Collide escrita por Allie Próvier


Capítulo 11
11. Acertos


Notas iniciais do capítulo

Todas ansiosas para saber o que vai acontecer, hahahaha. ♥
Espero que gostem!




CAPÍTULO 11

“Eu nunca quis começar um incêndio, eu nunca quis fazer

você sangrar. Eu vou ser um homem melhor hoje.”

Jaymes Young – I’ll Be Good

 

   Daniel garantiu que chegaria às 08:30 da manhã, mas a campainha do apartamento tocou às 08:10, quando eu ainda estava no banho. Gritei para que ele esperasse, enquanto saía correndo do banheiro toda molhada e enrolada em uma toalha, apenas. Quase escorreguei duas vezes. Tentava secar o cabelo com outra toalha, enquanto ia em direção ao quarto para me vestir, mas ele começou a tocar a campainha insistentemente. Bufei irritada e desviei do quarto, indo direto para a entrada do apartamento. Eu abri a porta de supetão, assustando-o, enquanto ele afundava o dedo na campainha. Daniel me olhou de cima a baixo, surpreso, enquanto eu lhe dava as costas e deixava a porta aberta, indo a passos duros até o quarto.

   Olhei para as roupas esticadas em cima da cama. Ainda não havia decidido o que usaria, mas como o moço bonito chegou 20 minutos antes do horário combinado, eu poderia demorar o quanto quisesse. Fazia 3 anos que eu e meu pai não nos víamos, na última vez eu havia acabado de fazer 14 anos.

   Ele provavelmente achava que eu ainda era a menininha que gostava de unicórnios e sonhava em ter um gato chamado Snuffles. Bom, isso não deixa de ser verdade. A diferença é que agora eu não quero mais um gato chamado Snuffles. Eu colocaria um nome mais legal, tipo Lord Gregory.

   Optei por um short leve de cintura alta e uma blusa de mangas curtas, já que o dia estava ameno. Calcei meus tênis mais confortáveis. Estava revirando meu porta jóias à procura de um cordão legal para usar e no fundo dele encontrei um colar com pingente de pedra rosa quartzo. Era pequeno e delicado. E foi presente do meu pai, de quando eu tinha 12 anos e ele me levou para passear em um parque. Passamos por uma lojinha de presentes no caminho e ele me levou para escolher algo. Acabei escolhendo esse colar.

   Suspirei indecisa. Acabei optando por usá-lo, já que gostava bastante dele e combinaria com a roupa. Penteei o cabelo e o sequei um pouco com o secador. As pontas ficaram levemente onduladas e gostei do resultado. Tinha que lembrar de retocar o corte em um outro dia, porque o comprimento já estava quase no ombro. Eu gostava de mantê-lo curtinho, havia desacostumado do cabelo longo.

   Peguei minha bolsa de viagem e verifiquei se estava tudo lá, desde as roupas ate os produtos pessoais. Quando vi que não faltava nada, peguei minha mochila, pendurei-a no ombro e fui carregando a bolsa de viagem para a sala. Encontrei Daniel sentado no sofá assistindo algo na TV.

   Ele me avaliou completamente quando joguei as duas bolsas no sofá e sorriu de forma sacana.

— Estava melhor antes. – ele balançou as sobrancelhas.

  Revirei os olhos, indo até a cozinha para procurar algo para comer. Quando abri a geladeira, vi apenas água, um pedaço de bolo de dias atrás e coisas totalmente congeladas no freezer. Meu Deus, eu esqueci de compra comida novamente.

— Eve estava certa sobre você estar fazendo fotossíntese. – Daniel falou atrás de mim. – Vamos passar em algum lugar para te alimentar no caminho.

   Concordei e fui pegar minhas bolsas. Pendurei a bolsa pessoal no ombro e quando fui pegar a de viagem, Daniel pegou-a antes de mim, enquanto desligava a TV. Tão gentil em alguns momentos, mas tão irritante em outros...

(...)

   Eu passei algumas batatas fritas para Daniel enquanto ele dirigia, com os olhos focados na estrada. Íamos comprar apenas um sanduíche e um suco de laranja para mim, mas ele cismou que queria batata frita às nove horas da manhã. Depois de eu discutir com ele dentro do carro sobre o quanto fritura de manhã faz mal e que eu não ia admitir sentir cheiro de batata frita antes das dez, ele apontou que sabia que eu comia bolo e brigadeiro antes mesmo de comer qualquer coisa quando acordava. E aí eu tive que ficar quieta e parar de dar lição de moral. Ele comprou suas batatas, acabou pagando o meu café da manhã e no final, ficou todo mundo satisfeito de qualquer forma.

   E eu acabei roubando algumas batatas dele, entre uma mordida e outra no sanduíche de peito de peru, porque eu também sou humana.

   O céu estava bem azul e com algumas nuvens brancas passando. Era incrivelmente confortável estar com Daniel naquele carro, pegando a estrada a caminho de Carmel. Admiramos a paisagem e a longa costa da Califórnia, o mar tão azul quanto o céu. Mas em certo momento Daniel teve um surto básico porque, segundo ele, minhas músicas eram muito “a minha cara”, e ele já estava cansado de ouvi-las.

— Vou te mostrar o que é música boa. – ele sorriu como uma criança, enquanto arrancava o meu pen drive do seu rádio e o jogava em meu colo, conectando o seu próprio pen drive em seguida.

— Claro, porque o seu gosto musical é o melhor. – revirei os olhos.

— Exatamente.

   A primeira música começou a tocar e a identifiquei rapidamente. “Bad Habit”, do The Kooks.

— Você gosta de The Kooks! – falei, sorrindo. – Tem músicas deles no meu pen drive também!

— Aonde? Porque só tocava Troye Sivan e Gabrielle Aplin. – ele me olhou desconfiado.

— Meu gosto é variado. – revirei os olhos. – Se você esperasse, ia gostar.

— Claro. – ele murmurou sarcástico.

   Assim que chegamos à Carmel, uma onda de nervosismo e nostalgia me atingiu. Eu lembro de algumas férias de Verão em que eu e meus pais íamos à Carmel, meu pai adorava aquela cidade tão pequena, rústica e bonita. Ele sempre dizia que iria comprar uma casa de férias para nós lá, mas isso nunca aconteceu. Agora, no entanto, ele vive lá com sua nova família.

   Admirei as casas rústicas e os jardins das casas. Sorri como uma boba ao rever a estrutura do centro comercial, os restaurantes pequenos com grandes telhados retangulares, todo o clima do local me lembrava uma vila de hobbits. Era incrível ver tudo aquilo novamente.

   Como de costume, Carmel estava cheia de turistas. Daniel teve um rápido vislumbre da praia e seus olhos brilharam.

— Eu nunca vi uma areia tão limpa! – ele disse surpreso. – Podemos vir à praia depois?

— Claro. – sorri. – Meu pai mora bem perto, eu acho.

   Começamos a seguir o endereço que meu pai havia me passado e paramos para pedir informação uma vez. Por fim, achamos a casa do Sr. Jones. Ela ficava em uma área mais alta da cidade, mas bem próxima à praia e ao centro. Daniel foi dirigindo devagar pelo caminho de entrada, cercada por uma baixa mureta de pedras. Admirei o jardim e as árvores que rodeavam a casa. A casa em si era comum, mas grande e bem bonita. Toda branca, com pilastras de madeira escura destacadas. Uma pequena escadaria levava à varanda, onde um cachorro estava deitado olhando com felicidade para o nosso carro se aproximando.

   Meu Deus, meu coração vai pular do peito. Quando Daniel estacionou o carro ao lado de um carro prateado, - que muito provavelmente pertencia ao meu pai – ouvimos a porta da casa ser aberta e o cachorro deu um latido.

   Olhei para Daniel e ele olhou para mim. Ele pareceu ficar preocupado com a minha cara, pois se aproximou e segurou meu rosto entre suas mãos, beijando minha testa levemente.

— Respira. – ele sussurrou.

   Apenas assenti engolindo em seco e saímos do carro.

   Leonard Jones parecia mais forte. Havia engordado um pouco, em comparação à última vez que havíamos nos visto, mas parecia estar malhando. Ele sorriu abertamente ao ver-me e nos aproximamos um do outro com certa apreensão. Eu não me sentia com raiva ou incomodada, longe disso. Mas depois de tanto tempo... Eu nem lembrava que ele era tão alto.

   Ele abriu os braços ao ficarmos frente a frente e eu o abracei. Seus braços rodearam minha cintura com força, enquanto eu afundava o rosto em seu pescoço. O perfume continuava o mesmo; era o seu preferido, que eu sempre comprava para ele no Dia dos Pais. Muita coisa havia mudado, mas ao mesmo tempo estava tudo igual.

— Senti tanto a sua falta, querida. – ele disse, com a voz embargada. – Meu Deus, você cresceu tanto.

   Eu me controlei para controlar a ardência nos olhos e respirei fundo. Ficamos abraçados um ao outro por quase um minuto, antes de nos soltarmos e sorrirmos um para o outro. Seu olhar caiu em Daniel, que estava ali ao lado do porta-malas do carro com as mãos nos bolsos da calça jeans, olhando para as árvores, para os dar privacidade. Quando viu que meu pai o olhava, ele arregalou um pouco os olhos e estendeu a mão rapidamente.

— Pai, esse é o Daniel, um... – eu ia dizer que ele era meu amigo, mas Daniel me interrompeu.

— Eu sou o namorado de Ally. – ele disse, e foi a minha vez de arregalar os olhos. – É um prazer conhecê-lo, senhor.

   Leonard arqueou uma sobrancelha para ele, com um sorriso contido no rosto. Apertou a mão de Daniel com simpatia e sorriu para mim.

— Querem ajuda com as bagagens? – ele perguntou, e Daniel disse que não precisava.

   Ele mesmo pegou a minha bolsa de viagem e a sua própria, os bíceps mais proeminentes debaixo da manda da blusa azul. Leonard observou de forma divertida, arqueando as sobrancelhas para mim. O que Daniel estava fazendo, afinal? Parecia nervoso e tentava disfarçar, enquanto carregava as bolsas como o Super-Homem.

   Ele estava querendo impressionar meu pai? Será?

— Vamos entrar, Kate preparou seu quarto, Ally. – meu pai disse, rodeando meus ombros com um braço. – E o quarto de visitas também, Daniel.

   Daniel assentiu atrás de nós, com um leve sorriso, enquanto subíamos as escadas. O cachorro de antes veio nos cheirar, todo alegre. Sorri acariciando sua cabeça e ele foi cheirar Daniel, que falava algumas coisas baixinho com ele como se o cachorro fosse um bebê.

   Daniel está muito esquisito.

   Entramos na casa e eu olhei a decoração. Era bem bonita e me lembrava bastante a decoração da nossa antiga casa e do meu atual apartamento. Toda a casa era bem iluminada pela luz natural e eu adorava isso. A sala era branca e o chão de madeira clara, dois sofás cor de creme, bem clarinhos, circundavam um tapete com estampa simples em preto e branco com uma mesinha de centro simples e moderna sobre ele. Gostei do abajur que ficava ao lado de um dos sofás. A grande TV era acoplada à parede e em um canto mais afastado, onde ficava uma grande janela, havia uma mesinha branca com alguns livros em cima e dos dois lados dela eles haviam colocado duas cadeiras de madeira acolchoadas. Havia alguns vasinhos brancos de plantas na janela, que tinha vista para o jardim e as árvores ao lado da casa, e eu me senti confortável naquele ambiente.

   Meu pai disse para deixarmos nossas bagagens ali na sala, enquanto íamos até a cozinha. Um cheiro gostoso de molho de tomate vinha de lá, e eu senti meu estômago revirar. Foram quase três horas de viagem e eu já estava com fome de novo. Não adiantou nada eu e Daniel nos entupirmos de batata frita.

   A cozinha era no mesmo estilo da sala, os armários todos brancos com alguns detalhes em madeira clara. Era espaçosa, e quando entramos encontramos Katherine, - minha madrasta – cozinhando e conversando carinhosamente com um bebê que estava sentado em uma cadeirinha alta, ao lado da bancada. Todos os olhares caíram sobre nós quando entramos.

   Kate sorriu ao nos ver, parecendo realmente feliz. Em relação a ela... Eu não sei, não sei como agir, não sei como lidar. Eu sei que não foi com ela que meu pai traiu a minha mãe, Kate apareceu um pouco depois do divórcio dos meus pais, mas ainda assim...

   Ela veio até nós e nos abraçou. Eu correspondi ao abraço, educadamente. Ela ficou ao lado do meu pai, nos olhando com um sorriso bobo.

— Eu não sabia que você traria um amigo, Allison!

— Pode me chamar de Ally. – falei.

— Eu sou Daniel. – Daniel disse, sorrindo levemente. – Namorado.

   Meu Deus, novamente isso. Kate sorriu ainda mais, provavelmente disse que ele era meu amigo só por precaução, para não nos deixar constrangidos caso ele realmente fosse apenas meu amigo, e não namorado.

   O que é verdade. Sobre ele ser meu amigo, e não namorado, quero dizer. Mas parece que Daniel faz questão de manter a mentira aqui também. O que é estranho.

   Está tudo estranho, na realidade. Então, nossa atenção caiu para a bebê, que nos olhava e fazia barulhos de neném. Ela olhava para mim com um biquinho, as bochechas gordinhas e rosadas implorando para serem apertadas. Seus olhos eram acinzentados, grandes e levemente puxadinhos, com grandes cílios rodeando-os. Ela tinha pouco cabelo na cabeça, apenas uma penugem lisa e loira.

   Era uma criança linda.

— Esta é Valentina. – Kate disse, retirando-a da cadeirinha.

   Kate ofereceu-a para eu pegá-la. Eu fiquei um pouco confusa, mas estendi minhas mãos, pegando-a. Ela era gordinha, mas era leve. Devia ter 6 meses, já que ela já conseguia se manter durinha no colo. Eu a aconcheguei em meu colo, contra o meu peito, e ela pegou o meu cordão de pedra em suas mãos pequenininhas, com curiosidade. Ela era bem maior do que eu imaginava. Na foto que eu havia visto no Facebook, o bebê no colo de Kate não devia ter mais do que 3 meses.

   Eu fiquei olhando Valentina distraidamente, enquanto ela dividia seu olhar curioso entre o meu colar e o meu rosto. Apenas quando vi o dedo indicador de Daniel na mãozinha dela, que o agarrou olhando-o com um sorriso bobo e banguela, é que eu acordei do meu devaneio. Olhei para Daniel com um leve sorriso, enquanto o assistia falar baixinho com ela, com um sorriso idiota na cara.

   Meu Deus, Daniel Sullivan brincando com cachorros e bebês é uma cena impagável. Eu queria tirar uma foto disso. Ele desmancha totalmente a sua pose séria e sarcástica.

   Olhei para meu pai e Kate, que nos olhavam felizes. Meu pai tinha certa emoção no olhar, ao ver Valentina brincando com o meu colar. Provavelmente ele lembra que foi ele quem me presenteou.

   Nossa bolha foi estourada ao ouvirmos um grito. Kate pulou de susto, colocando uma mão no peito e indo rapidamente para a sala. Passei Valentina para o colo do meu pai, que a pegou com destreza, enquanto íamos todos atrás de Kate. Ao chegarmos ao outro cômodo, a vimos agachada em frente ao sofá, de frente para um garotinho que estava sentado com um carrinho quebrado nas mãos.

   O menino, de 3 anos, chorava. O rostinho pequeno todo avermelhado, enquanto Kate passava os dedos em suas bochechas, retirando as lágrimas.

— A mamãe vai comprar outro, querido, se acalme. – ela dizia. – Você tem vários outros brinquedos.

— Mas esse era o meu preferido. – ele disse todo embolado devido a pouca idade e ao choro.

   Só quando ele notou a nossa presença, ele parou de chorar. Ficou olhando para eu e Daniel com um olhar curioso e os lábios ainda formando um biquinho triste. Daniel riu baixinho ao meu lado e eu o cutuquei de leve com o cotovelo.

— Essa é a sua irmã, Lucas. – meu pai disse. – Lembra da foto que te mostrei?

— É bonita. – Lucas disse, sorrindo um pouco, mas com os olhinhos ainda úmidos. – E quem é aquele?

— É o Daniel, namorado da Ally. – Kate disse.

   Lucas fez uma expressão de nojinho, fazendo todos nós sorrirmos. Kate levantou rapidamente e correu para a cozinha de repente, falando algo sobre a comida estar no fogo. Meu pai falou para pegarmos nossas coisas porque ele iria nos mostrar o restante da casa. Continuou carregando Valentina em um braço, enquanto Lucas pegava sua mão livre e ia andando ao seu lado.

   Subimos as escadas e nos deparamos com um pequeno corredor, com três portas de cada lado. Ele nos mostrou onde ficavam nossos quartos, - eram as últimas portas, uma de frente para a outra. Deixei minha bagagem no meu quarto e nem prestei muita atenção na decoração dele. Meu pai me esperava na porta. Daniel deixou sua bagagem no quarto de hóspedes e seguimos meu pai pelos outros cômodos. Ele nos mostrou o quarto de Lucas que era ao lado do meu e o de Valentina, que ficava ao lado do quarto de hóspedes. As duas primeiras portas, uma de frente para a outra, eram do quarto do meu pai e Kate, e a outra do escritório dele.

   Era uma casa bonita e espaçosa, e bem aconchegante. Provavelmente foi Kate quem decorou tudo, era bem iluminado e com móveis mais claros misturados a madeira. Eu gostei instantaneamente do lugar por me lembrar bastante do meu apartamento.

   Voltamos ao primeiro andar e Kate anunciou que o almoço estava pronto. Eu a ajudei a arrumar a mesa, enquanto via meu pai, Daniel e as crianças no jardim através das grandes janelas da área de jantar. Meu pai parecia mostrar algo a ele, pois apontava para certos lugares do local.

— Estou tão feliz por vocês estarem aqui, Ally. – Kate disse, atraindo minha atenção. – Seu pai não cabia em si de tanta felicidade quando você confirmou que viria. Significa muito para todos nós.

   Ela sorria carinhosamente para mim, e me senti envergonhada. Voltei a colocar o jogo americano sobre a mesa, em cada um dos lugares.

— Significa muito para mim também. – falei. – Eu acho que eu e meu pai ainda temos muitos assuntos para resolver, mas...

— Sim, vocês têm. – ela veio até mim, segurando uma das minhas mãos. – Mas quero que saiba que eu também estou muito feliz com a sua presença.

   Eu me senti bem ao ouvi-la. Kate era uma boa pessoa. Ela parecia ser uns dez anos mais nova do que o meu pai, devia ter por volta de 35 anos. E era muito bonita. Lembrava-me bastante a Vanessa, mãe de Eve. Ambas eram loiras e com um rosto bondoso. Eu gostava de pessoas assim.

   Lucas entrou de repente, falando algo em sua voz esganiçada de criança. Kate voltou sua atenção para ele, que lhe dizia algo sobre frutinhas e querer fazer um piquenique. Sorri diante de sua animação infantil e Daniel passou pela porta, com um sorriso espontâneo no rosto.

   O almoço já estava todo posto na mesa e logo nos reunimos. Como uma família.

(...)

   A tarde já caía. Como a casa ficava em uma área mais alta, era possível ter uma visão e tanto do mar de Carmel. O céu estava todo laranja enquanto o sol se punha. Eu estava no jardim com Daniel e Lucas, em uma parte onde havia uma mesa de piquenique de madeira com bancos e algumas pedras grandes debaixo de uma das árvores, onde era possível sentarmos também para vermos o pôr do sol.

   Lucas nos fazia perguntas bonitinhas sobre a natureza e os animais, e Daniel respondia a todas elas corretamente, mas na linguagem de uma criança de 3 anos. Eu apenas os observava com um sorriso no rosto e ria algumas vezes. Daniel parecia relaxado, bem mais do que quando chegamos. Em certo momento, vimos meu pai se aproximar de nós e Lucas correu para os seus braços, tagarelando sobre tudo o que Daniel lhe contou. Meu pai sorria, pegando-o no colo e ouvindo tudo atentamente. Por fim, disse a Lucas que Kate o estava chamando para tomar banho.

   O menino foi para dentro de casa, chamando pela mãe. Então, Daniel levantou da pedra e piscou um olho para mim, indo para dentro da casa também.

   E ficamos apenas meu pai e eu. Ele sentou onde Daniel esteve anteriormente, ao meu lado. Ficamos olhando para a paisagem à nossa frente em silêncio. Era possível ouvir o bater das ondas, mesmo dessa distância.

— Eu ainda nem acredito que você está aqui. – ele disse baixinho. – Parece que eu estou sonhando.

— Exagerado. – revirei os olhos, sorrindo levemente.

   Ele sorriu para mim, com os olhos meio úmidos. Certo, sem choro, por favor. Caso contrário eu também não agüentaria. Passei todo o dia sentindo certo aperto no peito, uma lenta agonia por dentro, que me fazia sentir vontade de chorar mesmo quando eu ria de felicidade. Mas não era porque eu me sentia triste, muito pelo contrário. A falta que senti do meu pai, a saudade da sua presença... Era tão forte que eu sentia que iria explodir.

— Por que você nunca me procurou? – perguntei, desviando o olhar do dele e voltando a olhar o mar. – Quero dizer, por que nunca... Nunca foi me ver?

— Eu tentava, Ally. – ele disse, suspirando. – Eu ligava, mas você não atendia. Pensei que ir até lá de surpresa algumas vezes, mas temia a sua reação.

— Tinha medo que eu fugisse de você?

— Muito. – ele engoliu em seco. – Eu não agüentaria ser rejeitado por você pessoalmente. Causei muita dor à sua mãe, tinha muito medo de receber de você o olhar que recebi dela quando fui embora.

   Então éramos dois medrosos. Ambos sentíamos falta um do outro, mas não tínhamos coragem de ir atrás. Mas eu não sei o que era pior...

   Meu pai ainda ligava e queria saber como eu estava. Eu sabia que ele sempre entrava em contato com a minha mãe, seja por ligações ou mensagens, para saber como eu estava. Mas eu nem ao menos lhe atendia. Ignorei suas ligações por três anos.

— Me desculpe, Ally. – ele disse, segurando minha mão. – Eu devia ter insistido mais, devia ter ido até lá e...

— Não, tudo bem. – o interrompi, engolindo o bolo que se formava em minha garganta. – Eu nem ao menos permitia que você se aproximasse. O erro também foi meu.

   Ele me abraçou pelos ombros, dando um beijo no topo da minha cabeça. Encostei meu rosto em seu ombro, para que ele não visse que eu chorava. Estar aqui, com ele, me fazia enxergar tudo o que eu não enxergava antes. E me fazia relembrar de tudo o que ele foi pra mim durante todos os anos que vivemos juntos. Ele foi tudo, foi meu melhor amigo. E vê-lo com meus irmãos agora... Vejo que ele não mudou em nada. Continua sendo o mesmo pai atencioso que sempre foi para mim, enquanto eu ainda permitia que ele o fosse.

— Sua mãe sempre será a mulher que mais amei, Ally. – ele confidenciou baixinho. – E você sempre será meu bem mais precioso. Não esqueça isso, por favor. Jamais ache o contrário.

   Apenas assenti, passando os dedos disfarçadamente me minha bochecha, para secar as lágrimas. Eu sentia que ele chorava também. E então, ficamos em silêncio novamente, até o sol se pôr completamente. Já estava escurecendo quando as luzes do jardim acenderam, todas espalhadas como vagalumes. Provavelmente Kate as havia acendido, para que não ficássemos no breu. Decidimos que era hora de entrar.

   Eu me sentia infinitamente melhor e mais leve, e meu pai parecia sentir o mesmo. Ainda tinha uma expressão emocionada no rosto, quase boba, o que me fez sorrir. Caminhamos até a entrada de casa de mãos dadas. Como quando eu era pequena.



Notas finais do capítulo

As coisas terminaram bem, hahahah. No próximo capítulo tem mais momentos em Carmel, entre a Ally e o Dan, claro. Comentem dizendo o que acharam! :D logo postarei o próximo!



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