O Segredo da Lua escrita por F L Silva


Capítulo 1
Capítulo 1 - Portas do Inferno


Notas iniciais do capítulo

Olá! Essa é a primeira vez que posto uma de minhas histórias no Nyah por muita insistência de minha amiga, Lolita.
Bem, caso gostem, comentem abaixo, e caso desgostem, comentem também. Quero saber o que acharam.
Boa leitura!



O porteiro do Instituto São Diego exibiu uma careta grotesca ao permitir a entrada de Théo para o amplo saguão de entrada. Provavelmente, ele estaria pensando: “Mais um perdido na vida”. Théo lutou contra todas as suas forças para não xingá-lo. Apenas cerrou os punhos que enlaçavam a alça da única mochila que carregava consigo. Há dias vinha se preparando psicologicamente para ser rodeado por esse tipo de reação. Mas, por mais que tentasse na teoria, era quase um milagre obter bons resultados na prática.

Olhou mais uma vez para trás, apenas para se certificar de que o carro no qual seus pais lhe trouxeram não estava mais estacionado na rua deserta. Era isso. Agora ele estava sozinho.

No saguão de entrada, uma mulher de meia idade e de corpo magricela, vestida num terninho de cor cinza apertado em volta de seu corpo, se aproximava dele a passos rápidos e ágeis. Parecia estar com pressa.

― Théo Ângelo? ― rosnou a mulher, como se espinhos perfurassem sua língua ao pronunciar seu nome.  Quando ela parou a sua frente, ele conseguiu enxergar seu rosto de perto. Ela tinha cabelos castanhos cortados rente aos ombros e olhos pretos como os de um falcão. A pele do rosto era enrugada e estava coberta de blush. Mas era o batom vermelho nos seus lábios carnudos e repuxados que chamava atenção para seu rosto. A mulher parecia uma gazela saltitante que tinha saído de um experimento de teste de maquiagem em animais. Se Théo a visse em qualquer outro lugar, menos ali, provavelmente iria rir até doer sua barriga. Mas ali, onde ele estava, teria que reprimir a vontade. Ela tinha uma postura autoritária. Não iria transparecer uma boa primeira impressão rindo dela em seu primeiro contato.

― S-sim... ― gaguejou ele quando recuperou a fala e automaticamente desviou a atenção do rosto dela.

― Está dez minutos atrasado!

― Desculpe, é que... ― Logo se prontificou a explicar quando foi interrompido:

― Poupe-me de suas desculpas. Estou farta de desculpas bem elaboradas que vocês delinquentes inventam. ― E virando nos calcanhares, seguiu caminho. ― Acompanhe-me.

Théo tentou não se incomodar com o que a mulher disse, apenas retorceu o rosto e a seguiu. Enquanto andavam pelo saguão, os saltos altos da mulher faziam ploc, ploc, ploc no piso lustrado de linóleo.

― Meu nome é Sabrina, sou a diretora desse instituto ― foi dizendo enquanto o levava para uma porta à esquerda. Ao abri-la, Théo se viu dentro de uma sala dividida ao meio por uma bancada na parte debaixo e grades na parte superior. A sala era escura e fria, cheirando a naftalina e produtos antissépticos. Não havia nenhuma janela para penetrar a luminosidade do sol. Em um canto na sala, um guarda do instituto se aproximou de Théo pegando sua mochila das mãos.

― Ele apenas fará uma revista nos seus pertences ― esclareceu Sabrina quando Théo tentou puxar a mochila de volta. ― É um procedimento que todo calouro passa ao entrar no instituto. Enquanto isso esvazie seus bolsos.

Mordendo o lábio inferior, Théo retirou tudo o que tinha dentro de seus bolsos da jeans. Deles, retirou seu celular, os fones de ouvidos e uma pastilha Halls.

― Você não vai precisar disto ― disse Sabrina arrancando o celular e os fones de ouvido de sua mão e colocando dentro de um saco plástico com as identificações de Théo numa etiqueta, depois descartou a pastilha Halls no lixeiro. ― Encontrou alguma coisa aí, Ben? ― perguntou para o guarda referindo-se a mochila.

― Nada demais. Apenas algumas peças de roupas, produtos de higiene e um livro ― falou o guarda rechonchudo com a barriga implorando por socorro para sair de dentro daquela camisa apertada. Um dos botões estava quase estourando com a pressão.

 ― Um livro? ― questionou a diretora. Pela sua expressão, Théo tinha certeza de que ela nunca tinha visto uma coisa assim. Provavelmente ela achava que todos os garotos que vinham para o internato eram delinquentes que não davam a mínima para a leitura. ― Você o abriu? Revistou o interior das páginas?

― Como se houvesse maconha escondido nele ― cuspiu Théo, revirando os olhos com impaciência.

Rapidamente Sabrina virou o rosto para ele, fulminando-o com o olhar.

― Cuidado com o que você expele, garoto. Sei do seu histórico de cima a baixo.

Théo sustentou seu olhar pelo máximo de tempo possível, não cedendo àquela mulher. Depois, ela desviou o olhar e se virou para o guarda.

― E então?

― É apenas um livro comum.

Com o olhar desconfiado, ela permitiu que Ben guardasse o livro novamente dentro da mochila.

Há uma semana, o juiz decretou que Théo deveria vir para esse instituto de jovens delinquentes por tempo indeterminado. Todo o processo judicial se deu por conta do que ele fizera no seu antigo colégio por estar dopado de drogas. Desde então, sua mãe vinha lhe dizendo para não se preocupar, que esse não seria o fim. Que, como foi especificado, ele apenas ficaria por tempo indeterminado. O que poderia durar de um mês a um ano. Mas, na mente de Théo, aquele tempo seria anos de solidão transcorridos lentamente enquanto ele apenas observava o tempo passar da primavera para o inverno repetidamente.

Mesmo quando foi declarada sua sentença, ele já estava limpo das drogas. Fez tratamento e tomou diversos medicamentos. Tinha se “curado” de seu vício, mas isso não o evitou ser mandado para o reformatório.

De volta ao saguão principal iluminado por luzes fluorescentes que piscavam freneticamente, a diretora parou em frente a ele e começou a falar, despejando as palavras em cima dele:

— Esta área do internato, mais conhecido como a ala sul, é restrita aos funcionários da escola. Os alunos só têm permissão para vir aqui com a autorização de algum professor ou a minha, e mesmo assim terá que passar por uma inspeção pela guarda que fica postado bem à frente, no portão, que separa esse prédio dos demais. — E indicou outro portão a frente, com grades de ferro pintado em dourado, a suas costas.

O portão de grades era novo. Parecia que tinham acabado de ter sido colocado. Se o tem agora, é por que não tinha antes... Mas por que o colocar agora? Talvez algum aluno viciado em drogas tenha saqueado a sala dos professores a procura de algum pacotinho de maconha. Pensar nisso o fez rir.

― Eu disse alguma coisa engraçada, Sr. Ângelo? ― Os olhos de falcão fuzilaram o garoto com veemência.

― Não... O que é aquilo? ― perguntou tentando desviar a atenção dela, apontando para o canto do saguão onde havia uma pequena caixinha de vidro transparente sob o teto.

― Ah, aquilo é um de meus melhores amigos. É uma câmera. Há várias espalhadas por toda a instituição para monitorar os alunos. É um mecanismo que vem nos beneficiando há anos ― respondeu com certo prazer na voz, como se tudo aquilo não passasse de um divertimento macabro para ela.

― Certo... ― Théo fez uma anotação mental referente às câmeras.

― Quanto às regras do instituto, se você as seguir não se meterá em encrenca alguma. As aulas começam às oito da manhã e terminam às cinco da tarde. O toque de recolher é às dez da noite. Nada de briga com os outros alunos, e não estar no prédio onde as aulas ocorrem depois do término delas, salvo acompanhamento de algum dos professores. Entendeu?

― Sim, diretora ― concordou acenando com a cabeça, mal esperando que aquela velha antipática calasse a boca e o dispensasse. Por dentro, Théo queria desesperadamente que alguém lhe desse um tiro na cabeça para acabar com tudo aquilo.

― Traga-me Zoe do terceiro ano ― falou a diretora para outro guarda que estava postado ao lado do portão que dava acesso para os outros prédios.

Quem era essa Zoe? A fuzileira do reformatório? O castigo de Théo iria começar a partir de agora?

Enquanto ambos esperavam silenciosamente a chegada da garota, Théo olhava para todos os lugares, exceto para o rosto da mulher. Sabia que se direcionasse a visão para ela, veria os olhos da diretora fixados em si. Pensar nisso era desconfortante, ele estava quase pedindo para que ela olhasse para outro lado, menos para ele. Logo, sua face começou a corar.

Pelo que se pareceu meia hora, mas foram apenas sete minutos, o guarda retornou ao seu posto acompanhado de uma garota um pouco mais baixa que Théo, cabelos lisos e tingidos de um vermelho escarlate de fazer os olhos doerem quando refletidos a luz solar. Usava óculos de armação grossa de cor preta sobre o fino e pequeno nariz. Assim como Théo, também tinha a pele branca e pálida como a de um cadáver.

― Zoe, este é Théo ― disse a diretora limpando a garganta. ― Ele é novo no instituto e quero que você apresente a ele todo o campus e como funciona. ― Tirando do bolso um pedaço de papel, ela o desdobrou e o entregou a Zoe junto com uma pequena chave dourada. ― Este é o horário dele. Aí também consta o número do quarto e o armário.

― Certo, diretora ― consentiu Zoe, depois virou-se para Théo, claramente demonstrando mal humor. ― Vamos?

― Ah, sim. Claro. Vamos ― disse ele se recompondo do devaneio ao ficar analisando a garota ruiva a sua frente.

Ambos passaram pelo portão, deixando o prédio sul para trás e se encontraram em outro saguão. Só que esse era muito maior que o outro e tinha móveis dispostos ao longo do perímetro. Sofás e cadeiras com estofado de couro, e algumas mesinhas de centro, cada qual com uma margarita murcha dentro de um jarro. A primeira impressão que aquele local lhe trouxe foi de sufoco e desespero, onde seus gritos podiam ecoar pelas paredes, mas ninguém nas proximidades parecia ouvir.

Nas paredes, diversos cartazes estavam pregados. Muitos deles de exposições e peças de teatro que ocorriam ali no instituto. Alguns dos quais, já haviam passado da data, mas ninguém se preocupou em retirá-los. Assim como as flores.

― Esse é o saguão principal ― falou Zoe, chamando sua atenção. ― É o principal por que é o único local que liga os quatro prédios do internato.

Théo olhou mais uma vez para a garota, dessa vez de cima a baixo, para certifica-se de que ela não seria nenhuma louca psicopata e do nada sacasse um estilete do bolso traseiro da calça e o corta-se. Mas, visualmente, ela não aparentava ameaça alguma. Parecia ser apenas uma garota normal.

Mas ela não era normal. Não poderia ser. Senão, o que estaria fazendo nesse lugar?!

― Hã-hã. Pode ir parando por aí mesmo ― foi logo dizendo a garota com um tom autoritário na voz, empinando o nariz e o queixo. ― Sei o que você está pensando, e a resposta é não! Sabe, nem todos aqui são loucos ou algo do tipo. Senão, estaríamos num hospício.

― D-desculpe... ― gaguejou Théo, engolindo em seco e atônito com a exaltação repentina da garota. ― Eu não quis...

― Sei bem o que você pensou. É isso o que a maioria das pessoas pensa ao virem para cá. Mas vou logo afirmando: aqui não é tudo o que dizem lá fora. Não é tão ruim quanto pensam. Ninguém vai te estuprar num corredor escuro ou te enforcar exigindo seu almoço. Entendeu? ― questionou a garota com as sobrancelhas, também pintadas de vermelho, erguidas.

Théo concordou com a cabeça, decidido a não falar mais a respeito. Com toda certeza, esse não era um bom assunto para se conversar.

― Ótimo. ― E sorriu falsamente, mostrando todos seus dentes brancos; suas presas, afiadas como as de um canino. ― À frente, no prédio da ala norte — ela apontou para o pequeno prédio que se erguia a frente —, fica a área de pesquisa, onde temos a biblioteca. Lá também tem o auditório que é onde ocorrem as reuniões, tanto com os pais, como com os alunos. Às vezes, ele também é usado para apresentações e demais fins estudantis.

― Que tipo de apresentações? ― indagou Théo, tentando esquecer o que Zoe acabara de falar a respeito de seus pensamentos em relação ao instituto.

― Palestra, teatro, dança... Coisas do tipo. Geralmente me mantenho afastada dessas atividades, mas quase sempre sou forçada a ajudar. Na verdade, mal temos direitos sobre nossas vidas. É assim que funciona o Inferno.

Théo assentiu. Assim como Zoe, ele também se afastava desses tipos de atividades. Não era o tipo de atividade extracurricular que ele costumava participar quando ainda estudava num colégio comum.

― Ao leste, ficam as salas de aulas. Primeiro andar é das turmas do primeiro ano. No segundo andar é do segundo ano, e, bom, o terceiro obviamente é do terceiro ano. Falando nisso, você vai cursar o terceiro, não é mesmo? ― perguntou, já olhando o horário dele.

― Isso mesmo ― confirmou, mesmo sabendo que Zoe já sabia a resposta.

― O mesmo meu... ― murmurou a garota com os olhos verdes ainda sobre o pedaço de papel pardo. Depois revirou os olhos e levantou os ombros com indiferença. ― O funcionamento desse internato é bastante diferente dos outros colégios lá fora. Aqui, os alunos é que têm que mudar de sala a cada aula diferente, e não os professores.

Enquanto a garota desenrolava a falar a respeito dos horários, Théo apenas acenava com a cabeça, assentindo tudo o que ela dizia. Mal via a hora de tudo aquilo tudo acabar e enfim poder se deitar na sua cama e dormir a noite toda.

— Na ala oeste ficam os dormitórios. Um quarto para duas pessoas, antes que você pergunte.

Ah, não. Théo congelou no mesmo instante em que as palavras saíram da boca de Zoe. Tudo poderia acontecer. O teto despencar sobre sua cabeça, a gravidade da terra aumentar, o planeta Terra sair de sua rota, menos ele ter que dividir quarto. Nunca em toda sua vida quando morara com seus pais teve que dividir quarto.

Mas o medo de acordar no meio da noite com uma faca a centímetros de seu pescoço com seu colega de quarto o ameaçando era aterrorizante.

Zoe esboçou um sorriso complacente. O primeiro gesto gentil que a garota expressava para ele.

— Sei que não é muito legal isso, mas... ― E fez uma careta, reconhecendo a apreensão dele. ― Bem, é assim que funciona. Os quartos são separados na mesma burocracia das salas de aulas: primeiro andar, pertence aos alunos do primeiro ano, e assim sucessivamente. Como hoje é domingo, as aulas retornam amanhã. Vão de segunda à sexta. Nos sábados às vezes tem palestras chatíssimas. E aos domingos os alunos estão totalmente livres para fazer o que quiserem... desde que seja dentro do reformatório, e de acordo com as normas.

A pontada de felicidade que surgiu há poucos instantes desapareceu assim quando Zoe terminou de completar a frase. Especialmente dita com a palavra “normas". Chegou a ser broxante.

— Continuando... A quadra onde são realizadas as aulas de educação física fica entre os prédios norte e oeste.

— Quadra? — perguntou Théo. Ele imaginava que as aulas de educação física seriam, pelo menos, realizadas num ginásio com cobertura, e não numa quadra ao ar livre.

— Isso mesmo.

— O.K., acho que já estou pronto para conhecer meu quarto — disse respirando fundo, querendo acabar logo com aquilo. Se iria ficar por um tempo no internato, aos poucos aprenderia a saber onde ficava tudo. Não precisava que alguém lhe explica-se.

― Apressadinho você, hein! Mas vamos lá. Também quero acabar logo com isso e terminar a decoração barata que estava fazendo no meu quarto. Isso é um saco! Sempre quando surge algum novo aluno a diretora me chama para apresentar o instituto.

― Por que a particularidade com você?

― Não faço a mínima ideia. Se um dia você descobrir, me fala.

― Talvez por que você seja a que mais se pareça normal aqui?

Zoe riu. Bem alto. Uma gargalhada rouca e estridente que ecoou por todo o espaço onde estavam.

É louca, concluiu Théo.

― Nem pensar! Ela estaria dopada de drogas se achasse isso.

Zoe, com certeza, se referia ao seu histórico e Théo queria saber o porquê, mas não queria prolongar mais a conversa. Já tinha percebido que ela tinha um temperamento instável para conversas.

Andando lado a lado, os dois saíram do pavilhão indo na direção oeste. Evitaram ir pelo corredor até o prédio, pois estava cheio de alunos indo de lá para cá. Em vez disso, foram pisando na grama morta que parecia não ver água há anos. Árvores estavam espalhadas por todo o perímetro. Algumas enormes, outras pequenas ainda. Alguns dos estudantes estavam sentados nas sombras emitidas por elas, conversando e rindo de alguma piada entre eles. Outros estavam sozinhos, olhando para algum ponto ao longe. Os olhos frios e distantes.

O prédio onde ficavam os dormitórios era um imenso bloco de pedra pintado de um vermelho desbotado. Tinha apenas três andares, e várias janelas com grades, todas afastadas a apenas alguns metros entre si. Uma janela para um quarto. De longe dava para perceber que os quartos eram pequenos.

― E então, o que aprontou para vir pra cá? ― perguntou Zoe, olhando para ele enquanto andavam.

Théo mordeu o lábio inferior e pensou na tarde em que tudo mudara. Que o fizera vir parar ali. O que vinha acontecendo entre ele e sua família. Conseguia até se lembrar do cheiro do ar pesado que o colégio carregava naquele dia.

Pensar nisso fazia um tremor percorrer por todo seu corpo, como se estivesse dormindo num sono profundo e coberto por vários cobertores num inverno rigoroso, e, de repente, viesse alguém e despejasse um balde de água com gelo em cima dele.

Desde o ocorrido, na maior parte do tempo, ele procurava não pensar sobre aquilo. Evitava o máximo possível, e, às vezes, até fingia que nada tinha acontecido. Era muito vergonhoso para ele.

Théo não pensou no que responderia exatamente para alguém o que teria feito para ir parar na São Diego. Não estava pronto. Não achava que aquele tipo de assunto era colocado em debate no instituto.

Decidiu então não responder a Zoe, apenas continuou andando junto com ela, fitando com o olhar o prédio que estava a sua frente.

Querendo mudar o assunto, ele perguntou:

― E quanto à vestimenta? Alguma regra?

― Quanto a isso, sim. O uniforme está dentro da cômoda. Deverá usá-lo sempre no período de aulas. Mas temos liberdade no fim de semana para usarmos qualquer roupa. Desde que não seja inadequada para o internato. Como, por exemplo, uma minissaia. Se a diretora Sabrina pegar, reze para todos os santos para ela ter piedade de sua alma... Ou do que ainda sobrar dela.

― Como assim? O que quer dizer com “Ou do que sobrar dela”?

― Quero dizer que aqui é como o inferno. Só tem porta de entrada. Então, é como se sua alma pertencesse a esse lugar, e a cada dia que passa, ela vai sendo sugada por tudo a sua volta.

― Analogia medonha.

Passando pela entrada do prédio, ambos se encontraram numa espécie de pátio, com uma fonte que não jorrava água e alguns bancos de madeira dispostos envolta dela. Alguns estudantes estavam sentados e até deitados sobre a fonte.

O pátio era cercado por todos os lados, menos pela entrada onde Théo e Zoe passaram. Escadas de ferro estavam dispostas de cada lado para subirem para os andares superiores.

― Vamos, temos que subir até o terceiro andar ― chamou Zoe, subindo as escadas à direta, segurando no corrimão com ferrugem.

― Você não cansa de subir essas escadas todos os dias? ― perguntou ele, arfando enquanto subia carregando a mochila.

Zoe riu, e respondeu já parada no alto da escada:

― Depois de um tempo você se acostuma. Não é tão ruim assim. ― Depois, conferiu mais uma vez o número do quarto no pedaço de papel. ― Seu quarto é o de número 92.

Théo repetiu o número diversas vezes em sua mente, tentando decorar. Tinha a péssima reputação de esquecimento.

Zoe o guiou pelo corredor, cujo lado esquerdo dava para a sacada, com a visão para o pátio lá embaixo, enquanto do lado direito ficava as portas dos quartos, todas de madeira, com os números dos quartos em dourado. Pararam quando chegaram à frente do quarto com o número 92. Ela tirou do bolso a pequena chave dourada que a diretora lhe entregou, colocou na fechadura e abriu a porta.

O interior do quarto estava escuro, e um cheio de podridão cobria todo o interior do quarto cercado pela penumbra.

― Céus, isso aqui está um chiqueiro! ― resmungou a menina, acendendo a lâmpada fluorescente e abrindo a janela do quarto.

Como previsto, o quarto não era muito grande. Apenas o suficiente para duas camas de canto, uma em cada parede, uma mesinha de centro entre as camas, encostada na parede sob a janela, e duas cômodas na parede junto à porta. No canto a direita, havia outra porta que dava num pequeno banheiro com uma pia, um armário com um espelho trincado, um vaso sanitário limpo (isso era novidade para Théo) e o box de chuveiro com uma cortina separando o banheiro em duas partes.

Todo o quarto se resumia apenas a isso.

― Seu colega de quarto deve estar lá fora. Ou no Refeitório. Meu Deus, isso aqui fede! ― resmungava Zoe, cobrindo o nariz.

Saindo do banheiro, Théo jogou sua mochila sobre a cama a direita, que estava desocupada. A outra estava desarrumada com algumas peças de roupas jogadas por cima e um único tênis.

― A sua cômoda também é a da direita ― falou Zoe, certificando-se que esta estava vazia.

― Obrigado ― disse Théo, agradecendo e esperando que a garota fosse embora. Queria ficar sozinho.

― O jantar vai ser servido daqui a pouco. Geralmente não há horário certo. Aqui está o seu horário e sua chave. ― Ela pôs o papel amassado e a chave sobre a cômoda. ― No papel diz seu armário. Ele fica no terceiro andar do prédio ao leste. E, ah, seus materiais escolares já devem estar lá. Quando for para a aula amanhã, passe por lá para pegar. A combinação dele também está aqui. ― E se encaminhou apressadamente para a porta. ― Agora eu tenho que ir. Até mais, calouro.

E saiu, deixando a porta aberta, com Théo sozinho olhando para as paredes brancas e deprimentes do quarto.

* * *

Era desconfortável imaginar que no dia seguinte Théo teria que vestir aquele uniforme. Aquela roupa lhe dava a aparência de que estava se vestindo para ir a um funeral. Talvez, fosse exatamente essa a razão. Para parecer que todos os estudantes da instituição estavam indo para seus próprios enterros. Os túmulos cavados por eles mesmos, por suas escolhas tomadas na vida. Escolhas ruins que lhes resultaram na vinda para a São Diego.

 O uniforme consistia em duas camisas brancas de botão com o brasão da instituição bordado no peito esquerdo, uma gravata de cor preta e duas calças jeans preta. Havia também um blazer, mas Théo duvidava muito que os garotos o usassem.

Se alguém do seu antigo colégio o visse com essas roupas, provavelmente perguntariam a ele onde que ficava o convento.

Em que lugar do mundo os uniformes escolares eram assim? Geralmente, todos eles tinham cores vibrantes e eufóricas, e não apagadas e deprimentes.

Desviando de seus pensamentos, ele deu de ombros e devolveu as duas peças de roupas a cômoda. Depois jogou a única mochila que trouxera em cima da cama e começou a separar suas roupas e colocá-las organizadamente em cada gaveta da cômoda. As cuecas e meias na gaveta de cima, seguida pelos shorts, calças, e camisetas. Depois, tirou os itens de higiene que sua mãe enfiara dentro da mochila e os levou para o banheiro.

Quando voltou para a mochila, tudo o que sobrara dentro fora o único livro que não tivera coragem de abandoná-lo em casa. “Morte Súbita” de J. K. Rowling. Desde o momento em que o comprou, Théo ficou fascinado com a história. Nele, dizia claramente que reconheceríamos nossa cidade ou bairro ao longo da história. E foi exatamente o que aconteceu. Ele reconheceu a sua cidade nas páginas do começo ao fim. E o bom do livro é que ele é totalmente realista aos dias de hoje. Nele, é contado como o mundo realmente é. E diferentemente dos demais livros que existem por aí, nesse não há final feliz, por que... bem... nos dias de hoje não existe mais. Ou quase não existe. A verdade é que é raro as pessoas terem um final feliz. E que atire a primeira pedra quem acha ao contrário!

Além do mais, esse foi o primeiro e único livro que provocou lágrimas a Théo. Mas não foi pela morte de alguns personagens no fim. Foi por perceber como é a verdadeira realidade do mundo, e saber que muitas pessoas não querem abrir os olhos para isso. Como as pessoas insistem em serem enganadas. Em como o mundo é cruel, e não tem piedade das pessoas. Por que, na verdade, o universo não vai parar pra esperar você se recuperar. O mundo é dos mais fortes e capacitados. E essa é a triste realidade que poucos enxergam.

E para aqueles no qual não há lugar no mundo, vão parar nos lugares no qual Théo está. Em internatos para jovens problemáticos. Outros vão para a reabilitação, clínicas para viciados em drogas... e por aí vai. A lista é infinita. As pessoas estão se destruindo cada vez mais. Uma guerra que não há vencedor.

Por fim, Théo decidiu deixar o livro sobre a mesinha de centro perto de sua cama. Esperava que quando seu companheiro de quarto chegasse, não usasse as páginas do livro para fazer um baseado.

* * *

Depois de tomar banho, Théo olhou atentamente para seu reflexo no espelho do armário do banheiro sob a fraca luz fluorescente do recinto.

Suas feições tinham uma aparência fantasmagórica. Estava com finas camadas de olheiras abaixo de seus olhos, causados pelas noites em claro que vinha tendo quando soube que seria mandando para o reformatório. Seus lábios finos, que geralmente eram rosados, estavam pálidos e rachados como se tivessem passado dias andando no deserto escaldante sem beber um gole de água. Os olhos que geralmente eram uma mistura de mel com dourado estavam opacos e sem vida. O cabelo louro era o único que se mantinha como antes.

Saindo do banheiro, vestiu uma calça jeans azul-escuro que trouxera consigo e uma camiseta de cor branca. Calçou seu All Star e saiu do quarto fechando a porta. Desceu os dois lances de escada e chegou ao pátio do primeiro andar, onde algumas pessoas se encaminhavam para o refeitório.

O refeitório ficava bem ao lado do saguão principal, logo no início da ala oeste. Era um salão de vários metros quadrados. O único meio de entrar nele era passando pelas portas duplas de madeira.

Logo depois das portas duplas de entrada, havia uma fila que ia em direção do balcão para pegar a comida. Théo ficou atrás de uma garota meio gótica, gordinha e bochechuda. Tudo nela era preto. Desde a cor dos cabelos repicados, às unhas grandes e afiadas como as de um felino.

Quando chegou ao balcão, pegou sua bandeja e começou a colocar sobre ela o jantar, que se resumia basicamente a arroz branco, feijão preto, macarronada com molho de tomate, purê de batata e uma fatia de bife que pelo visto estava muito mal passada. E por último pegou uma caixinha de suco de laranja que estava disposto no final da bancada.

Virando-se para o espaço do refeitório, deu de cara com uma enorme multidão de alunos sentados em mesas circulares com espaço para seis cadeiras. Vasculhando com o olhar, procurou por um assento vazio. Sabia que mesa desocupada não teria e seria em vão procurar.

Enquanto andava pelo espaço, sentia como se todos os olhares estivessem sobre ele. Sentia não, era exatamente que era isso o que estava acontecendo. Conseguia sentir os olhos das pessoas queimando suas costas. Théo odiava ser o centro das atenções por qualquer coisa. Gostava de passar despercebido pelas pessoas. Começou a rezar silenciosamente para que parassem de olhar para ele e apenas continuassem comendo.

Uma coisa que existe em todos os colégios e que nesse não poderia faltar: as panelinhas. Em cada mesa havia certo tipo de grupo. Em uma só tinha góticos vestidos de pretos, o que chegava a ser assustador pela maneira como eles se vestiam e usava maquiagem no rosto. Eles colocavam tanto pó de arroz na cara que chamava a atenção até dos traficantes! Em outra mesa, pode-se dizer que sentava os descolados. Em outras, os mais perigosos, alguns deles brincando com facas, girando-as nas mãos enquanto olhavam ameaçadoramente pelo refeitório, como se desafiasse a qualquer um que olhasse para eles. E, por fim, o grupo ao qual Théo pertencia: os fantasmas. Aqueles que ninguém sabia que existia até ser feita a chamada.

Ele estava se aproximando para aquela mesa quando alguém ― talvez acidentalmente ― esbarrou no seu ombro.

― Desculpe ― falou o garoto corpulento com mais de um metro e oitenta de altura e feições duras. Tinha olhos e cabelos castanhos crespos e a pele num tom avermelhado. Ele estava com sua bandeja nas mãos.

― Ah, tudo bem ― disse Théo recuperando a fala ao encarar o garoto. Tinha que torcer o pescoço para olhar o rosto do garoto.

― Você é o novato, não é? ― questionou ele, franzindo o cenho. Seus olhos se iluminaram de repente.

― Sou ― concordou, mordendo o lábio inferior.

― Vem, pode sentar com a gente hoje ― chamou o garoto andando a frente e acenando para ele.

― Ah, n... ― começou a negar.

― Eu insisto. Vem ― chamou novamente o cara.

Théo queria dizer que não seria preciso, que ele procuraria um lugar para sentar, mas recusar ao convite daquele grandalhão não lhe parecia uma boa opção. Não tinha nenhum amigo no instituto ainda. Talvez ele pudesse ser de grande ajuda para os dias difíceis ali.

Seguindo o garoto por entre as mesas, ele parou bem à frente de uma onde ele tinha classificado há alguns instantes antes como a mesa dos descolados.

Estava quase dando as costas quando ouviu uma garota de cabelos louros falando com o cara que o trouxera até ali.

― Quem é esse, Bryan? ― perguntou ela arqueando a sobrancelha ao olhar Théo de cima a baixo, avaliando-o.

― É o novato ― respondeu. ― O convidei a se juntar a nós hoje. ― E piscou o olho para a garota que sorriu de volta. ― Como é seu nome mesmo? ― perguntou se dirigindo a Théo.

― Hã... Théo ― respondeu o garoto, ainda de pé. Na mesa, havia sentado duas garotas; a loura que falava com Bryan, e uma de cabelos escuros que comia silenciosamente olhando para todos da mesa. Tinha também mais dois outros garotos que conversavam entre si, não dando a mínima atenção para os outros da mesa. Dois lugares ainda estavam vazios.

― Sente aqui, Théo. ― Bryan puxou a cadeira para ele sentar. Sem escolha, Théo se aproximou e sentou-se. Por um momento, sentiu como se estivesse tendo um mini ataque cardíaco quando sentiu que não sentara diretamente na cadeira. Um segundo depois, caiu de bunda no chão frio de linóleo, sua bandeja despencada por cima dele. O arroz, feijão, macarronada, bife e o purê de batata derramado sobre seu rosto e corpo.

Risos ecoaram por todo refeitório, penetrando nos seus ouvidos como uma sirene audível ao longe. Era como se ele estivesse com seus ouvidos tapados pelo sangue que pulsava com fervor por suas veias. Sentia raiva e vergonha ao mesmo tempo. Queria poder enterrar sua cabeça no chão e nunca mais tirá-la.

De repente, o mundo todo entrou em câmara lenta. O que exatamente aconteceu? Bryan. Foi isso o que aconteceu. Ele chamou Théo até ali para zoar com sua cara. Convidá-lo para sentar apenas para puxar a cadeira e deixar que ele caísse no chão como um idiota.

― Ops!... Bem-vindo ao Inferno, calouro ― disse Bryan gargalhando alto.

Para todos os lados que Théo olhava, via diversos rostos diferentes rindo para ele. Ou rindo dele. Sentia seu rosto esquentando como uma pimenta.

Sem aguentar mais, levantou-se do chão, jogando a bandeja de lado e tentou sair o mais depressa possível do refeitório, esbarrando em vários alunos ao longo do percurso. Quanto mais tentava se afastar, mas parecia que as pessoas o seguravam para mantê-lo ali por mais tempo, apenas para rirem mais dele. Todo seu corpo tremia. Ele apenas temia que as lágrimas viessem enquanto todos estivessem olhando para ele.

Disparando as pressas para fora do refeitório, correu pelo gramado banhado pela luz do luar. Não sabia exatamente para onde estava indo, apenas continuou correndo de cabeça baixa para longe dos olhares das pessoas a sua volta que apontavam para ele e começavam a rir de maneira descontrolável. Suas pernas simplesmente funcionavam no modo automático e suas mãos tentava limpar seu rosto, jogando a sujeira no chão.

Quando deu por conta, estava perto da quadra e completamente sozinho. Desabou então no banco da arquibancada e todo o seu corpo estremeceu com os tremores cada vez mais fortes. Era sempre assim quando passava por uma situação vexatória. Todo seu corpo começava a entrar em espasmos.

Ele poderia ter corrido direto para o dormitório e ter se lavado, mas não queria que os outros o vissem daquele jeito. Só queria distância dos olhares humanos que pareciam cercá-lo onde quer que fosse.

Antes de vir para o instituto, ele disse para si mesmo que seria forte e corajoso. Que não se daria por fraco. E tudo o que aconteceu naquela noite foi totalmente o contrário.

― Por favor, não me diga que você está chorando. ― A voz masculina veio de alguém a suas costas. Instantaneamente, Théo se virou para trás, encarando o garoto parado diante de si, com as mãos enfiadas nos bolsos da calça jeans. Ele tinha cabelos pretos e lisos com alguns fios que não o obedeciam. Pele branca e pálida e um queixo quadrado, levemente repartido. Vestia uma camisa de botão e uma camiseta preta por baixo. Théo o reconheceu. Era o garoto que estava sentado na mesa de Bryan.

― Veio rir de mim, assim como seu amigo? ― expeliu com amargura, sentindo a raiva saindo em suas palavras emitidas.

― Não... ― respondeu o garoto, baixando os olhos para o chão. Não Parecia que ele viera rir de Théo. ― Desculpe pelo que Bryan fez. Ele às vezes age como um idiota...

― Não age; ele é um idiota ― cuspiu. O que aquele garoto estava fazendo ali? Por que não ia logo embora?

― Certo. É verdade. ― E sorriu.

― O que veio fazer aqui? ― O tom rude era visível na voz de Théo. Ele sempre fora direto com o uso de suas palavras. Nunca gostara de enrolação. E mais que tudo, estava querendo ficar sozinho agora.

― Vim ver como você está. Sentir-me culpado pelo que Bryan lhe fez. Poderia ter impedido se tivesse visto quando você chegou à mesa, mas...

― Mas não impediu ― cortou.

― Exatamente ― concordou, comprimindo os lábios, se aproximando da arquibancada. Ambos ficaram em silêncio por um momento. Théo simplesmente ficou encarando o garoto, esperando que ele desse meia volta e fosse embora, mas ele o encarava de volta, sustentando o olhar, como num jogo de quem encara mais. Mas isso não o intimidou. O garoto apenas fixou o olhar no rosto de Théo. Aquilo estava começando a lhe incomodar. ― Sou o Kalleo ― disse ele por fim, estendendo a mão para cumprimentar Théo.

Théo olhou para a mão do garoto estendida, tentando perceber qual era a pegadinha da vez. Olhou mais uma vez para o rosto de Kalleo e viu não ter nenhum vislumbre de deboche.

― Théo ― respondeu, apertando a mão do garoto. Tocar em sua pele fez com que uma leve carga elétrica se espalhasse por todo seu braço. Assustado, ligeiramente recolheu sua mão, desviando o olhar para a quadra.

― Bem, Théo. Vou lhe dizer uma coisa: se veio pra cá para agir como um covarde, eu lamento dizer que este não é o local correto. E não me refiro às arquibancadas. Se há uma coisa que se aprende aqui, é que os fracos não sobrevivem. Então lhe recomendo a se levantar dessa arquibancada, se limpar e voltar para aquele refeitório.

Quê?! ― exclamou ele, atônito. Realmente ouviu o que Kalleo acabara de falar? Théo sabia que ele deveria sentir raiva ou qualquer sentimento parecido do que acabara de ouvir, mas nada lhe veio, pois sabia que o que ele falara era de certa maneira verdade. Ele estava num internato para jovens problemáticos. Como ele.

― Não leve a mau o que eu disse... Apenas entenda: o mundo é assim, e ele não muda. Nunca mudará. As coisas sempre serão duras para aqueles que entram aqui.

― Você também caiu de bunda no chão? ― disparou Théo, amargamente.

― Hã... não. Isso não. Na verdade, fui bem recebido.

― Então por que está me dizendo tudo isso?

― Por que é o que as pessoas querem ouvir quando querem ser consoladas.

― E quem disse que quero ser consolado?

― As pessoas nunca sabem que querem ser consoladas até o momento em que alguém faz isso por elas.

Théo calou-se. Não tinha mais o que falar.

― Vamos limpar você ― chamou Kalleo, pondo a mão no seu ombro. ― O vestiário fica aqui do lado. Ainda deve está aberto.

Respirando fundo, Théo se levantou e o seguiu. Não tinha outra opção melhor que aquela, além de voltar para seu quarto sujo, a vista de todos. Enquanto andava ao lado de Kalleo, reparou que o garoto era mais alto que ele alguns centímetros. Ele chegava a bater pouco acima do seu ombro. Ele detestava o fato de ser mais baixo que a maioria das pessoas.

Diferente de todos os garotos que Théo já tinha visto no internato, Kalleo era de longe o que mais se parecia normal. Não se vestia como os outros, com calças jeans furadas e em farrapos ou de forma totalmente intimidadora.

Parando em frente à porta do vestiário masculino, Kalleo abriu a porta e o deixou entrar primeiro.

― Não precisa entrar. Sei me limpar sozinho ― falou Théo, numa tentativa de se livrar dele. Não precisava de uma babá.

― Nada disso. Minha missão de super-herói de salvar o dia ainda não acabou. Tenho que fazer o trabalho completo. ― E se aproximou da pia, pegando uma toalha de linho branco ao lado na estante e a molhando na água da torneira. ― Acho melhor você tirar a camiseta para lavar logo aqui. Ela é branca e se demorar muito, vai manchar toda.

Théo quis protestar no mesmo momento em que ele sugeriu aquilo. Não se sentia confortável sem camisa na frente de alguém. Não por seu corpo, por que ele era bem cuidado. Há alguns meses até malhava na academia.

― Vai, tira logo ― disse Kalleo, olhando para ele com o cenho franzido, transparecendo inocência. Provavelmente estava pensando que Théo era louco.

Relutante, Théo passou sua camiseta por cima da cabeça e a colocou sobre a pia. Sua pele em contato com o ar frio da noite se arrepiou. Ele se sentia despido e envergonhado na frente de Kalleo. Podia sentir seu rosto corando aos poucos.

― Não precisa ficar envergonhado ― falou Kalleo, percebendo a vermelhidão nas bochechas dele. ― Não sou nenhum velho estuprador de 60 anos. ― E riu de sua própria piada. Théo também não aguentou, riu junto. Algo no sorriso de Kalleo fazia com que ele sorrisse também. Era como se fosse contagioso.

Depois se aproximou de Théo com toalha úmida nas mãos, erguendo-a na altura do rosto para limpá-lo, e foi então que Théo se esquivou.

― Deixa que eu limpo ― cortou Théo, pegando a toalha de suas mãos.

― O.K. ― Kalleo, parecendo um pouco desconcertado e envergonhado, se afastou para perto da pia. Théo quis dizer alguma coisa, sentiu que fora grosso com ele, mas não sabia o que exatamente dizer. Nunca sabia o que dizer em momentos como esse.

Quando terminou de limpar seu rosto e seus braços que estavam sujos de comida, ele depositou a toalha novamente sobre a pia, onde Kalleo estava lavando sua camiseta.

― Não precisa lavar minha camiseta... ― foi dizendo, torcendo a boca.

― Não se preocupe; sei o que estou fazendo. Não vou estragar ela ― disse torcendo a peça de roupa. ― Pronto, terminei. Vou estendê-la aqui mesmo. Amanhã eu passo aqui e pego para você. ― E foi até o outro lado do vestiário, atrás dos armários e depois voltou sem a camiseta. Quando voltou, encarou Théo de cima a baixo com os olhos semicerrados. Seus olhos percorrendo toda a extensão do corpo do garoto. ― Você não pode sair daqui desse jeito. Vai acabar pegando um resfriado. ― E sem dizer mais nada, começou a tirar sua camisa de botão, ficando apenas com a camiseta de baixo. ― Pega. Pode vestir.

― Quê? Ah, não. Não precisa. Sério ― discordou Théo, recuando o passo.

― Precisa sim. Aqui. ― E pôs a camisa nas mãos de Théo. Este a pegou e começou a vestir. Estava quentinha e tinha um leve cheiro de baunilha, o que era estranho. Depois de abotoar os botões, virou-se para o espelho e se encarou. A camisa ficara um pouco maior que o normal, mas não tanto a ponto de parecer estar vestido numa camisola feminina. Dava para usar.

― Hã... obrigado, cara. De verdade ― agradeceu, o rosto ainda corado de vergonha.

― Por nada. ― Kalleo cruzou os braços na altura do peito e sorriu ao olhar para Théo. Um sorriso que dizia que não havia um problema que ele não pudesse resolver. ― Agora você vai voltar para o refeitório e agir como se nada tivesse acontecido.

― Voltar para o refeitório? ― Théo engoliu em seco. O medo voltando a percorrer por suas veias.

― Exatamente. Não vai ficar com fome só por causa do que aconteceu mais cedo. E, além do mais, já devem terem se esquecido do ocorrido.

Respirando fundo, ele concordou, mesmo com medo. Kalleo tinha razão e algo sussurrava em sua mente parar seguir o conselho dele.

― Então vamos. ― Kalleo abriu a porta do vestiário e deixou Théo ir primeiro. Ao passar, encostou sem querer no seu ombro. A sensação foi como se Kalleo tivesse novamente encostado em sua mão e a corrente elétrica percorresse por todo seu corpo. Théo quis perguntar se ele também sentiu aquilo, mas percebeu que pareceria um bobo perguntando esse tipo de coisa a outro cara.

Saindo para o gramado banhado pela luz prateada da lua, Kalleo parou em frente a Théo.

― Bem... eu vou indo agora. Acho que minha missão de super-herói acabou por hoje.

― Obrigado. Por tudo ― disse Théo mais uma vez.

― Por nada. ― E piscou o olho. Théo olhou atentamente para ele, tentando descobrir qual era a cor de seus olhos. Naquele momento, eles estavam prateados como a lua. Ele nunca vira olhos assim. ― Até mais, Théo Ângelo. ― E deu as costas, andando de maneira despreocupada pelo gramado, deixando Théo parado sozinho em frente ao vestiário.

― Espera! ― disse Théo se tocando de algo. Kalleo se virou, encarando-o. ― Como sabe meu sobrenome? Eu... não lhe disse.

Kalleo sorriu, mas antes de se virar e voltar a caminhar para o refeitório, disse:

— Sei de coisas que você nem imaginaria.