Estrada para o outro lado escrita por slytherina


Capítulo 7
Amigo


Notas iniciais do capítulo

"Parece cocaína, mas é só tristeza, talvez tua cidade. Muitos temores nascem do cansaço e da solidão. E o descompasso e o desperdício, herdeiros são agora da virtude que perdemos." Há tempos - Legião Urbana




Quando Sam abriu os olhos, percebeu que estava em um hospital. O forte cheiro de antisséptico mais um cheiro adocicado e forte que ele associou a remédios, o envolviam como uma nuvem de perfume. E havia os gritos distantes, choros interrompidos, passos rápidos e ruídos de material pesado sendo arrastado.

Quando se sentiu curioso o bastante para ver o que havia a seu redor, puxou a cortina que lhe dava privacidade, para ver quem era seu vizinho naquela enfermaria.

Um rapaz esquelético, de grandes olhos azuis acinzentados, virou o rosto para vê-lo também. Sam achou que deveria falar alguma coisa, já que fora indiscreto.

"Oi, meu nome é Sam."

"Garth."

"Legal!"

O rapaz ficou encarando por alguns segundos, mas depois virou o rosto para o outro lado da enfermaria, uma vez que sua cortina também estava aberta.

"Eu estava, hum-hum, eu estava numa lanchonete, quando eu, bem, quando eu desmaiei. Aí acordei aqui." Sam começou a conversar, mas não tinha certeza se o outro rapaz o estava escutando ou se queria conversar.

"Você está na ala de aidéticos. É para cá que trazem indigentes com HIV. Se sua família não vier buscá-lo, será levado para o abrigo de menores sem-teto." O outro rapaz falou sem emoção, voltando a olhar para Sam.

O jovem Winchester ficou chocado por se ver exposto em seu segredo mais íntimo, sem cerimônias, como se a doença fosse uma característica imutável do seu ser. Sentiu-se envergonhado. Voltou a fitar os confins de seu leito. Nada lhe pareceu mais interessante do que o lençol que o cobria. Queria dormir e acordar muito tempo depois, em um local onde as pessoas não apontassem para ele e falassem: aidético.

Como se percebesse o estado de ânimo de Sam, o outro rapaz voltou a falar. "Eu também ficava envergonhado quando as pessoas me tratavam como doente. Você sabe, as pessoas dizem que só gays e viciados têm AIDS. Mas após tanto tempo sendo atendido aqui, e convivendo com os pacientes daqui, eu não me incomodo mais em falar sobre isso. Quero dizer, ainda machuca falar sobre isso, mas quanto mais falamos sobre o assunto, o corpo fica mais leve, o peso do estigma alivia um pouquinho. E, francamente, as pessoas só vão deixar de ter preconceito e medo de nós, se elas nos conhecerem, conversarem conosco, e descobrirem que não somos diferentes dos outros adolescentes. Apenas temos uma doença crônica, só isso."

Sam escutou o que ele estava falando, e foi pouco a pouco se virando totalmente para observá-lo. Apoiou o corpo no cotovelo e até deu um meio sorriso e concordou com o que o outro rapaz estava falando.

"Há quanto tempo você tem AIDS?" Sam perguntou, menos envergonhado.

"Há quatro anos. Minha primeira relação sexual. Pensei que por ser casada, mais velha e instruída, que ela fosse saudável e que se cuidasse. Ela pegou AIDS do marido dela. E você?"

"Ano passado. Minha primeira vez também. Era um homem mais velho. Muito inteligente e bonito. Parecia com um professor meu por quem eu tinha uma queda. Nunca mais o vi, foi só uma vez. Nunca mais fiz sexo depois disso. Há uns dois dias recebi o diagnóstico. Meu irmão ficou bravo, e não aceitou muito bem. Fugi de casa."

"Minha família reagiu mal também. Primeiro me mandaram para casa de outros parentes, até que fui encorajado a morar sozinho e tomar conta de mim mesmo. Sabe, eles não são maus, eles até me procuram para falar comigo, me dão dinheiro, mas não muito. Eles apenas não me querem por perto." Garth falou isso mordendo o lábio inferior. Sam percebeu que isso ainda o magoava.

"Meu irmão e eu éramos inseparáveis. Depois que minha mãe morreu, ficamos super unidos, ele, meu pai e eu. Papai viaja muito a trabalho e freqüentemente deixa meu irmão e eu sozinhos, então é como se meu irmão fosse meu pai também. Acho que ele ficou decepcionado, ao saber de uma vez só que eu era gay e tinha AIDS. Ele chegou a me bater."

"Ele é violento?"

"Não, não, exatamente ao contrário. É o melhor irmão do mundo. E se eu não tivesse contraído essa doença..." Sam enxugou as lágrimas e tentou se recompor. "Enfim, essa doença me privou de muitas coisas na minha vida."

"O mesmo comigo, cara. O mesmo comigo. Já estou por minha conta e risco há dois anos. Os primeiros meses foram os piores, por causa da saudade da família. Depois arranjei uns amigos, pessoas que também tinham AIDS, e a gente passou a trocar idéias, ou simplesmente conversar, para não se sentir à margem da vida. Não vou mentir pra você, dizendo que tudo vai bem, por que não vai. Estou desempregado há uns meses e o moquifo onde moro é terrível, mas é o que meu dinheiro pode pagar. Mas essa a vida, você sabe, que muita gente leva, e nem todos são doentes." Garth parou de falar e ficou olhando o teto. Parecia que ele estava rememorando alguma coisa. Sam resolveu não interromper seu recolhimento.

O dia transcorreu tranqüilamente. Foram alimentados e medicados. Retiraram o sangue e outros materiais para exames. Uma assistente social veio entrevistar Sam, e ele resolveu falar a verdade novamente. Não lhe passava pela cabeça que Dean pudesse estar procurando por ele, pois afinal, agora ele tinha AIDS, e Dean não gostava mais dele. Foi fichado e catalogado. O Serviço Social agora sabia da sua existência e da existência da sua família. Sam não deixou de sentir uma ponta de culpa por isso também, pois seu pai, como bom survivalista, não confiava no governo, e com certeza não queria o governo se metendo com sua família. Mas agora Sam dependia inteiramente do governo por causa de sua doença, para conseguir remédios e tratar complicações. No dia seguinte, ele e Garth foram liberados com remédios e recomendações.

"Ei, chapa, tem onde ficar? Pode morar comigo, se quiser." Garth ofereceu.

"Poxa, muito obrigado! Não sei como lhe agradecer." Sam falou sorridente.

"Espere até ver a espelunca onde moro. Aí você decide se ainda quer me agradecer." Garth brincou.

Garth morava num velho prédio na periferia da cidade. Havia terreno baldio por perto, algumas fábricas antigas e abandonadas, e o que parecia ser os limites da cidade. Não era nada muito bonito, e as pessoas que transitavam por ali tinham um aspecto doentio ou ameaçador. Alguns adolescentes, aqui é acolá, se juntavam em esquinas. Ao fitá-los atentamente, em dúvida se deveria se aproximar e fazer amizade, um dos rapazes sacou uma faca e passou a manuseá-la, como se a demonstrar destreza. Ou para intimidar quem o observasse.

"Não olhe para eles. São barra pesada." Garth o alertou.

Sam sorriu intimamente. Wendigos e lobisomens eram barra pesada. Adolescentes gangsters não. Entretanto, nesse admirável mundo novo da AIDS, Sam não era páreo para eles.

Para surpresa de Sam, o apartamento era espartano. Uns poucos móveis velhos, mais funcionais, em um local limpo. Não havia sofá nem TV, mas um fogão e geladeira garantiam refeições saudáveis.

"Desculpa pela falta de TV. Foi a primeira que dançou, quando precisei do dinheiro para pagar o aluguel. O sofá eu vendi há uma semana. Acho que tenho umas mantas que minha mãe me trouxe há algum tempo. Você pode forrar o chão e dormir por umas noites, até que consiga comprar uma cama."

"Ok!" Sam sorriu agradecido. Ele colocou sua mochila num cantinho e foi até a janela para admirar a paisagem. "Você está desempregado agora, Garth. Como pretende conseguir um emprego nessa cidade?"

O outro rapaz deu de ombros. Ele não se importou em responder. Sentou-se no chão, do outro lado da sala.
"Sério, Garth. Você recebe seguro-desemprego?"

"Não. Estou pensando em procurar aquela assistente social do hospital. Talvez ela possa me indicar algum trabalho."

"E como você tem passado esse tempo sem emprego e sem dinheiro?"

"As vezes eu vou pras ruas e tento me virar como muitos sem-tetos fazem."

Sam abriu a boca surpreso. "Mas você tem AIDS."

"Eu uso camisinha." Garth respondeu com uma expressão cansada. "Eu não faço isso sempre, Sam. Só quando a fome aperta."

Sam ficou tão chocado, que resolveu não falar mais nada.

"Você deveria voltar a falar com sua família. Talvez eles não te odeiem. Você sabe, como a minha própria família." Garth falou num tom inexpressivo. Talvez ele já tivesse chorado tudo o que tinha pra chorar, por sua situação e o abandono da família. Vai ver ele não se importava mais.

"É. Talvez eu faça isso, mas ainda estou magoado, e acho que meu irmão ainda está com raiva de mim." Sam se calou e fechou os olhos relembrando de sua antiga vida, tão sofrida, mas não tanto quanto a de Garth.





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