O Segredo da Lua escrita por F L Silva


Capítulo 17
Capítulo 17 - Vindo Abaixo


Notas iniciais do capítulo

Estamos chegando nas retas finais! Mas ainda falta muita coisa para acontecer...



No sábado à tarde, Théo estava deitado sobre o gramado recém-cortado ao lado do prédio dos dormitórios junto com sua amiga, Zoe. Pela primeira vez, o zelador-fantasma do campus tinha aparado a grama. Ambos os garotos olhavam para o céu azul, livre de nuvens, deixando o calor do sol penetrar em suas peles pálidas.

Zoe estava lhe bombardeando com perguntas a respeito de como estava sua relação com Kalleo. Théo se limitou a lhe responder apenas o básico; que estavam bem, longe de conflitos. Não achou adequado contar tudo o que acontecia entre eles, e, principalmente, a respeito do pesadelo que Kalleo tivera na madrugada de sexta-feira, por mais que quisesse conversar com alguém a respeito. Mas a pessoa mais indicada para isso, sem dúvidas, seria o próprio Kalleo. Théo não parava de relembrar a imagem dele se debatendo contra a parede, chorando incontrolavelmente transtornado. Era de lhe partir o coração. Queria poder ajudá-lo, evitar que de ele voltasse a surtar daquele jeito. Seria por isso que ele tinha um quarto só para si? A diretoria achava que por ele ter esses pesadelos seria melhor lhe confinar a apenas a um quarto para si?

― Zoe ― chamou Théo, franzindo o semblante, pensativo. ― É possível ter um quarto individual no dormitório?

― Além de você, quer dizer? ― desdenhou. ― Sim, é possível. Antes de você chegar, Toby tinha o quarto só para si. Quando temos um número impar de alunos, isso costuma acontecer. Quase uma raridade. Mas assim que entrar outro interno, deverá ir para seu quarto.

― Mas nesses casos, sempre tem duas camas nos quartos. Refiro-me ao fato do quarto ser totalmente individual, apenas para uma única pessoa.

― Nunca; impossível ― negou bruscamente. ― Não é permitido quartos individuais.

― Humm ― grunhiu.

― Está querendo ficar com o quarto só para você? ― Zoe deitou-se de lado, de modo que encarasse Théo de frente.

― Não é isso. Deixa pra lá ― suspirou, remoendo na cabeça o poço de enigma que era Kalleo. Chegar a um consenso era inexplicavelmente impossível, por mais que tentasse. Chegava a ser irritante amar um cara, tê-lo em seus braços, conversar sempre, mas nunca saber o suficiente sobre ele. Às vezes Kalleo lhe parecia um estranho, e mais que isso, parecia até que escondia algo que Théo não pudesse saber, sempre que evitava responder suas perguntas a respeito dos seus desaparecimentos no instituto, o fato de ter as chaves da secretaria e ter privilégios que nenhum outro aluno possuía.

― Estou feliz que nossa detenção tenha acabado ― comentou Zoe, revirando os olhos. ― Não aguentava mais limpar livros de couro empoeirados. Quanto mais eu limpava, mas parecia faltar para terminar.

― Não foi tão ruim assim trabalhar na cozinha ― comentou Théo, tentando distrair-se. ― A Sra. Lessa é legal. A única coisa ruim mesmo era ter que lavar a louça suja.

― É fato que ninguém gosta de lavar os pratos, mas todos gostam de sujá-los comendo.

― Comer é uma das maravilhas do mundo.

― Seguida por dormir ― brincou ela. Depois rolou na grama e esticou os braços, sentido as folhas macias sob sua pele. ― Ansioso para a palestra-superchata de quarta-feira?

― Que palestra? ― perguntou, revirando em sua memória algo dito pelos professores em aula.

― Na próxima quarta-feira a professora Morelo irá aplicar uma palestra de história para toda a escola no auditório, depois das aulas.

― Parece entediante ― ele revirou os olhos.

― E é ― suspirou dramaticamente. ― Passamos quase a noite toda lá. No fim, eles passam um filme entediante e nos liberam.

― Hum.

Zoe ficou em silêncio, fitando o sol fixamente, viajando em seus pensamentos. Suspirando, falou:

­­­­­­­­­― Não vejo a hora de sair desse presídio sufocante.

― Há quanto tempo você está aqui?

Théo se lembrava do quão fechada Zoe era em relação a sua estadia no internato. Desde seu primeiro dia, quando conheceu a garota, ela parecia evitar esse tipo de conversa.

Era comum que os alunos de um reformatório evitassem falar a causa de estarem ali. Não queriam ser vistos de forma horripilante mais do que já eram vistos quando chegavam ao internato.

― Dois anos e meio ― respondeu ela, ajeitando os óculos sobre o nariz. ― Recebi sentença de três anos. Provavelmente no fim do ano estarei indo embora. E você?

― Tempo indeterminado. Não foi definida uma data. Pode durar de meses a anos...

― Não será nada fácil restaurarmos nossas vidas quando estivermos fora daqui ― ela deu de ombros. ― As nossas famílias vão nos olhar diferentes, os amigos ficarão cautelosos com a nossa companhia, as pessoas ficarão vigilantes a nossa volta... Apavora-me só de pensar.

― A sociedade não é um poço de aceitação.

― Se fosse, as pessoas não teriam rótulos para identificarem-nas ― concordou arrancando um punhado de grama do chão.

― Vocês parecem um casal de mortos-vivos.

Théo se virou pra trás ao ver Vicki sentando-se ao lado de Zoe.

― Não somos um casal ― corrigiu Zoe.

― Que pena ― comentou ela, fitando as unhas. ― Ia convidar vocês para um ménage à trois.

― Não estamos interessados.

― Ah, qual é, Zoe! Há quanto tempo você não brinca com sua pepeca? E usando os dedos não conta! A essa altura, ela já deve ter aprendido a linguagem de sinais com cinco dedos.

Théo riu, embasbacado.

― Cala a boca ― cortou Zoe.

― Théo Ângelo?

Théo se sentou no gramado ao ver a sombra de uma figura pairar diante ele. Ben, o guarda, o encarava de cima a baixo, a camisa de botão do uniforme tentando forçadamente esconder sua enorme barriga.

― Sou eu mesmo ― confirmou.

― Siga-me. ― Ben acenou. ― A diretora Sabrina o espera em sua sala.

Olhando preocupado para Zoe, Théo se levantou cautelosamente e seguiu o guarda até o outro lado do gramado.

― Parece que alguém se meteu em encrenca ― comentou Vicki ao lado de Zoe. E depois gritou para Théo: ­― Caso esteja em apuros, qualquer coisa se finge de coitadinho e flerta com a diretora, dizendo que está carente!

­ ­― Vicki! ­ ― ralhou Zoe.

­― O quê? Ela é outra que parece que entrou para o clube do celibato junto com você. E tenho certeza de que ela adoraria um carinho de Théo. Eu mesmo iria amar.

― Você não tem jeito mesmo... ­― Zoe revirou os olhos.

Théo seguiu Ben, que tentava não rir com o que ouvira da conversa de Zoe e Vicki. Logo depois que eles cruzaram o corredor e o saguão principal, Théo perguntou ao guarda:

― Eu fiz alguma coisa de errado?

― Não sei, Sr. Ângelo ― respondeu o guarda, abrindo o portão que dava para a secretaria. ― Apenas sigo ordens, não fico a pá dos assuntos.

O corredor parecia se estender enquanto percorria por ele, andando a passos leves, enquanto pensava em todas as vezes que foi chamado a sala da diretora. Duas no total. A primeira quando teve que falar com sua mãe pelo telefone, logo depois do acidente na quadra de educação física causado por Bryan. A segunda, quando ficou seminu na frente de todos no auditório, durante sua apresentação com Zoe.

Quando Ben bateu a porta e a voz de Sabrina ressoou lá de dentro, mandando-o entrar, Théo congelou no portal, segurando-se no batente para não cair com o susto. Suas pernas subitamente bambas.

Sabrina estava sentada em sua grande poltrona de couro do outro lado da mesa polida de mogno. No lado contrário, sentado confortavelmente e vestido em um terno preto ajustado ao corpo, estava o Sr. Toccacelli, o advogado de sua família que ficou encarregado por todo o processo judicial de Théo quando fora sentenciado a ser mandado para a São Diego.

― Sente-se, Théo ― falou Sabrina, calmamente, cruzando as mãos a frente do corpo, olhando-o mal-humorada.

Cambaleando, Théo sentou-se na poltrona ao lado do Sr. Toccacelli, enquanto desviava o olhar dele para a diretora, em busca de pistas.

O que está acontecendo?

O Sr. Toccacelli era um homem de meia idade, com poucos cabelos grisalhos no topo da cabeça em contraste aos fios de cabelos negros e com uma barba rala. Apesar de sua idade, era bastante conservado, aparentando não ter mais que trinta anos.

Ele era amigo de seu pai há anos, desde que se conheceram no colegial. Seu pai tinha seguido carreira de corretor de imóveis, enquanto o Sr. Toccacelli tinha ido para o ramo da advocacia. Quando seus pais tomaram conhecimento do que Théo tinha feito em seu antigo colégio, automaticamente solicitaram os serviços do Toccacelli, e desde então, vezes ou outras eles tiveram conversas esclarecedoras para tentar ajudá-lo em todo processo judicial.

Pigarreando, a diretora Sabrina começou a falar:

― Sr. Ângelo, como você bem sabe, você foi mandando para a São Diego por tempo indeterminado, por que seu caso ainda estava em processo. ― Enquanto tentava ouvir por cima do barulho que era seus nervos movimentando-se por todo seu corpo, Théo prendeu as mãos suadas na poltrona, tentando manter o controle. ― Hoje o Sr. Toccacelli, advogado responsável pelo seu caso, nos foi enviado para nos dar a respectiva informação: seu caso foi encerrado.

Théo soltou o ar que prendia nos pulmões. Era isso, o pior tinha acontecido. O caso foi encerrado e ele teria que ficar por anos preso naquela instituição para jovens delinquentes.

Seus olhos queimavam, ameaçando a descer lágrimas a qualquer momento, enquanto lutava, erraticamente, para manter a respiração calma.

― Todas as informações proferidas na última audiência foram analisadas pelo juiz responsável, e ontem mesmo, depois de uma reunião, foi sentenciado que você deveria sair da São Diego após um mês de estadia ― falava o Sr. Toccacelli, olhando diretamente para Théo, com um leve sorriso repuxado no canto dos lábios enquanto os olhos brilhavam majestosamente.

Théo ficou mais paralisado do que achou que podia, percebendo o que tinha captado. Seu queixo caiu.

Ele tinha estava livre para sair dali?

― Daqui a uma semana, no dia vinte e seis de julho, seus pais virão lhe buscar para levá-lo para casa ― continuava o Sr. Toccacelli.

― E-e-então apenas estarei livre? ― balbuciou, engolindo em seco.

―Sim... Mas terá que cumprir com um ano de trabalho comunitário no hospital central de seu bairro. ― Enquanto falava, o advogado olhava tudo a volta, como se enxergasse através das paredes da sala toda a extensão do campus, e que sugeria, claramente, que trabalho comunitário era bem melhor que ter que ficar trancafiado naquele reformatório. E para Théo, de fato era.

E então Théo percebeu, como se levasse um soco no queixo: ele iria embora, e Kalleo ia ficar.

* * *

Logo depois que saiu do prédio da diretoria, Théo correu o máximo que pôde, tentando se desviar dos alunos, sentindo os olhos queimando e o corpo tremendo com o nervosismo. Sentia-se puxado de volta para seu primeiro dia no instituto, quando Bryan o derrubou no chão do refeitório e teve que sair correndo da vista de todos.

Ele iria embora em uma semana e teria que deixar Kalleo. O garoto com quem tinha se entendido há poucos dias. O garoto que precisa tê-lo por perto. O garoto que ele amava e não queria abandoná-lo.

Na noite em que teve o pesadelo e acordou alarmado, Kalleo tinha pedido para ele que nunca o abandonasse. E seria exatamente isso que ele estaria fazendo caso saísse da São Diego. O estaria abandonando, deixando-o sozinho.

E Théo não queria deixá-lo para trás, tampouco permanecer nos limites do internato.

Quando chegou embaixo do carvalho, largou-se sentado, encostando as costas no velho tronco e inclinou a cabeça para trás, resfolegando o ar, puxando-o bruscamente para dentro de seus pulmões. Kalleo não estava ali. O local estava assustadoramente silencioso. Era isso que Théo esperava: silêncio. Precisava pensar.

Era irônico o fato de que ele estava poucos minutos atrás falando com Zoe sobre o que aconteceria quando saíssem do internato, e logo depois receber essa notícia de que só tinha mais uma semana no reformatório. Pensava que só sairia depois da amiga, mas agora via que seria ao contrário.

Zoe. Ele também teria que dar adeus a ela e a Juan também. Um gosto amargo se formou em sua boca, e por mais que cuspisse, não conseguia se livrar dele. Parecia estar preso junto a si.

Os rumos que a vida tomava era drasticamente injusta. Théo odiava estar trancafiado a esse campus, mas gostava dos amigos que tinha e de estar na companhia do cara que gostava. Mas sua vontade de sair dali era mais que a de estar com as pessoas que gostava? Caso Théo optasse por ficar, poderia?

Óbvio que não, disse para si mesmo, rindo melancolicamente. Querendo ou não, ele teria que ir embora.

Pareceu se passar horas quando Théo ergueu a cabeça e viu Kalleo sair do corredor que vinha do saguão principal. Quando Kalleo vislumbrou a preocupação estampada no rosto de Théo, visivelmente desconfortável, franziu o rosto e apressou o passo em sua direção.

― Está tudo bem? ― perguntou, sentando-se ao seu lado, passando o braço direito por volta de Théo, puxando-o para mais perto.

Entre tanta preocupação, o braço caloroso e aconchegante de Kalleo lhe trouxe certa estranha segurança. Kalleo era como a ambiguidade, totalmente confuso, que o acalmava com sua presença só de tocá-lo.

― Tem... uma coisa que preciso te contar ― sussurrou Théo, olhando para o chão. Sabia que tinha que contar para Kalleo o quanto antes. De acordo com o Sr. Toccacelli, ele tinha só mais uma semana no instituto; teria que aproveitá-la o máximo, e nesse período, não poderia enganar Kalleo.

― Aconteceu alguma coisa? ― perguntou Kalleo, confuso, os olhos tomados por uma coloração azul e cautelosa, analisando todos os detalhes que Théo expressava.

O coração de Théo saltou. Não existia uma forma melhor de dizer isso.

― Hoje o advogado que ficou responsável pelo meu caso veio aqui.

― Isso é normal ― ele deu de ombros. ― Eles costumam vir todo mês, para obter informação sobre o confinamento do aluno.

― Mas... não foi para isso que ele veio hoje... ― Théo levantou seu rosto, encarando Kalleo de frente. Suspirando, ele cuspiu as palavras rapidamente para fora: ― Ele veio dizer que volto para casa na semana que vem.

Théo esperou por uma reação exagerada de Kalleo, que ele se levantasse, ou até que começasse a xingar, mas nada disso aconteceu. Ele apenas manteve a expressão impassível, olhando ao longe, com os olhos vazios. Sua respiração estava calma e lenta contra seu peito.

Vê-lo assim amedrontou Théo. Ele estava completamente paralisado, absorto em seus pensamentos, não demonstrando nada.

― Kalleo? ― Théo o chamou, tentando despertá-lo de seu devaneio.

― N-não achei que seria tão rápido assim... ― sussurrou, o olhar ainda distante. ― Sabia que iria ficar por tempo indeterminado, mas não esperava que fosse tão pouco assim...

Théo engoliu em seco, sentindo a garganta fechar-se. Por um momento, viu novamente o garotinho transtornado que era Kalleo pedindo para que ele nunca o abandonasse.

― Eu também não esperava. Quando vi o advogado, achei que tinha vindo comunicar que eu teria mais tempo por aqui.

― E-eu não posso ficar sem você... Eu não quero ficar sem você... ― murmurou Kalleo, os olhos arregalados.

Théo se contraiu ao ouvir essas palavras. Sabia que no fundo de sua alma, também desejava por aquilo. Não queria deixar Kalleo. Tinha feito essa promessa.

― Mas... eu não posso ficar, mesmo que eu queira ― lamentou-se.

― Vamos dar um jeito nisso ― falou angustiado. ― Eu prometo.

Pego totalmente de surpresa, Kalleo se inclinou para Théo e o beijou, puxando-o pela nuca, enquanto com os braços, o puxava contra seu corpo. Os pelos de seus braços de arrepiaram como sempre acontecia ao se tocarem; o choque elétrico novamente se espalhou por seus corpos, interligando-os como dois ímãs. Um fogo crepitante se espalhou por dentro de seu corpo, esquentando-o e fazendo-o se sentir mais calmo e aconchegante no local onde estavam.

― Ora, ora, ora! O que temos aqui?

Théo e Kalleo se afastaram bruscamente no instante em que ouviram a voz desdenhosa. Erguendo-se do chão, ambos os garotos encararam Megan parada a cerca de dez metros diante deles, um sorriso diabólico cobrindo todo o rosto enquanto batia palmas com as mãos. Com o cabelo louro preso num rabo de cavalo apertado junto com a saia curta e o enorme decote que tinha na blusa, exibindo grande parte de seus seios, ela parecia o próprio diabo da tentação.

― Então foi por isso, Kalleo? ― ela perguntou, erguendo o queixo. ― Você me largou para ficar com Théo?

― Megan... ― sibilou Kalleo, fechando os punhos e tomando uma atitude ríspida.

― Não venha tentar me intimidar ― ela deu de ombros, andando para mais perto deles. ― Não é de se admirar que tenha preferido ficar com Théo a mim. Ele é um lindo garoto, na verdade. E agora entendo por que eu não tinha chances com você... Você é gay! Gay! ― Ela começou a rir, olhando para o céu. ― Não acredito que passei tanto tempo afim de um gay!

― Cala a boca, Megan ― rosnou Kalleo.

― Você não está em posição de me mandar calar a boca! ― trovejou ela, o rosto ficando vermelho de raiva. ― Eu deveria sair gritando aos berros por aí dizendo o porquê de você ter me dado um fora daquele jeito no auditório! Assim eu não seria mais a garota rejeitada pelo bonitão da escola.

― Muito antes de Théo chegar ao instituto eu já tinha te dito que não queria ter mais nada com você.

― Oh, verdade ― ela torceu a boca. ― Mas esse detalhe não importa.

― Você é uma idiota ― cuspiu Théo, não aguentando ficar calado.

― Ah, Théo! ― Megan se virou para ele, os olhos de um caçador sobre ele. ― Eu sempre suspeitei que você gostasse de Kalleo, mas que ele só o visse como amigo. Achava que você era realmente hétero. Então naquela noite na festa de Key, embebedei você para me dar algumas respostas. Cheguei à conclusão de que realmente gostava dele, e eu estava certa!

O semblante de Kalleo endureceu, mas Megan demonstrou não perceber. Ela estava se divertindo com a situação.

A veia na têmpora de Théo pulsou com a raiva transcorrendo por seus nervos. Megan tentava deixá-los irritados e estava conseguindo.

― Sim, eu gosto dele, Megan ― Théo tentou falar calmamente. ― E você nos viu se beijando. E daí?  Não tenho medo de você sair por aí espalhando para todos o que viu.

Megan recuou o passo quando Théo avançou na direção dela.

― Se fizer isso, você será apenas exposta ao ridículo. O que acha que vão pensar de você? Que estava apaixonada por um gay e por não conseguir atrair sua atenção como mulher, começou a espalhar histórias por aí, como se fosse melhorar a sua reputação. Mas você está enganada.

― De todos os modos ― falou Kalleo, firmemente. ― Você só tem a perder. Não nos preocupa o que você vai dizer.

O rosto de Megan ficou sombrio como Théo nunca poderia imaginar. A garota estava totalmente irreconhecível, a ira emanando de seu corpo.

― Isso não vai ficar assim ― rosnou. ― Ainda vão ter o que merecem. Irão ser perseguidos por todos no instituto! ― E antes que Kalleo e Théo pudesse falar mais alguma coisa, ela virou o corpo e saiu pelo gramado.

* * *

Depois de se despedir de Kalleo embaixo do grande carvalho, Théo voltou para o prédio dos dormitórios.

Ele estava cruzando o portão de entrada do prédio quando, subitamente, esbarrou em alguém e caiu no chão.

Não precisou nem erguer o olhar para saber quem era.

Bryan.

Pondo-se de pé rapidamente, virou-se para sair dali, mas foi preso pela mão de Bryan, que o puxava de volta.

― Calminha.

― O que você quer? ― Théo revirou os olhos. ― Me larga.

― Ainda não vir pegar você como tinha prometido.

― Me larga, seu idiota ― sibilou.

― Não é por que seu protetor Kalleo não está aqui, que você precisa por as garras pra fora ― brincou.

― Já falei para me largar ― rosnou mais uma vez, tentando desvencilhar-se de sua mão que o prendia. Olhou a volta pelo pátio, mas estava vazio. Ambos estavam sozinhos.

― Se eu fosse você, tomava cuidado.

― Do que você está falando? ― perguntou, confuso. Bryan nunca fora de falar assim com ele.

Théo analisou seu rosto. Não demonstrava o asco que sempre expunha em sua presença.

― Kalleo não é o que parece. ― Bryan largou seu braço, endireitando-se. Tinha atraído à atenção de Théo e sabia que ele não iria embora até ouvir o que ele tinha a falar. ― Sempre estive com ele desde que cheguei aqui, e sei de coisas a respeito dele que o assustaria e o faria nunca mais querer vê lo.

― Calunia ― negou Théo, perguntando-se por que estava ouvindo aquilo.

― Será mesmo? ― desdenhou. ― Não acha estranho os desaparecimentos dele? Saber e ter coisas que ninguém mais tem direito? Não seja idiota, Théo. ― Bryan se aproximou mais de Théo, o rosto sombrio. ― Kalleo e eu tivemos um passado. E sei que ele fez coisas de que se arrepende até hoje. Nunca achou estranho o comportamento dele?

Théo engoliu em seco, se afastando de Bryan. Ele o estava assustando. Era isso; esse era o propósito daquela conversa. Assustar Théo a respeito de Kalleo.

― Isso é mentira. Você está mentindo.

― Não estou ― rebateu, sorrindo levemente. ― Se duvida de mim, pergunte a Kalleo sobre aquela noite no banheiro do saguão principal. Ele vai se lembrar perfeitamente.

― Que noite no banheiro do saguão? ― perguntou Théo, atordoado.

― Na noite em que encontraram a Molly depois de ter sido estuprada.





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