Grupo de apoio para celebrar a vida escrita por Kori Hime


Capítulo 2
Alívio Imediato





Rafael caminhou pelo jardim do hospital, estava um começo de tarde realmente quente, mas ele não se preocupou em sentar num dos bancos ao lado de um arbusto, sob o sol de trinta e cinco graus.

A pasta com todos os exames estava em suas mãos, balançando como um leque. Ele pensava em tudo o que acabara de ouvir. Das questões mais simples, até as mais complexas do tratamento. Rafael já vinha fazendo uma pesquisa sobre como seria aquela fase desde o primeiro dia que havia feito o primeiro teste de HIV. Entretanto, sua vida parecia uma novela das oito. A novidade era que ele estava com tuberculose. Após realizar alguns exames, ele retornou para o consultório da Doutora Cíntia, para que ela confirmasse o resultado.

O fato dele não apresentar os sintomas deixava tudo mais confuso. Embora não fosse do tipo que relutava contra sua condição atual. Rafael se preparava para isso já havia alguns meses, mas não significava que ele realmente estava pronto para encarar aquela situação.

Ele riu, como sempre ria quando estava nervoso. Pegou o celular do bolso, não teria condições de dar aula naquela tarde, ligou para a escola em que trabalhava, sem dar maiores detalhes, senão a de que ele ficaria no hospital até mais tarde.

— Eu estou bem, Simone, não se preocupe. Tenho um atestado para hoje, amanhã eu levo. — Rafael esperou que a secretária da escola terminasse de falar — Sim, vou me cuidar. Obrigado.

Ele desligou o aparelho e voltou a se abanar com a pasta usando uma das mãos, com a outra mão, tirou do bolso uma folha onde havia escrito o horário e a sala em que iniciaria a reunião do grupo de apoio.

Cíntia deixou claro que seria uma boa oportunidade para ele conversar abertamente com outras pessoas sobre o tratamento que iria iniciar, também garantiu que aquela não era uma reunião convencional, já que Rafael se mostrou desanimado em ter que ficar preso em uma sala, falando sobre seus problemas. O que achava engraçado, pois era um professor de História, e passava a maior parte do dia preso em uma sala.

A reunião estava marcada para as cinco horas da tarde, Rafael teria um bom tempo para pensar, enquanto esperava.

O tempo parecia congelado, assim como seus pensamentos. O seu futuro era mais um borrão diante de seus olhos. Não que antes fosse mais fácil ver o que seria do seu futuro, mas, agora, as decisões que tomaria, pareciam vir carregadas com muito mais responsabilidade.

Caminhou por algumas ruas, sem saber na verdade para onde ia. Encontrou um comércio popular, onde se perdeu entre as inúmeras barracas. Acabou saindo de lá carregando algumas sacolas com objetos antigos e decorativos para o apartamento.

No horário marcado, Rafael já aguardava do lado de fora da sala de encontro no terceiro andar do hospital. Um grupo de pessoas começou a se reunir no corredor, conversando sobre assuntos aleatórios, cumprimentando uns aos outros, até que chegou uma mulher alta, vestindo um jaleco branco, arregrando uma caixa, o que pareceu animar todos ali presente, ela ergueu o molho de chaves e perguntou: — Quem está animado para ver como ficou nossa sala?

— Espero que tenha um bom ar condicionado aí dentro. — Uma senhora falou, ao lado de Rafael, enquanto se abanava com um leque.

— Por enquanto vamos comemorar que temos uma nova sala. — A mulher então abriu a porta e deixou que todos entrassem. Rafael foi o último. — Olá, você deve ser o paciente que a Doutora Cíntia me falou.

— Eu sou o Rafael... É, ela disse que seria bom para o início do tratamento.

— Não somente para o tratamento. — ela estendeu a mão — Eu sou a Doutora Fernanda Pereira, venha, vamos começar a reunião.

Rafael procurou um lugar para sentar, mas não havia cadeiras dispostas em um círculo. Em vez disso, algumas almofadas espalhadas pelo chão, onde cada um havia encontrado uma para sentar. A sala era como qualquer outra daquele hospital, paredes brancas e janelas de vidro. O ar condicionado foi ligado, então a temperatura ambiente estava começando a ficar agradável. O diferencial era o mural com fotografias diversas. Mas, até então, nada de muito diferente para ele. Rafael sentou-se em uma almofada laranja.

O grupo era composto por cinco mulheres e seis homens, além, é claro, da Doutora Fernanda.

— Como eu prometi, trouxe um vídeo da minha viagem ao Panamá para a gente assistir. Ricardo ficou de trazer a pipoca, vamos esperar ele chegar para começar. Enquanto isso, deem as boas-vindas ao nosso novo companheiro. — A médica sorriu e piscou para Rafael, ele se sentiu no dever de levantar e se apresentar para o grupo.

— Boa tarde. — Ele começou, um pouco tímido e com a voz baixa. — Meu nome é Rafael Andrade, e eu... eu acabei de descobrir que vou iniciar meu tratamento com antirretrovirais, também estou com tuberculose, era tudo o que eu precisava nesse momento, não é? — ele sentiu um nó se formar em sua garganta, e então a única coisa que pode fazer era desabafar tudo o que estava guardado a muito tempo. Coisas que não falava em voz alta, porque, de alguma forma, parecia que tudo aquilo era um erro, um pesadelo que chegaria ao fim. — Eu não sou muito bom nisso, sabe. — Suas mãos nervosas encontraram conforto dentro do bolso da calça, mas não durou muito tempo naquela posição. Logo, já estava gesticulando com os braços. — Como eu me apresento? Chego e falo “Oi, eu sou o Rafael. Ah! Tenho AIDS”. Tenho pensado nisso todos os dias, desde que descobri... tenho guardado isso dentro de mim. — Ele olhou ao redor, recebendo a atenção de todos. — Sinto como se eu fosse uma bomba, mas sem um relógio. O pavio vai queimando e queimando, então não sei quando irei explodir. — Rafael suspirou, com os olhos fixos no chão, ele sentiu um alívio imediato. — E por causa disso, dessa bomba dentro de mim, minha vida mudou. As pessoas mudaram, tudo mudou... desculpe, eu precisava falar.

Rafael respirou fundo, esfregando os dedos nos olhos, não havia notado que estava chorando. Ele encontrou conforto no olhar de cada pessoa presente naquela sala. Sentiu-se bobo por ter negado ajuda, afirmando que poderia lidar com aquilo sem um grupo de apoio. E agora, em pé, diante de pessoas que nunca viu, encontrou coragem para falar.

— Não peça desculpas meu jovem. — A Senhora que se abanava com o leque estava sentada em uma almofada cor de rosa, em frente a Rafael. — Todos passamos por situações semelhantes. Aqui, nesse grupo, nós compartilhamos o que sentimos. Eu fico feliz de te ouvir.

— Obrigado.

— Pode me chamar de Rosa. — Ela se levantou e Rafael não sabia como poderia ajuda-la naquele instante. — Posso ter setenta anos, mas ainda consigo me levantar sozinha. — Ela falou com bom humor, pedindo licença para ir ao banheiro.

Rafael recebeu o apoio de todos que estavam na sala. Cada um começou a contar como foi o primeiro dia de tratamento e como o grupo ajudou suas vidas. A conversa tomou um outro rumo quando Ricardo entrou na sala carregando alguns sacos de pipoca feitas no micro-ondas. A médica preparou o projetor, e quando todos estavam prontos, ela iniciou os vídeos. Em um momento ou outro, ela contava histórias que havia acontecido.

Quando o vídeo acabou, Ricardo acendeu as luzes e todos ajudaram a limpar a sala.

— O que você achou? — Fernanda perguntou para Rafael.

— Eu adorei. — Ele respondeu, enquanto empilhava as almofadas no canto da sala, a pedido da médica. — Você tirou férias e foi trabalhar no Panamá, fico feliz em saber que existem pessoas como você.

— Obrigada, foi divertido. A verdade é que eu não sei ficar um dia sem trabalhar. — Ela olhou para o relógio preso na parede. — Pessoal, infelizmente nossa hora acabou. Mas vocês podem continuar sem mim a partir de agora. Levem o Rafael com vocês.

— Eu? — ele perguntou.

— Sim, você vai gostar. — A médica checou o celular e depois guardou no bolso do jaleco. — Ricardo é dono de um bar aqui perto. Depois das reuniões nós costumamos dar uma passadinha por lá. Mas hoje eu tenho compromissos.

— Vamos, Rafael. — Ricardo o convidou. — Sabe jogar truco?

— Eu sei. — Rafael respondeu.

— Aposto que não joga como a Dona Rosa. — Ricardo abraçou Rosa. — Essa aqui joga como ninguém.

— Vocês que são ruins demais. — Ela respondeu, dando uma gargalhada em seguida. — Até semana que vem, doutora.

— Até, Rosa. — Fernanda se despediu de todos, deixando Rafael por último. — Semana que vem você vai aparecer? Teremos uma palestra, vai ser interessante para o início do seu tratamento.

— Ok. Eu venho sim.

Ele se despediu e apressou-se para acompanhar o grupo que já estava no corredor.

Jogaram até as dez horas da noite, quando Rosa precisou ir para casa. Ela morava com a neta de dezoito anos em um apartamento no Catete. Rafael sugeriu que eles fossem juntos.

— Não precisava ter descido aqui comigo, está tranquilo, eu caminho até a Silveira Martins e depois subo ali a Bento Lisboa. Faço isso toda semana.

— Mesmo assim, eu me sinto melhor te acompanhando. — Eles passaram as catracas do metrô e depois subiram pela escada rolante. — Além do mais, eu posso ir andando para casa, é aqui perto.

Rosa acabou concordando e gostando de ter companhia. Ele a deixou em frente ao prédio alguns minutos depois, em seguida, fez o caminho de volta para casa. Não imaginava que iria terminar aquele dia jogando truco em um bar, com aquele grupo. Mas, uma coisa poderia garantir, realmente se divertiu. Algo que não fazia já tinha um bom tempo.

Na manhã seguinte, ele acordou cedo e decidiu caminhar no Aterro do Flamengo, precisava iniciar uma rotina de exercícios. E pensar que morava tão perto da praia e desde que se mudou para o Rio de Janeiro, foi apenas uma vez, no ano novo para ver a queima de fogos.

Rafael também precisava melhorar os hábitos alimentares, é claro que já havia incluído e eliminado muitas coisas da sua lista de supermercados, mas precisava deixar de ser um pouco preguiçoso e se esforçar mais. Uma dieta equilibrada iria fortalecer seu sistema de defesa, para ajudar no controle de gordura e açúcar no sangue, assim, melhoraria o resultado do tratamento.

Durante toda a semana, ele se dedicou em organizar o apartamento e abastecer a geladeira de maneira correta. Alguns móveis, Rafael teve que pedir ajuda ao porteiro para conseguir montar. O resultado foi agradável aos olhos. Agora ele possuía uma mesa para refeições, sofá e um ventilador de teto funcionando. Já dava para receber visitar, isso se tivesse algum amigo para visitá-lo.

Rafael também teve que remanejar os horários que lecionava. As aulas de história da parte da tarde foram todas transferidas para um novo professor. Durante a manhã ele ainda tinha que dar conta de dez turmas.

Aquela semana parecia ser realmente o começo de uma nova fase, então, seis meses depois de se mudar para sua nova vida no Rio de Janeiro, ele se agarrou aquela oportunidade de recomeçar. Se quisesse que as coisas melhorassem, não poderia desistir após ouvir suas cinco primeiras músicas do dia, como vinha acontecendo.

Depois que dispensou os últimos alunos, após uma prova, Rafael atendeu uma chamada no celular. Seu irmão, Gabriel, já havia mandado algumas mensagens, mas ele não poderia usar o aparelho enquanto os alunos faziam a prova.

— E aí cara? Achei que tinha se esquecido de mim. — Rafael guardou as provas dentro de uma pasta. — Como está a mamãe.

— Ela está bem. — Gabriel respondeu, com uma voz não muito convidativa.

— Aconteceu alguma coisa? — Rafael perguntou apreensivo, seu irmão não era o melhor exemplo de pessoa séria. Estava sempre fazendo piadas e rindo de alguma coisa. Com certeza algo havia acontecido.

— Olha, eu vou te contar uma coisa. A mãe disse para não contar, mas acho que você precisa saber.

— Fala logo o que aconteceu.

— É a Catarina. — Houve um momento de silêncio, como se Gabriel estivesse tomando coragem para falar. — ela morreu.

Rafael sentou na cadeira, deixando o celular cair no chão.





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