Minha jornada... escrita por eduarda14


Capítulo 7
Mais Miguel, menos Sérgio!


Notas iniciais do capítulo

Um novo personagem...
“Uma carícia, um sorriso, um ouvido atento, um elogio sincero. Um ato mínimo de amor tem o poder de transformar uma vida.” (Leo Buscaglia)




          É só chegar a noite... Que me sinto triste... Aquelas palavras malditas que meu pai dissera. Não consigo mais dormir. Meu sono se transformara em mágoa. Mágoa comigo e com tudo! Quando olho no espelho não me reconheço. Parece que minha vida se resume em uma doença crônica incurável. Parece que a minha estrada não tem mais chão, e sim um grande abismo, preparado para eu pular. Melhor, esse caminho não tem mais continuação... Ele acaba por aqui, e minha vida vai ser assim ora dores, ora ofensas.  

— Isadora, o infectologista disse que a Malu não está respondendo muito bem aos tratamentos... 

— Deve ser por causa da autoestima dela que piorou depois que o pai dela veio aqui, a Malu  ficou muito diferente, nada que a gente fale adianta. Ela ficou muito magoada mesmo. Ele realmente disse palavras muito duras... 

— Eu li um artigo sobre AIDS, que diz que o convívio social é muito importante para o aumento da autoestima das pessoas, fazendo com que elas cuidem melhor da saúde. 

— Gérson! Que tal levarmos a Malu para conhecer pessoas, que assim como ela, contraíram o vírus da AIDS, mas possuem uma vida saudável, uma vida normal. Tem uns que casaram... Tem casal que os dois são soropositivos... 

— Como assim, você quer dizer em instituições e tal? 

— Isso! Em campanhas... Porque existem voluntários para isso. Para a luta contra a AIDS. São organizações de apoio mesmo. Tem uns que até são psicólogos... Fazem visitas domiciliares e hospitalares... Tem palestras... 

— Bem lembrado Isa. 

— Beleza. 

— Então a gente conversa depois... Tchau. 

— Até... 

Logo após o telefone de Isadora ser desligado, alguém bate na porta. 

— Já vou... Miguel? Que estranho você por aqui - "Nunca imaginara que um rapaz tão lindo iria me visitar..." - Algum problema? 

— Você tem um tempinho? 

— "Pra você todo o tempo do mundo lindinho"... 

— Tem? Sim ou não? 

— Ah... Desculpa, é que eu meio que... É claro que tenho, quer ajuda com algo? 

— Sim... É sobre a Malu... Eu fiquei sabendo o que aconteceu, e fiquei preocupado. E queria poder ajudar... 

— Ah sim... Que ótimo! Ela precisa mesmo de apoio. Mas quem te falou? 

— Gérson.  

— A Malu está muito mal Miguel, e por incrível que pareça, não estou falando do organismo.  

— Eu sei. A sociedade que é injusta, apenas aponta o erro do indivíduo. Machuca. Ofende. 

— Você falou tudo! E ela está assim, desanimada e frustrada, principalmente depois que o pai veio aqui. Falou que tinha vergonha da filha e desprezo. Tratou a mãe com arrogância... Disse ter nojo da própria filha! 

— Não acredito! É apenas mais um preconceituoso, que se prende aos conceitos, na verdade é um ignorante, só com trevas no coração! 

— Tem razão. Olha... Precisamos de mais Miguel, menos Sérgio! 

— Como assim? 

— O mundo precisa de mais pessoas como você, sensatas e que saibam amar. E menos pessoas que não saibam perdoar, que só possuem raiva e rancor no coração. 

— Obrigado.  

— Mas como você pretende nos ajudar? 

— É que eu já estou acostumado a ajudar pessoas com o mesmo problema que a Malu. 

— Você é um desses voluntários de luta contra AIDS e tal? 

— Exatamente. 

— Que massa. Então você já tem experiência! O que faz tanto? 

— Nós nos empenhamos o máximo para que os portadores de AIDS/HIV sintam-se melhores... Para mim é um aprendizado...  Fazemos campanhas, e também tem os voluntários on-line...  

— Nossa... Não sabia que você fazia isso! Mas Miguel poderia me responder uma coisa? 

— Sim. 

— Miguel, você gosta da Malu? 

— Hum, não sei o que está falando... 

— Você sabe sim! 

— Gosto, ela é minha amiga e... 

— Você entendeu minha pergunta! 

— Então é não...  

— Antes até que poderia gostar, mas agora não quer! Não é mesmo? 

— Não é por causa disso! Se eu estivesse apaixonado por ela, estaria mesmo com AIDS ou qualquer outra coisa! 

— Está bem então, já que está falando... 

Enquanto isso... 

Malu voltara com sua mãe de um tratamento. Sentia-se melhor quando estava com ela. 

— Minha filha, eu vou precisar dar uma passadinha lá no colégio. 

— No domingo! Vai demorar muito? 

— Não Malu, vai ser uma reunião breve. Eu quero que se alimente bem querida. 

— Está legal... 

Não sei o porquê, mas lembrei do Miguel. Não sabia que se preocupava comigo. Mas ele não pode saber! Por que não pode saber?! Espera. Para quê ele tem que saber? Eu estou pensando nisso por quê? Acho que é a fome... 

TOC, TOC... 

— Mãe, você voltou rápi... M-Miguel?  

— Oi Malu. 

— Tá fazendo o quê aqui? Quer dizer, entra aí... 

— Eu vim te ver, para ver se estava bem. 

— Ah

— Você não gostou da minha visita? 

— Não é que... É estranho... 

— Desculpa não ter avisado. 

— Mas como assim ver se estou bem? 

— É que... O Gérson me disse que... 

— Disse? 

— O seu problema lá... 

— Ah. Entendi! Agora já sabe que eu tenho AIDS e está com pena de mim, pois sabe que vou morrer e resolveu vir aqui antes disso, não é?! 

— Claro que não! Sou seu amigo! E quero te ajudar. Não quero que se sinta solitária ou frustrada, eu intendo você! 

— Como quer me ajudar?? Você não me intende, ninguém pode me entender! 

— Não pode pensar assim. 

— Quer que eu pense como? Não quero uma pessoa a mais na minha vida pra ficar dizendo: Malu, você vai conseguir... Não pode desistir... E não sei mais o quê! 

— Não é isso. Eu quero te levar amanhã em uma palestra sobre a AIDS. Quer ir comigo? Eu sou um dos palestrantes... 

— Sério?? Eu não gosto muito de palestras... Você vai falar também? Que engraçado. Mas se eu for, é só porque você é um dos palestrantes. 

— Vai ser um prazer Malu. 

— Mas porque você vai dar palestra sobre AIDS? 

— Ah, esqueci que você também não sabia. Eu sou um voluntário. Dediquei-me ao trabalho voluntário na luta contra a AIDS desde que meus pais morreram. Os dois eram soropositivos... 

— Sinto muito. Mas e você... 

— Todos pensam que eu nasci com a doença, porém quando o casal é------------------------------- 

— Obrigada por querer me ajudar Miguel. Desculpa por lhe tratar tão mal. 

— Não importa. 

— Você quer lanchar comigo? 

— Não quero te incomodar. Já vou pra casa. 

— Não é um incômodo! Vem, por favor. 

— Tudo bem. 

Os dois ficaram se entreolhando por um bom tempo, até Gessy chegar do trabalho. 

— Olá pessoal! 

— Olá senhora Gessy. Eu sou Miguel, amigo da Malu. 

— Muito prazer. 

— Mãe, amanhã o Miguel vai me levar em uma destas instituições de apoio para pessoas que como eu, contraíram o vírus da AIDS. E ele é um voluntário de lá, acredita? 

— Que legal. Obrigada por conseguir tirar minha filha de casa. 

Ela tinha razão... Enquanto Miguel estava atravessando a porta. Reconheci que desde aquela noite, naquela festa, daquela sexta. Eu nunca mais saíra para lugar nenhum. Não queria pensar nisso, mas já que estou pensando... Será como está o Dantes neste momento? Está com remorso ou feliz? Eu poderia odiá-lo e desejar a morte dele, mas não vale a pena, acho desnecessário! 

— Filha? 

— O quê? 

— Até que este moço é interessante não é mesmo? 

— Que isso mãe, quase casando e falando estas coisas. 

— Vai me dizer que não te atrai? 

— Para mamãe...  

— Que foi filha, não fica triste, é só uma brincadeira! 

— Não tem graça. Posso falar uma coisa? Não fica arranjando pretendente para mim tá legal... 

— Mas por quê? Você já tem 18 anos e... 

— Isso não tem nada haver. Não importa! Eu me apaixonar por um garoto? Não mesmo! 

— Por que não? 

— Não finge que não sabe mamãe! Você sabe muito bem, que ninguém é maluco o suficiente para ficar com alguém como eu. 

— É aí que você se engana! Ninguém escolhe quem vai amar filha. 

"Miguel, você gosta da Malu?" 

Será que eu gosto dela de outra forma? Não... A Malu não aceitaria... Teve uma experiência ruim com outro rapaz e não me aceitaria. Mas... Seus olhos, seus olhos possuem uma beleza única, assim como seu rosto pálido e macio. É tão delicada, sensível, graciosa... Mas ao mesmo tempo forte. Espero que vá amanhã. Preciso vê-la, para me encantar com sua voz suave me acalmando... No meio desta confusão, penso em você, o que há atrás daquele sorriso triste? Se descobrir pode me achar um ridículo. Eu só desejo amar você! Com o seu olhar... Eu volto a viver! 

"Até que este moço é interessante não é mesmo?" 

Por que faz isso Miguel? Agora estou pensando em você... Quando está distante, parece tão perto de mim. Se souber disso, pode até me achar ridícula... Por que tudo é tão confuso? Eu te conheci uns meses atrás, mas parece que sempre amei você, não entendo esta sensação... Será que pode existir amor entre pessoas tão diferentes? Mas é difícil fingir que o passado não existe. Não posso me deixar levar, mas era isso que eu queria... Será que você pode pensar o mesmo? Poderia amar alguém como eu?  





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