O Segredo da Lua escrita por F L Silva


Capítulo 13
Capítulo 13 - Esconderijo Secreto




Tentar dormir nunca foi tão difícil para Théo como naquela noite, tampouco se concentrar o suficiente nas aulas de segunda-feira.

Sentia-se inquieto, como se seu cérebro e corpo estivessem numa única sintonia e desejassem apenas uma coisa: correr. Correr direto para Kalleo. Pela primeira vez, conseguia imaginar como uma pessoa hiperativa se comportava com sua inquietação, e o quão desesperada se sentia para se manter em movimento. Foi assim que ele ficou por toda a manhã. Uma adrenalina pulsante percorrendo por todo seu corpo, implorando ruidosamente por seu movimento, que se movesse direto para ele.

Depois de todas as revelações da noite passada na cozinha, Théo se sentia extasiado, e o melhor de tudo, feliz. Nunca se sentira assim desde que chegara a São Diego, e agora que o tinha, não perderia por nada. Era a sua única ponte para o mundo normal, lá fora.

Logo depois de ambos se beijarem na cozinha, Kalleo teve que se afastar e ir embora antes que a Sra. Lessa voltasse e o encontrasse ali. Ao se despedir, dissera para Théo encontrá-lo no dia seguinte, depois das aulas, embaixo do grande carvalho. Quando finalmente deitou-se em sua cama no dormitório, nem se deu o trabalho de retirar as roupas que vestia; começou a sonhar de olhos abertos, por toda a noite, tocando nos lábios, onde Kalleo o beijara. Nunca ficara tão abobado com um beijo como esse. Quando tentou dormir, percebeu que não conseguia, com a sombra da realidade do ocorrido serpentando por sua mente. Revirava-se de um lado para o outro sobre o colchão desgastado, mas nada de conseguir pegar no sono. Quando percebeu, já era dia e logo se levantou para se arrumar para o início das aulas.

Kalleo não estava no refeitório no café da manhã, todavia também não estava no almoço. Théo não ficou surpreso. Kalleo tinha a arte de desaparecer e reaparecer quando bem entendesse. Embora fosse frustrante quase nunca saber onde ele estava, era sempre atraente a forma como do nada aparecia na frente de Théo, deixando-o alarmado com a surpresa. Gostava disso nele, mas ao mesmo tempo o deixava aflito. Por que, por onde então ele andaria? Havia coisas que Théo não sabia a respeito dele. E tinha que descobrir.

Théo sabia que não poderia ficar por muito com Kalleo embaixo do carvalho, que logo depois do término das aulas, conforme estipulado, deveria pagar sua detenção na cozinha. A segunda detenção que recebia em menos de um mês de aula. Mas achou que poderia dar uma desculpa esfarrapadas para a Sra. Lessa caso se atrasasse um pouco mais. Ela entenderia.

Com o passar do tempo, ele tentou evitar tudo e a todos, apenas fixado em o dia de aulas acabar, mas, infelizmente, não conseguiu escapar do interrogatório de sua amiga, Zoe, no horário de almoço.

― Você tem sorte ― comentava ela, enfiando uma colher de ensopado na boca. ― Eu teria preferido mil vezes ficar na cozinha que na biblioteca. Tem ideia de quantos livros tem lá? Quando eu terminar, faça o favor de se certificar que meu caixão seja lindo e confortável. Por ser cor de rosa, eu não ligo.

Théo não achou que seria tão ruim assim trabalhar na biblioteca, mesmo se fosse limpando os pesados livros poeirentos. Gostava de estar cercado deles. Era reconfortante.

― E sem falar que a Sra. Ramalho é uma cega! Fica colocando os livros nas sessões erradas, e adivinha para quem sobra para arrumar? Euzinha!

― Imagino ― murmurou Théo, olhando ao redor do refeitório para nenhum lugar especifico. Sabia que ele não estaria ali.

― Estava conversando com a Sra. Ramalho ontem sobre a diretora Sabrina. E sabe de uma coisa? Ninguém sabe qual é o sobrenome dela. Parece ser um mistério.

― É mesmo? ― respondeu Théo, pensativo.

― Ei, acorda! ― Zoe estalou os dedos na frente de seu rosto. ― Em que mundo você está? Ah, deixa para lá. Como está sendo trabalhar na cozinha?

― Hum... Legal. ― Ele deu de ombros. ― A Sra. Lessa não é tão rigorosa quantos os demais funcionários.

― É a cozinheira chef? ― Théo assentiu, positivamente. ― Já ouvir falar dela. Dizem que é uma das poucas funcionárias que transam por aqui... ― debochou num murmúrio baixinho, o suficiente para somente Théo ouvir.

Théo não acompanhou o sorriso de Zoe, ficou perdido em seus pensamentos.

― Théo! Você está mesmo alienado hoje! De novo.

― Desculpe... ― murmurou enfiando um pouco de purê de batata na boca. Tinha voltado a comer purê quando deixou de se sentir envergonhado toda vez que o via, lembrando-se de sua primeira noite no reformatório.

― Em que anda pensando? ― ela reclamou, ajeitando os óculos sobre o nariz. ― Deixa-me adivinhar: Kalleo.

Théo concordou e logo se preparou para o falatório de Zoe.

― Eu já te disse, foi um mal entendido o que aconteceu ontem. E, sinceramente, acho que você deveria procurar por ele...

― Ele já me contou ― cortou.

― Como é que é?! ― exclamou ela.

Lentamente, Théo repetiu:

― Kalleo já me contou o que aconteceu.

― Mas... mas... Como? Quando? Onde? Foi depois que sair da cozinha? E por que você não me contou nada? Terei que colocar a porra de um gravador em você para ficar sabendo das coisas?!

Théo não conseguiu evitar rir com a expressão horrorizada que perpassava pelo rosto de Zoe.

― Eu ia te contar...

― Ah, é? Quando? No seu aniversário de cinquenta anos? ― cortou rudemente, erguendo a sobrancelha esquerda.

― Agora... Estava apenas esperando surgir a oportunidade.

― Então, adivinha? Surgiu! Conta logo! ― Zoe se empertigou na cadeira, chegando mais perto de Théo, os olhos ansiosos.

― Ontem quando estava trabalhando na cozinha, depois que todos os outros tinham ido embora, ficou somente a Sra. Lessa e eu, e ela teve que sair para procurar o zelador. Quando ela saiu... ele entrou. Disse que estava esperando eu ficar sozinho para vir falar comigo... ― Théo engoliu em seco, era íntimo demais para compartilhar tudo assim com Zoe. Por fim, decidiu contar apenas o básico. ― Ele me contou o que aconteceu, que tinha sido um mal entendido, e...

― E...? ― esperou a garota. ― Vai, conta!

― Nos beijamos. ― Théo baixou o rosto para a mesa, sentindo as maçãs do rosto esquentarem. Devia estar parecendo um camarão.

Zoe soltou um gritinho estridente, pulando na cadeira. Alguns alunos que estavam por perto se viraram para ela, encarando-a, fazendo careta. Ela pouco se importou.

― E como foi o beijo? ― quis saber.

― Normal. ― Ele mordeu o lábio inferior, lembrando-se da sensação dos lábios márcios de Kalleo sendo pressionados contra o seu. ― Como qualquer outro.

― Aposto que você se derreteu todo!

― Não é pra tanto. ― Ele riu.

― Claro que é. Você gosta dele! Dá pra ver a maneira como seus olhos brilham ao falar dele. Você está perdidamente apaixonado.

Théo virou o rosto, mordendo o interior da bochecha. Sentia-se envergonhado de estar conversando sobre aquilo. Nunca teve o costume de falar de seus sentimentos com ninguém.

― E você? ― perguntou, tentando desviar do assunto.

― Eu o quê?

― Você é linda, atraente, aposto que tem vários caras correndo atrás de você.

― Ah! ― Ela revirou os olhos. ― Tem o Alan, do segundo ano. De vez em quando nos pegamos. Nada demais.

― Alan? ― perguntou Théo, vasculhando em sua memória alguém conhecido com esse nome. ― Nunca o vi.

― É um moreno baixinho. Poucas pessoas o notam.

― Gosta dele? ― quis saber. Mas pela expressão de Zoe, ela não se sentia confortável falando dele.

― Não ― respondeu secamente. ― Mas ele dá pro gasto. Como minha mãe sempre diz: Se conforme com o que tem, e use o quanto puder.

* * *

― Ei, Théo! ― chamou Juan assim que Théo fechou a porta de seu armário, aparecendo do outro lado. Ele exibia um sorriso que deixava a amostra todos seus dentes brancos perfeitamente alinhados. ― Como está?

― Bem e você? ― respondeu se encostando ao armário.

― Bem, obrigado. Como foi seu primeiro dia de detenção na cozinha?

― Entediante. ― Ele deu de ombros. ― Ser padeiro não é o que quero pra minha vida.

Juan riu.

― Espera. Como sabe que é na cozinha? ― perguntou, lembrando-se que não tinha falado para ele.

― Encontrei com Zoe na biblioteca, e ela me disse que você ficou lá.

― Imagino que a notícia de que sou o novo cozinheiro já tenha se espalhado pelo instituto, então ― comentou Théo, fazendo piada.

― Quem se importa afinal com o que os outros pensam?

― Por que não foi à aula hoje?

Juan não tinha aparecido na aula de história e isso deixou Théo curioso. Até onde sabia, era proibido faltar às aulas por livre vontade.

― Estava na enfermaria. Acordei com dor de cabeça e tive que ficar por lá.

― Uma boa desculpa pra faltar à aula ― brincou Théo. ― Vou aderir essa nas aulas de história também.

― Nada disso! ― Juan sorriu. ― Não vale me deixar sozinho nas aulas daquela velha.

― E você não me deixou hoje?

― Foi diferente; por precisão. Sabe que adoro as aulas com você. ― E piscou o olho para Théo, se afastando de costas. ― Agora tenho que ir. Até mais.

Só depois que ele desapareceu no corredor abarrotado de alunos andando de um lado para o outro, foi que Théo se lembrou: tinha que encontrar Kalleo no fim das aulas.

― Puta merda! ― xingou.

Andando com o passo acelerado, correu escadas abaixo, chegando ao saguão e virando à direita, passando pelo corredor estreito.

Enquanto andava, desabotoou o primeiro botão de sua camisa e afrouxou o nó da gravata.

Sob a sombra do enorme carvalho, Kalleo estava escorado no tronco, de braços cruzados. Seu rosto se abriu num largo sorriso assim que Théo parou a sua frente.

― Desculpe o atraso.

― Tudo bem. Acabei de chegar.

Diferente de Théo que estava vestido no uniforme escolar amarrotado, Kalleo vestia uma calça jeans e uma camiseta sem mangas com gola V de cor azul escura. Estava lindo como sempre. Atraente e incrivelmente sexy. Era notório como todas as roupas que ele usava caíam perfeitamente em seu corpo esbelto e definido.

― Quero te mostrar uma coisa ― falou, segurando a mão de Théo. ― Uma das poucas coisas linda que tem por aqui.

― Não achei que havia algo aqui que você pudesse achar bonito.

Beeeeem... ― ele cantarolou. ― É a segunda coisa mais bonita que vejo por aqui, depois de você, claro.

Théo corou intensamente. Kalleo o achava bonito!

Claro que ele o acha bonito. Ele gosta de você, anta!, repreendeu seu subconsciente.

― Adoro quando você fica assim ― murmurou se aproximando de Théo e segurando seu rosto corado, fixando seus olhos nos dele. ― É extremamente fofo.

― Essa é uma palavra que me persegue há anos.

― Então deve estar acostumado a ter bastantes pessoas correndo atrás de você.

A voz de Kalleo era baixa, quase que num sussurro, mas carregada de um tom de flerte.

― Na verdade, não ― negou.

― Ah, não? ― brincou. ― Então o que foi aquilo no banheiro com Toby outro dia?

Théo corou mais ainda, lembrando-se da situação.

― Não vamos falar disso.

― Tem razão ― concordou. ― Passou no seu quarto antes de vir? Não está com sua mochila...

― Deixei-a no armário. Amanhã antes das aulas eu a pego.

― Boa percepção ― comentou, olhando a volta, para o céu. ― Por que ela no momento não seria de ajuda.

― Por que, não? ― quis saber, passando o peso do corpo para outra perna.

― Diga-me, Théo: tem medo de altura? ― perguntou, levantando o queixo enquanto enfiava as mãos dento dos bolsos da jeans.

― Nunca foi meu forte ― respondeu Théo, lembrando-se da vertigem que o alcançava sempre que estava em lugares altos e olhava para baixo, vendo o mundo de outro ângulo totalmente aterrorizante. De repente, a percepção cruzou por seu rosto, enquanto Kalleo sorria maliciosamente.

― Sabe subir em árvores, Sr. Ângelo?

― O quê? Vamos subir no carvalho? ― Sua boca ficou seca.

― É a intenção. ― E sorriu calorosamente, deixando Théo, de certa maneira, mais calmo. ― Experiências ruins?

― Sim... ― murmurou olhando para a árvore de cima a baixo, recordando-se de quando tinha 9 anos de idade e estava brincando no quintal da casa de Will. Era a primeira vez que tentava subir em árvore, e não tinha descoberto seu medo de altura ainda. Will tinha subido na árvore primeiro e Théo foi logo atrás. Quando conseguiu se sentar em um dos galhos, olhou para baixo e de repente o mundo a sua volta girou com o medo que sentiu com o chão há três metros abaixo. Logo depois, estava caindo de joelhos, estatelado.

Théo afagou seus joelhos, como se ainda sentisse os machucados que lhe irromperam da pele. Desde aqueles dias evitou subiu em árvores e estar em lugares altos que lhe dessem ampla visão do chão.

― Eu também já tive experiências ruins assim ― confessou Kalleo, dando de ombros.

― E por que quer subir nessa árvore?

Kalleo ficou calado, olhando para o topo do enorme carvalho. Depois, respondeu:

― Para poder enxergar a beleza, precisa alcançá-la antes.

O.K., deliberadamente aquilo não fazia sentido algum para Théo, mas decidiu não perguntar. Ainda não estava convencido com a ideia de subir novamente em árvores quando seguiu ao lado de Kalleo até o tronco do carvalho.

Por baixo da sola do tênis, conseguia sentir as duras e espessas raízes do carvalho protuberantes para fora da terra.

Kalleo virou-se para Théo, os olhos cinzentos ternos penetrando-o com profundidade.

― Quero lhe mostrar uma coisa. Mas terá que confiar em mim e subir no carvalho, O.K.?

Théo assentiu com a cabeça, hesitante. Não queria subir naquela árvore, mas o olhar penetrante de Kalleo, sua presença ao seu lado, o deixaram bastante confortável para aceitar. Além do mais, ele confia em Kalleo.

― Vou à frente e você vem logo em seguida, reconstituindo meus passos.

Prontamente, como se já tivesse feito isso várias vezes, ele colocou o pé numa pequena abertura no tronco e começou a escalar. Suas mãos seguravam-se em eixos protuberantes da madeira escura e dos ramos viscosos. Seu corpo era como o de um atleta que escalava paredes por diversão. Théo conseguia ver os músculos dos braços de Kalleo se contraindo ao ser impulsionado para cima. Logo, ele alcançou um galho grosso o suficiente para aguentar seu peso. Olhou para baixo, e sorriu para Théo.

― Sua vez.

Respirando fundo, Théo tentou seguir os mesmos passos de Kalleo, colocando o pé direito no buraco do tronco, impulsionando seu corpo para cima, agarrando com as mãos os ramos viscosos. A cada vez que subia um pouco mais, parava por tempo suficiente para inspirar e expirar, recostando a cabeça à casca dura do tronco, tentando não olhar para baixo. Sabia que iria se desconcertar se o fizesse. Seus braços e pernas tremiam levemente com o medo. Quando chegou perto de Kalleo, este se inclinou para baixo, estendendo a mão para Théo. Ele o agarrou e sentiu-se sendo içado para cima. Os braços de Kalleo circularam por seu corpo, segurando-o pela cintura enquanto ambos se equilibravam de pé. As folhas verdes do carvalho roçavam seus corpos.

― Não foi tão difícil assim, foi?

― Diga por você.

Kalleo sorriu.

― Vem ― chamou. ― Ainda temos que subir mais.

― Mais?! ― guinchou Théo, olhando para cima, vendo apenas o verde das folhas e o azul do céu entre elas.

Dessa vez, ambos escalaram juntos, a todo o momento Kalleo segurando Théo, certificando-se de que ele não cairia. Théo àquela altura rezava silenciosamente. Tinha medo de suas pernas fraquejassem e acabasse escorregando, caindo de bunda no chão. Sua mão começava a suar com o nervosismo.

― Vai ficar tudo bem ― disse Kalleo. ― Estamos chegando. Não olhe para baixo.

Quando finalmente chegaram até o topo, Théo ergueu seu corpo, colocando a cabeça para fora, as folhas roçando seus ombros. Kalleo fez o mesmo ao seu lado. O espaço em que estavam sobre o cruzamento de dois grandes e grossos galhos era estreito e pequeno para duas pessoas. Assim, ambos os garotos tiveram que ficarem juntos, um de frente para o outro. As mãos quentes e macias de Kalleo seguravam a cintura de Théo, equilibrando-o e trazendo equilíbrio para si mesmo.

Théo sentiu o clima a volta mudar, seu corpo esquentando em contado com o de Kalleo. Levantou os olhos para a boca carnuda e rosada dele, esperando beijá-lo, mas não ousou se aproximar. Simplesmente ficou olhando a beleza estonteante que o garoto carregava. Podia fazer isso por horas e nunca se cansaria. Mas diferente de Théo, Kalleo não olhava para ele. Tinha seu olhar virado para o oeste.

― Quero que veja isso ― falou ele.

Théo seguiu seu olhar, e se deparou com a mais linda visão que poderia ter na São Diego. Sua respiração parou com tamanha beleza esplendida. O céu estava num misto de cores gradientes entre o azul-claro, laranja opaco e um tom róseo. O pôr do sol. Era encantadoramente esplêndido.

― É lindo ― murmurou ele, encantado. Tentou recorda-se da última vez que vira o pôr do sol, mas não conseguia lembrar. Porém sabia que nenhum jamais se comparava com aquele que via diante de si.

― Esse é meu refúgio ― disse Kalleo ao seu ouvido, olhando para o sol poente. ― Venho aqui sempre ao término das aulas, e passo horas encarando o céu até ficar completamente escuro, preenchido pelas estrelas.

― Então é aqui onde está quando some do instituto?

― Quase sempre ― respondeu torcendo a boca. ― Tenho sorte de ter encontrado esse lugar. É um lugar só meu. Geralmente venho aqui quando quero ficar sozinho e pensar. É o único local que me faz sentir-se normal e distante de todo esse mundo a minha volta, no qual estou preso.

 Théo entendia o que ele queria dizer. O carvalho era com sua âncora, que o ajudava a se erguer sempre que precisava. Era sua conexão. Ele sentiu inveja. Desejava por um lugar assim tanto quanto qualquer outro aluno.

― Agora não é somente meu ― continuou Kalleo, dessa vez, olhando diretamente para Théo. ― É nosso. Trouxe você aqui, e meio que você descobriu outro dia. Então...

Uma luz se acendeu no peito de Théo. Kalleo queria dividir aquele lugar com ele. Um lugar somente dos dois. Não pôde evitar sorrir.

― E então? O que achou da vista?

― É magnífica. Eu amei.

― Eu sei que sou magnífico, mas me referia ao pôr do sol ― brincou, exibindo um sorriso presunçoso.

Théo olhou novamente para o pôr do sol, extasiado, olhando para sua beleza gloriosa. Sentia-se estranhamente livre de um grande peso que parecia carregar em suas costas.

― Como se sente? ― perguntou Kalleo ao seu ouvido, a voz notoriamente rouca.

― Livre ― respondeu, suspirando. ― Livre de todo o peso que carregava comigo.

― Apreensão? ― Kalleo torceu a cabeça de lado.

― De tudo o que passei, sabe. Não sei se com todos os calouros são assim... ― Théo mordeu o lábio inferior e depois continuou: ― Pelo sufocamento do reformatório, a perseguição de Bryan, o fato de eu me meter em encrenca facilmente e... e...

Tentou continuar, mas sua garganta fechou com o último motivo.

― Com o fato de eu tê-lo atormentado essa última semana ― continuou Kalleo, já sabendo o que seria. Seus olhos observavam Théo com hesitação, aflitos. ― Desculpe...

― Eu ia dizer: pelo papelão que fiz na frente de todos com Zoe no auditório ― mentiu, tentando confortar Kalleo. Era visível o desconforto que Kalleo sentia ao falar disso, e causava o mesmo efeito em Théo. Não queria falar disso ou sequer lembrar.

Kalleo permaneceu calado por uma fração de segundo, depois balançou a cabeça, rapidamente se recuperando de seu arrependimento, suas feições se suavizando, e disse:

― Não sei o que diabos você tinha na cabeça ao fazer aquilo.

― Queria te provocar. ― As palavras saltaram de sua boca e logo quis agarrá-las e engoli-las de volta. Kalleo já matinha seu olhar malicioso, os olhos cinzentos cintilando. Logo, as bochechas de Théo coraram.

― Me provocar? ― instigou, umedecendo os lábios.

Théo pigarreou, desviando do olhar dele.

― Só queria mostrar que sou independente ― desviou-se.

― Se queria me provocar, conseguiu ― declarou, sorrindo levemente, encostando-se ao tronco da árvore atrás de si. ― Me deixou completamente excitado enquanto dançava eroticamente só de cueca e gravata. Mas a partir de agora, gostaria que dançasse daquele jeito somente para mim. De preferência, no meu quarto.

Théo enrubesceu mais ainda, sentindo sua garganta secar. Por um momento, perdeu a equilíbrio de um de seus pés e quase escorregou, quando rapidamente Kalleo o puxou para junto de si, encostando seu corpo no dele.

O hálito quente de Kalleo batia em seu pescoço, provocando-lhe uma sensação arrepiante por toda sua pele. Os braços de Kalleo estavam em volta de suas costas, enlaçando-o e prendendo junto a si, seus rostos com dez centímetros de distância um do outro, enquanto olhavam-se fixamente. O coração de Théo batia freneticamente quando Kalleo se inclinou para baixo e seus lábios tocaram os dele. Primeiramente, leve e suave, como da outra vez, e logo foi se aprofundando, exigindo mais, beijando-o com mais acuidade. O calor intenso se espalhava por ambos os corpos colados. Théo passou suas mãos pelo corpo do garoto, sentido seus músculos por cima de sua camiseta, enquanto Kalleo fazia o mesmo, enfiando a mão direita por baixo da camisa de Théo, tocando sua pele quente e macia, subindo pelo tronco e arranhando de leve a pele, causando mais arrepios pelo corpo.

Quando se afastaram, Théo encostou a cabeça no peito de Kalleo, inspirando o ar para dentro de seus pulmões. Kalleo beijava o topo de sua cabeça, afagando os cabelos louros.

― Quero te dar um presente ― disse Kalleo.

Théo se afastou do seu peito, encarando-o.

― Um presente? O quê?

― Não é exatamente um presente, mas... Conta como um. Vai saber quando estiver com ele. É uma surpresa ― disse misteriosamente. ― Vai fazer você se sentir melhor e mais conectado com o mundo lá fora.

― A curiosidade também nunca foi meu forte ― disse, empertigando-se querendo saber o que era.

― Nesse caso, você terá que esperar.

Théo bufou, revirando os olhos.

― Até quando?

― Até amanhã à noite. Passarei no seu quarto para irmos buscar.

― E onde está o presente? ― perguntou Théo, confuso.

― Trancado a sete chaves. ― E sorriu maliciosamente.





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