Collide escrita por Allie Próvier


Capítulo 34
34. Kate


Notas iniciais do capítulo

Capítulo novinho e 'xêroso' pra vocês, achei ele um amorzinho, hahahaha.
Espero que gostem. ♥




 CAPÍTULO 34

 

   Quando você é jovem, você simplesmente foge.
Mas volta para o que é importante.

Taylor Swift - This Love

 

   Lucas corria pelo gramado, rindo animado com o avião de brinquedo que voava sobre a sua cabeça. Sorri com a visão, enquanto balançava levemente Valentina em meu colo. Ela mastigava um mordedor babado em suas mãozinhas fofas, alheia a tudo ao redor. Havíamos acordado há pouco tempo e eu me encarreguei de ficar de olho nas crianças, já que Kate havia acordado meio indisposta por causa de um resfriado. Do deque eu conseguia ouvir meu pai preparando o café-da-manhã na cozinha.

   Eu já estava em Carmel há dois dias e me sentia em paz. Era bom estar sozinha com eles e só agora eu consegui passar um tempo de qualidade com meus irmãos. Mas eu não parava de pensar em Daniel e em tudo o que aconteceu, e sentia que devia colocar meus pensamentos em ordem. Eu estava cansada de toda a enrolação e confusão na minha cabeça.

   Senti meu celular vibrar ao meu lado e o peguei com uma mão, enquanto com a outra mantinha Valentina segura em meu colo.

   Era uma mensagem de Benjamin.

   “Sei que você não me respondeu até agora e tem motivos para isso, mas queria avisar que Daniel viajou para Nova York ontem. Acho que ele foi ver a mãe e visitar as universidades, algo do tipo. Vocês deviam conversar.”

   Suspirei, relendo a mensagem diversas vezes e deixando o aparelho de lado. As palavras de Daniel não paravam de rondar minha cabeça desde aquela noite.

   “Conversamos quando você souber o que dizer.”

   Respirei fundo, fechando os olhos e abraçando o corpinho gordinho de Valentina, enquanto aspirava o cheirinho de bebê que emanava da sua cabeça. Seus cabelos estavam crescendo, eram lisos, macios e douradinhos. Olhei para seu rosto rosado e beijei sua testinha. Ela levantou seu olhar para mim e sorriu um sorriso de dentinhos recém-nascidos. Era a coisa mais adorável, minha fonte de tranquilização.

— Irmã! – Lucas gritou, vindo em minha direção arfante e sorridente. – Olha como eu fiz ele ir alto!

   Ele apontou para o avião que voava sobre o jardim, sendo controlado pelo controle que Lucas segurava. Sorri ao ver o quão alto o brinquedo foi, lá em cima de algumas árvores que haviam ali. Sobrevoou as folhas e voou em um círculo perfeito, em seguida voltando para nós. Pousou no gramado à nossa frente e Lucas foi busca-lo, logo em seguida voltando para mim e sentando-se ao meu lado. A testa levemente suada pela brincadeira e as bochechas coradas.

— Ele não vai vir? – ele perguntou de repente, com sua voz embolada e sem olhar para mim, analisando algo em seu avião.

— Quem?

— O seu namorado. – ele deu um sorrisinho, como se a palavra “namorado” fosse algo muito engraçado.

   Engoli em seco, mas sorri um pouco, passando a mão em seus cabelos loirinhos.

— Não. – falei baixinho. – Por que? Você queria que ele viesse?

— Sim. – ele disse. – Eu gostava dele.

   Lucas continuou mexendo em algo no brinquedo distraidamente, tentando encaixar algo nas asas do avião, enquanto eu continuava observando-o. Crianças não tinham dificuldade para entender seus sentimentos. Elas sentiam e ponto. Ou gostavam, ou não gostavam.

— Eu também gostava dele. – falei mais para mim mesma, voltando a olhar para o jardim à nossa frente.

— Crianças... – meu pai apareceu na entrada do deque, nos olhando com uma expressão feliz. – Adivinhem o que eu fiz para o café-da-manhã!

— Torradas queimadas outra vez? – arqueei uma sobrancelha, olhando-o com desconfiança.

— Não apenas isso. – ele sorriu abertamente.

— Panquecas molengas? – Lucas fez careta, fazendo-me rir alto. – Quero a mamãe.

— Parem de reclamar e venham comer. – meu pai revirou os olhos. – E vá lavar as mãos, Lucas.

   Entramos em casa e Lucas correu para o banheiro. Sentei à mesa, que já estava posta com coisas que meu pai tentou fazer e ele pegou Valentina do meu colo, colocando-a na cadeirinha de bebê. O potinho com sua papinha de mamão já estava ali, pronta para ser devorada por ela. Mas ela ignorou totalmente e ficou de olho nas panquecas que eu colocava em meu prato.

— Nada disso, mocinha. – meu pai disse baixinho, pegando o pote e levando uma colher da papinha até seu rosto. – A sua comida é essa aqui.

   Ela começou a comer o que ele lhe oferecia muito a contragosto, enquanto uma mãozinha ficava estendida em minha direção, esperando eu dar um pedaço da panqueca para ela. Sorri, sob o olhar vigilante do meu pai.

— Depois eu te dou. – sussurrei para ela.

— Isso é um complô contra mim? – meu pai brincou. – Ninguém me respeita nessa casa.

   Revirei os olhos diante do seu drama e logo Lucas voltou à mil por hora, sentando-se no outro lado da mesa e procurando algo que não estivesse queimado ou molengo demais para comer. Por fim, ele decidiu comer cereais com leite e eu o ajudei a se servir. Ficamos conversando coisas aleatórias por vários minutos e por fim terminei de comer, deixando a louça suja na pia.

— Ally, poderia levar algo para Kate comer? – meu pai perguntou. – Ela ainda está bem mal por causa do resfriado.

— Claro.

   Separei um copo de suco de laranja, panquecas e algumas frutas, e coloquei tudo em uma bandeja. Deixei-os discutindo algo sobre o jogo de futebol que teria na escola da Lucas e fui até o quarto. Kate ressonava tranquila e eu senti pena de acordá-la, mas quando coloquei a bandeja sobre a cama, ela acordou rapidamente.

— Bom dia, querida. – ela sorriu levemente, coçando os olhos e virando-se na cama. – Não precisava trazer o café para mim, eu já iria descer.

— É melhor você continuar descansando. – aconselhei, sentando na cama e empurrando a bandeja em sua direção. – Meu pai fez panquecas. Mas coloquei algumas frutas também, para o caso de elas acabarem te fazendo mais mal.

   Kate riu, sentando-se na cama e colocando a bandeja sobre o seu colo.

— Ele tenta. – ela deu de ombros. – Ele fez a papinha de Valentina? – perguntou, preocupada.

— Sim, e ela está comendo muito contrariada. Queria panquecas. – sorri. – Tão inocente...

   Kate riu novamente e começou a comer. Fiquei observando-a por alguns segundos. Ela era tão pacífica e bonita. As crianças a haviam puxado totalmente.

— Ally, me desculpe se eu parecer intrusiva demais... – ela disse, delicadamente. – Mas aconteceu algo entre você e Daniel?

   Eu a olhei surpresa e ela sorriu um pouco. Desviei o olhar, sem saber o que responder a ela.

— Tudo bem se não quiser responder. – ela disse. – Eu sei que não é da minha conta, mas fiquei preocupada. Você parecia muito feliz com ele na primeira vez que veio aqui e dessa vez parece muito triste.

   Suspirei, me mexendo um pouco onde estava e apertando meus dedos. Estranhamente, eu queria conversar sobre isso com Kate. E acabei contando tudo. Contei desde o início: como nos conhecemos, o acordo, a ajuda dele... Até o final, quando tudo desandou e eu não sabia o que fazer com tudo o que acontecia e sentia. Kate me ouviu pacientemente, enquanto comia algumas frutas e segurava minha mão vez ou outra. E no final, quando eu terminei de desabafar e já me via deitada na cama, ao seu lado, com o olhar fixo no teto e duas lágrimas fugitivas escorrendo ao lado do rosto, eu me sentia melhor.

   Realmente melhor.

— Essa é uma grande história. – ela sorriu carinhosamente para mim, colocando a bandeja de lado. – E vocês são dois belos protagonistas, Ally. É doloroso ver isso acabar assim.

— Ele disse para eu procura-lo quando eu souber o que dizer. – murmurei. – Mas eu não sei. Eu não sei o que falar para ele.

— Tem certeza? – ela arqueou uma sobrancelha para mim, com um leve sorriso se formando em seus lábios e pegou uma das minhas mãos, colocando-a entre as suas. – Eu acho que você sabe muito bem o que dizer para ele, Ally. Mas está com medo.

   Fiquei olhando-a por algum tempo, sem saber o que falar diante disso. Sua expressão ficou neutra e ela desviou o olhar de mim, enquanto acariciava minha mão levemente, distraída. Era um ato muito relaxante e eu percebi que era o mesmo que ela fazia com as crianças quando elas estavam nervosas ou chorando. Acariciava suas mãozinhas levemente.

— Quando eu conheci o seu pai... – ela começou, e eu senti o ar ficar preso em mim. – Ele havia acabado de se separar da mulher com quem ele se envolveu durante o casamento. Ele era um homem muito frustrado na época, mas eu gostava dele. Nos tornamos amigos graças a alguns amigos em comum, saímos juntos algumas vezes e eu percebia que estava me apaixonando, mas nunca admitia. – ela suspirou, voltando seu olhar para mim. – A verdade é que eu sabia de toda a história, sabia sobre você e a sua mãe e eu morria de medo de acontecer o mesmo comigo. Eu o adorava, mas o medo de amá-lo e sofrer depois era muito maior.

— E como perdeu esse medo? – perguntei, ansiosa pelo final da história.

— Eu dei uma chance a nós dois. – ela sorriu, parecendo nostálgica. – Eu percebi que nada no mundo me daria a certeza de que não poderia dar certo, apenas a minha mente medrosa. Eu resolvi dar uma chance a Leonard, e uma chance a mim mesma. E foi a melhor escolha que eu fiz, querida.

   Eu fiquei em silêncio, pensando em tudo o que ela disse.

— Não deixe o medo de fazer jogar tudo fora, Ally. – ela disse. – E isso não vale apenas para relacionamentos, mas para tudo na vida. Você é uma menina incrível e linda, mas é tão insegura e receosa. Tente pensar positivamente e se as coisas te desapontarem no final, agradeça pela experiência.

— Aquela velha história? – sorri um pouco. – “Melhor tentar e se decepcionar do que nunca tentar e viver com a dúvida”?

— Algo assim. – Kate riu e eu a acompanhei. – Pensa direitinho em tudo. Pondere sobre cada coisa, compare Daniel e Benjamin, analise seus sentimentos, o que for. Passe um tempo apenas com você mesma e pondere sobre tudo. Você vai ver que é mais óbvio do que imagina.

   Respirei fundo antes de sentar e abraçar Kate com força. Deitei a cabeça em seu ombro, enquanto ela beijava meus cabelos. Sorri, infinitamente mais calma. Ela era uma mulher incrível e eu esperava do fundo do coração que meu pai nunca, jamais, estragasse o que ele tinha novamente.

   Eu passei o restante do dia com meu pai e as crianças, e no fim da tarde Kate conseguiu levantar e cismou de fazer o jantar. Ela parecia bem melhor e recomposta. Comemos todos juntos à mesa e ríamos das piadas infantis de Lucas. Estar com eles aqui fazia meu coração ficar mais leve e todo o peso dos últimos dias desaparecer. Eu os amava.

   Mas à noite, como de costume, eu fiquei sozinha comigo mesma. E era nessa hora que os pensamentos vinham e me deixavam louca. Mas lembrei de tudo o que Kate me disse, de todos os conselhos... E decidi pôr em prática. Porque eu sabia o que eu sentia, eu sabia o que esteve na minha frente o tempo todo e eu ignorei. Então, peguei o caderno e uma caneta que eu sempre carregava no bolsa e fui para a varanda em frente a casa. Todos já estavam dormindo em seus quartos e a casa estava toda silenciosa.

   Sentei em um banco de madeira ao lado da entrada e Jerry, o cão da família, se aproximou das minhas pernas. Eu sorri ao ver o modo como ele deitou e encostou o focinho em seu pé. Estiquei os pés para alcançar suas costas e acariciei seus pelos macios. Abri o caderno em meu colo e fiquei com a caneta sobre a folha branca. Suspirei, tentando organizar meus pensamentos. Então, quando pressionei a ponta da caneta contra o papel, eu soube o que deveria escrever.



Notas finais do capítulo

Ah, o cheirinho de final...
O próximo capítulo será postado hoje também, logo após esse, porque vai ser melhor para acompanhar a linha de raciocínio, hahaha. Então aproveitem ♥



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