Recomeço escrita por Katherslyn


Capítulo 2
Capítulo 2


Notas iniciais do capítulo

Um grande beijo ao Verpertilio, o primeiro leitor da fic ♥




Mariane dos Santos de Almeida, esse era o nome da minha querida mãe. Eu tinha um quadro dela pendurado na sala. Cabelos escuros, longos e encaracolados. Aquela expressão de suavidade e austeridade, uma covinha no queixo. Aquele olhar divertido, o começo de um sorriso na boca.

Apesar de ser apenas um quadro, pra mim, essa foto significa tudo o que não tive. Foi tirada quando a minha mãe era solteira, quando era como qualquer outra garota da sua idade. Eu nunca a vi assim pessoalmente, não com toda aquela aura de felicidade.

Toda vez que me lembro dela, eu não consigo deixar de imaginar naquela coisa escura que ela emanava. Uma tristeza que não tinha fim, os ombros curvados pra baixo. Como se carregasse algo ruim nas costas.

Minha tia que tinha me dado esse quadro, no meu aniversário de 15 anos. Eu ainda o guardava, no fundo do guarda-roupa que e tinha na casa da minha tia.

Quando bate aquela saudade, eu escondo as fotos dela, tentando camuflar essa dor. Eu devia trazer o quadro de volta, esconder ou fugir não vai trazê-la de volta a vida.

Algumas vezes, fico procurando um motivo pra ter nascido assim. Castigo de alguma divindade? Mero acaso? Foi realmente culpa dos meus pais? Por que diabos um simples bebezinho, que mal deu suas primeiras palavras ou seus primeiros passos, ganharia um peso desses?

E não falo só de mim. Crianças que nascem surdas, mudas, paraplérgicas e tantas outras coisas. O que nós fizemos pra receber isso?

No ensino médio, quase cheguei a acreditar em encarnação. Uma professora minha acreditava que tudo de ruim que nos acontecia, era um castigo de algo da nossa vida passada, e que reencarnaríamos até cumprir nossa missão na terra.

Ela nos contou uma história, da qual não me lembro os detalhes. Era mais ou menos assim :

"Um rapaz pobre tinha sido roubado por um homem muito rico. Ele foi na justiça reclamar que perdeu o pouco que tinha para uma companhia corrupta, e pediu que seu dinheiro fosse devolvido.

O juíz teria dado a condenação se não fosse por um detalhe : ele havia sido comprado pelo homem rico. E, ao invés de fazer um julgamento honesto, deu a causa do homem pobre como falsa e o condenou.

Todos os três reencarnaram.

Num certo dia, um homem caçava pela floresta, quando achou um saco de dinheiro. Ele passou horas ali sentado, procurando por um dono. Mas era uma floresta distante, vazia, cheia de animais selvagens. Quando percebeu que ninguém viria, levou o saco pra casa e contou a nocidade para a família.

– Um milagre! - dissera ele. - Vamos poder pagar todas as nossas dívidas e reformar a casa!

O saco, claro, tinha dono. E esse dono voltou no dia seguinte, procurando o saco que havia perdido.

– Preciso daquele saco, ou o rei cortará minha cabeça! Vai achar que o roubei!

Ele procurou, procurou e nada. Se sentou nun tronco, pensativo, e viu um soldado do rei passando. Já estavam procurando por ele.

O soldado se aproximou, e leu uma carta.

– O rei pede para que volte para o castelo imediatamente. - ordenou.

O homem bateu no soldado, até o deixar inconsciente. Não seria condenado por fraude ou roubo, decidiu fugir"

Nessa história, o homem que achou o saco de dinheiro era aquele homem pobre. O soldado que apanhou, o juíz, e o homem rico e corrupto, o que perdeu o dinheiro.

De acordo com essa minha professora, se um bebê nascia tossindo com alguma doença respiratória, era porque em alguma vida passada, tinha sido fumante. E se nasceu com aids... Provavelmente foi alguém muito promíscuo em outra vida, tinha muitas relações sexuais com os mais diversos parceiros e sem proteção.

Quase acreditei nessa teoria, mas acabei descartando ela. Quero dizer, eu sou bem cética em relação a esses assuntos, e mudo muito de opinião.

Acredito que exista um Deus, quando estou perdida ou com raiva, eu o chamo. Nem sei se tem alguém em algum lugar me ouvindo, nunca tive uma resposta de volta. Pelo menos, não uma resposta clara. Então, enquanto não tiver provas concretas, eu continuo aqui, só pensando nessas histórias.

Sabe, até eu tenho esses momentos de ficar procurando um motivo, uma razão. Quando fico me lamentando pela minha vida, penso que em outro lugar, possa ter alguém pior. E que uma hora, quem sabe, eu seja recompensada. Se existe um paraíso, para onde os merecedores irão, espero estar lá. Estar em um lugar onde não exista dor.

A pior que conheço é minha mãe. Não que ela tenha sido alguém ruim, mas em vista dos meus problemas, a vida dela foi bem pior, destruída por conta dessa doença.

Eu me lembro das muitas vezes em que a ouvia chorar. Meu quarto era do lado dela, não era como se não desse pra perceber. Uma parte de mim se contorcia, que filho gostaria de saber que sua mãe está infeliz? Que está sofrendo, e que parte da culpa é sua?

Minha mãe era minha fortaleza, a pessoa em quem eu mais confiava. Não importava o que acontecia, o quanto eu sentia dor ou sentisse medo, se eu tivesse a minha mãe, estava tudo bem. Ver ela em ruínas e admitir que ela estava mal foi horrível.

E como eu poderia reclamar? Depois de tudo o que ela suportou por mim...

Posso recomeçar, produção? Por favor? Okay.

Tem uma pergunta que acho intrigante, e que muitos não tem coragem de pronunciar. Alguns tratam com indelicadeza, como se fosse desrespeito perguntar algo assim.

– Oi, prazer em te conhecer. Vem cá, fiquei sabendo que você tem AIDS. Como foi que você pegou mesmo essa doença? Encostou num sangue de alguém que tinha a doença? Foi num manicure e se contaminou com alguns dos instrumentos que eles usaram? Ou transou sem camisinha?

As pessoas que sabem da minha condição tem essa curiosidade, vejo pelo olhar. Elas se coçam pra saber, mas tem medo da minha reação caso perguntem.

Espera, produção, não quero falar disso agora. Posso mudar o rumo do assunto?

Desde que eu me conheço por gente, frequento hospitais e grupos de ajuda. Eu sabia que era doentinha e que tinha algum problema comigo, só não sabia exatamente o que era.

Eu perguntava aos médicos o que eu tinha, queria entender o motivo de ter que frequentar aqueles grupos, queria saber o por que dos meus colegas não precisarem e eu sim. Eles sempre eram ariscos, nunca respondiam abertamente. Respostas vagas, olhares conflitantes.

A minha mãe passou por quase todos os estágios que as pessoas geralmente passam quando tem um filho pequeno como eu.

A criança pergunta, querendo saber mais. E recebe a mesma resposta :

– Você é muito pequena pra entender, benzinho. É algo muito complexo pra sua idade.

Por que recebemos visitas todo fim de semana? Por que tantos remédios? Por que temos que ter esse cuidado a mais?

Crescemos, e finalmente entendemos o motivo deles.

Minha mãe tinha medo de que eu, na minha ingenuidade, contasse minha situação aos meus coleguinhas de classe. Traria uma atenção indesejada pra cima de mim, e consequentemente pra ela.

Sem falar do medo de que minha reação fosse negativa. E se eu brigasse com ela, se eu não me aceitasse? E a culpa.
? Como explicar para sua filha que o motivo dela ter nascido assim, era porque você tinha se descuidado? Ela te responsabilizaria? Te odiaria?

E nem todos os pais são preparados, psicologicamente, pra contar. E não os culpo. Não é bom ficar no escuro, como fiquei. Imaginamos o pior, e o pior nem chega perto da realidade. A luz, que vem com a sabedoria, é carregada de trevas, de choro e desespero.

Como eu me senti quando descobri que tinha AIDS? Sem chão. Não entendia muito bem, só sabia que era ruim. Eu não sei... Sentia medo de morrer, sentia como se eu fosse uma bomba. E a qualquer momento fosse explodir. Não quero falar disso no momento.

Existe o PCA, projeto Criança e Aids. Eu faço parte dele há anos. Com muita frequência, alguém de lá me visita. Perguntam como foi minha semana, como vai os estudos, o trabalho. Fiscalizam minha rotina, conferem meu boletim. Se eu me mudo, lá vão eles ver como está a minha nova moradia, se está tudo em ordem. Estão comigo a tanto tempo, que nem sei o que faria sem eles.

O trabalho dessa equipe maravilhosa foi o que me alegrou em muitos momentos, foi o motivo de eu ter sorrido por tantas vezes. Tem atendimento psicológico e social, eles oferecem cursos e atividades recreativas, oficinas, festas. Tudo pra fazer com que a gente se sinta bem, que tenhamos momentos inesquecíveis, boas lembranças. São pessoas sensacionais, e essas causas deviam ser mais divulgadas.

Se fosse um show de algum artista pop, notificariam em todas as mídias. Mas como é só uma causa para pessoas adoentadas, quem se importa, não é mesmo? Não que a culpa seja exclusiva deles. Quantos de vocês pararam pra pesquisar, se importar? Quantos disseram :

– É bem feito que peguem essa HiV, pra largarem de ser safados.

Peço uma chance. Dê uma chance pra mim, dê uma chance a todos nós. Afinal, somos todos seres humanos, não somos? Devemos nos ajudar.





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