Collide escrita por Allie Próvier


Capítulo 10
10. Vamos ver onde acordaremos amanhã


Notas iniciais do capítulo

Capítulo novinho e grande, como me pediram. ♥
Espero que gostem!




CAPÍTULO 10

“Pegue minha mão, vamos ver onde acordaremos amanhã.

Os melhores planos sugeridos às vezes são só uma noite.”

Adam Levine – Lost Stars

 

   O Dolores Park já estava lotado. Chegamos quando o sol já estava se pondo, colorindo o céu em tons azulados e rosados. Diversas pessoas já haviam forrado cangas e mantas no longo gramado do local, enquanto a primeira banda que iria tocar arrumava os equipamentos no grande palco. Eve, surpreendentemente, havia convidado Jack Smith, - o seu admirador secreto/ex quase-namorado. Eu levei até um susto quando entrei em sua casa, quando fui buscá-la, e dei de cara com o menino sentado no sofá conversando com sua mãe.

   Ao que parece, ele havia ido lá porque queria conversar com Eve. Como Vanessa o adorava, o chamou para entrar e começou a encher o menino de suco, bolo e biscoitinhos, - assim como ela fazia comigo. Eve havia marcado de ir ao festival comigo, então ia mandá-lo embora, mas Vanessa mencionou que sairíamos juntas e disse a famosa frase de mãe: “Por que não leva ele também?”. Então Eve mandou-o esperar para ir conosco e depois eles conversariam.

   E aqui estou eu, segurando vela. Quero dizer, eles não agem como um casal (não agiam assim nem quando eram quase namorados, porque Eve não tem paciência pra ficar de amorzinho na frente de outras pessoas), mas o clima que está rolando está quase me sufocando. Eve até tenta disfarçar e manter certa distância, sendo monossilábica e indiferente, mas eu percebo que ele causa certa emoção nela. E a cara de cachorro perdido querendo um lar novamente que ele fazia quando a olhava chegava a partir o coração.

   Senti vontade de deixar os dois ali, mas quando sugeri isso para Eve em particular, ela segurou meu braço e apertou com os dedos, dizendo:

— Se fizer isso, eu mato você.

   Ela foi tão delicada que eu decidi dar-lhe o prazer da minha presença e permanecer com eles. De qualquer forma, Jack era bem legal. De todos os caras com quem Eve se envolveu, ele era o mais bonitinho e engraçado. Era meio sentimental e sensível às vezes, mas era um doce de menino. Combinava de um jeito bem peculiar com a personalidade sarcástica de Eve. Eles se completavam.

   Só eu não me completo com ninguém. Percebi isso quando sentei na manta que havia levado e olhei ao redor, vendo diversos casais espalhados. Beijinhos de um lado, abraços de outro. E quando virei para falar para Eve sobre aquilo, ela estava engatada em uma conversa animada com Jack sobre uma das bandas locais que iria se apresentar mais tarde.

   Decidi comprar algo para comer. Comida me completa, afinal. Deixei os dois se resolvendo e fui atrás de algo atrativo. Havia alguns food trucks mais afastados, mas eu queria algo mais simples e que desse para levar para Eve e Jack também. Achei um trailer de cachorro-quente e foi pra lá que eu fui correndo. Pedi três cachorro-quente para viagem e três Coca-Cola. Enquanto esperava meu pedido ficar pronto, senti meu celular vibrar no bolso.

   Céus, eu disse 23:30 da noite. Não é possível que ele esteja ligando novamente. Tirei o aparelho do bolso do short, irritada, mas quando desbloqueei a tela vi que eram mensagens de Daniel. Sorri surpreendida.

   “Está se divertindo? Estou afundado no tédio, ouvindo Benjamin e Mia transando no quarto ao lado.”

   Certo, eu não precisava saber da última informação. Tenho uma leve impressão de que Daniel realmente não acredita em mim quando digo que gosto de Benjamin. Ignorei o desconforto e digitei uma resposta.

   “Mais ou menos, mas estou comprando cachorro-quente, então logo estarei bem feliz comendo. Estaria se divertindo também, se tivesse aceitado meu convite.” — enviei.

   O moço do trailer me chamou, com os pedidos prontos em uma sacola. Guardei o celular no bolso novamente e paguei pela comida. Estava andando pelo extenso gramado do parque, procurando por Eve e Jack com os olhos no meio das pessoas, quando o celular vibrou novamente. Parei onde estava e li a resposta de Daniel.

   “Estou indo pra aí. Me manda sua localização.”

   Senti um negócio esquisito na boca do estômago. Esse negócio foi subindo lentamente para o peito, e causou um arrepio na minha espinha. Fiquei rindo como uma idiota, enquanto tentava explicar mais ou menos de que lado do parque nós estávamos. Estava terminando de explicar quando encontrei Eve e o seu futuro-namorado-novamente. Mandei-os fazerem uma pose e Eve jogou os braços pro alto, arregalando os olhos e sorrindo exageradamente, enquanto Jack tentava fazer cara de mal. Tirei uma foto, deixando bem aparente a árvore ao fundo e o local ao redor, para que Daniel conseguisse nos encontrar. Mandei tudo e ele apenas visualizou.

   Foi um festival de “Nossa, eu te amo” e “Você é a melhor amiga do mundo” quando abri a sacola e revelei a comida. Ficamos comendo e conversando amenidades, Eve e Jack disputavam para ver quem me explicava mais sobre a tal banda local que os ouvi comentando antes e comecei a me divertir de verdade. Percebi que Eve, antes emburrada e indiferente, voltou a ficar mais leve e espontânea ao lado de Jack outra vez. Sorri disfarçadamente. Eu sabia que isso ia acontecer. Eu nunca engoli aquela história de “resolvemos terminar tudo porque enjoei dele”. Eu tinha certeza que Eve terminou tudo com Jack, há cerca de seis meses atrás, porque estava gostando de verdade dele. Ela não quis conversar sobre aquilo, mas são anos de amizade. Sei bem como Eveline Walker é.

   Passou-se cerca de meia hora e enquanto assistíamos a banda tocar sua segunda música, Eve me cutucou levemente com o cotovelo. Olhei para ela e a vi sorrindo levemente, enquanto olhava para algo atrás de mim. Virei, procurando por o que ela via, e avistei Daniel vindo em nossa direção com uma Coca-Cola em uma mão e um cachorro-quente em outra. Ele arqueou uma sobrancelha para mim, com um leve sorriso nos lábios enquanto mastigava.

— Devo me preparar para segurar vela? – Eve cochichou, toda engraçadinha.

  Sorri forçadamente para ela.

— Devo me preparar para segurar a barra do seu vestido de noiva? – cochichei de volta.

   Ela revirou os olhos, beliscando meu braço, enquanto eu ria. Jack nos olhou sem entender nada.

   Daniel finalmente chegou e sentou-se ao meu lado, sobre a minha manta azul. Ele cumprimentou Eve e se apresentou para Jack.  Quando eles dois voltaram a assistir ao show, Daniel ficou observando-os por alguns segundos de forma confusa e em seguida olhou para mim, parecendo querer explicações. Apenas mexi os lábios dizendo “Depois eu explico” e ele entendeu.

   Ficamos em um local ótimo tanto para assistir ao show quanto para ouvir as músicas. Dava para ver e ouvir tudo muito bem sem nos sentirmos surdos e cansados depois. O sol já dava seu último suspiro no céu, escondendo-se quase totalmente no horizonte. Um vento mais frio começou a passar e eu me abracei um pouco com meus braços. A banda, que eu nem lembrava mais o nome, mas procuraria depois, tocava uma música divertida e tranqüila. Olhei discretamente para Eve e Jack no meu lado direito, e para  Daniel no meu lado esquerdo. Meu olhar passeou ao redor em seguida, observando as outras pessoas que assistiam ao show. O local já estava iluminado, diversas luzes espalhadas, enquanto o céu atingia um tom azulado.

   Momentos assim me faziam sentir viva, por mais simples que fossem.

   Daniel jogou fora a lata do refrigerante em uma lixeira próxima e voltou, sentando-se perto de mim novamente e rodeando meus ombros com um braço. Olhei-o, surpresa, e ela apenas sorriu levemente.

— Esqueci de trazer casaco também. – ele cochichou para mim, enquanto passava sua mão em meu braço, como se tentasse me esquentar.

   Sorri me aconchegando mais próxima a ele.

(...)

   Deixei Jack e Eve em casa, um de cada vez. Eve me convidou para passar a noite, mas logo lembrei que havia mandado aquela mensagem para meu pai. Se ele realmente ligasse, eu queria estar sozinha. Não contei isso a Eve, apenas disse que gostaria de dormir na minha cama hoje e ela entrou em sua casa, morta de sono e cansaço, como eu.

   Assim que cheguei ao apartamento, dei de cara com ele todo escuro. Saí acendendo todas as luzes. Odiava ficar em lugares muito escuros quando estava sozinha. Daniel mandou uma mensagem perguntando se eu havia chegado e respondi dizendo que sim. Tomei um banho quente e me refugiei dentro do meu pijama preferido, que tinha uma estampa de um gato usando um chapéu de aniversário na blusa. Fui para a sala e liguei a TV, colocando em um filme de romance que passava. Olhei o horário no celular e vi que era 23:20pm. Suspirei, indo até a cozinha preparar algo para comer.

   Eu me sentia estranhamente nervosa e ansiosa.

   Preparei apenas um sanduíche e uma vitamina. Comi na cozinha mesmo, olhando a paisagem através da janela. Eu adorava como a ponte Golden Gate ficava à noite, toda iluminada com aquela baía ao redor. Não cansava de olhá-la.

   Estava terminando de beber minha vitamina quando o celular tocou. Levei um susto, com uma mão sobre o peito. Deixei a louça suja dentro da pia e corri para a sala, pegando o celular rapidamente. Fiquei um tempo olhando para a tela, indecisa entre atender ou não. Mas quando vi que a ligação ia acabar caindo na caixa postal, acabei atendendo por impulso.

   Fiquei em silêncio e pude ouvir a respiração dele no outro lado da linha.

— Ally? – ele disse, parecendo desacreditado. – Filha?

(...)

   Fiquei parada dentro do carro desligado, com as mãos ainda sobre o volante. Respirei fundo, tentando acalmar a explosão de sentimentos dentro de mim. Eu sentia meu corpo inteiro tremular, enquanto tinha o olhar fixo na rua através do vidro do carro.

   Ouvi uma batida delicada no vidro do passageiro e pulei onde estava, olhando ao redor assustada. Antony olhava para mim através do vidro embaçado, parecendo bem confuso.

— Ally? – ele disse, sua voz abafada. Abaixei o vidro e ele se debruçou sobre a janela. – Você está bem? Eu pensei que era algum bandido parado aqui há tanto tempo.

— Desculpe, Sr. O’Neil. – murmurei um pouco aérea. – Eu estou bem, sim.

   Só então percebi que ele até segurava um taco de beisebol em uma das mãos. Boa, Allison. Ficar parada na frente da casa dos outros, no meio da noite, dentro do carro trancado é realmente uma ótima forma de passar uma boa impressão para os tios do seu namorado de mentira.

   Antony ficou me observando e pareceu preocupado.

— Você gostaria de entrar? Tanya fez pizzas, os meninos ainda estão acordados.

— Desculpe, eu nem sei por que estou aqui. – céus, eu estava tão desnorteada. – Eu não queria incomodá-los. Nem sei como vim parar aqui.

— Você bebeu?

   Ri fracamente, balançando a cabeça negativamente. Antony pareceu aliviado.

— Você não é um incômodo, Ally. Pode entrar, fique conosco. – ele disse, de forma afetuosa. – Tanya também vai ficar preocupada e vai brigar comigo se...

— Antony? – a voz de Tanya soou vinda da entrada da casa. – Algo errado?

   Agora eu realmente não teria como fugir. Suspirei, encostando a testa no volante enquanto Antony virava-se para a casa e Tanya, de alguma forma, me enxergou mesmo de longe. Ela veio como um gavião até nós e quase enfiou metade do corpo dentro do carro, olhando-me com olhos preocupados.

— Ally, o que faz aí? Está muito frio aqui fora! Você que estava parada aqui há tanto tempo? – ela falou desenfreada. – Venha, entre!

   Quando vi, já estava dentro da casa dos O’Neil/Sullivan. Minha bolsa com algumas mudas de roupa pendurada em um ombro. Fiquei parada no corredor que levava à sala, sem saber ao certo o que fazer, enquanto Tanya ia até o pé da escada e dava um berro chamando por Daniel. Antony voltou a sentar-se no sofá, na TV passava um filme de ação. Tanya pegou em minha mão e me levou até a cozinha, me colocando para sentar em um dos bancos altos da bancada como se eu fosse uma criança.

— Vou esquentar a pizza para você. – ela disse carinhosamente. – Prefere suco ou refrigerante?

— Suco. – falei automaticamente.

— O que hou... – Daniel paralisou na entrada da cozinha, olhando para mim. – O que faz aqui?

— Isso é jeito de falar, Daniel? – Tanya perguntou, com as mãos na cintura. – Encontramos Ally sozinha, dentro do carro, na frente de casa. Estava parada lá há mais de quinze minutos, eu e seu tio até achamos que era algum psicopata.

— É, ele até apareceu com um taco de beisebol. – falei, sorrindo levemente, sem vontade.

   Não queria deixar transparecer o meu verdadeiro humor, mas Daniel percebeu, é claro. Ele sentou no banco ao meu lado e pediu para Tanya esquentar outra fatia de pizza para ele também. Ele começou a comentar algo sobre universidades com ela, enquanto eu apenas ouvia e fazia poucos comentários. Vez ou outra ele me olhava pelo canto dos olhos e voltava a falar algo aleatório. Estava tentando deixar o clima mais leve, mas eu sabia que logo iríamos conversar.

   Eu não sabia o que fazia aqui, realmente. Terminei de conversar com meu pai e arrumei minha bolsa com algumas roupas. Pretendia ir para a casa de Eve, mas dirigi no automático com a cabeça cheia de pensamentos, e quando percebi o que fazia já estava parada na frente da casa deles.

   Tanya colocou um prato com duas fatias grandes de pizza na minha frente e disse que estaria na sala. Acho que ela quis deixar eu e Daniel sozinhos. Ficamos comendo em silêncio, cada um concentrado na própria pizza, enquanto ouvíamos o som de explosões no filme que passava na sala.

— Quer conversar? – ele perguntou de repente.

   Era a primeira vez que ele perguntava se eu queria conversar, ao invés de insistir para que eu dissesse qual era o meu problema. Apenas assenti e voltamos a comer em silêncio. Ele sabia que eu não falaria ali, no meio da cozinha. Quando terminamos, ele recolheu nossos pratos e copos e deixou-os na pia.

— Vamos subir. – falou.

— Seus tios não vão se importar? Já está tarde...

   Daniel revirou os olhos, mas sorriu fracamente para mim em seguida, negando com a cabeça. Pegou-me delicadamente pelo pulso e passamos pela sala, indo para as escadas. Meu olhar se encontrou com o de Tanya e ela sorriu carinhosamente para mim, piscando um olho em seguida. Meu Deus, que vergonha. Antony estava concentrado demais no filme para perceber nossa presença.

   Quando chegamos ao quarto, Daniel fechou a porta enquanto eu sentava na cama, cruzando as pernas como um índio. Ele olhou minha posição e riu, se jogando ao meu lado. Colocou as mãos atrás da cabeça, e isso fazia seus bíceps parecerem maiores. Desviei o olhar, mas ele já havia percebido. Sorriu de forma convencida.

— Então... – comecei, apertando meus dedos uns nos outros, olhando para a parede atrás dele. – Meu pai ligou. E eu atendi.

   Daniel arqueou as sobrancelhas, surpreso, e sentou-se.

— E vocês conversaram? – ele perguntou, parecia tão ansioso quanto eu. – O que ele disse?

— No geral, ele disse que sentia muito a minha falta, me pediu desculpas, perguntou como eu estava e aquele blábláblá todo. – suspirei. – Ele pediu para eu ir visitá-lo em Carmel.

   Daniel me olhava ansioso, esperando eu continuar a falar. Dei de ombros, sem saber o que dizer. Eu iria para Carmel? Iria rever meu pai depois de três anos? Iria conhecer meus irmãos e sua nova esposa? Eu não sei.

— Eu disse que ia pensar. – falei por fim. – Eu não sei se agüentaria ir até lá, encará-lo...

   Daniel assentiu, voltando a deitar na mesma posição de antes. Suspirei e deitei ao seu lado. Ficamos ambos pensativos, olhando para o teto do quarto em silêncio.

   A conversa com meu pai havia sido mais tranqüila do que eu imaginava. No começo, ele falou mais. Começou com as desculpas, com o arrependimento, disse que sentia a minha falta e queria muito me ver. Quando percebeu que eu não estava preocupada com isso, pois eram coisas que eu já sabia que ele dizia sempre para a minha mãe e eu não via mais sinceridade nelas, ele começou a perguntar sobre mim. Perguntou do colégio, da minha vida morando sozinha, dos meus amigos... Respondi tudo vagamente, falei só o que ele provavelmente iria querer ouvir. Que o colégio ia bem, - ocultei o fato de estar levando bomba em matemática – que eu vivia tranquilamente sozinha e que Eve continuava a mesma de sempre. Eu tenho alguns outros amigos, mas Eve é a única com quem estou sempre em contato, então ele não precisava saber além disso. Mas isso pareceu chateá-lo. Ignorei.

   Não perguntei sobre as crianças e nem sobre sua esposa. Mas ele disse que há pessoas loucas para me conhecer, e que ele gostaria muito que eu fosse visitá-lo em Carmel, a duas horas e meia de distância daqui. Ele teria falado de mim para meus irmãos?

   Apenas respondi que iria pensar e desligamos. E agora, aqui estou eu, deitada ao lado de Daniel pensando no que eu farei, afinal.

— Eu posso ir com você, se quiser. – Daniel disse de repente, olhei-o surpresa. – Se você for sozinha será pior. Eu acho.

— Você encararia isso por mim? – perguntei, me apoiando sobre os cotovelos enquanto o olhava desacreditada. – Iria comigo?

— Claro. – ele deu de ombros, como se isso não fosse importante; mas era, e muito. – Podemos ir no meu carro, assim você não pega a rodovia sozinha também.

   Não pude controlar o sorriso que se abriu em meu rosto. Voltei a deitar, rindo como uma idiota, enquanto Daniel revirava os olhos diante da minha reação.

— Isso é muito importante para mim. – expliquei. – De verdade. No fundo, eu quero ir. Mas encará-los sozinha eu não conseguiria. Obrigada, Dan.

   Ele me olhou depois que pronunciei seu apelido e sorriu levemente.

— Então, temos que nos preparar para amanhã. – falei rapidamente, sentando novamente. Eu não conseguia ficar parada. – Passo aqui cedo ou você me busca?

— Espera, espera. – ele disse, arregalando os olhos. – Amanhã? Não é no fim de semana que vem?

— Não. – falei baixinho, já prevendo que ele iria desistir. – Eu sugeri o próximo fim de semana, mas ele disse que terá uma formatura na universidade na qual leciona e ele tem que comparecer.

   Daniel suspirou, passando as mãos no rosto. Ótimo, ele não iria. Mordi o lábio inferior.

— Deixa para lá, Daniel. – falei. – Eu posso ver outro dia para ir, ou...

— Não, nós vamos. – ele disse, decidido. – Eu vou passar na sua casa para te buscar. A não ser que você queira dormir aqui.

   Arregalei os olhos, olhando para sua cama e depois para ele novamente. Ele riu alto, balançando a cabeça negativamente.

— Não iríamos dormir juntos. – ele sorriu. – Não vou te dar o privilégio de me ver pelado. Temos um quarto para visitas.

— Ah. – sorri, me sentindo totalmente sem graça. – É claro. Eu não pensei que...

Claro que não pensou. – ele continuou rindo. – Então, o que me diz?

   Pensei um pouco. Eu não me sentiria muito confortável passando a noite da casa deles, apesar de Tanya e Antony serem tão receptivos comigo. E aparentemente, bem liberais em relação aos meninos. E eu ainda queria passar na casa de Eve para conversar com ela e arrumar minha bolsa de viagem para o fim de semana.

   Escolhi ir para casa e Daniel disse que passaria para me buscar às 08:30 da manhã. Descemos juntos para o primeiro andar da casa e Tanya estava saindo da cozinha quando chegamos ao fim da escada, com um pratinho de biscoitos na mão.

— Vai embora, Ally? – ela perguntou, parecendo chateada. – Pensei que iria dormir aqui hoje.

— Eu tenho um compromisso amanhã cedo, tenho que ir para casa arrumar algumas coisas. – expliquei. – Mas obrigada pelo cuidado, Tanya.

   Ela me abraçou, dando um beijo em minha testa no fim. Acenei para Antony, que estava no sofá esperando pela esposa, e ela acenou de volta com um sorriso. Daniel me acompanhou até meu carro, com uma expressão boba no rosto.

— O que há? – perguntei.

— Minha tia adora você. – ele sorriu. – Fala de você sempre que me vê, chega a ser insuportável.

— Eu pensei que ela soubesse que nosso namoro era de mentira. – falei, colocando minha bolsa no banco passageiro e encostando-me na porta, para conversar mais com ele.

— Não. Se ela soubesse, Benjamin acabaria descobrindo também. – ele deu de ombros. – E isso também beneficia a mim. Minha tia achava que eu era gay.

   Ri alto, enquanto ele revirava os olhos. Cutucou minha barriga para que eu parasse de rir, mas isso só piorou a situação.

— Desculpa, mas isso é engraçado. – falei. – Mas admito que eu também pensava isso.

— Todos pensavam. – ele bufou.

— Você nunca namorou antes?

— Claro que já namorei. Mas eu nunca trouxe nenhuma namorada para casa, e também nunca duravam mais do que dois meses. Depois de um tempo eu enjôo.

— Então eu sou sua primeira. – sorri. – Que gracinha.

   Daniel ficou me olhando por alguns segundos de uma forma estranha e em seguida desviou o olhar, colocando as mãos dentro dos bolsos do casaco e balançando a cabeça levemente sem dizer nada.

— Só para você saber, – chutei sua perna de leve com meu pé, atraindo seu olhar novamente. – você também é meu primeiro.

— Mentirosa. – ele revirou os olhos. – Acha que nunca te vi zanzando pelo colégio com aquele cara, o James?

— Que James? – perguntei totalmente confusa.

— Aquele que é seu par na aula de biologia.

   Nossa, Daniel sabe tanto assim da minha vida? Arqueei as sobrancelhas, finalmente lembrando quem era James, e ele pareceu perceber o que eu pensava. E algo que eu nunca imaginei que fosse acontecer, aconteceu.

   Daniel ficou com as bochechas rosadas.

   Ele engoliu em seco, desviando o olhar de mim. Sorri, achando ele mais bonitinho do que nunca.

— Esquece, vai para casa logo. – ele murmurou. – Toma cuidado no caminho. E vê se não se atrasa amanhã, vou passar no prédio às oito e meia em ponto. – frisou.

   Assenti, batendo continência. Ele revirou os olhos diante da minha idiotice e eu dei a volta no carro rindo. Ele ficou me olhando do outro lado, pela janela do passageiro, para ver se eu estava colocando os cintos de segurança mesmo. Coloquei, olhando para ele com um olhar entediado, e ele sorriu levemente piscando um olho para mim. Liguei o carro e o coloquei em movimento, acenando para ele. Ele acenou de volta, e eu fui embora.

   Eu ainda queria muito conversar com Eve. E apesar de já ser 01:30 da manhã, passei em sua casa. Eu sabia que ela estaria acordada, já que era sexta-feira. Estacionei em frente a sua casa e de dentro do carro pude ver que a janela do segundo andar, - onde ficava o seu quarto – estava acesa. Deixei minha bolsa no carro e o tranquei, dando uma corridinha pelo caminho de pedrinhas até sua porta. Toquei a campainha e esperei, abraçando meu próprio corpo por causa do frio que fazia.

   Eve logo atendeu, vestindo sua calça de moletom e suas meias verdes e natalinas. Tinha uma touca na cabeça e uma barra de chocolate mordida em uma das mãos.

— O que aconteceu? – ela perguntou, me olhando de cima a baixo. – Alguém morreu? Pensei que a essa hora você estava no décimo sono.

— Preciso conversar com você.

   Essa é a frase que faz todos se arrepiarem e te olharem como se você fosse um extraterrestre. Eve abriu espaço na entrada para eu passar e eu entrei, me sentindo aliviada por lá dentro estar bem mais quentinho. Fomos direto para o seu quarto e eu me joguei em sua cama, vendo que ela estava assistindo Guerra dos Mundos na TV. Já perdi as contas de quantas vezes vimos esse filme, mas sempre que passava, assistíamos de novo. Sorri.

— Desembucha. – ela falou rapidamente, sentando na cama ao meu lado e me olhando curiosa. – O que aconteceu? É sobre o Daniel?

— Também.

— Ai meu Deus.

   Ri da cara de desespero que ela fazia. O que Eve achava que eu iria contar? Que perdi a virgindade com Daniel Sullivan?

— E sobre o meu pai. – fiz questão de esclarecer de uma vez, fazendo sua expressão murchar, porque se o assunto envolvia o meu pai, então obviamente eu ainda não havia perdido virgindade. – Ele me ligou quando cheguei do festival.

— Wow. – ela suspirou. – E você atendeu?

   Apenas assenti e ela diminuiu o volume da TV, me olhando com expectativa. Mordi o lábio inferior e lhe contei tudo o que aconteceu. Sobre a minha conversa com meu pai e o seu convite; depois sobre eu ter saído de casa para ir vê-la, mas acabando indo parar na casa de Daniel. Contei sobre a minha conversa com ele e que ele iria comigo até Carmel.

— Nossa, ele está mesmo gostando de você. – ela arqueou as sobrancelhas.

   Revirei os olhos e ignorei sua fala, enquanto pegava um pedaço do chocolate e enfiava na boca.

— Mas eu estou feliz, Ally. – ela sorriu carinhosamente para mim. – Eu tenho o pressentimento de que vai dar tudo certo.

— Será? – perguntei insegura. – Eu estou feliz por ir, de verdade. Mas tenho medo.

— Ele não deixou de ser seu pai, e você não deixou de ser filha dele, Ally. – ela assegurou. – Não há motivo para ter medo.

   Sorri para ela, agradecendo, e ela me abraçou apertado. Logo uma idéia me veio à mente.

— Por que não vem conosco? – perguntei, segurando-a pelos ombros. – Eu iria adorar que você fosse comigo, Eve!

   Seu sorriso desmanchou em seu rosto e ela suspirou, balançando a cabeça negativamente, de leve. E foi aí que eu percebi que havia algo muito errado. Minhas mãos escorregaram de seus ombros e ela desviou o olhar do meu.

— Eve, o que houve? – perguntei, tendo uma sensação ruim.

— Minha mãe tem um exame importante amanhã. – ela começou a explicar. – Há alguns dias ela notou um caroço no seio direito.

   Um arrepio passou pelo meu corpo e eu engoli em seco, sentimento meu coração acelerar um pouco. Não, aquilo não estava acontecendo.

— Ainda não sabemos se é... Aquilo. – ela murmurou. – Mas ela está bem preocupada. O exame será amanhã a tarde, eu preciso ir com ela.

— É claro. – murmurei. – Eve, quer que eu fique com vocês? Eu posso marcar outro dia com meu pai e...

— Não, Ally, por favor. Eu quero que você vá ver seu pai. Eu e minha mãe ficaremos bem. – ela tentou tranqüilizar-me, mas eu via que aquilo a estava corroendo por dentro.

— Promete que vai me ligar quando terminar o exame.

— Prometo.

   Eu tinha que ir para casa e deixá-la descansar, então resolvi ir embora. Quando saímos do quarto, vi a porta do quarto de Vanessa e automaticamente fui para lá. Estava um pouco encostada, pela fresta pude vê-la dormir. Entrei silenciosamente no quarto e fui até ela. Mesmo dormindo, havia uma preocupação em seu rosto. Peguei levemente em sua mão que estava sobre sua barriga e beijei sua testa, tomando cuidado para não acordá-la.

   Senti um peso em meu peito. Meu Deus, eu esperava tanto que ela estivesse bem. Se o exame indicasse que ela estava com câncer, eu não sei o que faria. Ficariam todos arrasados, isso iria acabar com Eve.

   Virei para sair do cômodo e vi Eve parada na porta, nos olhando com um sorriso leve nos lábios e o olhar repleto de preocupação. Saí do quarto e a abracei, dando um beijinho em seu rosto. Ela agradeceu baixinho e me acompanhou até a porta. Eu a abracei novamente antes de ir e fui para o carro, pedindo aos céus mentalmente que nada de ruim acontecesse.



Notas finais do capítulo

Um monte de coisa acontecendo ao mesmo tempo, hahahaha.
Comentem e digam que acharam (e o que acham que vai acontecer! :O)

P.S: Ah, para quem não sabe, eu tenho um blog. Eu costumo postar algumas crônicas lá e também falo de filmes, livros, etc. Quem quiser dar uma olhada, é só ir em:
http://allieprovier.blogspot.com ♥