Em busca da verdade escrita por Lua Lima


Capítulo 4
Capítulo 4 - Finalmente sei de onde, raios, eu vim.


Notas iniciais do capítulo

Olá! Estou muito feliz de ter conseguido terminar a tempo e muito orgulhosa de mim mesma com esse projeto. Na verdade, esse é a primeira história desse tipo que consigo concluir e estou bastante feliz.
Preciso agradecer muito a Gi pelas criticas, pelo apoio e pelos conselhos. Também ao Sid, meu chato, que foi paciente enquanto eu escrevia e me ajudou em algumas escolhas. E, claro, tenho que agradecer a minha família linda que me deixou ficar trancada no quarto pra terminar essa história a tempo.
Boa leitura!




Estou sentada no beiral do novo hotel em que estamos hospedados. Meus pés se sentem confortáveis balançando descalços à sete andares de altura e minhas nádegas encaixam bem no beiral largo, de modo que posso pensar tranquila, com o vento da noite batendo no meu rosto, ensurdecendo-me e fazendo os pedaços do meu cabelo castanho chicotearem o ar e tudo que estivesse no caminho.

Foram dias agitados esses últimos. Hoje já é domingo e há algumas horas eu finalmente encontrei a minha mãe biológica.

Na quarta-feira dormi na cama do Martínez, abraçada com ele, triste por saber coisas tão ruins da minha mãe. Só ali percebi que, na verdade, esperava que a tal Tânia talvez fosse uma ladra de bebês, que minha mãe não soubesse onde eu estava e que eu tivesse pego HIV em alguma transfusão de sangue ou seringa contaminada. Tudo isso pareceu mais improvável, naquela hora.

Na quinta-feira decidimos procurar somente na cidade do hospital. Saímos logo depois do café e compramos um mapa da região. Fomos colhendo informações com moradores perto do hospital e marcávamos no mapa os possíveis lugares.

Martínez parecia um verdadeiro detetive.

— Consegui com a Andrew o nome dela e a data de nascimento. Ela tem aproximadamente 33 anos. Temos que procurar também qualquer lugar que ela possa ter estado, mas fechou.

Não foi fácil. Nem um pouco.

Delegacias, fóruns de assistência e cemitérios ainda tinham os registros organizados por ordem alfabética, sendo fácil ver se havia ou não uma “Paloma Salladric”, mas hospitais mantinham registros por data. Tudo a mão, é claro. O universo tecnológico parece estar chegando agora nesse fim de mundo.

Almoçamos e jantamos em qualquer lugar na cidade do hospital antes de ir para o hotel em que estávamos, já bem tarde da noite. Dormi com Martínez de novo. Havíamos passado o dia dentro de galpões verificando incontáveis caixas com registros. Passamos quatro horas verificando os registros de um hospital, mesmo com a ajuda de dois funcionários.

Mas uma coisa preciso admitir: as pessoas dessa cidade não têm nenhuma preocupação com informações sigilosas. Nem mesmo os policias hesitaram antes de me deixar procurar nos laudos. Mas mesmo assim eu achava que talvez não encontrássemos nada.

Na sexta passamos para um hotel mais perto da cidade em que focamos as buscas. Pedi ao Mart uma cama de casal e continuei dormindo com ele, mas desde quarta nós não ficamos’ direito. Novamente só conseguimos muito cansaço naquele dia e nenhum resultado nos lugares que procuramos.

No sábado de manhã meus pais chegaram com duas primas minhas, gêmeas de 34 anos. Havia ligado para casa na quinta contando tudo que estava acontecendo. Com a chegada deles pudemos ampliar as buscas no sábado e isso me animou. Mas no fim do dia, nós seis ainda não tínhamos nada além de exaustão. Meus pais pegaram um quarto pra eles e disseram para eu ficar com Martínez e minhas primas tinham outro quarto pra elas.

Então, no domingo a tarde, minhas primas resolveram ir no ultimo hospital antes de voltarem para casa.

Elas ligaram de um telefone fixo do hospital para o meu celular que, por um milagre, estava com sinal dentro da sala apertada da delegacia.

— Alô?

— Pamela? Hó, você está com sinal, que maravilha! É a Stephanie.

— Oi, prima. O que foi? – Parei de mexer na caixa que eu segurava e fiquei alerta.

— Estou no hospital a duas ruas da cafeteria que falei com você ontem. Encontrei algo. Venha logo.

Puxei Mart pela mão e corri para fora dali pedindo desculpas aos guardas.

Lembro que na hora podia jurar que a Stephanie tinha dito “Encontrei ela”, mas agora me lembrando escuto claramente o “algo”. Fui correndo – não literalmente, estávamos bem longe e fomos de carro – esperando encontrar uma mulher deitada numa cama com aparelhos ligados a todo corpo. E quando ela me olhasse ela diria “Uma mãe nunca se esquece”, como no desenho que vi outro dia.

Mas nunca é da forma como a gente deseja, né? Sempre tem algo que atrapalha. Algumas vezes é um pequeno detalhe, outras vezes simplesmente não é nada do que estávamos esperando.

Stephanie me esperava no estacionamento do hospital. Segurando uma pasta com documentos e acompanhada da sua irmã Suzana e de um homem baixinho, de cabelos escuros que usava um uniforme branco.

Mart soube antes de mim.

Ele segurou meus ombros me parando, assim que conseguiu ver o rosto delas. Virou meu corpo para ele e me beijou de um jeito calmo, mas delicioso. Fui um beijo um pouco longo.

Ele segurou firme minha mão e. quando voltei a olhar minhas primas, consegui ver que havia algo errado.

— Pam... – Stephanie parecia sentida.

— Encontramos um registro médico da sua mãe aqui. – Suzana era bem mais prática.

— O que tem nele? – Perguntei ansiosa, Mart não me deixava chegar muito perto delas.

— Ela deu entrada aqui pouco mais de quatro meses depois de você nascer. – Suzana assumiu a responsabilidade de me contar – Ela estava com uma pneumonia bem desenvolvida. Eles não puderam salva-la.

Sucinta. Suzana foi clara, sem tremer. Stephanie parecia triste, mas não pude ver a reação de Mart.

Eu caí de joelhos no chão, todo com pequenas pedrinhas, e apertei as mãos no chão, soluçando sem ainda chorar. As pedras fariam minhas mãos e meus joelhos sangrarem, mas pela primeira vez não me importei com isso.

Então as lágrimas vieram.

Mas elas eram calmas, como uma maré que aumenta aos poucos para alcançar seu ápice.

Ninguém mexeu em mim enquanto meu choro aumentava gradativamente. Limpei minhas lágrimas com as mãos sujas de terra, pedras e sangue.

Afinal era isso. Uma drogada sem família engravidou aos 16 anos, abandonou o bebê e morreu meses depois de uma doença provocada pela AIDS que ela nem sabia ter.

Não era nada parecida com a história que eu imaginei. De nenhuma forma.

Depois disso me lembro de cada detalhe com uma clareza absurda. Não só por isso ter acontecido a poucas horas, mas porque foram coisas que ficarão marcadas na minha vida. O tipo de coisa que não se esquece.
Minha mãe caiu no chão a minha frente no impulso de uma corrida e me abraçou, ajoelhada. Eu a abracei de volta deixando as lágrimas gritarem para fora de mim. Minha mãe também soluçava e chorava. Meu pai se ajoelhou devagar ao nosso lado e nós três nos abraçamos.

Talvez alguém que não tenha família - ou tenha, mas não a ame – jamais entenda o que foi aquele momento. Um momento em que minha família tão inusitada chorava uma morte que ninguém ainda havia chorado. São momentos de união da família, momentos que provamos nos amar intensamente e sentimos isso uns dos outros como nunca.

Voltamos para o hotel. Stephanie trouxe para mim a cópia dos registros que encontrou. Martínez ainda não tinha falado comigo, mas estava sempre ali. Jantamos todos juntos cedo para que minhas primas e meus pais pudessem ir pra casa. Eu e Martínez ficaríamos.

O jantar foi bom. Por mais que eu estivesse triste, estava aliviada. É sempre melhor saber algo ruim do que não saber.

Nós quase não conversamos, mas eu estava tranquila. Me sentindo acolhida.

Quando meus pais saíram eu sorri - meu primeiro sorriso em vários dias – para acenar para eles. Mart passou o braço pelo meu ombro e me guiou para o nosso quarto de casal, no 5º andar. Ainda não falamos nada.
Agora, pensando bem, não me lembro de ter pedido para ficar mais. Acho que todos sabiam que ainda faltava um último detalhe.

 

Entramos no quarto e ele seguiu andando para cama quando parei em frente a porta que havia acabado de fechar.

— Mart, preciso te contar uma coisa. – Preciso tirar mais esse peso das minhas costas.

— Já não era sem tempo. – Ele suspirou aliviado e se sentou na cama, olhando pra mim – É tão ruim assim?

— A ponto de você querer ir embora hoje mesmo.

— Pam, - Ele endireitou a postura e olhou intensamente nos meus olhos – você precisa aceitar que eu não tenho mais escolha. E que você também não. Nós nos amamos e até quem me vê na fila da padaria consegue perceber isso. Talvez você me diga que na verdade é um homem e ainda sim meus sentimentos por você não iam mudar nada. Ainda assim, Pamela, eu ia te querer ao meu lado e ainda assim eu ia lutar contra tudo pra estar com você.

Uma lágrima desceu dos olhos dele. Eu estava emocionada, mas não queria chorar.

— Hó, Mart... – Hesitei um momento - Eu... Eu sou doente. – Não era o que ele esperava, seu rosto empalideceu – Eu tenho uma doença muito grave. – Não havia cor em seu rosto, ele não estava nada bem – Eu tenho AIDS, Martínez. Contraí da minha mãe biológica, ela também tinha AIDS e por isso morreu de uma doença oportunista.

As sobrancelhas dele se juntaram de dúvida, sua cor voltou aos poucos.

— Mas você... Vai morrer?

— Não logo, eu acho. Vivo a anos tomando medicamentos e por algum tempo serei assim. Por isso tenho que manter a alimentação bem regulada e os exercícios. Isso é essencial para manter minha saúde. – Isso o deixou aliviado.

— Por que não me contou antes, Pamela? – Ele estava neutro, mas sério.

— Eu queria prolongar ao máximo os momentos ao seu lado. – Minha voz demonstrava toda a tristeza e o medo que eu tinha.

— Isso significa... – Ele ficou pensativo e se levantou, meu corpo ficou tenso – Que você vai namorar comigo agora?

Fiquei tão surpresa que essa fosse uma das coisas mais importantes para me perguntar agora. Meu rosto demonstrava toda a dúvida, mas relaxei. Ele aguardou.

— Você... Ainda quer que eu te namore?

— Mas é claro, Pamela! Nossa, sabe, eu realmente estava achando que você era homem. – Ele riu, nervoso.
Eu sorri, boba como uma pré-adolescente que descobre a primeira paixão.

— Eu aceito namorar com você, Mart.

— Legal, namorada. – Ele sorriu.

Nos beijamos. Muito.

Quando tive consciência novamente, eu estava só de short e calcinha com ele, sem camisa, deitado em cima de mim na cama.

— Mart, - eu estava muito ofegante – temos que conversar sobre isso.

Ele apoiou os braços ao lado da minha cabeça e ficou me olhando de cima.

— Tipo usar camisinha?

— É... E mais alguns outros detalhes.

— Como o que? – Ele deitou do meu lado e virei para olha-lo.

— Você não pode fazer sexo oral em mim, por exemplo.

— É? – Dessa ele não sabia.

— É. E também não posso ter filhos*, você deve imaginar.

— Imagino. O que mais?

— Bom... Eu tenho alicate e cortador de unha separados, sempre. Assim como lâmina de barbear - Ele ergueu só uma sobrancelha, fazendo uma cara de “Sério, isso?” – Parece bobo, mas são coisas importantes.

— Tudo bem, - Ele me beijou – tenho muito tempo pra aprender.
Ele ia continuar me beijando, mas resolvi falar:

— Preciso de um momento a sós.

— Quer que eu saia? – Ele levou esse meu momento na boa’.

— Não. Tenho que ir ao terraço.

— Tudo bem. Quer que eu te espere?

— Não, não. Pode dormir.

Me vesti com roupas quentes, peguei o elevador e subi.

E agora estou aqui. Tentando analisar esses últimos dias.
Ainda falta algo... Não posso simplesmente ir embora agora. Então eu percebo o verdadeiro motivo de não terem me deixado ir para casa.

Eu devo ir ver o tumulo da minha mãe.

Algumas vezes sei que preciso sentar e pensar para enxergar algo, mesmo que eu não tenha ideia do que. Hoje foi isso. Agora posso ir me deitar aconchegada ao lado do meu namorado. Como é bom, enfim, dizer isso.

Desci para o quarto e estou tirando as roupas para dormir só de calcinha e sutiã. Nunca fui tímida com isso e Mart já havia me visto quase nua mesmo. Quentinha nos braços dele vou dormir bem rápido...

— Acorda, minha Aurora Boreal.

— Não entendi a referência. – Me espreguicei.

Hoje ele ainda estava com o short de dormir, deitado ao meu lado.

— É a princesa que dorme. O nome de verdade dela.

— Ah, sim. – Nunca fui ligada em princesas mesmo, gosto de aventuras.

— Vamos tomar café e dar uma caminhada?

— Sim, claro. Mas... Mart, pensei em algo ontem. – Ele me olhava, mas ele já sabe o que vou dizer. – Bom, queria ir no túmulo da minha mãe.

— Podemos ir à tarde?

— É, ótimo.

Agora meu namorado também seguia as regras de Rúbia, acho que em solidariedade, além de se esforçar mais para fazer da caminhada um exercício físico. Chegamos cansados e almoçamos perto do hotel.

No relatório havia outras informações que eu havia visto até antes de meus pais irem para casa. Havia o nome de um homem que retirou o corpo, o exame que atestava AIDS, o local em que ela seria enterrada e o lugar onde ela nasceu – naquela mesma cidade. Com o nome do cemitério foi bem fácil chegar lá e perguntar pelo túmulo dela.

O cemitério era bem bonito, cheio de lápides negras e brancas que contrastavam com o chão verde, além de ter lindas flores espalhadas por todo lado. Lembro de minha mãe ter trabalhado para um cemitério e esse ser um de seus projetos favoritos, mas ela nunca me deixou ver. Nunca perdi alguém próximo o suficiente para ter que ir a um cemitério.
Mas agora havia alguém.

Eu não trouxe flores e me sinto culpada por isso. Mas chegamos ao túmulo dela e é lindo. Uma foto dela – de quando criança – ficava estampada em preto e branco na lápide. Embaixo da foto havia uma mensagem:

“ Paloma Salladric (1982 –– 1998)

Jesus disse: ‘Deixai vir a mim os pequeninos e não os impeçais’ ”

Fiquei me perguntando quem havia feito uma homenagem tão bonita, já que eu achava que ela não tinha família. Então pensei no homem que retirou o corpo. Quem seria ele?

Hó! Eu devo estar me prendendo nisso. Nessa busca infinita. Nunca vou saber tudo, sempre haverá “talvez” e não posso ficar correndo atrás de tudo.

Mas eu sei que preciso ir. Sinto isso.

Não tenho vontade de falar com ela, aqui, em frente ao seu túmulo. Só faço uma prece pedindo que Deus acolha a alma dela com muito amor. Mas Mart estava com a mão na foto da Paloma, cochichando baixinho – falando com ela.

Quando ele terminou, olhou para mim. Ele sabia que eu daria a ele um novo desafio.

— Quem fez esse túmulo pra ela, Mart?

— Jonas Canceline.

— O que ele é dela?

— Vamos ver, amor.

Ele segurou minha mão e andamos até o homem no balcão de atendimento do cemitério. Perguntamos sobre o tumulo de Paloma Salladric e ele foi rápido em responder:

— Ah, o Jonas que pagou. Ele sempre vem aqui trazer flores! Ele mora aqui pertinho, vem quase todo dia.

— Poderia nos dizer aonde? – Martínez perguntou.

O homem indicou e fomos andando até lá. Eram só dois quarteirões.

A casa era verde e grande, mas parecia abandonada. Não havia campainha, então batemos na porta. Um homem de 50 e poucos anos nos atendeu. Ele era bonito, negro de olhos escuros e cabelo preto curto.

— Boa tarde? – Ele parecia desconfiado.

— Boa tarde. – Respondi – O senhor é Jonas Canceline?

— Sim, quem deseja?

Decidi que era melhor ser direta.

— Eu sou a filha da Paloma. Me chamo Pamela.

Ele arregalou os olhos e andou até mim, passou a mão devagar na minha bochecha, com um olhar triste.

— Você conseguiu vir ao mundo, pequena? – Era claramente uma pergunta retórica – Entre, por favor. E esse rapaz, quem seria?

— Sou Martínez, namorado dela.

Entramos e nos sentamos em um sofá de dois lugares puído, em uma sala espaçosa e cheia de velharias como armários, estantes, toca discos e etc. Jonas puxou uma cadeira e se sentou a um metro de distância do sofá.

— A que devo a honra dessa visita?

Então comecei a contar sobre como havia sido adotada, porque vim para cá e como encontrei minha mãe e depois ele.

— Quando fui ao cemitério senti que precisava vir atrás do senhor. E agora quero saber o porquê. Sei que você deve saber o motivo.

— Minha filha, eu não tenho ideia do motivo de você ter vindo aqui. Mas acho que posso te contar algumas coisas sobre sua mãe, sim. Eu fui padrinho da sua mãe, logo conheço ela desde antes de nascer. – Ele sorria e contava sua história com orgulho – Como era linda a Pã.

— Pam? – Um arrepio desceu pela minha coluna e Mart fez carinho na minha mão.

— É, Pã. Porque ela amava a natureza e você sabe, acho que tem um Deus ou uma entidade de alguma cultura ligada a natureza que se chama Pã, então abreviamos de Pami pra Pã. Bom, enfim. Pã tinha só 12 anos quando se apaixonou por um homem de 21 que era um tremendo canalha. Mas você sabe, paixão de criança não desgruda tão fácil.

“Pã fugiu com ele e jamais nos contou o porquê, mas os pais dela, que eram rígidos, não aceitaram isso e a expulsaram de casa. Eu estava morando em outro país na época e não tive condições financeiras de vir ajudar. Quando finalmente retornei procurei Pã de imediato.
Ele parecia decepcionado consigo mesmo, mesmo tendo justificativas para as suas ações.

— Quando achei Pã, - ele continuou – ela estava se drogando, morando nos becos e dormindo com qualquer cara, não por dinheiro ou sendo forçada, mas por magoa de ter sido traída por aquele salafrário. Queria muito poder te dar palpites de quem poderia seu pai, mas pode ser muita gente. Além de que metade já deve estar morta.

“Eu tentei tira-la de lá, mas ela não quis e se mudou pra longe de onde eu havia a encontrado. Quando a encontrei novamente...

Ele balançou a cabeça em negação, com um semblante triste.

— Tudo que pude fazer foi dar a ela um enterro digno. – Ele respirou um momento e aguardei seu tempo quieta – Quando Paloma era bem criança ela tinha uma boneca linda que ela chamada de Carol. Ela dizia que ia ter uma filha linda e ia ser feliz para sempre com seu príncipe encantado. Mas acho que o príncipe dela não chegou – Ele sorriu, muito triste – Mas pelo menos ela teve a filha linda que sempre desejou.

“Eu sei que ela te abandonou, mas entenda que ela já não estava mais nem consciente de si. Aquele cretino a tirou da família, fez ela perder tudo e só sofrer. A última vez que a vi antes de morrer ela estava grávida de poucos meses e totalmente fora de si, mal me reconheceu, mas ela disse que não era a primeira vez e eles sempre morriam antes de nascer. Não era você ainda, mas agora que fiz as contas percebo que não teria dado tempo de ela ter aquele bebê antes de engravidar de você.

Então não se prenda a essa possibilidade. Mas você foi um verdadeiro milagre, minha pequena. E peço desculpas em nome dela por não ter sido uma boa mãe.

— Jonas, muito obrigada. – Senti um alívio completo – Não sabe o quanto é importante para mim saber exatamente de onde venho.

— Não por isso, meu bem. Aceita um café?

— Vou aceitar sim. – Sorri, feliz como a muito não ficava.
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Estou sentada no beiral da janela do meu quarto. Meus pés se sentem confortáveis balançando descalços à mais de 2 metros de altura e minhas nádegas encaixam bem no beiral largo, de modo que posso pensar tranquila, com o vento da noite batendo no meu rosto.

Algumas pessoas têm ideias ou objetivos e imediatamente vão concretiza-los, certos de que é o que tem que fazer. Mas eu não sou assim. Já tem anos que tenho uma ideia e agora, finalmente, consegui executa-la na prática.

Sou adotada e sei disso desde sempre, mas isso não é a coisa mais chocante da minha vida. O chocante, o incomodo, o triste da minha vida é o fato de eu ter AIDS. Ou pelo menos era.

Agora começo a perceber que levo uma vida muito normal, mesmo com a doença. Tenho um namorado, amigos, faço faculdade de Odontologia e natação. Nada me impede de ter uma vida confortável e feliz ao lado das pessoas que eu amo. Ninguém me vê como diferente, sou amada e querida. E a única que achava chocante, incomodo e triste o fato de ter AIDS era eu.

Vivi anos me martirizando com a crença de que eu não podia namorar, viver muito ou ter uma vida normal. Certo que eu não sei o quanto vou viver, mas, enquanto eu for feliz, quem se importa com quando vai acabar?

Agora que sei sobre meu passado e matei o “Talvez” que tanto me incomodava, me sinto leve e desposta a criar o meu destino. Não vou deixar um passado condenar meu futuro, pelo menos não depois de conhecer meu passado de verdade.

Já fazem seis meses desde que descobri sobre a Paloma. E hoje rezo todos os dias para que a alma dela siga em paz pelo céu. Também agradeço todos os dias a Deus por cada pessoa e cada detalhe que tornam minha vida tão maravilhosa.

Mart e eu estamos juntos e felizes. Jonas e eu ficamos amigos e ele já veio me visitar uma vez. Meus pais estão mais felizes do que nunca percebendo como tenho me tornado mais e mais feliz a cada dia. E até quem me vê na fila da padaria percebe como eu tenho passado a me aceitar e como estou feliz comigo mesma.

E agora, com meu passado resolvido, só quero viver meu presente como se fosse morrer amanhã e sonhar meu futuro como se fosse viver... Para sempre



Notas finais do capítulo

*Quero registrar que mulheres com AIDS PODEM ter filhos, sim. Desde que seja inseminação artificial e haja acompanhamento médico. Pamela sabe disso, só que não está desposta a arriscar nem em 1% de contaminar seu filho.
Preciso fazer um ultimo agradecimento ao Thomas, autor de https://fanfiction.com.br/historia/364223/RepublicadeLeoes, de onde tirei o sobrenome Salladric (sobrenome do Divo, Danion) e a ideia de faculdade de odontologia (faculdade do maravilhos Sean).
Mãe, se você leu até aqui quero dizer que: Te amo e sempre acreditei em você! (Minha mãe não gosta de ler rs)
E, claro, preciso agradecer a você que leu até aqui. Obrigada! Beijos!



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