Parajás escrita por Casty Maat


Capítulo 3
Capítulo 3 - O intrometido escorpião


Notas iniciais do capítulo

SAI DO MINDBLOCK COM ESSA FIC! AEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE

Capítulo com uma coisinha curiosa rápida, mais explicações na nota de rodapé.



#03 – O intrometido escorpião

Milo é um bom amigo. Irreverente, irritante, intrometido, é verdade, mas um boníssimo amigo.

Seu problema era dosar algumas coisas e ele verdadeiramente adorou aqueles poucos segundos de conversa com a brasileira de voz juvenil. Ela parecia ser alguém com alegria contagiante e que poderia ser a salvação para Camus largar de ser turrão, fechado e mal-humorado. Ou até para uma diversão para si, já que tinha um bom papo.

Sem saber, Milo instalara no celular do amigo um programa localizador. Ele não recebera notícias sobre a localização do aquariano por fontes oficiais, mas tinha seus meios escusos para isso.

—Heh, Brasil é? Litoral ainda? Deve tá mó emburrado. Vou dar meu pulo lá, certeza que ele precisa de ajuda.

Inventou uma desculpa qualquer, mas no fundo ao ouvir, Saori sabia que era só uma desculpa, porém permitiu a ida ainda que Shion  tentasse impedir. A deusa sabia que interação social não era bem uma das qualidades de Camus e provavelmente tendo o amigo, Camus seria capaz de conseguir informações relevantes.

A deusa observara a saída do escorpiniano com um sorriso, mas logo ficou séria.

—Algo lhe preocupa, não? – indagou Shion após o recinto ficar vazio.

—Temo que quem está realizando a movimentação de cosmo seja uma divindade... Talvez seja melhor ir mais um cavaleiro. Não creio que Tupã seja capaz de tais maldades, mas é necessário prevenir.

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—TAMBÉM NÃO!

O homem soltou sua última raptada, a fazendo cair como boneca. Naquela sala cavernosa estavam todas as moças de origem indígena que estavam sequestradas, todas pareciam bonecas vivas em transe.

—As previsões datavam que estaria nessa região litorânea nessa época! E eu preciso dela! – bradou o homem derrubando utensílios feitos de cerâmica e derramando no chão o cauim e espalhando o cheiro alcoólico.

Sentou-se na esteira e ficou a observar as jovens dopadas com seu poder.

—Eu, Xandoré, sendo ludibriado por uma previsão! Renascido para nada! Sem aquela deusa eu não poderei suprimir o poder de combate daquela mulher caraíba de além do mar! E ainda um deles resolve aparecer por aqui. Maldita mulher caraíba!

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Bella estava lavando a lataria do Gordini cor de café-com-leite. Já passava da hora do almoço e aquele era o quinto dia da estadia de Camus. A garota ficava incomodada de ver aquele carro sofrendo os efeitos da maresia e, mesmo tecnicamente sendo seu, o tio jamais deixara que o carro fosse levado serra acima, na segurança dos ares de vale sem a condição do “aprenda a subir a serrinha”.

A dita cuja “serrinha” era um pesadelo íngreme e sinuoso chamado Oswaldo Cruz, do qual tinha tanta cruz em beira de estrada e, incluía aí a célebre “Cruz-de-Ferro”, que metia medo em muito marmanjo doidinho por uma aceleração. Era uma estrada perigosa onde a única segurança dada desde que fora criada para carros foi o asfalto colocado lá pelos anos 60 ou 70.

Subir ou descer para ela como carona não assustava, desde que estivesse com um motorista experiente, mas colocasse para ela a missão dela própria conduzir o veículo e a mesma desconversava.

A jovem então passou a enxaguar o carro com paciência, quando ouviu passos chegarem até próximo de si. Um homem levemente bronzeado, cabelos loiros presos, uma jaqueta jovial como seu sorriso e uma calça escura de brim e sapatênis. Nas costas uma mochila dessas de acampar que cabe um mundo inteiro.

—Aqui é uma pousada, né? – indagou o homem com sotaque carregado de estrangeiro.

—Ah, sim. Deseja fazer uma reserva? – indagou a garotinha, se sentindo observada por um par de olhos azuis que rastreavam seu corpo.

—Bom, se um ruivo mal-humorado estiver hospedado aí me interessa. – riu o rapaz.

Bella ficou encarando o loiro, matutando por um tempo até seu cérebro fazer as conexões necessárias. Abriu a boca e apontou para o visitante.

—Você é o tal amigo do Camus!

—E você a garota que conseguiu fazer que senhor antipatia falar!

Com a nova informação um novo raio-x foi feito e para Milo, mesmo ela sendo tão miudinha, estava dentro do nível “atraente”.

“Camus, seu sortudo filho de uma mãe! Como tu ignora uma gatinha dessas?!” – pensou o grego antes de se recompor mentalmente e falar – E ele tá aí entocado ainda?

—Ainda não saiu, acho que ele vai almoçar e ir para Paraty, é meio que a rotina dele aqui.

“Já tá ligada até na rotina, malandrinha!” – pensou consigo novamente.

A brasileira terminou de tirar o sabão para usar o restante da água do balde e limpou a mão no moletom vermelho que vestia.

—Esse carro é bonito e diferente. – comentou o grego, tentando puxar mais conversa.

—É um Gordini, da Willys-Overland. É mais velho que eu, deve ter a idade do meu pai. – riu-se. – Uma fofurinha, né?

—Só acho que eu não caberia aí. Mas ele é realmente bonito! – e do carro, seu olhar voltou a atenção para a garota. – Diz aí, você e o Camus tão tendo algo?

Totalmente sem jeito e pega de surpresa, a reação da morena foi balançar nervosamente a cabeça de um lado para o outro em negativa.

—Bom, não vou negar que tô interessado em você desde que ouvi a sua voz, senhorita.

A reação da menina foi estranha para Milo. Estaria preparado para um não, um tapa, qualquer coisa, menos uma crise nervosa de riso. O grego ficou com maior cara de tacho, sem entender nada.

—Não me leve a mal, Milo. Você é bonito...

—É lésbica?

—Não.

—Tem namorado?

—Não, não.

—Prometida a alguma santa ou algo do tipo e vai virar freira?

Bella caiu ainda mais na risada com aquela teoria.

—Então por que?! – perguntou já agoniado em saber por que tudo aquilo o loiro.

—Sou assexual¹, Milo. Meu espectro é autossexual² romântico³, mas mesmo pra uma ficada eu não tenho vontade alguma com estranhos. Então não vai rolar nem tentar me conquistar, só vou conseguir te ver como amigo. – ela pegou o balde novamente, mas mentalmente o grego visualizou ele cheio e ela jogando o conteúdo em si. – Vem, vamos fazer sua ficha e te levo pro quarto do Camus, lá tem uma cama sobrando.

Sem muita opção aquele gelo fatal, o grego só seguiu a moça em silêncio. Na verdade ele não havia entendido muito, mas estava tão sem graça no momento em perguntar que preferiu o silêncio.

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—Assexual não costuma se sentir atraído por sexo, Milo. Você tem internet a sua disposição até pra me rastrear, mas não pra estudar e conhecer o mundo além do Santuário?

O francês estava puto da vida em ver o amigo ali e saber como ele chegara ali. Estavam no mesmo quarto, cada qual numa cama, sentados de frente pro outro.

—Como não tem atração por sexo?! Não é possível!

—Claro que é. Nem todo mundo é você que só pensa com a cabeça de baixo. A pobre moça deve ter se sentido ofendida, isso sim. – resmungou o ruivo. – Eu mesmo posso me dizer um atualmente. Ou melhor, sempre fui, mas já fui um tolo adolescente me deixando levar por um grego inconsequente*.

Milo fez uma careta desgostosa.

—Se eu não tivesse levado naquela casa você teria morrido naquela batalha sem saber como é molhar o biscoito.

—Não mudou nada em minha vida pessoal. Não vejo necessidade de levar isso tão a sério.

—Hunf! Você não tem apenas um coração de gelo – começou a fazer o típico drama que ele fazia para provocar o amigo. – Mas tem um pinto de gelo também. De neve, melhor, porque é mole.

Camus estava em silêncio, olhando para o nada, mas Milo como sempre cortara o silêncio.

—A briga é boa?

—Eu não sei. Mas eu senti sim um cosmo e penas de falcão no local do último desaparecimento. E um cosmo forte.

—O que pode ser?

—Eu não sei. Penso em ir à feira para além de vigiar, tentar encontrar um livro sobre mitos indígenas daqui. A única pista pode ser essas penas, mas como pode não ser. Infelizmente meu conhecimento sobre mitologia tupi se restringe a saber que seu líder conhecido foi Tupã, pois era o citado nos documentos do Santuário. Porém ele não dá as caras desde a época do avanço maciço dos portugueses nesta terra.

—Diminuição de adoração dos nativos? – indagou o grego.

—Provavelmente. Muitos deuses tiram a manutenção de seus cosmos divinos pela adoração de mortais. Talvez alguém do panteão tupi ou o próprio Tupã esteja tentando refazer seu séquito ou buscando vingança sobre o domínio europeu que estas terras tiveram.

Milo sorriu de forma maliciosa. Ele teria uma boa diversão em batalha.



Notas finais do capítulo

1- Uma variável da sexualidade, como homossexualidade, bissexualidade e tal. Possui diversos espectros e variações no ponto de vista de atração romântica, mas costuma se caracterizar pela ausência do interesse sexual em algum nível.

2-Não é um espectro muito conhecido. Caracteriza-se por não haver interesse sexual em um parceiro ou se tenta, pode ser um ato bem frustrante e desinteressante, porém, é capaz apenas de sentir desejo no autoprazer.

3-Inclinação para relacionamento. Um assexual pode ser romântico, ou seja, possuir interesse em relacionamentos amorosos (ainda que não concretize o ato sexual) ou arromântico, sem interesse em relacionamentos.

(*) - Camus comenta sobre o que acontece com diversos ace (assexuais): descobrir sua sexualidade após inúmeras frustrações ou pressão da sociedade. Camus não se interessava mas cedeu a pressão de Milo para se relacionar com prostitutas em sua adolescencia no Santuário, mas nunca lhe foi interessante e apenas mecânico. Nessa fic ele seria um demissexual romântico, que também é um espectro da assexualidade.



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