Grupo de apoio para celebrar a vida escrita por Kori Hime


Capítulo 1
Nadando contra a corrente


Notas iniciais do capítulo

Tudo é meu, quebrei a cabeça para escrever essa história. É um assunto muito delicado e que precisa de estudo. Espero não cometer algum erro, por isso não serei tão técnica em alguns casos.
Boa leitura.




… e esse foi o som do Legião Urbana para abrir o nosso bloco especial com as brasileiríssimas nessa manhã de segunda-feira, 32º na capital carioca. Para você, que sintonizou agora, fica ligado que as nove horas vou sortear um par de ingressos para o show do Detonautas no Circo Voador, dia 30 de Abril. Agora chega de falar e vamos ouvir um clássico do Barão Vermelho.

A voz de Cazuza saía falhada, e nada atraente, pelo pequeno alto-falante do rádio relógio que ficava sobre uma cadeira branca de plástico ao lado da cama. A música finalizou e o radialista retornou para prestar o serviço meteorológico, informando que era previsto chuva para o final de semana, e que, até lá, todos teriam que aguentar firme o calor que assolava o Rio de Janeiro naquele outono mais quente dos últimos trinta anos.

Ainda deitado na cama, ele olhava para o ventilador de teto que não estava funcionando. Levou as duas mãos para atrás da cabeça e entrelaçou os dedos. Vestindo apenas uma bermuda esportiva, ele transpirava devido o calor, o lençol de se cobrir foi removido com os pés conforme as horas passavam e a temperatura aumentava aquela noite. Mesmo que a janela do quarto estivesse aberta, o ar quente que vinha do lado de fora só piorava as coisas.

Precisava comprar um ar-condicionado se quisesse dormir tranquilamente. Embora ele não lembrasse mais como era dormir tranquilamente, pelo menos não sem os remédios prescritos pelo médico.

Enquanto o locutor do rádio fazia mistério sobre quem levaria um par de ingressos para o show do Detonautas, Rafael ficou de pé e alongou o corpo. Sentia dores nas costas, sabia que se continuasse dormindo em um colchão fino como aquele, a dor não desapareceria tão cedo. Sabia também que precisava urgentemente de uma atividade física, tal como uma alimentação mais saudável, mas eram coisas que ele acabava deixando para depois. Não é à toa que algumas roupas já não lhe serviam mais, as calças caíam, mas isso era facilmente resolvido com um cinto e um buraco extra, feito com a ponta de uma faca.

O motivo principal da mudança para o Rio de Janeiro era a busca de uma nova rotina. Emprego novo, vida nova. Rafael acordava todos os dias com aquela expectativa de que um novo dia começava para fazer novas escolhas, porém, a motivação não durava mais do que cinco músicas.

Após um rápido banho frio, enrolou a toalha na cintura e abriu a geladeira para pegar a garrafa de água. Misturou a água fria com meio copo do que restara do suco de caju da noite passada. E, enquanto bebia seu café da manhã, ligou a televisão, mudando de canal poucas vezes, até que deixou em um programa onde o apresentador ensinava a fazer uma refeição saudável para o almoço, usando legumes e verduras da estação.

Rafael deixou o copo em cima da pia e retornou para o banheiro, onde pegou o barbeador elétrico, presente de aniversário, que sua mãe enviou pelo correio. Começou a se barbear do pescoço até as maçãs do rosto, quando terminou, passou um pente nos cabelos, sem se preocupar muito com o penteado.

Vestiu-se rapidamente, com uma calça e camiseta branca simples. Apanhou a carteira, chaves e o celular. Retornando depois que a porta já estava trancada, pois havia se esquecido da pasta com todos os exames que sua médica precisava avaliar.

Do prédio que morava, até o metrô, não dava meros cinco minutos. Ele recarregou o bilhete eletrônico nas máquinas da estação do Largo do Machado e acompanhou o fluxo na direção da plataforma dois. Enquanto aguardava o próximo trem, lia alguns e-mails recebidos, mas decidiu responder depois, quando o trem se aproximou e abriu as portas.

Em vinte minutos, Rafael desceu do trem, na estação São Cristóvão. O Hospital Alberto Martins, ficava próximo da estação, ele só precisava caminhar por mais alguns minutos.

Aquela era a segunda vez que ele visitava o hospital para realizar exames, uma referência internacional ao combate de doenças virais. O lugar era como qualquer hospital que já havia visitado antes, embora estivesse ansioso para conhecer o grupo de apoio ao qual sua médica havia orientado ele participar. Antes, iria encontra-la em sua nova sala, pois ela havia deixado o consultório particular em Copacabana, para se dedicar somente ao hospital.

Não demorou para Rafael ser chamado pela recepcionista, ele agradeceu e entrou no consultório.

— Bom dia, Rafael. Como está se sentindo hoje? — Rafael sentou-se na cadeira que a Doutora Cíntia Mabel indicou.

— Bem, eu acho. — Ele entregou os envelopes dos últimos exames realizados.

— Ótimo, vamos ver o resultado desses exames. — A doutora abriu os envelopes e colocou os óculos de leitura.

Rafael nunca havia se consultado com uma médica jovem, como Cíntia. Teria no máximo trinta e dois anos? É claro que a idade dela não influenciava na confiança médico-paciente, pelo menos não para ele. Embora sua mãe estivesse certa de que ele precisava de uma segunda opinião, só para ter certeza.

— Muito bem, eu pedi que repetisse esses exames antes de completar três meses desde os últimos, apenas por precaução, já que eu não te acompanhei desde o início. — ela deixou os exames sobre a mesa e pegou uma caneta, fazendo algumas anotações e circulando números, conforme explicava para Rafael os resultados.

— Desculpe. — Ele balançou a cabeça, dando uma risada nervosa. — Eu não sou muito bom com números.

Cíntia concordou que poderia ser mais objetiva.

— A contagem de linfócitos T-CD4+ está abaixo de 200/mm³. Nesse caso, eu indico dar início a terapia antirretroviral e quimioprofilaxias para prevenir infecções oportunistas, mesmo você sendo um paciente assintomático. Você me disse que fumava até seis meses atrás, não foi? — Rafael balançou a cabeça, concordando. — Nesse caso, vou também pedir mais alguns exames.

Cíntia digitava em seu computador as informações que falava em voz alta sobre o tratamento inicial e agendou mais uma consulta de retorno, em vinte dias.

Rafael ainda sorria, mas não podia dizer que estava feliz com aquela notícia.





Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "Grupo de apoio para celebrar a vida" morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.