O Segredo da Lua escrita por F L Silva


Capítulo 12
Capítulo 12 - Atração Obscura




Desde o momento em que Théo conheceu Kalleo, pensou que nada poderia lhe assolar mais do que quando se viu sendo rejeitado de uma maneira inimaginável. Mas ele estava errado. Deu-se conta disso no momento em que ele presenciou o ridículo daquela apresentação dele, em declaração a Megan. Ele tinha sido um tolo, um imbecil, achando que Kalleo cantava para ele. Ora, essa! Por que ele cantaria para Théo? Só por que o beijou outro dia? Ou por causa de um pedido de desculpas de como vinha o ignorando há um tempo sem explicação? Ele já tinha pedido desculpa por aquilo, no dia em que entrou em seu quarto, pegando-o de surpresa, como sempre aparecia.

Claro, Théo não percebera todos os sinais. O fato de Megan ter corrido atrás de Kalleo todo esse tempo, pedido sua ajudar para voltar o namoro com ele, o episódio deles juntos no outro dia quando saíram do pátio... Como ele foi tão estúpido a ponto de pensar que Kalleo poderia gostar dele da forma que ele gostava?!

Seu estômago afundava a cada vez que pesava nisso, assombrando sua mente como um fantasma inoportuno. Por mais que tentasse desviar esses pensamentos de sua cabeça, não conseguia. Estava com muita raiva, queria socar a cara de alguém, mas tinha que se conformar em apenas deixar as lágrimas de raiva cair de seus olhos.

Tinha saído correndo do auditório assim que testemunhou Megan se jogando pra cima de Kalleo, e se encaminhava para começar a cumprir sua detenção na cozinha. Passava a toda velocidade por corredores escuros, de cabeça baixa, secando as lágrimas com as costas das mãos, quando virou à esquerda num corredor e bateu de frente com uma grande massa de músculos maior que ele. Seus tornozelos giraram, bambos, e ele caiu esparramado de bunda no chão. Puta merda!

― Desculpa! ― alguém exclamou, se abaixando para ele e passando os braços em volta de seu corpo.

Piscando os olhos para afastar as lágrimas, Théo vislumbrou o rosto de Juan parado a centímetros do seu, carregando um ar de preocupação ao notar seu rosto molhado.

― Está tudo bem?

Juan o ajudou a ficar em pé, mas sua mão permaneceu segurando-o pelo braço. O calor emanava de sua mão direto para a pele fria de Théo.

― Estou ― respondeu, engolindo as lágrimas.

― O que aconteceu? ― Os olhos verdes do garoto analisavam, preocupados, seu rosto.

Théo suspirou olhando a volta pelo corredor. Estava vazio.

― Nada de importante.

― O nada não faz pessoas chorarem ― insistiu.

Théo cerrou a mandíbula. Sentia o queixo começar a tremer, mas não de frio. Era de nervosismo.

Juan percebeu.

― Vem comigo.

E sem esperar por uma reação de Théo, agarrou o garoto pela mão e o puxou pelo corredor, guiando-o na direção oposta do auditório a suas costas. Seus pés se moviam mecanicamente, seguindo Juan pelo corredor e virando em outro à esquerda, depois pararam em frente a um bebedouro.

― Acho melhor você beber um pouco de água.

Sem fazer cerimônia alguma, Théo fez o que ele pediu. Enquanto bebia água, sentia os olhos de Juan olhando-o por trás. Era sempre assim quando estavam juntos. Passou por sua cabeça o que Zoe falara a respeito de Juan em sua troca de bilhetes na sala de aula, na segunda-feira passada. Ela disse que parecia que Juan estava interessado nele. Seria isso, talvez? Rapidamente dispersou o pensamento da mente, encostando-se na parede enquanto Juan se inclinava sobre o bebedouro para beber água.

Suas pernas ainda estavam bambas, e sem pensar exatamente no que estava fazendo, desceu para o chão, sentando-se com as pernas esticadas a frente. Juan o olhou torto, depois sem dizer nada se sentou ao seu lado, seu ombro encostado no de Théo.

Estranho, Théo sentia a pele da mão onde Juan o tocara fria, assim como o restante de seu corpo. Agora, seu ombro que estava quente, encostado ao dele. Juan emanava um calor totalmente extraordinário para ele... Mas e se essa sensação fosse apenas coisa de sua cabeça? Théo costumava ter o péssimo hábito de tomar decisões erradas a respeito de tudo a sua volta.

― Vai me dizer por que estava chorando? ― Juan quebrou o silêncio, olhando fixamente para Théo.

Desde o momento em que Théo esbarrou em Juan até ali, tinha se esquecido de tudo a sua volta, o porquê de estar chorando e como se sentia. Era como se tudo tivesse ficando em segundo plano. Como tinha esquecido essas coisas que julgava ser tão importante? Então seu subconsciente sussurrou a resposta: É assim sempre que você está com ele. E era verdade. Juan causava esse efeito nele, e isso o deixava assustado.

― Eu... ― Parou, tentando estruturar uma resposta adequada sem responder exatamente o motivo. ― Só estou estressado. Estou aqui há mais de duas semanas e todo esse ambiente está me sufocando. Eu não aguento ficar aqui. Eu não quero. Quero ir pra casa e ficar com meus pais. Acordar na minha cama todas as manhãs, tomar café na mesa da cozinha da minha casa, ir para o colégio com o Will, assistir filmes de terror com minha mãe... ― Sua garganta apertou. Embora essa não fosse a resposta correta para a pergunta de Juan, era a resposta correta de como ele se sentia. Era o que seu subconsciente queria.

― Eu entendo ― assentiu com um olhar de compaixão. ― Também queria poder estar de volta em minha casa. Nas minhas primeiras semanas na São Diego foi difícil pra mim também. Não conseguia me adaptar e ficava andando pelos cantos, escondido...

― E como conseguiu superar?

― Eu não conseguir. Acho que, ninguém aqui jamais conseguiu superar. Apenas... aprendem a viver com isso.

― É um bom conselho ― respondeu amargamente.

― Eu acredito que cada pessoa possa levar a vida que quiser aqui no reformatório. Se quiser ser feliz, será. Mas se quiser viver infeliz, não precisa fazer exatamente nada que esse local se encarrega sozinho. São as nossas ações que muda o nosso caminho.

Théo não comentou nada a respeito disso porque não partilhava do mesmo pensando e não queria expô-lo. Achava que se a pessoa fosse feliz naquele reformatório, seria apenas uma máscara. Uma fachada que a própria pessoa mantinha inconscientemente, apenas porque quer acreditar nisso.

― Quem é o Will? ― perguntou Juan, subitamente, o rosto ligeiramente sombrio.

― Meu amigo de infância.

Suas feições se suavizaram com a resposta.

Théo ficou desconfortável. O que foi aquilo? Juan simplesmente ficou carrancudo ao perguntar sobre Will. O que isso queria dizer?

Mudando de assunto, disse:

― O que estava fazendo no lado de fora enquanto todos estavam no auditório?

― Depois que a diretora, Zoe e você saíram, aproveitei para escapar e fui até o banheiro. Estava voltando para lá quando você esbarrou em mim... A propósito: o que você tinha na cabeça ao fazer aquela apresentação? ― Sua cara era de espanto, com um meio sorriso.

― Eu não sei ― desviou-se da pergunta. ― Só queria fazer algo diferente. Dar ao público o que eles querem.

― E o que você acha que o público queria?

― Sexo ― respondeu, sentido suas bochechas corarem. ― Tecnicamente, é o que todos os adolescentes querem. Obviamente, não transei com Zoe naquele palco, mas a coreografia foi bastante convincente em referência a isso.

― Vocês quase transaram de roupas. ― Juan não olhava para ele, olhava para o outro lado do corredor. ― Devo admitir: vocês dançam bem. Mas não nego que fiquei com um pouco de ciúmes.

A boca de Théo secou. Desconfortável, ele se levantou do chão.

― Tenho que ir ― anunciou, já andando pelo corredor.

― Espera ― chamou Juan a suas costas. ― Aonde vai?

― Cumprir minha detenção.

* * *

Quando Théo chegou à cozinha, apresentou-se a cozinheira chef, que àquela altura já sabia sobre sua presença no estabelecimento por uma semana, e lhe mandou amassar a massa de pão. De modo desajeitado, Théo a amassava rudemente, dando socos nela como se esmurrasse a cara de alguém.

A conversa com Juan tinha-o distraído de sua raiva, deixando-o mais relaxado, mas no momento em que saiu de perto dele, tudo veio à tona como um tornado, todos os sentimentos misturados num só.

Estava de mau humor, com raiva e, acima de tudo, magoado.

Não queria mais ver Kalleo, tampouco à cara de qualquer outro aluno da São Diego. Tudo o que queria naquele momento era se enfiar debaixo da terra e nunca mais sair de lá. Sentia-se ridiculamente exposto e retraído, como nunca ficara antes. Seu castigo, afinal de contas, não tinha sido apenas uma punição pelo que tinha feito, e sim sua salvação do mundo interno do reformatório.

Théo nunca tinha visto o mundo por dentro da cozinha de um estabelecimento, somente dos programas de reality show que passava na televisão nas noites de terça-feira. Então, imaginava que na cozinha do instituto seria algo parecido, mas ficou totalmente atordoado quando notou a passividade dos funcionários, andando calmamente de lá para cá, como se estivesse acostumados a fazer isso há anos ― o que, na verdade, era o mais provável.

― Imaginei que já estaria aqui. ― Théo ergueu a cabeça encarando Zoe do outro lado da mesa, com as mãos apoiadas nos quadris. Automaticamente, baixou sua cabeça e continuou a amassar a massa de pão.

― Não tinha que estar limpando a biblioteca?

― Tecnicamente, sim. ― Ela deu de ombros. ― Mas aposto que a Sra. Ramalho não se importará se eu me atrasar um pouco. Teremos uma longa semana pela frente.

― Bom pra você ― retrucou, secamente. Não queria papo com Zoe. Na verdade, não queria conversar com ninguém.

― O que deu em você pra sair daquele jeito do auditório? ― quis saber, o tom autoritário voltando a sua voz.

― Nada ― recuou ele, hesitante. ― Achei que devíamos ir cumprir nosso castigo após o fim das apresentações.

― Mas não precisava ter saído correndo desembestado como uma mula ― rebateu.

― Talvez por que eu realmente queria sair correndo como uma mula ― ele desdenhou, a irritação plausível em sua voz. Por outro lado, Zoe sequer se incomodou. Claro que não. Nada a fazia se retrair.

― Você saiu daquele jeito por causa dele, não foi?

Théo não respondeu, meramente cerrou os dentes, incomodado. Zoe era sua amiga, mas ela devia saber até que ponto chegar. Não gostava de ser pressionando, e estava claramente visível que ele não queria conversar. Não tinha que falar sobre o que ele sentia no momento com ninguém. Não era preciso. Era muito bem capaz de suportar tudo sozinho, sem precisar dividir.

Pelo menos, era isso que ele pensava...

― Você agiu por impulso ― continuou ela, após perceber que ele não iria lhe responder. ― Não devia ter saído correndo daquela maneira antes de tudo acabar.

― Pensei que tinha acabado no momento em que Megan se jogou nele ― empertigou-se sobre a mesa.

― Óbvio que não. Teve mais.

― Não me interessa saber se eles se beijaram ou não na frente de todos ― falou, o rosto esquentando ao imaginar a cena. Seu estômago afundou com o pensamento.

― Théo, você não percebeu? ― ralhou a garota, agora irritada. ― Ele cantou aquela música para você!

― Jura? Não pareceu. ― Ele olhou mais uma vez para a garota, os olhos ameaçando encher-se de lágrimas.

― Claro que era. Ele estava sempre olhando pra você!

― Mas se referindo a outra pessoa! ― vociferou. ― Até por que, quando ela subiu ao palco agradecendo, ele não fez nada para evitar.

― Isso por que...

No meio da frase, Zoe foi interrompida pela cozinheira chef, a Sra. Lessa, uma mulher baixinha e rechonchuda de meia idade.

― Não é permitida a entrada de alunos aqui, mocinha ― ralhou, olhando feio para Zoe. ― Como entrou aqui?

― Eu... Hã... É...

Repreendendo-se, Zoe recuou o passo, andando lentamente de costas em direção à porta de entrada da cozinha que levava para o refeitório.

― Depois continuamos essa conversa ― disse para Théo, antes de sair pela porta.

* * *

Quando todos na cozinha terminaram de servir o jantar daquela noite, Théo teve permissão para descanso. Conseguiu por um pouco de comida para dentro do estômago a força, mesmo não tendo a mínima vontade de comer. Simplesmente sentou-se numa mesa de armar no canto da cozinha e ficou comendo enquanto alguns dos funcionários iam embora, deixando apenas a Sra. Lessa e ele.

― Quando terminar de comer ― disse a Sra. Lessa, limpando o fogão com uma esponja de aço e um pano úmido. ― Não se esqueça de limpar a sua bancada.

― Sim, senhora ― assentiu.

― O que você fez para lhe resultar essa punição? ― perguntou a mulher, olhando Théo por um breve instante, mas logo voltando a esfregar a bucha no fogão engordurado.

Mordendo o interior da bochecha, ele respondeu:

― Minha amiga e eu nos despimos na apresentação de hoje.

― Oh, Deus! ― exclamou, embasbacada. ― Ficaram completamente nus?

― Não, claro que não! ― corrigiu rapidamente. ― Ficamos com a roupa de baixo.

― Que pouca vergonha ― murmurou, enquanto balançava a cabeça negativamente.

Théo não se importou com os comentários da cozinheira. Nada que dissesse poderia mudar o que aconteceu.

― Sabe ― ela continuou dizendo. ― Eu não sei dizer se você é corajoso ou idiota. Nenhum aluno jamais fez o que você e aquela garota fizeram hoje. Mas aposto que deixaram a Sabrina furiosa!

E piscou para Théo, sorrindo levemente.

― Devia ter visto a cara dela ― disse ele, rindo ao lembrar-se. ― Nunca a vi tão puta de raiva.

― Imagino! ― A Sra. Lessa riu. ― Ela passa por uns bocados aqui no reformatório. De vez em quando surge um aluno para deixá-la a flor da pele.

Diferente de todos os outros funcionários na São Diego, a Sra. Lessa era de longe a mais simpática, e a única com quem Théo se viu tendo afinidade. Ela não parecia carrancuda e ranzinza como a maioria. Claro, durante o período de trabalho na cozinha, mantinha uma postura mandona e autoritária por seu cargo de chef, mas fora isso, percebeu Théo, ela era uma boa pessoa.

― Bem, terminei aqui ― falou a cozinheira se afastando do fogão. ― Já terminou aí?

― Sim, senhora. ― Théo se levantou da mesa redobrável e levou o prato junto com os talheres para a pia para lavá-los. Molhou a esponja e jogou um pouco de detergente sobre ela.

― Enquanto você termina de lavar isso aí e limpa a mesa, vou procurar pelo zelador para vir limpar o refeitório. Só posso ir embora e trancar o local depois que estiver tudo em ordem.

Tirando seu avental, pendurou-o junto com os demais na parede perto da porta, ajeitou seu cabelo grisalho e saiu.

Théo voltou à atenção para a pia. Tinha acabado de secar a lousa e guardá-la quando a porta da cozinha se abriu novamente. Esperou que fosse a Sra. Lessa que teria voltado para pegar alguma coisa que se esqueceu, quando uma voz conhecível o chamou:

― Théo? ― Seu corpo se contraiu com a voz que geralmente soava calma e atraente sendo emitida receosa e angustiada, como a de um garotinho acordando a noite depois de ter tido um pesadelo.

Lentamente, virou-se de costas, o coração batendo loucamente contra o peito. Kalleo o encarava do outro lado da cozinha, os lábios entreabertos resfolegando como se tivesse feito uma longa corrida. Seus olhos, arregalados, buscavam os de Théo, mas sem encontrá-los. Théo não olhava para ele. Simplesmente pegou o pano umedecido que a Sra. Lessa usou alguns minutos antes limpando o fogão e começou a passá-lo pela bancada, limpando o restante da massa de pão.

― Eu... Eu estava te procurando... ― Kalleo se aproximou da mesa, ficando parado no outro lado. ― Procurei você por toda a escola, mas não o achei em lugar algum. Então esbarrei em Zoe e ela me disse que você estaria aqui.

Théo ouvia o que ele dizia, mas não demonstrou captar a mensagem. Continuou limpando a bancada, querendo terminar logo e ir embora. Não queria conversar com Kalleo, e por mais que doesse não respondê-lo, teria que se manter firme. Estava cansado de ser feito de idiota.

― Fiquei a espreita, esperando você ficar sozinho para vir falar contigo, sem que corresse o risco de eu ser expulso pela Sra. Lessa... ― continuou.

Ele sabia que estava agindo como uma criança, não dando importância a Kalleo, ficando calado. Mas, durante todo o tempo, dizia para si mesmo permanecer calado. Era o melhor para ele. Não queria mais se machucar.

― Théo. ― Kalleo suspirou, segurando a borda da bancada com força. ― Fala comigo... Por favor... ― completou após receber o silêncio como resposta.

Engolindo em seco, Théo se afastou da bancada que tinha terminado de limpar, indo para o outro lado para deixar o pano na prateleira de produtos de higiene. Quando se virou de costas, Kalleo estava parado a centímetros dele, os olhos fixos nos dele intensamente.

Retraindo-se, recuou o passo e se chocou contra a prateleira de aço fria. O peito arfando com aqueles olhos encarando-o com veemência, percorrendo por todo o seu rosto. Ele sentiu a pressão do ar mudar, ficando mais abafado e denso sobre sua pele. O ar escapava dos seus pulmões, deixando-o sufocado. Uma corrente elétrica emanava de todo seu corpo.

Era isso o que Kalleo provocava nele.

 ― Não vai falar comigo? ― sussurrou Kalleo com a voz hesitante.

Théo foi arrebatado pela súbita vontade de suspirar e jogar seu corpo contra o dele, enlaçando-o com seus braços, e encostando sua cabeça na linha do pescoço de Kalleo, onde sabia que era quente e reconfortante. Tentava, em vão, desviar os olhos dos lábios rosados e carnudos dele, mas a vontade, a ânsia, o desejo, era maior do que ele esperava. Céus! Nunca chegou a se sentir assim com mais ninguém, e essa era, sem dúvida, uma sensação única que só poderia sentir com a presença de Kalleo.

Mas ele não cederia. Não podia. Não com tudo que se passava em sua cabeça.

Cerrando a mandíbula, ouviu sua voz vacilante dizer:

― Eu não tenho nada para falar com você.

― Tem sim ― falou Kalleo, convicto, não se deixando abalar. ― Temos muito que conversar.

― Já disse que não tenho nada para falar com você ― retornou a dizer, a voz mais firme, quase rosnando. Suas expressões endureceram.

― Não é isso o que seus olhos dizem... Eles... ― E engoliu em seco.

― Eles o quê? ― ousou perguntar, erguendo o queixo, arrependendo-se instantaneamente.

― Eles demonstram o que você realmente sente. Embora esteja com suas feições duras de ódio, seus olhos estão flácidos.

Kalleo levantou a mão para tocar o rosto dele, mas Théo afastou-se, se espremendo para sair do local onde estava preso entre a prateleira e Kalleo.

― O que você está fazendo aqui? ― ralhou, recuperando-se, tentando afastar a sensação harmoniosa que o ar adquiria com a presença de Kalleo.

― Corrigindo o erro que cometi ― respondeu ele, oscilando.

― O que sua namorada vai pensar se souber que você está aqui? ― debochou Théo, já sentindo a raiva percorrendo por seu sangue.

― Eu não tenho namorada. ― Kalleo franziu o cenho, confuso apenas por um breve instante, mas logo compreendendo o que Théo falara. ― Megan e eu...

― Poupe-me ― cortou bruscamente, tentando não demonstrar ciúmes. ― Não quero saber se vocês transam ou não...

― Mas...

― ... Não é de minha conta o que vocês fazem ou deixa de fazer...

― Théo! ― Kalleo gritou, tentando ser ouvido.

Relutante, Théo calou a boca, olhando mal-humorado para Kalleo.

― Eu. Não. Tenho. Absolutamente. Nada. Com. Megan ― falou lentamente, dando ênfase em cada palavra. ― Já a namorei, sim. Por pouco tempo, e logo me separei. Não quero e nem tenho a intenção de ter mais algo com ela.

Théo prendeu a respiração, confuso. Seu cérebro, disperso, disparado a mil.

― E o que foi aquilo no auditório? Eu não sou cego...

― O que você viu no auditório foi um mal entendido. ― Ele suspirou, passando as mãos pelos cabelos, e depois continuou: ― Megan pensou errado. Há um tempo ela vinha querendo retornar nosso relacionamento, e acabou achando que a música era para ela.

Théo fechou os olhos, balançando a cabeça, aturdido. Estava respirando com dificuldade, seu estômago se revirava.

Ele estava falando a verdade ou a mentira? Kalleo era bipolar. Tinha um humor instável, e Théo pôde presenciar ao longo da semana passada o quão complicado ele podia ser. Era como uma a dúvida nunca desvendada, sempre supondo mais e mais, mas nunca descobrindo a verdadeira resposta.

Aflito, Théo disse:

― E você acha que sou idiota? ― sua voz saiu num sibilar baixo, quase inaudível.

― Não. Claro que não ― Kalleo se apressou a dizer. ― Acho você a pessoa mais inteligente e encantadora e... apaixonante que já conheci. ― As palavras saíam rapidamente de sua boca, como que se tivesse medo de pronunciá-las devagar, pudesse interromper o que queria falar. ― Você é fofo, e sinto uma vontade avassaladora de apertar suas bochechas e de te abraçar fortemente contra meu peito sempre que você cora. Gostei de você desde o primeiro momento em que o vi. Não sei na verdade o que me impulsionou a segui-lo até as arquibancadas no seu primeiro dia na São Diego, mas desde aquele momento, me sinto atraído por você. A cada dia mais que se passa. Quando me dei conta... estava envolvido demais. Pensava demais em você. Em te ver. Em te ter...

Théo o olhava, apreensível. Estava realmente escutando bem, ou era uma alucinação?

― E eu nunca sentir isso por ninguém. Nem por uma garota. ― Ele continuava a falar, os olhos fixos em Théo a todo o momento. ― Me apaixonei gradualmente por você. E quando percebi, fiquei assustado. Foi quando mudei com você. Não fiz por mal, apenas queria te proteger, e proteger a mim mesmo. Isso é algo complemente novo pra mim. Então, achei que me afastando, isso de alguma maneira poderia ajudar... ― Seu peito arfava compulsivamente, exalando o ar com força para seus pulmões. ― Mas eu estava enganado. Eu sou um tolo por simplesmente tentar fugir dos meus sentimentos, sendo que jamais eu poderei mudá-los. Eu quem fui idiota em fazer isso, Théo. Na noite em que te beijei sob o carvalho, eu não aguentei te ver daquele jeito, bravo comigo por todo o tomento que eu estava te causando, e me descontrolei e acabei te beijando. E... eu novamente peço desculpas pela maneira como te tratei, sendo que todo o momento eu simplesmente queria estar do seu lado. ― Quando terminou de falar, lágrimas escorreram de seus olhos, rolando livremente pelas bochechas.

Théo não sabia o que pensar. Sua cabeça estava girando a mil por hora, como um cometa invadindo a camada de ozônio da Terra e estivesse a segundos de se chocar contra o solo.

― Mas estão... a música... ― sussurrou, quase numa voz inaudível.

― A música era pra você ― falou Kalleo, resignado. ― Foi você quem virou meu mundo de ponta cabeça. E ainda vira. Você que foi o melhor que me aconteceu, e por mais que eu tente, nada mais será igual sem você. E... eu quero que fique pra sempre assim...

Com as penas bambas, Théo se aproximou de Kalleo, que automaticamente buscou os olhos dele com os seus. As lágrimas tinham cessado. Um aperto surgiu em seu coração. Como não tinha percebido tudo isso antes? Como não tinha visto todos os sinais? O ciúme tinha-o cegado.

Kalleo respirava lentamente, os lábios entreabertos, sem dizer nada, analisando Théo com o olhar em pista de qualquer sinal. Théo ergueu ambas as mãos, colocando cada uma de um lado do rosto do garoto, secando as lágrimas com os polegares. Sentia a respiração quente de Kalleo contra seu rosto e adorou aquela sensação.

― Eu... gosto de você... ― murmurou Kalleo, apreensível. ― E por mais que as pessoas digam que o amor entre dois homens seja errado e imprudente, eu não sinto nenhum medo em te dizer isso.

Théo sentiu-se sem chão, como se estivesse se afundando. Não sabia se estava sonhando ou não, mas se estivesse sonhando, estava completamente nas nuvens. E sem paraquedas.

― Eu também... ― murmurou em resposta.

A expressão em seus olhos ficou mais suave. Lentamente e com cautela, as mãos de Kalleo o seguraram pela cintura, puxando-o para si, respirando profundamente. E antes que percebesse, sua boca estava sendo pressionada contra a dele. Vagarosamente, seus lábios se abriram, e começaram a se beijar com calma, num ritmo lento e erótico. Aos poucos, o beijo foi se aprofundando, ficando mais intenso, voraz, exigindo mais.

Théo passou seus braços pelas costas de Kalleo, levando uma das mãos até sua nuca. Kalleo gemeu baixinho contra sua boca. Um calor intenso se espalhou por dentro de si, absorvendo-o com a rapidez que o fogo carboniza um pedaço de papel. Seu coração martelava contra seu peito, e podia sentir nitidamente o coração de Kalleo batendo no mesmo ritmo que o seu.

Kalleo traçou uma linha de beijos por seu pescoço, subindo pela mandíbula, bochecha e ponta do nariz, finalmente voltando para sua boca, consumindo-o, levantando-o do chão.

Théo estava no céu. Em êxtase. No lugar em que sempre desejara estar. Seu corpo se encaixava perfeitamente no dele. Como se ambos fossem feito da mesma forma, para que se ajustassem facilmente como um quebra-cabeça.

Afastando-se lentamente, Kalleo o olhou, sorrindo, e disse:

― É real.

― Claro que é ― falou Théo, inspirando novamente o ar e logo voltando para mais um beijo.





Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "O Segredo da Lua" morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.