O Segredo da Lua escrita por F L Silva


Capítulo 6
Capítulo 6 - Sem Direção




A melhor parte de quando se sofre um acidente no colégio, é que automaticamente a secretaria anuncia aos responsáveis do aluno sobre o ocorrido, chamando-os para vir buscar a vítima. Lembrava-se claramente de quando estava na sexta série e caiu de cima da carteira após tentar colar um cartaz na parede e acabou deslocando o pulso. Não se demorou vinte minutos na enfermaria e sua mãe irrompeu pelas portas, levando-o diretamente para casa e dando-lhe sorvete e bolo pelo restante do dia. Porém, a parte ruim no devido momento, era que Théo estava num reformatório e não tinha nenhum desses privilégios. Claro, a diretora Sabrina foi obrigada a comunicar aos seus pais do ocorrido, entretanto, eles não tiveram permissão para vir visitar o filho. Mas, ao menos, tiveram direito a uma ligação.

― Sim, mãe. Estou comendo direito ― dizia Théo ao telefone, sentado em frente à mesa de Sabrina, que o olhava fixamente, não gostando nem um pouco dele estar usando seu telefone.

Havia pouco mais de sete minutos em que Théo repetia a mesma coisa para sua mãe, assegurando-a para não se preocupar com ele.

Você me deu um grande susto quando a diretora nos ligou dizendo que tinha sofrido um acidente e passado um dia inteiro desacordado! ― exclamava sua mãe no telefone.

― Não foi nada demais. Eu estou bem agora.

Passando a mão na parte de trás da cabeça, sentiu o local onde batera com a cabeça ainda dolorido. Quando acordou naquela manhã, sentiu dor de cabeça e foi diretamente a enfermaria tomar algum remédio que ajudasse a passar a dor.

A conversa no telefone durou exatos dez minutos, como Sabrina anunciara quando ele chegou a sua sala no sábado de manhã, pouco antes do almoço. Mal teve tempo de se despedir e a diretora tomou o telefone de suas mãos e disse para a Sra. Ângelo que o tempo tinha acabado e que agora Théo estava em perfeitas condições.

Depois que Kalleo fora embora na noite anterior, Théo passou horas se revirando na cama, sem conseguir dormir direito. De alguma maneira, por mais que tentasse, não conseguia parar de pensar nele, o que o assustou. O que estava acontecendo com ele? Seria possível estar gostando de Kalleo?

Quando se levantou da cadeira para ir embora da sala da diretora, Sabrina o chamou da porta:

― Cuidado com o que faz ― disse com expressões duras no rosto. ― As câmeras estão vendo tudo.

Théo olhou para ela, sustentando o olhar que ela lhe lançava. Depois deu meia volta e saiu para o saguão de entrada. Olhando pelas grades do portão de saída, viu a rua lá fora, vazia como o deserto, exatamente do mesmo jeito de quando chegara ali.

― Ben ― comprimento ele ao ver o guarda no portão de grade contrário, que dava para o saguão principal. Lembrava-se dele por ter sido ele o guarda gorducho que revistou seus pertences.

Ben o cumprimentou com a cabeça, liberando sua passagem.

Enquanto Théo andava na direção dos dormitórios, ficou recordando do dia ― não muito distante ― em que sua mãe bateu na porta de seu quarto para lhe acordar e lhe trazer para o instituto. Quando ouviu as leves batidas na porta de madeira, Théo já estava acordado. Passara a noite toda se revirando na cama, sem conseguir dormir. Por fim, sentou-se na cama e ficou revirando seus livros, lendo trechos de um e outro, tentando distrair-se e não lembrar para onde seria mandando ao amanhecer. Sentia medo a cada vez que pensava no que lhe aguardava no reformatório. Se iria conseguir fazer amigos, se iria conseguir erguer a cabeça sem derramar uma lágrima. Era tudo lastimável demais.

Também pensou em suas ações que fizeram com que ele tivesse de ser mandando para a São Diego. Sabia que não tinha sido um bom garoto, e que não fizera escolhas inteligentes, e por isso acabou seguindo por um caminho ruim.

Se ele soubesse qual seria o seu futuro no exato momento em que experimentou se drogar pela primeira vez, deliberadamente não o teria feito. Teria aguentado tudo o que estava passando. Drogar-se foi o único meio de esquecer, se sentir bem consigo mesmo.

A notícia de descobrir que seus pais não eram seus verdadeiros pais biológicos foi como se ele tivesse sido colocado no alto do peitoril de um prédio de cinquenta andares, no meio de uma ventania cruel, em que ele teria que manter o equilíbrio e o autocontrole, e o pânico do medo de altura, com seu estômago se embrulhando compulsivamente com o pavor crescente caso caísse. Théo perdeu totalmente o controle naquela noite de sexta-feira, sentado na sala de estar com seus pais. Eles lhe contaram toda sua história. Que a Sra. Ângelo não podia ter filhos e acabaram por optar em adotar. Depois de ele ter sido adotado, mudaram de cidade, com medo de que os vizinhos contassem para ele a verdade, e esperaram Théo completar dezessete anos para lhe contar tudo.

Talvez, se ele tivesse agido com mais controle e sido mais coerente, ele não teria saído de casa naquela noite e se entregue ao mundo dos vícios. Talvez ele não tivesse virado um viciado louco e não teria posto fogo na escola quando estava totalmente descontrolado. Talvez, agora, ele estaria em sua casa jogando vídeo game com seu melhor amigo, Will.

Will... O único amigo que não o abandonou quando ele estava sob o efeito de drogas. Ficou do seu lado por todo o tempo, sempre cuidando de Théo. Foi ele quem alertara ao Sr. e Sra. Ângelo. Porém, já era tarde demais. No mesmo dia o acidente no colégio aconteceu. Logo depois, Théo estava se reabilitando em casa, até o dia que teve que ficar em frente o juiz e descobrir o que ele tinha preparado para ele, por suas ações. Foi lhe dado o prazo de três dias para ele se preparar para partir para o Instituto São Diego. E cá estava ele agora, totalmente arrependido.

Parado em frente o pátio que ficava no térreo do prédio dos dormitórios, Théo sentou-se em um dos bancos, olhando para o céu nublado. As nuvens estavam numa coloração cinza que lhe lembrava os olhos de Kalleo. Automaticamente, ele balançou sua cabeça, se dispersando do pensamento. Por que estou pensando nele?, se perguntou. Kalleo era apenas um amigo, assim como Juan. Não tinha por que ficar pensando nele a todo o momento. Eram só amigos. Mas então por que Théo sentia-se estranho na presença de Kalleo?...

Um pensamento incômodo lhe veio à mente e logo ele abominou.

― Pescando? ― disse Zoe, com sua cabeleireira ruiva presa num coque alto, sentando-se ao seu lado.

― Quê? ― perguntou confuso.

― Te vi perdido nos seus pensamentos, como se estivesse pescando, a espera de algum peixe morder seu anzol. É assim que meu pai fica quando pesca.

― Ah... ― soltou. ― Estava apenas pensando numa coisa.

― Pensamentos é o que não vão lhe faltar aqui. ― Zoe virou-se de costas para Théo no banco. Ele achou que ela ia embora, mas a garota deitou-se sobre o banco, colocando sua cabeça sobre seu colo. ― Ultimamente eu ando pensando na decoração do auditório. Semana que vem terá um “Show de Dublagem” ― disse fazendo as aspas no ar ―, onde tem de tudo.

Théo não ligou por a garota ter se deitado no seu colo. Aquele gesto dela apenas confirmou a ele que eles eram amigos agora. O que era bom, pois Théo tinha poucas pessoas com quem contar.

― O que quer dizer com “tem de tudo”?

― Ah, o evento foi criado há uns dois anos, excepcionalmente para os alunos fingirem que estão cantando. Mas, é claro, que nenhum deles faz isso. Preferem cantar, e outros até mesmo dançam. ― Ela deu de ombros. ― Infelizmente fui incumbida pela organização.

― Você vai participar?

― Claro que não. Já tive vontade, mas prefiro ficar de fora.

Théo lembrava-se do seu primeiro dia no internato, quando Zoe disse que preferia ficar de fora desses tipos de eventos, assim como ele.

― Mas então, sobre o que você estava pensando? ― perguntou ela, voltando ao assunto anterior.

― Nada de importante ― respondeu ele, vagando o olhar, não querendo falar sobre o que pensava.

Na escadaria que dava para o andar superior dos dormitórios, Théo percebeu o movimento de alguém descendo. Logo viu Kalleo entrando no pátio junto com Megan. A loira que o tinha arrastado para longe de Théo na noite em que eles colocaram cera de depilar na toalha do Bryan.

Zoe seguiu o olhar de Théo, percebendo para quem ele olhava.

Saindo pelo portão do prédio, Kalleo olhou para trás e, por um momento, Théo prendeu a respiração quando seus olhos se cruzaram. Imperceptivelmente, ele percebeu quando Kalleo baixou os olhos para Zoe, deitada em seu colo, e cerrou a mandíbula rigidamente. Depois se virou e continuou caminho com Megan. E num gesto rápido, passou a mão pela cintura da garota enquanto andavam.

O estômago de Théo se revirou com aquele gesto ente Kalleo e Megan, junto com uma careta de desprezo em seu rosto. Por que ele ficou incomodado com aquilo? Ele não tinha nada a ver com ele, ou com quem ele saía. Não era de sua conta.

― Já entendi ― concluiu Zoe, sentando-se rapidamente no banco, de frente para Théo.

― O que você entendeu? ― perguntou, tentando disfarçar a carranca em seu rosto.

― Você está gostando dele. Do Kalleo. ― Um sorriso boquiaberto estampava seu rosto.

Quê? Não! ― grasnou, encabulado. Ele não estava gostando do Kalleo. Não podia. Eles eram... homens.

― Claro que sim, não sou boba. Vi como você reagiu na presença dele.

― Reagi normalmente, como quando vejo você ou o Juan.

Óbvio que não, querido! Eu vi como você olhou para ele, como sua respiração parou, como mordeu o lábio inferior, como você paralisou! Não piscou os olhos um momento sequer! ― Zoe dizia ainda sorrindo, encantada.

― Zoe ― falou Théo, com a voz séria e calma. ― Você está vendo coisas... E além do mais, somos homens...

― E o que tem? ― desdenhou ela, fazendo careta. ― Vivemos num país democrático, onde cada pessoa tem o direito escolher o que quer. Entre aspas, na verdade ― ela sinalizou. ― Você é livre para se apaixonar por quem quiser, seja homem ou mulher. E na minha humilde opinião, vocês formam um belo casal.

― Você está falando coisa com coisa.

― Não seja bobo, Théo. Se você gosta dele, não tem por que negar. Você não deve nada a ninguém. E o Kalleo é um dos garotos mais bonitos que tem por aqui. Eu ficaria com ele fácil... ― e sua voz foi morrendo, enquanto observava Théo. ― E ele ficaria melhor com você do que com a víbora da Megan.

― Eles namoram? ― perguntou Théo, confuso. Kalleo não tinha falado nada sobre a relação dele com Megan.

― Já namoraram, por muuuito pouco tempo, mas terminaram há alguns meses. Mas pelo que dizem, ela anda querendo voltar com ele...

Dizem?

― Sim. Fofoca é o passa tempo de todo brasileiro ― disse dando de ombros.

― Certo ― assentiu. ― Mas...

― Pensa bem, Théo ― cortou Zoe. ― Não vale a pena negar o que sente por ser uma coisa totalmente nova.

Théo olhou para o chão. Até aquele momento, ele estava evitando esse tipo de pensamento. Sentia-se desconfortável, pois nunca tinha beijado um homem, ou gosta de um. Sempre que estava com o Will, eles costumavam falar de garotas, das quais lhe excitavam ou não, mas nunca chegaram a falar de garotos. E nunca passara pela sua cabeça gostar de um.

Mas agora, encarando a realidade que lhe dava uma tapa na sua cara (ele se referia a Zoe), ele não podia negar. Sim, gostava do Kalleo. Gostava de estar perto dele, sentir sua presença, ouvir sua voz, olhar em seus olhos... E isso o deixava completamente confuso com ele mesmo, como nunca chegou a acontecer na sua vida, na presença de qualquer outra pessoa.

― Você tem razão ― disse, rendendo-se, comprimindo os lábios. ― Eu gosto dele... Eu acho.

― A-há! ― gritou Zoe, pegando-o de surpresa. ― Eu sabia! Nunca erro.

Théo corou, olhando para o chão a sua frente.

― Mas não sei se...

― Se ele gosta de você? ― interrompeu novamente.

― Ia dizer se o fato de eu aceitar isso seja suficiente ― falou ao mesmo tempo em que Zoe falava.

― Ele gosta de você também ― disse, quase pulando do banco. ― Eu vi no jeito como ele olhou pra você, e no modo como se enrijeceu quando me viu deitado no seu colo... Suponho que tenha ficado com ciúmes... ― Ela torceu a boca, olhando para os pés.

― Acho que não ― Théo discordou.

― Mas foi, caso contrário, ele não teria se aproximado de Megan na sua frente. ― Zoe ergueu a sobrancelha direita, deixando óbvio que tinha razão. ― Ele fez aquilo pra você sentir ciúmes, e deu certo.

― Eu não fiquei com ciúmes! ― grasnou rapidamente, negando.

― Ficou sim; não negue. ― Ela deu de ombros, se levantando do banco. ― Já está na hora do almoço. Você vem?

Suspirando, Théo se levantou do banco e seguiu Zoe para fora do prédio, em direção ao refeitório, pensando no que acabara de admitir em voz alta.

* * *

Toby entrou no quarto que dividia com Théo exatamente às onze horas da noite, quando Théo saía do banheiro só de toalha.

― Oh ― exclamou o garoto ao olhar para Théo seminu. ― Quer... que eu saia para se trocar? ― perguntou lembrando-se de quando a situação era inversa e Théo se sentiu desconfortável.

― Não precisa ― falou Théo, segurando a toalha firmemente em volta da cintura. Um leve medo de que a toalha pudesse cair na frente de Toby lhe passava pela mente. Sabia muito bem que sua sorte não era das boas.

― De qualquer maneira vou tomar um banho. ― Toby deu de ombros, passando por Théo e parando a porta do banheiro, virando-se novamente para dizer: ― A propósito: o que vai fazer hoje à noite?

― Dormir ― respondeu ele, evasivo. O que mais poderia fazer? Já tinha passado da hora do toque de recolher. Nenhum aluno mais podia sair pelo instituto.

― Uns amigos meus vão dar uma pequena festa ― dizia Toby, mordendo os lábios. Por um rápido momento, quase imperceptível, Théo achou ter visto um olhar malicioso nos olhos de Toby enquanto olhava para ele, mas devia ser somente impressão, por que quando olhou novamente para o rosto de Toby, este não transparecia expressão alguma. ― Se quiser ir...

― Acho melhor não... ― discordou. ― Já passou do toque de recolher e...

― Ah, vamos lá, Théo! ― insistiu o garoto, ainda parado à porta do banheiro. ― Você não conhece quase ninguém, mal tem amigos, e vai ser legal.

Théo pensou em dizer que era claro que ele tinha amigos. Tinha a Zoe, Juan e... Kalleo. Mas decidiu ficar de boca calada. Não valia a pena comentar isso com Toby.

― E você não pode ficar na mesma rotina todos os dias ― continuou a dizer, tentando convencê-lo. ― Será no quarto de um dos alunos do primeiro ano. Ninguém vai nos pegar.

Théo mordeu o lábio inferior, pensando. Em parte Toby tinha razão: ele não deveria viver a mesma rotina todos os dias. Além do mais, ele tinha saudades das noites em que saía para festas. Talvez não fosse uma má ideia... Mas, e se descobrissem que ele, junto com vários outros alunos, estavam quebrando as regras? Toby garantiu que não havia chance disso acontecer. Disse com bastante convicção. Sendo assim, essa não é a primeira festa que ele frequenta. E se por acaso fossem pegos, Théo não ia sofrer punição sozinho. Estaria com outros alunos.

― Quebrar as regras de vez em quando não faz mal... ― disse em voz alta, pensando.

― Regras foram feitas para serem quebradas.

Erguendo o olhar do chão para Toby, ele disse:

― Vou me arrumar.





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