto Benjamin me largava sozinho e se enfiava em seu quarto. Engoli em seco, as palavras fazendo eco na minha mente.
   Noiva?
   Benjamin deve ter percebido a minha expressão de choque, pois me lançou um olhar de pena e foi para seu quarto. Engoli em seco. Passei as mãos no rosto e respirei fundo, tentando me acalmar. Benjamin pode achar que vai me manter longe dela com isso, mas não vai. Não mesmo.
   Ouvi quando ele saiu de seu quarto e foi até o banheiro. Trancou a porta. Segundos depois o chuveiro foi ligado. Fui rapidamente até seu quarto e avistei seu celular jogado no meio da cama. Peguei o aparelho rapidamente e abri a lista de contatos. "Ally" era a primeira da lista. Meu coração acelerou absurdamente enquanto eu salvava seu número em meu próprio celular e deixava o de Benjamin sobre a sua cama, na mesma posição de antes.
   Fui direto para o meu quarto e me joguei na cama pensando que se Allison Jones estava noiva... Bem, eu teria que dar um jeito nisso.

   POV ALLY
   Eu tentei levantar.
   Eu juro, juro que tentei, mas tudo o que eu consegui fazer foi ficar deitada olhando fixamente para o teto branco do quarto. Eu definitivamente não sei qual é a minha cisma com tetos, mas eles me acalmam em momentos que eu não sei o que fazer e nem o que pensar. E também quando tenho insônia. E quando ainda tem álcool correndo pelo meu sangue.
   Passei um bom tempo revezando meu olhar entre o teto, a parede de tijolinhos e o céu nublado no lado de fora. Me enrolei toda no edredom, tentando fugir do ar gelado. Afundei o rosto no travesseiro e respirei profundamente. E quando fechei os olhos, a noite anterior veio a minha mente em flashes.
   Não, não, não, não.
   Fiquei de pé num pulo tentando fugir dos pensamentos. Senti tudo girar ao meu redor, mas ignorei a tontura e cambaleei até o banheiro tateando pelas paredes. Minha visão ainda estava um pouco turva devido a tontura e ao sono.
— Ally, o que voc... - Eve passou por mim no corredor, me olhando confusa.
   Eu me enfiei no banheiro sem respondê-la e tranquei a porta. Me apoiei na borda da bancada da pia, engolindo em seco enquanto meu estômago se revirava dentro de mim. Abri bem os olhos, sabendo que se os fechasse toda aquela merda inundaria minha mente. Eu não queria pensar na noite anterior.
   Levantei o rosto e olhei meu reflexo massacrado no espelho. Os cabelos curtos totalmente bagunçados e para o alto. Eu parecia aquelas crianças bochechudas com um moicano esquisito que os pais faziam. Suspirei passando uma mão trêmula no cabelo, tentando colocá-lo no lugar. Fui vendo meu rosto ficar cada vez mais pálido e senti meu corpo suar frio. Oh, merda.
   Em menos de um minuto, eu estava na frente da privada vomitando tudo o havia bebido na noite anterior. E eu tive a constatação óbvia e deprimente de que eu era uma idiota fracassada quando tentei limpar o canto sujo dos lábios e comecei a chorar miseravelmente. E logo eu era vômito e lágrimas. Nojento, eu sei. Isso também não me agrada. Muito menos quando lembro do culpado por tudo isso.
   Quando senti que não havia mais nada para pôr para fora - a não ser a minha raiva e desespero, é claro - fiquei de pé, dei descarga e fui lavar o rosto. Meu corpo inteiro tremia, não sei se de ansiedade ou fraqueza. Escovei os dentes duas vezes, enojada com o gosto que havia ficado na boca e fiquei uns bons minutos encarando a mim mesma no espelho. Isso geralmente me ajudava a pensar com mais clareza e a acalmar meu corpo, mas dessa vez não adiantou. Eu estava horrível.
   Saí do banheiro arrastando os pés e fui em direção a sala e cozinha. Encontrei apenas Jack sentado confortavelmente no sofá cinza, as pernas esticadas e a atenção na TV, onde passava o noticiário. Como não avistei Eve em lugar algum, decidi voltar de fininho para meu quarto e me afundar na ressaca. Não queria incomodar Jack. Mas assim que me virei para sair, ele notou minha presença e me olhou preocupado.
— Nossa, Ally... - ele murmurou, ficando de pé e estendendo uma mão para mim. - Venha aqui, vou te ajudar.
— Não, eu estou bem. - suspirei, sorrindo levemente. - Vou voltar a deitar.
— Não antes de comer e beber algo. - ele disse com firmeza, quase mandão.
   Aceitei sua mão e ele me levou até um dos bancos altos da ilha da cozinha, como se eu fosse uma criança. Sentei e escondi o rosto nas mãos enquanto o ouvia andando pela cozinha atrás de leite, biscoitos e remédio.
   Logo tudo estava na minha frente. Tomei o remédio para enjoo e dor de cabeça, e comecei a comer vagarosamente. Jack ficou me observando em silêncio do outro lado da ilha. Eu sabia o que ele estava pensando. O que todo mundo devia estar pensando, obviamente. Por isso, mal consegui fazer contato visual com ele.
— Você sabe que pode conversar comigo. - ele disse baixinho. - Se sentir a vontade, é claro.
— Eu sei, Jack. - sorri um pouco. - Obrigada.
   Eu acho que ele esperava que eu me abrisse com ele nesse momento, mas eu não o fiz. Apenas continuei bebendo meu leite e comendo meus biscoitos em silêncio. Eu não sabia o que dizer. Mas percebi o olhar chateado e desanimado de Jack quando ele segurou minha mão suavemente e a apertou de leve antes de voltar para o sofá.
   Fui lavar a louça suja quando terminei de comer, mas Jack me expulsou da cozinha e mandou-me ir descansar. Voltei ao quarto tentando ignorar os pensamentos que vinham me cutucar a todo instante, mas quando caí na cama, foi impossível ignorá-los.
   Não consegui ignorar as lembranças, as sensações e o aperto no peito. Nem apagar o rosto bonito de Daniel, nem aquela maldita voz. Ele está aqui, tão perto de mim, e eu não faço ideia do que fazer. Quando o show acabou ontem, tudo em que pensei foi pegar minha bolsa e ir embora correndo do pub antes que ele olhasse em minha direção novamente e eu não soubesse como reagir. Eve, Jack e Ben me acompanharam apressadamente, sem me questionar. Eu me sentia envergonhada por ainda sentir tudo aquilo e me sentia uma covarde por fugir. Mas o que eu poderia fazer?
   Eu sabia bem do que Daniel era capaz. Eu conhecia o meu coração e corpo e eu sabia que quando ele se aproximasse de mim novamente, bem...
   Eu sou uma adulta agora, amadureci muito nesses anos, tenho um bom emprego e moro em Nova York. Ah, e também tenho um noivo. Eu acho. Por isso, eu tenho que manter em mente que qualquer aproximação entre eu e Daniel está fora de questão e é totalmente desnecessária. Espero que ele também pense da mesma forma.
   Em questão de segundos a imagem de Daniel com outra mulher me veio à mente. Senti um desconforto no peito e apertei o travesseiro até as pontas dos meus dedos ficarem brancas. Sentei rapidamente e joguei o travesseiro no outro lado do quarto. Bufei pesadamente, olhando o céu cinzento pela grande janela do quarto. Encostei minha testa no vidro frio e repeti para mim mesma:
   "Daniel não é importante. Daniel não é importante. Daniel não é importante. Daniel não é importante. Daniel não é importante. Daniel não é import..."
— Ally? - ouvi Jack me chamar, dando duas batidinhas na porta do quarto.
   Fiquei de pé e abri a porta. Jack se apoiou no batente da porta e cruzou os braços.
— Vista uma roupa quentinha, nós vamos sair. - ele disse. - Quero companhia.
— Eu não estou muito bem... - murmurei.
   Mentira, eu já me sentia muito melhor após a sessão de vômito e o café da manhã. Jack não pareceu acreditar na minha desculpa e arqueou uma sobrancelha em silêncio. Desisti. Suspirei, assenti e ele sorriu um pouco.
— Vou te esperar na sala. - ele disse.
   Abri o closet e peguei uma roupa qualquer. Uma calça jeans, uma blusa quentinha e uma bota tava ótimo. Me vesti olhando amargurada para a cama, doida para me jogar nela. Mas Jack havia me pedido para fazer companhia a ele, então...
   Eu chequei se minha carteira e celular estavam na bolsa e saí do quarto, encontrando Jack na sala. Assim que me viu desligou a TV e saímos do apartamento. O dia estava bem frio, mas ainda assim havia muitas pessoas nas ruas.
— Aonde vamos? - perguntei quando vi que ele ia em direção ao seu carro na frente do prédio.
— Fazer compras de natal. - ele sorriu abertamente.
   Meus ombros caíram e eu semicerrei os olhos para Jack, que riu alto. Respirei fundo sentindo pena de mim mesma e me enfiei dentro do carro antes que congelasse. Veja bem: eu amo o natal. Amo comprar presentes e embrulhar tudo, e todas essas coisas. Mas quando se está de ressaca, seu corpo inteiro dói e os shoppings estão lotados...
   É o inferno.
   Jack me contou que Eve havia saído para fazer as compras sozinha, já que ela gostava de fazer surpresa e de pensar sozinha, também. E como Jack queria ajuda para comprar um presente para ela, queria a minha companhia. Eu não reclamei, é claro. Só esperava que não estivesse tudo abarrotado de pessoas. Mas isso era pedir demais.
   De qualquer forma, a movimentação de pessoas no shopping não estava tão absurda. Conseguimos ir nas lojas que ele queria e eu o ajudei a escolher os presentes para Eve, Vanessa, minha mãe, seus pais... Até que chegou a minha vez.
— Não mesmo. - balancei a cabeça. - Eu já estou vivendo no apartamento de vocês, Jack. Isso é um baita presente.
— Deixa de ser boba. - ele revirou os olhos. - Eu vou comprar, você querendo ou não.
   Suspirei, cruzando os braços.
— Tudo bem. - falei, derrotada. Eu já havia aprendido que não adiantava discutir com Jack e Eve. - Então vamos fazer o seguinte: enquanto você procura algo para mim, eu vou fazer as minhas compras e depois nos encontramos para ir embora. Ok?
   Jack sorriu e concordou. Cada um foi para um lado. Eu já tinha em mente o que compraria e enquanto andava pelas lojas ajudando Jack, havia marcado o que eu compraria depois. Então, fui rápida nas compras.
   Para Eve eu comprei um livro que ela queria muito, para Jack comprei um novo jogo para Playstation 4 que fazia seus olhos brilharem há dias, para minha mãe comprei um álbum de fotos que custou mais do que deveria, mas comprei com prazer, porque eu tinha várias fotografias espontâneas dela que havia tirado em segredo e pretendia colocar no álbum. Aproveitei para comprar também um colar com pingente de quartzo azul, que era sua pedra preferida, para dar junto ao álbum. Eu sentia muito a sua falta, queria agradá-la. Para Vanessa comprei uma pulseira delicada e toda trançada, com um pequeno pingente de passarinho. E aproveitei também para passar em um pet shop enorme que havia no shopping, cheio de coisinhas para animais. Comprei uma cama vermelha bem fofinha para Gregory e uma bolinha de brinquedo. Eu não via a hora de encontrar um lugar para eu morar e poder trazê-lo.
   E, por fim, faltava um presente para Cameron. E eu travei. Comprar presentes para ele era sempre uma tarefa árdua, porque eu ficava perdida. O que dar para alguém que já tem tudo?
   Diversas vezes eu perguntei o que ele gostaria de ganhar e ele sempre respondia: "algo que eu possa usar bastante". Eu acabava sempre comprando gravatas ou uma blusa social bem bonita, porque era o que ele mais usava por causa do trabalho. E isso sempre o agradava. Porém, decidi comprar um relógio dessa vez. Escolhi um modelo diferente do que ele já tinha e efetuei o pagamento. Minhas pernas já estavam doloridas e meu estômago roncava de fome. Parei em um dos bancos que haviam nos corredores do shopping e deixei minhas bolsas sobre ele para ligar para Jack.
   Ele atendeu no segundo toque e falou animadamente que havia encontrado algo para mim. Sorri diante da sua felicidade. Jack era uma pessoa muito atenciosa. Avisei onde eu estava e ele pediu para eu esperar um pouco, que logo ele viria me ajudar com as bolsas. Desligamos e eu sentei no banco, suspirando de cansaço. E quando olhei para frente, me deparei com uma loja de artigos decorativos. Mesmo do lado de fora eu consegui ver diversos quadros a venda, almofadas e coisas bonitinhas. Eu amava esse tipo de loja.
   Como Jack levaria alguns minutos para vir ao meu encontro, imaginei que não haveria problemas em dar uma olhada. Peguei minhas bolsas e fui até a loja. Cumprimentei uma atendente e olhei as prateleiras. Fiquei apaixonada por uma almofada com formato de gato e pensei em comprá-la, até que avistei um pequeno boneco em uma das prateleiras. Me aproximei para olhar melhor. Era pequeno, praticamente do tamanho da minha mão, todo em alumínio e segurava um violão. Era muito simples.
   O rosto de Daniel inundou minha mente como um soco e eu engoli em seco. Fechei os olhos e sacudi levemente a cabeça. Abri os olhos. O boneco era lindo. Parecia o tipo de decoração que Daniel tinha em seu quarto de adolescente. Eu lembro de deitar em sua cama durante a pausa das aulas particulares e olhar tudo que havia sobre a sua escrivaninha. Aquilo era a cara dele.
   E quando eu percebi, já estava no caixa pagando por um boneco sem rosto e de alumínio que talvez nunca fosse dado a Daniel. Agradeci a atendente e enfiei o presente na mesma bolsa do álbum da minha mãe. Por hora eu esqueceria a existência dele. Assim que saí da loja, vi Jack sentado no banco onde eu estive anteriormente. Ele me olhou em alerta e suspirou aliviado.
— Eu pensei que haviam sequestrado você. - ele disse, pegando algumas sacolas da minha mão para me ajudar. - Eve me mataria se isso acontecesse.
   Paramos na praça de alimentação para almoçar e ficamos um bom tempo conversando. Jack me contou sobre diversas situações que aconteceram quando eles se mudaram, sobre o início da adaptação de Eve em NY e na nova escola, e eu não parava de rir. Até que o clima mudou e o que eu esperava acontecer, aconteceu:
— Ally, sobre ontem... - Jack começou, cuidadoso. - Você gostaria de conversar sobre? Eu sinto que você está uma bagunça aí dentro.
   Ficamos nos olhando nos olhos por alguns segundos antes de eu desviar o olhar e beber um gole do meu suco. Jack ficou em silêncio. Eu suspirei baixinho.
— Eu não sei o que dizer sobre ontem. - admiti. - Na verdade, eu prefiro esquecer.
— Você sabe que isso será meio impossível. - ele sorriu levemente, me olhando com um misto de pesar e carinho. - Eu tenho certeza que essa não será a última vez que vocês se encontrarão.
— Eu também tenho. - falei. - É isso que me assusta.
   Jack ficou me observando por um tempo, enquanto eu bebia minha bebida e comia meu espaguete devagar. Eu mal sentia o gosto, a essa altura.
— Eu posso expor a minha opinião sobre isso? - ele perguntou depois de um tempo.
— É claro.
   Jack suspirou antes de continuar.
Permita-se. - ele disse. Eu o olhei totalmente confusa e ele esclareceu: - Provavelmente Eve me esganaria se me ouvisse dizendo isso a você, mas eu vou arriscar. Eu via o quanto você e Daniel se gostavam, Ally. E eu sempre tive certeza de que dificilmente o que havia entre vocês acabaria. Eu nunca te contei, mas... Alguns dias após o baile, quando eu e Eve íamos ao seu apartamento para te ajudar a arrumar sua mudança, nós vimos o carro de Daniel parado em frente ao seu prédio.
   Minha respiração ficou presa e eu olhava fixamente para Jack, absorvendo cara palavra.
— Ele apenas ficou lá, por uns cinco minutos, olhando para cima. Com certeza para a janela do seu apartamento. E depois ele foi embora. - Jack bebeu um gole do seu refrigerante antes de continuar. - Eve nunca te contou e me ameaçou para que eu não contasse também, mas foi porque ela ficou preocupada. Ela não demonstrava muito na época, se fazia de forte para te botar para cima, mas eu via o quanto ela estava chateada com Daniel também. E eu acho que ela teria esganado ele nesse dia, se eu não estivesse com ela. - ele sorriu um pouco, nostálgico. - De qualquer forma, o que eu quero dizer é que  ele amava você, Ally. Amava mesmo. E eu não faço ideia do que se passou na mente dele, se foi um lapso de loucura ou desespero. Talvez com um pouco de impulso e medo, também. Mas ele amava você, mesmo fazendo o que fez. E você ainda o ama, mesmo que diga que não. Então, caso ele tente uma reaproximação, se você sentir que quer... Ignore o que vem de fora. Pare de se preocupar tanto e faça o que sentir vontade de fazer.
— Quer que eu siga o meu coração? - perguntei baixinho, olhando para o meu espaguete remexido.
— Sim. - Jack sorriu levemente.
— Mas o meu coração é louco. - suspirei, olhando-o decepcionada. Jack riu e eu tentei conter meu sorriso. - Você sabe que Eve vai nos matar se souber dessa conversa. Ela nunca mais deixaria você me dar conselhos, Smith.
— Sim, eu sei o risco que estou correndo. - ele deu de ombros. - Mas eu só queria que você soubesse que mesmo que todo mundo te chame de louca, porque todos se preocupam muito com você e acham que te dizer o que fazer é o certo, eu estarei aqui apoiando as suas próprias decisões.
   Sorri lentamente, sentindo um calorzinho no coração e um pouco de alívio. Talvez Jack não soubesse - ou talvez soubesse, considerando que ele disse tudo isso -, mas ouvir tudo aquilo e saber que eu teria o apoio dele caso eu fizesse algo louco e impensado me fez sentir aliviada. Mesmo que eu não planeje fazer algo louco e impensado, é claro. Ou sim, considerando que o significado de "impensado" é justamente algo que você não pensa em fazer, um imprevisto. Um impulso.
   Céus, não me faça fazer algo impensado. Por favor.



Notas finais do capítulo

ALÁ O POV DO DANIEL!!! ♥ HAHAHAHA.
Muitas leitoras me pediram POV dele nessa temporada, e o pedido de vocês é uma ordem. Uma das coisas que eu mais queria fazer nessa temporada era justamente isso, e podem deixar que terá muito mais, tá? ♥
Agora, o que acharam do capítulo? Gostaram? A partir de agora as coisas realmente irão rolar, hahahaha. Me digam o que acharam!
Logo trarei o próximo capítulo!

P.S: Quem ainda não participa do grupo no facebook? CORRE, GENTE!!!
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