Recomeço escrita por Katherslyn


Capítulo 7
Capítulo 7 - Epílogo


Notas iniciais do capítulo

Foi muito difícil concluir essa história, muito difícil mesmo. Pensei em desistir mais vezes do que consigo pensar, e não teria conseguido sem a ajuda de algumas pessoas.

Dedico essa história ao Gustavo, meu grande amigo, que com suas zoeiras e frases motivacionais, me fez querer ir adiante.

Dedico ao Nate, que me viu surtando pra terminar essa história, e viu como levei para o lado pessoal.

Obrigada a Lety, por todo o carinho e por toda a disposição, por ter lido essa história e desejado um super final feliz para a Mel.

Obrigado a você, leitor, mas principalmente a esse trio. Chegaram a encenar diálogos pra que eu me inspirasse, e ter amigos assim faz cada esforço valer a pena.




Sobre fortes aplausos, me levantei do banquinho em que estive sentada por horas. Contei muito da minha vida, mesmo que não tivesse sido muito, e me sentia bem abalada.

Tia Vivian me abraçou, repetindo se parar sobre o quanto eu era corajosa e no quanto estava orgulhosa de mim.

Rafael, meu ex namorado, sorria pra mim, do fundo da platéia. Podíamos não ter dado certo, mas ele ainda estava do meu lado.

Os produtores passavam, um a um me dando tapinhas nas costas. Apesar de gostar e apreciar o gesto deles, os parabéns e aquela festa dedicada a mim, precisava ficar um minuto sozinha, precisava pensar.

Dei as minhas últimas desculpas, querendo sair dali. O depoimento havia sido gravado, eu tinha feito minha parte. Chegando ao lado de fora, me sentei num gramado vazio, observando a vista. Eu conseguia ver as mais diversas casas lá embaixo, lá longe, e imaginava o que as pessoas naquelas casas estariam fazendo.

O sol ia se pondo, e a noite ia chegando. Lágrimas começaram a cair, e mais uma vez, não consegui contê-las. Pensei que a pior parte seria falar da minha mãe, mas foi o Crabbly. Só de pensar...

O hospital que frequentei na infância me trazia lembranças tristes. Tive os meus bons momentos, e o que me deixava confortável anos atrás foi saber que existiam pessoas que também se sentiam como eu.

Eu avistava de longe aquele garoto que sentia o mesmo que eu, que se sentia sozinho. Timha o mesmo olhar que o meu, aquele medo de ser diferente e não ser bem tratado pelos outros.

Aquele lugar estranho com pessoas estranhas, que de repente se tornou nosso lar. Ali era onde não me olhavam diferente, como se eu houvesse algum problema em mim. Crabbly também sentia isso. Se achava feio por não ter cabelo, se achava menos do que era. Ele não desistiu porque o sorriso da sua mãe fazia valer a pena.

Se sentir desconectado do mundo sozinho é ruim, mas quando se tem alguém pra dividir isso, tudo muda.

♥ ♥ ♥ ♥

Estou sentando em meu canto como sempre, mais um dia aqui nesse inferno em forma de hospital. Estou quase desmaiando como sempre. Não tenho forças nem para me levantar, quero ficar sozinho. Não quero mostrar aos outros como sou fraco.

Estou quieto sem falar nada quando uma menina com longos cabelos cor de mel entra. Isso me faz lembrar dos meus antigos cabelos ruivos, que estão agora nas vagas lembranças e nas fotos. Ela é meio magricela. Ela vem sempre aqui. Ela vai se aproximando cada vez mais, e meu nervosismo.

—Oi. - ela diz, se sentando do meu lado.

— Oi. - eu respondo, olhando para o chão. Não tenho coragem para olha-la e muito menos para conversar. Ela era linda, perfeita. Enquanto eu era um nada.

Não sei por que ela ainda tenta ser minha amiga, já deixei bem claro que não quero nada.

♥ ♥ ♥

Melanie é a única amiga que eu tenho, e sou grato por isso. Ela me entende como ninguém, e respeita o meu silêncio, nunca forçando a barra.

Não gosto da mãe dela, a mulher parece sempre estar com raiva e com uma carranca no rosto. A minha mãe não é assim. Ela é sempre sorridente e eu amo o sorriso dela. Eu queria ver a Mel sorrir.

Aposto que ela tem um sorriso lindo, como todo o resto. Não sei qual é o defeito dela, ela nunca fala. Tem que ter algo de errado com ela, pra ela estar aqui.

Olhando pra ela, vejo a mais bela das criaturas. Tão meiga, tem um olhar delicado, seu rosto me passa tanta tranquilidade.

—Melanie.... - Falo baixinho, nervoso, não sabendo ao certo o que dizer.

— Sim? - ela responde, curiosa.

— Nada não. - respondo, voltando a olhar para o chão. Não tenho coragem pra mais nada.

—Você está passando bem? Você está tremendo. - ela diz, preocupada. - Precisa de ajuda?

Ela me achava fraco, como todos os outros. Eu nunca poderia ser o cara certo pra alguém, muito menos pra ela.

♥ ♥

Sei que em breve a contagem regressiva do cronômetro vai disparar, e que meu tempo aqui nessa terra vai chegar ao fim.

Não posso mais segurar o que está dentro de mim, eu preciso dizer a ela. Preciso dizer sobre os meus sentimentos, mesmo que isso seja errado. Ela nunca vai poder ter uma vida comigo, sei que não. E mesmo se quissesse, eu estaria condenando ela a uma semi vida.

Mas morrer com algo tão bonito preso? Preciso contar pra ela, preciso dizer.

— Melanie? - pergunto pelo nome dela.

Mel tira os olhos da página que está lendo, ela é viciada em leitura.

— Sim? - ela pergunta, preocupada.

Aprecio a preocupação dela, mas às vezes isso me irrita. Me faz pensar que sou o incapaz que sou.

— Preciso te contar uma coisa. - eu começo. Respiro, tentando me acalmar. - Eu... eu... Mel...

— Sim? - ela pergunta de novo, curiosa.

— Eugostodevocê. - digo de uma vez, com os olhos fechados.

Mel não fala nada, e abro os olhos. Ela tem um sorriso no rosto, mas voltou a ler o livro.

— Mel? - pergunto, irritado.

— Eu sei.

Para algumas pessoas, um beijo pode ser uma coisa simples, mas pra mim, sempre vai ser tudo. O máximo que consegui com a garota que eu amo, e sei que agora posso morrer sabendo que fiz tudo o que precisava.

Mel continuava me visitando no hospital, e se culpava.

— Eu passei algo pra ele! - ela dizia, chorando. - Eu contaminei ele!

Eu tentava explicar que isso não era culpa dela, mas ela insistia em não me dar ouvidos. Mas eu tinha que fazê-la entender de uma vez por todas. Eu estava feliz, agora faltava ela.

Mel entrou no meu quarto, e se sentou o mais longe possível. Me olhava assustada, como se estivesse prestes a chorar.

— Melanie, quantas vezes...

— Eu tenho aids! - ela disse, em voz alta, e as lágrimas começaram a cair pelo seu rosto. - Eu passei pra você quando te beijei, e agora você... você...

Suspirei, sem saber ao certo o que dizer. Como enfiar naquela cabecinha a verdade?

— Melanie, senta do meu lado. - pedi. - Aqui, na minha cama. Por favor.

Ela se aproximou receosa, mas fez o que eu pedi. Assim que ela se sentou, pedi pra que ela pegasse na minha mão. Melanie quase não o fez, mas implorei de novo.

— Melanie, o que vou dizer agora eu não quero repetir de novo, então preste atenção. - olhando nos olhos dela, organizei meus pensamentos. - Acha que me importo se você tem aids? Que diferença isso faz, Melanie? Acha que me contaminou? Você é uma garota incrível, Mel, e independente do que faça, não pode nem poderia mudar o que eu tenho. Tenho câncer, Mel, e isso foge das nossas escolhas. Nós somos diferentes dos demais, mas isso não nos torna alguém ruim. Eu sou contaminado então, Mel? Porque se você me passou aids por um beijo, eu te passei câncer. Não viaja, garota.

— Mas eles disseram... - ela disse, entre soluços. - Morrer. Disseram que você vai morrer.

Dei um beijinho na cabeça dela, e sorri.

— Todos nós vamos morrer um dia, querida. Assim que a gente cumprir nossa missão na terra, a gente vai pra outro lugar.

— Jura? - ela perguntou, limpando os olhinhos.

— Juro. A minha missão vem terminando, mas olha, a sua ta só no começo. Um dia, Mel, eu não vou mais estar aqui, do seu lado. Mas quero que saiba que não importa o que acontecer, eu vou estar do seu lado. Toda vez que estiver triste ou querendo um minuto pra si mesma, vou estar ali, no seu coração. Quero que você cresça, que tenha uma família. Vai entender quando crescer. E não quero que se culpe, nunca. Com aids ou não, você me deu tudo.





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