Parajás escrita por Casty Maat


Capítulo 4
Capítulo 4 - Xandoré


Notas iniciais do capítulo

Demorei, eu sei, mas tem novidades o/



#04 – Xandoré

Os amigos sentaram-se a mesma mesa que Bella, por convite da mesma que estava curiosa sobre ambos. Milo e Camus se diferiam como água e óleo. Até cogitou haver algo mais ali, mas a atitude do loiro não sugeria que ele fosse bi.

Bem, alguns LGBT costumam conhecer assexuais, mas eles são tabu até mesmo para eles, afinal, na teoria gays ainda costumam transar, certo? Bella sabia que haviam gays como ela, mas não chegara a conhecer nenhum.

Milo parecia encantado com a comida brasileira, tão simples e ao mesmo tempo misturada. Amou profundamente a combinação arroz e feijão e certamente iria voltar implorando que Aldebaran o fizesse. Camus simplesmente comia ignorando os ataques do amigo.

—Camus, você costuma viajar muito? – indagou a morena.

O ruivo ficou surpreso em vê-la interagir consigo. Os curtos segundos em que ele esboçara uma reação diferente do habitual não passou despercebido por Milo.

—Oh, sim. Com alguma frequência.

—Como é onde vivem?

—Bonito. – respondeu simplesmente. – Inspirador, eu diria.

—Nunca sai daqui do país. Acho incrível como as pessoas podem conhecer tantos lugares. – disse a mocinha antes de colocar uma garfada bem servida de arroz e feijão. – As vezes penso no Uruguai, mais pertinho, doce de leite fabuloso e uma cidade cheinha de carros antigos.

Camus achou curioso a brasileira considerar a comida como atração para uma viagem, pois era algo que nas missões sempre que podia ele aproveitava. Mesmo anos e anos vivendo ao ermo e gélido frio siberiano, seu sangue francês gritava amor pela gastronomia. E a curiosidade também não passou despercebida por Milo.

—Uau, você gosta mesmo de carros! – exclamou o grego.

—Pois é, acho o design dos antigos uma graça. Pode não ter aerodinâmica sofisticada, mas não importa, eram carros para se aproveitar um passeio e não correr. – Bella sorrira. – Apesar do motor Opala e os Dodge serem bem gritões.

—Com uma perspicácia dessas, não me surpreende eu ter me interessado. – riu o loiro.

Bella suspirou desanimada, olhando discretamente para o lado.

—Pode até ser, mas basta que descubram como sou para me colocarem no esquisito. Então pra evitar dor de cabeça, quero evitar relacionamentos. É difícil saber que você não se encaixa no que é normal e esperado...

—Desculpe... Eu não imaginava...

—Não precisa. Só devaneios.

—Sempre soube?

—Não. Só vim a saber a pouco sobre ser assexual. Até então me frustrei muito e frustei pessoas queridas. Quando se ama alguém, você que o melhor pra ela, não é diferente nesse ponto. Quer dar prazer... Eu não conseguia dar a última cartada e ninguém conseguia me fazer sentir algo. – a garota deu de ombros. – As vezes é melhor fingir não ter sentimentos para não se ferir ou ferir os outro.

Milo olhava a cena instalada e viu que, apesar de máscaras diferentes e motivos diferentes, seu amigo e a brasileira eram muito iguais. Camus e sua inabilidade social, Bella e sua orientação que não escolheu.

E então entendeu por que muitos LGBTs acabavam por caminhos escusos ou depressivos, e também entendera melhor sobre o desconhecido campo assexual, do qual finalmente entendera que o amigo pertencia. E mais chocante ainda: entendera que na adolescência de ambos, fizera Camus sofrer.

Bella então sorrira novamente, quebrando o mau clima e olhou para o ruivo.

—Bem, Camus! De todos os lugares que esteve antes, qual gostou mais?

Camus novamente ficou surpreso com a interação, se ajeitou na cadeira e olhando a garota, respondeu:

—Sibéria. A imensidão branca, a tranquilidade... O povo dos pequenos vilarejos, sempre tão unidos.

—Uau... Mas é frio, né?

—Certamente para um pequeno pardal dos trópicos. – e o francês esboçou um sorriso.

Algo do qual Milo raramente via, contando nos dedos quantas vezes vira isso desde a infância de ambos e em 5 dias aquela morena com jeito menina e alma de madura lhe arrancara. Pardal dos trópicos, alegre e despojado como o passarinho gracioso... Calorosa como o clima da terra que estavam.

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Logo após o almoço, os rapazes aceitaram a carona oferecida por Bella e seu adorável Gordini café-com-leite ano 64 rumo a rodoviária. Para azar dos rapazes só haveria ônibus em um horário desagradavelmente tarde para se ficar em Paraty (e totalmente em desacordo com os horários dos ataques). E novamente a morena se ofereceu a leva-los até a cidade fronteiriça.

Milo prontamente aceitou, mais visando em fazer o amigo carrancudo se aproximar mais e mais da morena. Feridas lambidas por outro ferido seria a melhor opção, não? Aliás, o loirinho até foi no banco traseiro do carrinho, deixando a frente para o “casal”.

Mas a estratégia não deu muito certo, como que Camus tivesse gastado todo o repertório social do dia durante o almoço, sobrando ao final ele conversar com a jovem. Porém no meio do trajeto, quando diminuíram a velocidade próximo a entrada de uma aldeia que ficava na Rio-Santos, notaram alguns carros de polícia ali e alguns indígenas parecendo angustiados com os policiais.

—Camus contou por cima que estão sequestrando moças...

—Apenas moças de origens indígenas. – respondeu a morena. – Talvez algumas são dessa aldeia. Mas num povo tão miscigenado como o daqui, capaz de haverem moças que não são exatamente e serem levadas.

—Por que diz isso? – indagou Camus.

—Existem tantas misturas e tantos povos e etnias no país que pode haver uma mistura que se assemelhe, por exemplo, moças orientais que possuem sangue africano. Podem se assemelhar a uma moça indígena. E existem aquelas de sangue indígena, mas não possuem aparência como eu.

—Você? – indagou surpreso. – Eu realmente não diria que é...

—Sou terceira geração, acho. Misturou tanto com brancos que o que restou foi o cabelo grosso e liso. – sorriu a garota. – Nesse país é difícil dizer quem não tem o pé na oca ou na senzala.

Camus e Milo usaram o retrovisor para trocarem olhares. O problema poderia ser muito pior assim e eles não calcularam isso. De alguma forma até a moça que os acompanhava poderia ser alvo.

Chegaram ao centro num acordo mudo de ficarem também bem atento com Bella, passeando e simulando que eram turistas comuns para a morena, incluindo até mesmo selfies e diversas outras atitudes típicas de turistas.

Andavam pelas ruas de pedras, onde a garota explicava algumas coisas e também comentavam coisas diferentes. Milo ensinava até mesmo algumas palavras em gregos e tentava incentivar Camus a ensinar palavras em francês.

Todo o ambiente lúdico e tranquilo se desfez quando os dois cavaleiros sentiram o cosmo e se entre olharam.

—Bella, eu vou comprar um suco para bebermos enquanto o ruivão aqui vai caçar um lugar pra se aliviar, ok? – disse disfarçadamente o loiro, dando tapinhas nas costas de Camus.

—Hã... Ok. Eu fico aqui então. – ergueu uma sobrancelha, estranho um pouco o momento.

A morena assistiu os rapazes se retirarem, sem entender muito bem aquele momento. E tão logo ambos saíram da vista da menina, começaram a correr para uma das ruas históricas onde sentiram o cosmo, avistando um homem de pele oliva, longos cabelos negros e olhos dourados como de uma ave de rapina e diversas imagens tribais de tinta negra, desenhadas como tatuagem na pele. A parte íntima era coberta por uma trama de palha e longas penas de cor castanha, como as pulseiras. Ele encarava uma jovem indígena de cabelos chanel, cujos traços já pareciam mais misturados e estava paralisada de terror.

Milo, impulsivo, rapidamente elevou seu cosmo, disparando contra a figura austera e disparando suas agulhas, dando margem para Camus resgatar a moça assustada. A homem de pele parda se desviou com um mortal para trás. O ruivo protegia a jovem assustadiça.

—Os caraíbas de além-mar... – o homem sorriu jocoso. – Finalmente vos conheci.

—Onde está as demais jovens?! – rosnou o loiro com a agulha em riste, mirando contra a figura.

—Em que vos interessa? Logo não terão poder de nada e não passarão de meros homens brancos comuns. Jamais terão como enfrentar Uru Xandoré nem agora e nem no futuro. – e seu cosmo queimou, fazendo com que Milo, mesmo se mantendo em pé fosse arrastado pouco a pouco.

Camus agiu rapidamente, lançando uma proteção gélica na frente dos três e quando a mesma se partiu após tanto poder detido, tudo o que puderam ver eram penas caindo dos céus e Xandoré desaparecido.

A moça, assustada, havia desmaiado nos braços do francês, que estava sério.

—Xandoré... Eis o inimigo... – murmurou consigo Camus.

E quando virou-se para trás, notou Bella escondida. A garota havia descoberto que eles não eram meros turistas.



Notas finais do capítulo

E agora, José?

*Uru = ave grande em tupi.



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