Perdida? escrita por Romantica10


Capítulo 1
Capitulo Um





CAPÍTULO UM

Eu não conheço a minha mãe. Eu não sei o nome dela, ou aonde ela mora. Não sei nem mesmo se ela está viva. A única coisa que sei e que ela me deu uma doença de herança ou de lembrança como você preferir. Eu não sou uma adolescente comum como as outras.

Se você procurar em qualquer aplicativo de busca, para achar algum lugar no mundo, pesquise Buffalo Springs em Nevada, nos EUA. Eu estou ai nesse pontinho vermelho. Se você procurar melhor você vai ver que é mínima comparada a Seattle, ou outro lugar grande e pelo menos conhecido. Casas pequenas e famílias felizes, cozinhas americanas e quintal para o cachorro. Mas comigo não é assim.

Eu tenho AIDS. Eu me sinto no direito de me afastar das pessoas. Eu sou meio anti-social, mas não por causa da minha doença – está bem, talvez um pouco -, mas sou tímida e fechada, tão calada como uma porta. Me afastei das pessoas porque eu não queria pena, eu não queria medo. “Eu tenho AIDS” afasta as pessoas de maneira rápida como um jato.

As pessoas acham que respirar o mesmo ar que eu irá fazê-los ter AIDS. Acham que se eles respirarem o meu bafo vão ficar contaminados. É realmente muito frustrante viver assim, mas não há nada que eu possa fazer.

As pessoas acham que são especialistas em qualquer tipo de doença. Quantas vezes eu já ouvi pessoas conversando a respeito de HPV, ou câncer, ou até mesmo AIDS, elas falam sobre coisas que não sabem, além do que passa na TV, elas não sabem de nada, elas só supõem e tem certas suposições que magoam e são preconceituosas.

Isso não é uma história para você sentir pena de quem tem AIDS ou coisa e tal… - como estão fazendo com portadores de câncer. – Na verdade isso é um grande desabafo a respeito do que eu sinto e do que eu vejo. Eu já to cansada de tanta incompreensão, de tanto preconceito, preconceito que eu já não aguento mais.

Eu não sei como cheguei aqui. E aqui quer dizer Orfanato Foster Children of Springs. Fui deixada aqui quando tinha poucos dias de vida. Deixaram uma cesta com um bebê e um bilhete. Nele continha as informações necessárias para a funcionaria do orfanato começar a correr igual uma louca e gritar por ajuda. Depois disso, eu comecei um tratamento. Depois que aprendi a engolir comprimidos tudo mudou.

Quinze. Quinze é o número de remédios que eu tomo por dia. Nomes grandes e tamanhos variados, mas era por causa deles que eu ainda existia. Eu aprendi a lidar com isso. “Ou toma ou morre”. Tratamento após tratamento, três dias na semana no consultório médico, comprimidos, sono e medo constante de resfriados. E quinze também é a minha idade.

Conseguimos que o governo bancasse meus tratamentos. Existem no mínimo duas mil pessoas com AIDS em Buffalo Springs, mas elas (em sua maioria) tem dinheiro para pagar e parece que meu caso comoveu alguns políticos então eu tive sorte.

Aonde eu morro é tecnicamente um prédio de dois andares largo e fechado, de janelas pequenas e respiradouros que fazem barulho. Um portão de ferro bem enferrujado para completar e dar um toque de terror. Mesmo com essas falhas, Foster Children of Springs era meu lar. Não era perfeito, mas é o que eu tenho.

Eu agradeço sempre a Amber por me achar naquela noite, porque se ela não tivesse me achado antes talvez eu tivesse ficado abandonada tempo demais e a minha morte seria certa.

Saindo do assunto mórbido que é a minha saúde… Eu tenho amigos. Bom, não no plural. Eu só tenho Bill, mas está bom demais. Bill é o meu verdadeiro e único amigo. Ele tem dezesseis anos e usa óculos. Óculos fundo de garrafa, mas isso não o deixa feio, talvez até fofo se você pensar bem. Um leitor voraz assim como eu, acho que já leu todos os livros daqui – sim, eu acho que ele leu toda a lista telefônica de Springs.

Eu não tenho uma amiga. Tenho uma colega de quarto que me pergunta: “Como foi o dia?” no fim do dia, mesmo ela sabendo que tudo é igual para mim todos os dias da minha vida. Conversamos um pouco antes de dormir. Abigail fala como gostosos são os garotos do reformatório masculino, perto daqui, antes de dormir para mim. Ela tem dezoito anos e ela ainda está aqui.

O orfanato não pode deixar os adolescentes de dezoito anos ou mais saírem, porque eles não têm lar, nem família, nem comida fora daqui. Como a maioria das crianças não foi a escola, muitos não irão conseguir emprego se saírem. Isso tudo é uma bola de neve. Ou seja, você só poderá trabalhar e ter uma casa se alguém vier te tirar daqui. Mas pessoas como: Abigail, Bill e eu, não temos mais essa esperança. Ninguém vai nos tirar daqui.

É divertido ouvir Abigail falando que adoraria conhecê-los de perto. “Hormônios a flor da pele”, ela diz. É realmente estranho pensar que eu tenha um namorado, ou que eu tenha um crush ou algo assim. Eu sou uma pessoa que poderia viver por mim mesma se não tivesse AIDS, mas Abigail tem outra idéia. Ela acha que ninguém pode ficar sozinho, todo o mundo tem que viver em par. Ela é uma romântica incurável, mas de vez em quando para mim, sem romantismo é idiota às vezes. Porém eu não falo nada, nem esboço reação quando ela fala de amor, porque eu sei que isso é tudo o que ela tem.

Ela fala demais sobre a minha aparência. Nunca me considerei uma pessoa bonita – além de que a doença me deixa magra e com olheiras enormes -, mas Abigail, como sempre tem uma idéia diferente da minha. Ela me acha bonita, diz que o meu cabelo só precisava de um corte e que meus olhos são incríveis. Para mim ela que era bonita.

Os meus cabelos são longos, praticamente na altura da cintura. Ele é escuro com poucos cachos nas pontas. Minha pele não é muito macia, e dependendo da luz ela parece meio cinza, mas na verdade é somente uma palidez assustadora. Os meus olhos são as únicas coisas que eu realmente gosto em mim. Eles são azuis claros, um azul diferente. Não tenho curvas (se existirem são mínimas), nem peitões ou um bundão. Eu sou só uma garota comum que tem AIDS, sinta a ironia comigo mesma.

Abigail é sincera e não tem medo de colocar AIDS no meio das frases.

“Ter AIDS não quer dizer que você pode parar de ter vaidade, sabia?” Ela olhou para mim enquanto subia para a cama de cima. “Você fala como se eu tivesse tido vaidade um dia”. Respondi e ela bufou. “Realmente não dá para conversar com você.” Depois disso eu só ouvi os roncos dela.

E eu gosto dessa sinceridade.



Notas finais do capítulo

Curtiram? Favoritem, comentem e recomendem! Bjs.



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