Collide escrita por Allie Próvier


Capítulo 2
2. Píer 39





CAPÍTULO 02

"Ela nunca se apaixonou por alguém

só para se divertir."

Mumm-Ra - Lizzy Lu

 

    E voltamos ao momento absurdamente constrangedor do inicio.

  Você deve estar se perguntando como eu pude ser tão idiota de descrever uma pessoa real, não é? Bem, devo usar a desculpa de que na hora do desespero a gente só faz besteira. E eu sou especialista nisso, mesmo quando não estou desesperada.

  Por isso, sem pensar nem um pouco no que eu estava fazendo, eu simplesmente peguei o tal Daniel pelo pulso e disse:

— Vem comigo!

  E ele foi, é claro, porque ele deve saber que com gente louca não se discute. Principalmente com uma que diz que namora com você, quando você nem deve saber o nome dela. Eu o arrastei até o estacionamento do colégio em silencio, mas com a mente à mil. Como eu resolveria isso?!

  Continuei puxando-o até uma área próxima ao meu carro, e pude ver Eve lá dentro esticando o pescoço para nos ver melhor. Eve... Ela me daria um tapa quando soubesse dessa confusão toda.

— Então... Acho que eu te devo uma explicaçao. - falei, de frente para Daniel.

  Ele sorriu levemente, ainda me olhando confuso. Ele parecia ser tao tranquilo e gentil, quase ingênuo... Será que não ficaria com raiva de mim? A última coisa que eu precisava era do meu namorado fictício mas não tão fictício assim com raiva de mim. Isso se espalharia tão rápido quanto "ALLISON JONES E DANIEL SULLIVAN ESTÃO NAMORANDO!".

— Acho que eu mereço uma. - ele disse.

  Suspirei e comecei a narrar todo o drama, mas ocultei o nome de Benjamin. Falei apenas que Yui e Jane haviam descoberto de quem eu gostava e eu precisava inventar algo porque ninguém poderia saber daquilo. Caso contrario, eu viraria motivo de piada e muito provavelmente seria caçada pela namorada do cara. E, por fim, expliquei porque eu havia usado Daniel como modelo para o meu suposto namorado.

— Você estava bem próximo e eu só comecei a falar, então... - suspirei longamente. - Me desculpe, eu não queria que acabasse nessa confusão.

— Entendi. - ele murmurou, olhando para o gramado abaixo de nós e com as mãos nos bolsos do casaco cinza que vestia. - Então, você precisava de um álibi?

— Sim.

  Meu olhar captou Eve quase dando cambalhotas dentro do carro, com o rosto colado no vidro, tentando entender o que estava acontecendo entre nós dois. Tentei controlar o riso.

— Eu posso fingir ser seu namorado, se você quiser. - Daniel disse, dando de ombros.

  Olhei para ele com os olhos arregalados, sem acreditar. Tão fácil assim?!

— Eu sei como Yui e Jane são insistentes. Posso fazer esse favor para você. - ele sorriu levemente.

— Isso é sério?! - sorri de orelha a orelha. - Seria ótimo! Quero dizer... Apenas por um tempo, até elas se convencerem de que eu não estou apaixonada pelo Benj... O cara.

  Acho que Daniel percebeu qual nome eu diria, mas disfarçou e assentiu. Sorrimos um para o outro, firmando o combinado, mas de repente algo passou pelo olhar dele e sua expressão antes gentil se tornou... Sarcástica? Seu sorriso parecia diferente.

— Mas eu vou querer algo em troca, é claro. - ele disse, com um tom de voz diferente de antes.

  Um arrepio subiu pela minha espinha. E não só porque, de repente, a voz dele ficou muito sexy. Definitivamente algo mudou nele. Mordi o lábio inferior, confusa.

— C-Claro, isso é mais do que justo. - gaguejei lindamente.

— Hm... Eu vou pensar, e depois te digo.

  Eu apenas assenti, desejando mentalmente que ele não pedisse para ver meu sutiã ou coisa assim. De repente ouvimos vozes animadas atrás de nós. Eram Yui, Jane e outros amigos delas. Benjamin e Mia estavam com eles. Olhei para Daniel, sentindo meu coração prestes a pular pela garganta. Ele sorriu de uma forma estranha e deu um passo em minha direção, colocando as mãos em minha cintura. Tive que levantar o rosto para conseguir olhar em seus olhos, totalmente confusa.

— Namorados, certo? - ele perguntou baixinho, quase sussurrando.

  Eu apenas assenti, entorpecida. Quando me dei conta da situação, seus lábios já estavam sobre os meus. Uma de suas mãos foram parar em minha nuca, enquanto ele separava os nossos lábios e dava um beijinho em minha testa.

— Até amanhã, Ally.

  Eu não sei quanto tempo passou desde que ele parou de me beijar e foi para o outro lado do estacionamento, onde seu carro estava. Apenas sei que acordei para a vida quando ouvi Eve berrando o meu nome como uma cabrita desmamada. Andei rapidamente até o carro e me joguei atrás do volante, com o coração ainda mais acelerado.

— O que foi aquilo?! - Eve perguntou, com os olhos arregalados. - Por que estava com o Sullivan? Por que vocês conversaram por tanto tempo? E por que se beijaram?! - sua voz ia ficando mais alta a cada pergunta. - Oh, meu Deus! Ele te pediu em namoro, Ally?! Oh, meu...

— Eve! - eu a interrompi, quase sem voz. - Em casa eu explico.

  Ela me olhava totalmente surpresa e confusa, mas apenas assentiu enquanto eu recuperava o ar e ligava o carro. Voltamos para a casa em silencio, cada uma com seus próprios pensamentos. Como ela dormiria na minha casa hoje, daria para eu contar tudo tranquilamente.

(...)

— Você acha mesmo que isso vai dar certo? - Eve não estava nem um pouco convencida. - Quero dizer, você é uma garota sensível até demais e se apega fácil, e o Daniel só se faz de moço bondoso e gentil. Na verdade, ele tem um lado bem obscuro.

  Eu fiquei apenas olhando para Eve, provavelmente a minha cara não devia ser das melhores considerando que eu estava exausta e me enchendo de pipoca com calda de chocolate. Estávamos deitadas no sofá da sala, assistindo a um filme qualquer na TV, ambas vestindo pijamas quentinhos e meias coloridas, e Eve usava uma touca preta com grandes olhos desenhados que estavam me assustando bastante. Eu não sabia mais o que fazer.

— Eu percebi uma mudança sutil na expressão dele. - suspirei. - Mas "obscuro" é demais, Eve. Você anda assistindo séries demais.

— Eu sei, eu exagerei. - ela sorriu. - Mas estou certa quanto a ele ser um sonso. Vai ver ele tem dupla personalidade. Toma cuidado.

  Quase me engasguei com a pipoca e tentei controlar a risada para não morrer sufocada. Eve, por outro lado, ria da minha cara enquanto me dava tapinhas nas costas.

— Falando sério, eu não acho que vai dar errado. - eu dei de ombros. - É só por um tempo, até aquelas duas insuportáveis se convencerem disso. Depois "terminamos" porque não combinamos mais, ou algo assim.

— E você acha mesmo que vai conseguir não se apegar, Ally? - Eve revirou os olhos. - Ainda mais considerando todo aquele... "Pacote".

  Nós nos olhamos com um sorrisinho e eu suspirei.

— Realmente eu tenho que tomar cuidado, porque ele é... - deixei a frase no ar, suspirando outra vez. - Mas eu estou apaixonada pelo Benjamin há dois anos, não vai ser de uma hora para outra que eu vou gostar de outro tão facilmente.

  Eve fez uma careta para mim, me fazendo rir. Ele nunca havia gostado de Benjamin, e não entendia por que eu me apaixonei por ele.

— Que merda, Ally. - ela murmurou.

  Respirei fundo, pesarosa. Sim, que merda.

(...)

  No dia seguinte eu cheguei no colégio totalmente tensa.

  Não sei por que, mas tentei parecer mais arrumada. Talvez porque se o Daniel vai ter o trabalho de fingir ser meu namorado, que eu ao menos pareça atraente, certo? Não que eu não fosse bonita ou não me arrumasse, mas...

— Allison... - duas vozes cantarolaram juntas.

  Um frio percorreu a minha espinha e eu fui olhando para trás lentamente, com medo do que veria. Parte do meu tronco ainda estava quase enfiado dentro do armário, tentando me esconder de mais problemas. Mas, é claro, eles me perseguem.

— Nós vimos o beijo de ontem. - Yui falou, com um sorriso provocador, enquanto colocava as mãos na cintura. - Logo o Daniel? Nunca imaginamos isso.

— Vocês o conhecem? - perguntei, com medo da resposta.

— É óbvio. - Jane disse, arqueando uma sobrancelha e me olhando como se eu fosse uma idiota. - Somos amigas de todo o time, esqueceu?

  São amigas de todo o... Ah, que ótimo. Daniel faz parte do time de basquete, ele é um dos Lions. Como eu nunca havia percebido isso antes?

— Ah, é verdade. - sorri, tentando disfarçar minha idiotice.

— Então, já que agora todos sabem que vocês estavam namorando escondidos, vocês irão se assumir? - Jane perguntou, dessa vez animada.

  "Agora que todos sabem". Eu imagino o quanto a fofoca rodou até agora. Qual o problema dessas garotas? Por que toda essa animação? Olhei para elas sem entender, mantendo o sorriso idiota e forçado no rosto. Yui revirou os olhos, como se dissesse: "Oh, sua bobinha!".

— Vão mostrar que estão namorando, certo? Não precisam mais se esconder agora. - Yui disse. - Mãos dadas, beijos, abraços, almoçar juntos... Essas coisas. Vocês realmente formam um casal bem bonitinho, sabia?

  Eu abri a boca para dar qualquer desculpa para sumir dali, mas o olhar delas desviou para algo atrás de mim. Elas sorriram sugestivas e logo foram embora para o outro lado do corredor, me mandando beijinhos. Algo não estava certo.

  Senti uma mão segurar meu pulso delicadamente e escorregar para baixo, entrelaçando seus dedos nos seus. Ao olhar para o lado, me deparo com ele.

— Olá, namorada. - Daniel disse com um sorriso irônico e a voz carregada de sarcasmo.

  Semicerrei os olhos, engolindo em seco. Abri a boca para falar, mas a voz não saiu. O dia começou excelente. Me pergunto o que mais pode acontecer para melhorar ainda mais.

— Bom dia. - murmurei, virando para o meu armário novamente para procurar o livro de matemática.

  Sua mão não soltou a minha, e ele se encostou no armário ao lado do meu, me observando com aquele sorriso irritante.

— Se ficar com essa careta todos irão pensar que o novo casal já está em crise. - ele riu.

— Todos já sabem? - perguntei.

— É óbvio. Parece que Yui até tirou uma foto nossa ontem e espalhou para o colégio inteiro, falando algo sobre "o novo casal bonitinho".

  Suspirei, começando a ficar preocupada. Isso é exposição demais. Eu não gosto desse tipo de coisa, e já é constrangedor o suficiente só pelo fato de que eu nem conheço Daniel direito. E também porque ele muda da água para o vinhonem instantes quando está comigo.

— Fica tranquila. - ele disse baixinho, apertando meus dedos entre os seus levemente. - Qualquer coisa, deixa comigo. É só por um tempo, de qualquer forma. Não é?

— Sim.

  Ficamos nos olhando por alguns segundos antes de eu quebrar o contato visual. Ele sorriu fracamente, parecendo pensativo. Eu guardei meu livro na minha bolsa utilizando uma mão só, já que a outra ainda era segurada por Daniel. Ele não a soltava. E eu também, não sei porquê. Quando fechei o armário, fui surpreendida pelos braços dele ao redor dos meus ombros. Meu rosto afundou em seu peito e o seu perfume me atingiu em cheio. Ele beijou o topo da minha cabeça e sorriu, segurando minha mão novamente enquanto íamos para a aula de matemática.

  Pude sentir os olhares em nossas costas.

— Tenho que te dar algumas aulas de atuação. - ele disse baixinho, piscando um olho para mim.

  Apenas balancei a cabeça, tentando controlar um sorriso.

(...)

— Que história é essa que vocês dois foram vistos em um momento extremamente intimo no meio do corredor, com a presença de muitas mãos em lugares inapropriados e línguas travando uma árdua batalha? - foi a primeira coisa que Eve perguntou ao sentar na nossa frente na mesa do refeitório.

— O que? - eu e Daniel perguntamos juntos.

— Foi o que eu pensei. - ela riu. - Como essas pessoas gostam de inventar coisas, não?

  Eve levantou e abaixou as sobrancelhas para nós, sugestiva. Daniel riu, enquanto eu revirava os olhos.

— Como está sendo o primeiro dia de namoro? - Eve continuou, dando uma mordida em sua maçã. - Deve estar muito bem, para estarem almoçando juntos.

— Foi uma ideia da Yui, na verdade. - suspirei. - Ela começou a falar sobre agirmos como namorados, agora que todos já sabem que estamos juntos. E ela está sempre por perto, nos analisando.

— Quer que eu dê uma surra nela? Garanto que ela vai parar com isso rapidinho. - Eve bufou. - Qual é a graça disso tudo?

— A graça é ela poder ter certeza de que eu sou apaixonada por "você-sabe-quem" e sair espalhando para todo mundo. É por isso que ela está agindo assim.

— Se você ao menos disfarçasse, Ally... - Eve revirou os olhos. - Olha para ele como se ele fosse um pedaço de picanha passeando pela quadra, estou impressionada que ninguém mais tenha percebido.

— Ah, então ele faz parte do time? - Daniel perguntou, sorrindo para mim com a grande descoberta.

  Merda, Eve!

  Arregalei os olhos para ela, tentando parecer ameaçadora enquanto ela ria de mim.

— Você nem contou para ele? - ela continuou rindo. - Voces são engraçados.

— Fico feliz que sejamos o motivo de suas gargalhadas, querida. - eu sorri falsamente, enquanto ela me mandava um beijinho no ar. - Mas por favor, vamos ser mais discretas, ok? Ok.

  Daniel nos observava com um leve sorriso. No fundo eu senti pena por ele estar almoçando conosco, afinal, eu e Eve não calamos a boca e os assuntos sempre são totalmente aleatórios e bizarros. Mas até que ele aguentou bem e garantiu que estava confortável ali. Alguns de seus amigos passaram por nós, o cumprimentando. Tive que ser apresentada como a "namorada" dele, sob os olhares insistentes de Yui e Jane, do outro lado do refeitório.

  No fim do intervalo, Eve foi a primeira a levantar e ir embora, já que teria um trabalho para apresentar. Eu e Daniel continuamos sentados para esperar o refeitório esvaziar. Todos queriam sair ao mesmo tempo e congestionavam a saída.

— Quer ir comer algo hoje depois das aulas? - Daniel perguntou, de repente.

— Não precisa me aturar fora daqui, Dan. - sorri.

— Eu sei, mas seria legal ter companhia. - ele deu de ombros.

  Fiquei observando-o por alguns segundos, em dúvida se aceitava ou não o convite. Eu não sei se ele está me chamando porque realmente quer sair comigo, ou se é por educação. De qualquer forma, não seria nenhum sacrifício. Eu estava aprendendo a gostar dele, ele se saiu bem mais divertido e legal do que eu imaginava.

— Tudo bem. - falei. - Mas vamos no seu carro ou no meu?

— Podemos ir no meu.

  Concordei enquanto nos levantávamos e pegávamos nossas mochilas. A quantidade de pessoas saindo do refeitório já havia diminuído. Eu tinha que lembrar de mandar uma mensagem para Eve para perguntar se ela gostaria de ir comer algo conosco, ou se preferiria voltar para a minha casa e levar meu carro para mim.

(...)

— Tem certeza de que não quer ir conosco? - eu perguntei pela quarta vez, ainda segurando as chaves.

  Eve me olhava com uma expressão de tédio, enquanto mantinha sua mãe estendida para eu lhe entregar as chaves.

— Está com medo de ficar sozinha com ele?

— Não é isso... - murmurei. - Mas...

  Eve revirou os olhos e pegou as chaves da minha mão, me dando um beijinho na bochecha em seguida.

— Se divirta! - ela cantarolou, enquanto caminhava em direção ao meu carro.  - E lembre-se de usar camisinha!

  Passei as mãos no rosto, torcendo para que Daniel não tivesse escutado aquilo. Mas quando é que o que eu desejo se realiza? Assim que virei, vi o mesmo encostado no capô de seu carro com os braços cruzados e um sorriso idiota no rosto. Ele balançou as sobrancelhas para mim, enquanto eu passava por ele e me enfiava no banco de passageiro. Logo ele sentou atrás do volante e colocou seus óculos escuros. Fiquei observando-o quando ele distraidamente começava a dirigir.

  Ele era mesmo bonito.

  Na hora de olhar para os dois lados da rua, para ver se não vinha carros, seu olhar acabou cruzando com o meu. Pega no flagra. Tentei disfarçar, olhando para o teto e depois para alguns chaveiros que havia pendurados no espelho retrovisor. Pude perceber ele sorrindo.

— Estou apaixonada. - falei, olhando cada bonequinho que havia pendurado no espelho.

— Por mim?

— Não, por ele. - eu mostrei um chaveiro de E.T que ele tinha, todo verdinho, magro e com grandes olhos escuros. - Onde comprou?

— Em alguma loja perto da baía. Pode pegar para você, se quiser.

  Larguei os chaveiros, negando com a cabeça. Talvez eu fosse até a tal loja procurar por um igual. Eu acho que já sabia qual era a loja, provavelmente era a mesma onde eu havia comprado minha luminária de unicórnio. Eu também sempre comprava presentes para a Eve lá. A loja era a nossa cara, só tinha coisas esquisitas e legais.

  Não demorou até chegarmos ao nosso destino final. Eu pensei que ele iria me levar em alguma das lanchonetes que haviam perto do colégio, onde os alunos costumam sempre ir, principalmente o pessoal do time e seus seguidores. Mas Daniel dirigiu até o Píer 39, um complexo onde havia várias lojinhas e restaurantes de frente para a baía.

— Abriu um lugar legal aqui e eu queria conhecer, pode ser? - ele perguntou.

  Agora que já estamos aqui é que ele me pergunta? Sorri, assentindo. Saímos do carro e caminhamos pelo Píer. Já fazia um tempo que eu não ia até lá, depois que a sorveteria que eu e Eve amávamos fechou nós paramos de ir. Havia algumas coisas novas, mas a melhor parte ainda estava por vir.

  Eu pude ouvir o barulho e sentir o cheiro se longe.

— Meu Deus, como eles fedem. - Daniel resmungou ao meu lado.

  Eu andei rapidamente até a orla do Píer e me apoiei na cerca de proteção, olhando para os leões-marinhos aglomerados na água. Sorri abertamente, animada. Sim, eles fediam um pouco, mas não me impedia de amá-los. Desde que eu era pequena a minha maior diversão ela ficar assistindo-os, tão livres na natureza e tão pertinho de mim. Um deles deu uma patada na cara do outro, grunhindo, incomodado com a invasão de seu espaço. Depois ele rolou e ficou com a barriga para cima, pegando sol.

— Aquele ali é igualzinho a você. - Daniel apontou para o que eu observava, que estava com a barriga para cima. - Parece seu irmão gêmeo.

  Revirei os olhos e apontei para um leão-marinho irritado, que empurrava o outro.

— E aquele é você. - falei. - Adora implicar com os outros.

  Daniel sorriu para mim, todo descontraído com os cotovelos apoiados na cerca de madeira.

— Só você tem esse privilégio. - ele piscou.

— Oh, me sinto honrada! - forcei um sorriso, colocando uma mão sobre o peito esquerda. - Obrigada!

  Ele riu, enquanto voltávamos a andar entre as lojas. Ele me levou até uma sorveteria e eu pude imaginar meus olhos brilhando. Meu Deus, eu não sabia que haviam aberto outra! O luar estava realmente novo, todo decorado em tons pastéis. Eve adoraria esse lugar.

  No balcão havia uma vitrine com diversas opções de sorvete, e Daniel também parecia animado. Escolhemos os sabores que queríamos, com biscoitos, caldas e tudo a que tínhamos direito, e sentamos em uma mesa do lado de fora, sob a sombra. O dia estava bem fresco, como de costume, e mesmo com sol eu não me senti incomodada por usar casaco. Essa era uma das melhores coisas em São Francisco.

  Havia muitas pessoas passeando pelo Píer nesse dia, mas não tantas quando costumava haver nos fins de semana. Fiquei observando as pessoas passarem, distraída, até que ouvi Daniel chamar meu nome.

— Vamos jogar. - ele disse. - Jogo de perguntas, que tal?

— Para nos conhecermos?

— Sim, afinal, agora você é minha namorada. - ele piscou, com um sorrisinho se formando nos lábios.

  Ele realmente gostava de ficar repetindo isso.

— Certo. - murmurei. - Qual é a sua cor preferida?

— Branco. E a sua?

— Azul. Comida preferida?

— Hambúrguer. E a sua?

  Revirei os olhos, tentando conter um sorriso. Hambúrguer nem pode ser considerado comida, mas deixei passar.

— Eu amo macarrão. - respondi. - Agora é a sua vez de fazer uma pergunta de verdade, você só perguntou o que perguntei até agora.

  Ele sorriu, como se tivesse sido pego. Olhou para as pessoas que passavam por alguns instantes, comendo mais uma colher de seu sorvete.

— Qual é o seu sonho? - ele perguntou.

— Viajar o mundo. - respondi prontamente. - Conhecer as diversas faces do planeta. Essas coisas. E o seu?

  Ele pareceu pensar um pouco e, por fim, sorriu levemente, olhando para o céu.

— Entrar em contato com os extraterrestres. - ele respondeu, sonhador.

  Eu ri alto e ele me acompanhou. Joguei um pedaço do meu biscoito mordido nele e ele pegou no ar, comendo-o em seguida.

— Esse é um dos meus sonhos também. - sorri. - Seria incrível.

— Agora, a pergunta de um milhão de dólares. - ele disse de repente, sentando melhor na cadeira e apoiando os cotovelos na mesa, deixando o sorvete de lado. Seu rosto mais próximo do meu. - O cara por quem você é apaixonada... É Benjamin O'Neil?



Notas finais do capítulo

Logo trarei o próximo capítulo!
Comentem o que estão achando da história! :D



Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "Collide" morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.