Estrada para o outro lado escrita por slytherina


Capítulo 10
O futuro


Notas iniciais do capítulo

"Só por hoje eu não quero mais chorar. Só por hoje eu espero conseguir aceitar o que passou e o que virá. Só por hoje vou me lembrar que sou feliz." Só por hoje - Legião Urbana




John Winchester estacionou sua caminhonete próximo ao motel onde Dean estava hospedado. Pelo que seu filho mais velho havia lhe contado, ele reencontrara seu outro filho mais novo, Sam. Eles deveriam estar aguardando no quarto de motel com uma boa estória, para justificar todo esse alvoroço.

John não era um pai carrasco, longe disso. Ele dispensava aos filhos o mesmo tipo de cortesia que ele reservava a seus colegas caçadores, e amigos de longa data. Se seus filhos pisavam na bola? Claro, o tempo todo. O mais importante não eram os castigos físicos com fins corretivos, pois seus filhos já eram homens. O mais importante era que aprendessem a ser responsáveis por seus atos, e assumissem as consequências boas e más que ocorressem a partir daí. Ele tinha certeza que se sua esposa fosse viva, ela também apoiaria a forma como os criava.

Se Mary fosse viva ... bem, se Mary fosse viva ele não seria um caçador do sobrenatural, em primeiro lugar. Engraçado como as coisas são. Sua esposa era uma parte importante da sua vida, mesmo morta. E a ausência dela o transformara em um ser implacável e obstinado, que tratava os filhos como soldados de uma guerra particular. Eles eram seus subordinados, guerreiros intrépidos e capazes, antes de serem sua carne e sangue. Eles deveriam saber que sempre seria rigorosos com eles, e que erros deveriam servir como aprendizado, para que não se repetissem.

"Rapazes? Sam!" John abraçou seu filho mais novo apertado, enquanto cumprimentava o mais velho com um movimento da cabeça. "Muito bem, filho, onde você estava?"

"Eu ... estava com um rapaz que conheci no hospital daqui. Eu não tinha onde ficar e ele me levou pra sua casa." Sam falou com a voz falseando, para sua vergonha.

"E por que você fugiu de casa, em primeiro lugar?" O patriarca perguntou, ainda segurando Sam em seus braços, como se a temer que ele fugisse de novo.

"A culpa foi minha, pai ..." Dean apartou.

"Não estou perguntando a você, Dean. Terá sua vez de se explicar. Quero saber de Sam, o que foi que aconteceu?" John falou severo.

Sam olhou confuso para Dean como se indagasse mentalmente "Você não lhe contou nada?", ao que Dean respondeu com um aceno negativo da cabeça, tão rápido que ninguém poderia notar, mas John percebeu a comunicação silenciosa entre eles.

"Estou esperando a sua resposta, Sam." John segurou com mais força o filho nos braços.

"Bem, ah ... eu preciso me sentar. É uma longa estória." Sam tentou se afastar do pai. Tinha medo de sua reação, mas não conseguiu.

"Tenho certeza que você consegue agüentar. Eu também. Abrevie a estória e dê-me apenas os fatos." John tentou prender a atenção do filho, que olhava para todos os cantos, menos para o rosto do pai.

Sam sentiu-se numa arapuca. Preso nos braços do pai, sem ter onde se esconder, para não ver a decepção e desgosto no rosto do outro. Ele tinha que falar a verdade agora, mesmo sabendo que seria tratado como dejeto contagioso. Quem sabe seu pai o expulsasse de casa, como a família de Garth fez. Tentou blindar-se o melhor que podia e falou: "Eu tenho AIDS."

"O que disse?"

"Eu tenho AIDS."

"O que … o que isso quer dizer?"

"Quer dizer que eu contraí um vírus de uma doença incurável, que um dia irá me matar. E que eu posso contaminar as outras pessoas com meu sangue." Sam falou com a voz trêmula, mas a cada palavra dita sentia-se forte, como se falar sobre sua doença o libertasse de sua fraqueza e vulnerabilidade, ao menos figurativamente.

John Winchester deixou os braços penderem, liberando Sam. Ele parecia confuso e tonto. "Como você pegou essa doença?"

"Eu fiz … eu fiz sexo com outro homem. Ele estava contaminado e eu não sabia." Sam sentiu os olhos arderem. Ele se controlou ao máximo para não fraquejar agora.

"Você … é gay, filho?"

Sam confirmou com a cabeça, e esfregou as mãos com raiva no rosto que já estava banhado em lágrimas. "Sou."

John deu um passo pra trás e sentou-se pesadamente em uma das cadeiras do quarto de motel. Ele não olhava mais para os filhos. Era como se os houvesse perdido. Pensou na esposa morta, no quanto ela amava os meninos e planejava um belo futuro para eles.

Tudo isso não passou despercebido de Sam, que sentia ter decepcionado profundamente a seu pai. Ele olhou ao redor de si, procurando sua mochila, para dar o fora dali, o mais rápido que pudesse. Antes que pudesse alcançá-la sentiu alguém segurando-o pelo braço.

"Não, Sam! Você não vai fugir de novo. Nós ficaremos juntos, como uma família." Dean falou com a voz grave e os olhos úmidos.

Isso acalmou Sam, que instintivamente se apoiou no irmão.

"Há quanto tempo isso aconteceu?" A voz de trovão do pai os tirou daquele devaneio.

"Há um ano, pai." Sam respondeu.

"E quanto tempo de vida você tem?"

"Ninguém sabe. O doutor falou que alguns doentes já estão vivendo com a doença há vinte anos." Sam respondeu o mais firme que conseguiu, a despeito das lágrimas inconvenientes.

John levantou-se da cadeira e se aproximou deles. Sam se preparou para o pior, com certeza seu pai iria esmurrá-lo também, como Dean fizera.

O pai o abraçou forte e chorou em seu ombro. Sam chorou também, mas de alívio, por não ter sido rejeitado.

xxx

Dois meses se passaram. Os Winchesters continuaram na mesma cidade da escola de Sam, que voltara aos estudos e se dedicava para uma competição de matemática. Ele era agora um nerd em tempo integral, e nem Dean suportava ficar muito tempo perto dele, pois estava sempre resolvendo equações matemáticas.

Dean voltara a trabalhar como mecânico, pois afinal ele era muito bom com carros. Vez por outra ele saía para uma caçada, mas isso era esporádico. Na sua volta ele sempre procurava seu irmão e o abraçava apertado, assegurando-o que sentira sua falta e que tinha muito orgulho dele.

John ainda fazia longas caçadas, distante do lar, mas ele aparecia mais amiúde, e sempre fazia questão de conversar com Sam, saber da escola, de seus planos, se estava se alimentando e dormindo corretamente. Ele bem que tentou cercear a vida sexual de Sam, mas ao perceber que seu filho podia tomar conta de si mesmo, nesse aspecto, ele se limitou a perguntar se o filho ainda estava namorando com o rapaz do mês passado, ou se já era uma nova paixão.

Dean até tinha pena de Sam nessas horas, e ficava fazendo sinais para o irmão, zombando de sua provação. Sam entendia que o pai se esforçava para aceitá-lo e compreendê-lo, e por isso encarava tudo isso com boa vontade.

Garth aparecia de vez em quando, e até deu algumas palestras na sua escola sobre AIDS e a convivência com os portadores da doença. Ele parecia mudado, mais alegre e otimista, inclusive arrumara uma namorada com quem dividia o pequeno apartamento. E ela não o rejeitara quando soube de sua doença. Ela e Garth estavam se preparando para tornarem-se íntimos, e constituir família, por isso recebiam aconselhamento e orientação médica. Um dia chegariam lá.

Sam ainda não tencionava em ser íntimo de ninguém. É claro, ele queria fazer sexo, mas decidira esperar pelo cara certo, que o aceitaria com a doença, e não teria medo de contágio. Até lá ele se contentava com sexo virtual, com muitas noites conversando pelo telefone com seu namorado, ou compartilhando fotos com ele. Por enquanto isso bastava.

Ele ainda não se sentia forte o bastante para contar a todo mundo que tinha AIDS, por medo da rejeição e hostilidade, mas a psicóloga com quem se consultava o acalmou dizendo que isso era normal, e que ele tinha o direito de manter sigilo sobre a doença. Talvez quando ele fosse mais velho e estivesse engajado na luta pela socialização dos aidéticos, como Garth, aí talvez ele falasse abertamente sobre isso com as pessoas. Até lá, ele se preocupava em viver um dia de cada vez, o mais próximo do normal, e tentar ser feliz.

FIM





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