Ágda escrita por Maresia


Capítulo 12
Prelúdio de bronze




Naquela noite, todos comeram com satisfação, transportados pelas finas linhas do cansaço e do orgulho, sentindo a concretização percorrer as suas veias como uma doce onda de açúcar branco. Os talheres telintando requintadamente nos pratos de ouro faziam uma orquestra perfeita. A comida impecavelmente confecionada aquecia-lhes as almas. O vento que outrora congelara os sonhos e os sorrisos, agora fustigava a ansiedade, o medo e a tristeza, lançando-os para bem longe do senhorial palacete nobre. Os risos felizes de todos embalavam as milhares de velas numa dança serpenteada e sensual com os seus preciosos castiçais de ouro.

– Amanhã bem cedo, partiremos para a Sibéria. – Anunciou Dégel, saboreando o último e delicioso pedaço de peixe assado no forno. – Aí realizarás a tua última prova. Será difícil, todavia acredito, depois do que observei hoje, nas tuas plenas capacidades de resistência, sobrevivência e principalmente na tua coragem e força de vontade. Por isso, hoje quero que durmas muito bem, sem preocupações nem temores, tudo correrá pelo melhor. – Disse, dirigindo-se à bela Ângela.

– Concordo, vou apenas terminar a sobremesa e em seguida irei para o quarto descansar. Pode ficar tranquilo mestre Dégel. – Respondeu a ruiva, comendo delicadamente o seu bolo de chocolate, decorado com pequenos frutos silvestres.

– Talvez se ela dormir com companhia durma melhor, eu voluntario-me para levar a cabo essa nobre tarefa. – Sugeriu Kardia, sorrindo maliciosamente para o cavaleiro protetor do décimo primeiro templo sagrado, que lhe lançou um olhar colérico. – Não é necessário congelares-me com o olhar, meu caro cavaleiro de ouro de aquário. – Respingou o escorpião sorrindo de satisfação.

– Bem, vou dormir. Até amanhã a todos. – Desejou a bonita jovem, saindo da vasta sala de jantar, deixando nas suas costas a delicada canção da velha lareira e os olhares de todos.

– Eu também vou indo, este dia foi bastante desgastante, boa noite. – Despediu-se a bela Serafina, seguindo Ângela até ao seu quarto, deixando os três rapazes sozinhos sentados à mesa.

A bela Dama noturna percorreu com frieza e rapidez a linda e graciosa aldeia nevada, despontando numa platinada e fresca madrugada. Ângela despertou sobressaltada, sentindo uma mão fria acariciar-lhe o doce rosto.

– Ai! Quem está aí? – Perguntou, em voz trémula dragada pelo susto.

– Sou eu, tem calma. – Respondeu a voz ternurenta e amável de Unity. – O Dégel pediu-me para te vir acordar. Desculpa se te assustei não era a minha intenção. – Explicou o belo aristocrata aflito com o que fizera. – Vá lá para cima dorminhoca! A tua armadura espera-te! – Incentivou, pegando na mão de Ângela.

– Claro, vou já. – Disse a jovem, esfregando os olhos com a mão que tinha livre.

– Ângela, antes de te vestires e partirmos, gostaria de falar contigo. – Afirmou o louro em voz urgente e apelativa. – Bem, brevemente tu partirás para o santuário, sabes, a vida lá é muito dura e curta, eu não quero colocar em causa as tuas habilidades e as tuas capacidades, mas se algum dia quiseres desistir, bem, sabes que podes voltar para cá. Pronto já está, era isto que eu te queria dizer. – Concluiu Unity, largando a mão da sua amiga.

– Obrigada Unity, contudo tenho uma razão muito forte para nunca desistir, por esse motivo eu aguentei todos estes treinos sem nunca me render ao frio, às dores, às feridas, ao medo e às dúvidas. Já que o meu passado está vazio, imerso em nevoeiro e esquecimento, eu desejo ardentemente viver e desfrutar do meu presente e futuro em toda a sua plenitude. – Esclareceu enigmaticamente a ruiva, recordando aquele bonito rosto que a empurrara na direcção correta em todos os momentos críticos e difíceis do seu treino.

– E se a tua memória regressar o que pensas fazer? Sabes que ainda existe essa possibilidade por mais remota que seja, ela existe e isso nós não podemos negar. – Perguntou Unity.

– Aí, caso isso aconteça, o que eu duvido com todas as minhas forças, eu terei nas minhas mãos a maior e mais difícil decisão da minha vida. – Respondeu Ângela pensativa.

– Certo, por favor agora despacha-te. – Pediu o jovem, saindo do quarto imerso em dúvidas e certezas abstratas de quem pensa em todas as possibilidades e em simultâneo em nada pensa.

A viagem até à zona mais a leste do Velho Continente foi silenciosa, demorada e gelada. A carruagem onde viajavam corria trepidantemente através dos terrenos brancos e cristalinos, embalada pelos lindos e doces flocos de neve branca e pela chuva azul que caía das mãos dos Deuses.

– Bem-vinda ao paraíso gelado da Sibéria. – Disse ironicamente o jovem Aquário de Ouro, quando finalmente a carruagem estancou num cenário branco e infinito.

– A perigosidade deste lugar rivaliza com a sua beleza. – Comentou Unity, observando as inúmeras e imensas paredes de neve branca e misteriosa.

– Este sítio comparado com o Inferno é fantástico! – Exclamou Kardia, rasgando com o olhar flamejante o ar arrepiado e guerreiro.

– Onde está a minha armadura? – Questionou Ângela, camuflando-se com a calma açucarada daquelas encostas de linho branco, para surpresa de todos.

– Ali! – Respondeu Dégel, apontando para um liso manto brilhante de gelo opressor. – Quebra esta camada de gelo e encontrarás o mar mais mortal que corre no globo, aí encontrarás uma rocha de cristais de diamantes gelados onde a tua armadura está aprisionada desde eras mitológicas, fortalecendo-se para servir o seu cavaleiro ou amazona. Coragem, dá o teu melhor. – Disse Dégel.

– Certo, obrigada. – Agradeceu a determinada discípula, caminhando sem medo até ao escondido mar nórdico.

– Dégel, tu tens a certeza do que estás prestes a fazer? – Perguntou Unity apreensivo.

– Não, acho que é a primeira vez em toda a minha vida que eu não tenho plena certeza de uma coisa. – Desvendou o dourado, observando a sua aluna desferindo potentes socos na camada agressiva de gelo cortante. – Mas, agora já não existe volta a dar. Atena está com ela, e nada de mal lhe acontecerá. – Afirmou, lutando com todas as suas forças contra o peso tenebroso da culpa aguçada e penetrante.

– Tu ainda a podes impedir, Dégel por favor, ela não resistirá. – Implorou o jovem louro, apelando à falta de sentimentos do seu melhor amigo.

– Não posso. – Decidiu o Aquário, vendo finalmente o duro e ingrato gelo rachar com a enorme pressão do corajoso e determinado punho de Ângela.

– Consegui. – Disse a jovem nórdica, sentindo o sangue quente brotar do seu punho congelado e ferido. – Vamos lá! Gela meu cosmo, gela até à minha armadura! – Apelou ela, elevando os seus finos e destemidos braços e mergulhando nas profundezas mortais e desejadas daquele mar protetor.

Ângela nadou corajosamente, sentindo dolorosamente as afiadas facadas da água gelada e triste, abraçando as duras e escuras profundezas decadentes e misteriosas. A sua tão sonhada e debatida armadura estaria ali, perdida, esquecida, abandonada à mercê daquele mar decrépito e fugidio, fortalecendo-se para a servir, para a proteger, para a consagrar finalmente uma amazona de Atena. As finas e sangrentas espadas das correntes marinhas atiravam-na de um lado para o outro como um vendaval de gelo, vento e esperança.

– Irei alcançar-te. Não irei morrer, não irei! – Pensou Ângela ofegante, combatendo arduamente o seu destino branco e desconhecido.

De súbito, um ressoar de alegria e misticismo invadiu o peito rasgado da jovem. Ela nadou embalada por aquele raio de esperança e alívio, alcançando por fim a tão ansiada rocha mitológica.

– Consegui. – Murmurou a linda ruiva, pegando na sua armadura, porém as águas congelantes e devastadoras daquele mar consumiram todas as suas preciosas forças vitais, Ângela cedeu finalmente à exaustão e ao doce chamar do frio nórdico e injusto. A misteriosa e lendária armadura separou-se e cobriu o corpo inerte da sua amazona.

– Vou buscá-la! – Disse Dégel, correndo rapidamente, saltando sem remorsos naquelas águas destruidoras e palpitantes. – Mas que raios é que eu fui fazer, jamais me perdoarei se algo te acontecer. Aguenta, estou a chegar, por favor mantem-te viva, por favor. – Pediu, desesperadamente seguindo a última réstia daquele cosmo perfeito, suave e doce.

– Dégel espero que todo esse orgulho e indiferença não te tenha traído. – Pensava Kardia, preso pelo terror e pela angústia.

– Espero que o teu coração aprisionado por grossas e indestrutíveis muralhas de gelo não te roube a única luz que te faz sorrir e sonhar, meu amigo. – Cismou Unity banhado pelo sofrimento e pela hesitação.

– Dégel, eu confio em ti, trá-la para nós sã e salva, eu acredito na proteção da Deusa Atena. – Rezava Serafina, ajoelhada sobre o manto branco e frio.

Finalmente, um cosmo repleto de cristais de gelo subiu até à superfície ansiosa e receosa. O dourado de Aquário resgatara a sua preciosa aluna, saltando para fora das mortíferas e abandonadas águas, transportando-a nos seus fortes braços. Um elegante piar de esperança, luz e lealdade invadiu a velha e escondida Sibéria, quando Dégel pousou Ângela no terreno de linho, o Cisne de Bronze renascera das profundezas mitológicas do antigo mundo.

Ângela planará fielmente segura pelas asas de bronze e gelo do majestoso pássaro das neves. Voará através de adversidades, violência, desgostos e sorrisos, até alcançar os confins do destino, da sua memória perdida e do coração do cavaleiro de Peixes. O cruzamento dos destinos será inevitável, irrepreensível, devastador e surpreendente, abrindo feridas e deixando vincadas cicatrizes no puro e justiceiro coração da amazona de Cisne.





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