A Raposa escrita por Miss Weirdo


Capítulo 26
Capítulo 26


Notas iniciais do capítulo

Hoje é dia 29 de outubro. Programei a postagem para o dia 31, porque é uma data especialíssima. Alguém sabe o que é? Alguém? Alguém?
TAN TAN TAN TAAAAAAN
UM ANO DE A RAPOSA
ISSO MESMO
Meu Deus, um ano atrás eu postei o capítulo 1, e olha onde chegamos. Eu não imaginava que a história daria tão certo, e ainda pensei em desistir de escrever: mas não desisti.
Então, se você está comigo há um ano, saiba que você é tão importante para a história quanto qualquer personagem ♥
Boa leitura!




O vento uivava do lado de fora da casa, chocando-se contra minha janela. Sentado na mesa da cozinha, uma xícara de chá na minha frente, observei Fox encolhida em meu sofá, as pernas recolhidas junto ao peito, o cabelo ruivo escorrendo pelo rosto e a cabeça virada para a noite escura. Os pensamentos tão perdidos quanto seus olhos, uma sensação que me deu um aperto desconfortável.

Já havia certo tempo, minha mãe tinha saído para acompanhar Mika até sua casa. Os Sailors haviam marchado para o navio para passar a noite. Fox tinha ficado.

“Essa não vai embora” Mika especificara “temos de manter um olho nela”. Eu? Bem, era minha mãe, minha casa e minha capitã. Eu fiquei também.

“Mohra, você fica no comando até amanhã. Quero você, Garra, Jaguar e Magma aqui no máximo duas horas depois do amanhecer. Deixe Cabeça para dar as ordens depois disso.” a ruiva pedira, olhando fundo nos olhos de seu cúmplice. Ele assentiu suavemente e partiu, deixando explícito que se algo acontecesse com ela, a culpa seria minha.

Cutuquei a xícara, olhando para Fox com uma expressão curiosa. Eu estava praticamente deitado na cadeira, os braços cruzados e cansado. Três visões em um único dia, me sentia exausto, e mesmo assim sabia que faltavam detalhes. Algo estava errado, eu precisava descobrir mais alguma coisa, como a peça de um quebra-cabeça que estivesse faltando.

A capitã então suspirou e passou as mãos pelo rosto. Era o que faltava para eu ir até ela.

Peguei o chá e me sentei ao seu lado.

Dessa vez, não falei nada. Apenas fiquei ali, em silêncio, olhando para meus pés apoiados na mesa de centro.

Ela levou alguns segundos antes de olhar para mim.

— Você está quieto — sussurrou — que raridade.

— Não há muito o que falar. Há?

Fitou meus pés também.

— Não.

Respirei fundo e entreguei a xícara para ela.

Me olhou por uns instantes, mas segurou o chá com ambas as mãos e deu um gole.

— Eu odeio chá — comentou, passando a manga da blusa pela boca.

Ri com o nariz. Ela completou:

— O seu não está tão ruim.

Dei de ombros:

— Alguma coisa eu tenho que saber fazer, não?

Deu mais um gole. O anel dourado brilhou em seu dedo, e por mais que milhões de comentários surgiram em minha mente, não fiz nenhum deles. Estava perfeito da maneira que estava, eu temia que qualquer coisa que eu dissesse pudesse arruinar tudo.

Colocou a xícara na mesa e se virou para a janela novamente. As pernas dobradas na minha direção, o cotovelo apoiado na almofada e as mão sustentando o queixo, parecia uma criança sonhadora. Infelizmente, eu sabia que sua infância, assim como seus sonhos, haviam sido arrancados forçosamente de sua posse anos atrás.

— Sabe — ela falou, e depois de uma pausa, prosseguiu — enquanto eu estava no castelo, pensei que tudo ficaria bem. Eu tinha Grier, meus amigos, os Sailors — respirou fundo — mas algo estava errado.

Encarei seu rosto, e ela, as estrelas.

— Como se os dois mundos não pudessem se misturar. Meu passado e meu presente se chocaram de uma vez, e eu via os marujos desprezando meus antigos amigos, e o contrário também, minhas duas famílias como dois exércitos inimigos, prontos para entrar em batalha. Eu tentava segurar os pedaços soltos, e tinha a história de que aparentemente eu era o alvo de demônios…

— Eu queria dizer que entendo — sussurrei.

— Se nem eu que estou vivenciando esses sentimentos entendo, como você vai?

Seus olhos encontraram os meus, e não consegui decifrar o que a pobre estava sentindo. Era verdade, a confusão transbordava todo seu ser.

— E, eu não sei — voltou a dizer — quando retornamos ao navio, senti que estava deixando uma parte importante de mim para trás, mas não tinha problema. Era o certo a se fazer, estar com os marujos. Aquela era minha nova casa. Eu não sirvo para usar vestidos bonitos e receber ordens. 

— Como você fazia com o antigo capitão? Imagino que você não cuspia na cara dele nem nada do tipo.

Ela deu uma risada sofrida.

— Ah, ele foi a única pessoa em todo o mundo que já conseguiu me dizer o que fazer sem receber um xingamento de volta. Eu tinha tanta gratidão, e uma vontade incontrolável de o impressionar… Mas eu nunca precisei.

— Ele já estava impressionado desde o momento que te conheceu — afirmei, e ela balançou sua cabeça.

— Era um bom homem. Queria ser como ele.

— Você é uma boa pessoa, Fox.

Ela me olhou e sorriu com o canto de sua boca:

— Sua inocência me diverte.

Naquele segundo, alguém abriu a porta de casa, deixando a friagem entrar. Era minha mãe.

— Amanhã por manhã, Mika voltar aqui ajudar com problema. Agora, eu querer dormir. Vocês dois também.

Fox tremeu por debaixo de suas roupas. Ela não estava preparada para o clima frio.

Mãe, você pode emprestar algo para ela usar? — pedi.

O problema não é meu — disse, dando as costas e indo para seu quarto. Olhei para a ruiva e apontei com a cabeça para o corredor.

Ela me seguiu, sem entender, até meu quarto. 

Assim que parei na porta, tive um receio de entrar, mas o fiz mesmo assim.

Estava tudo igual a antes. A parede pintada de azul claro, dessa vez descascando, a cama arrumada e os livros espalhados. Um tapete empoeirado me fez ter cuidado na hora de entrar, como se minha mãe não tivesse estado ali desde o dia em que saí de casa, há cinco anos.

Abri o armário, procurei por uns instantes e puxei um sobretudo:

— Você pode usar isso — falei — era meu de quando eu tinha quinze anos, então deve servir. Você não é muito grande.

— Eu sou bem grande, é que você acabou sendo alto de uma maneira inconveniente — puxou das minhas mãos e vestiu, rapidamente.

— Certo. Boa noite — falei, saindo dali.

— Onde você vai?

— Para a sala. A não ser que você queria que eu fique — dei um sorriso malicioso, o qual ela respondeu com um olhar ameaçador, apesar de um sorriso ter lutado para escapar de seus lábios.

— Mas sou eu que vou dormir no sofá, não?

— Assim você me ofende, capitã — falei, realmente sério — em que mundo eu deixaria Sea Fox dormir no sofá quando existe uma cama perfeitamente arrumada apesar de não usada há cinco anos para ela?

— Eu não esperava por isso — falou, mas logo assentiu — obrigada.

Logo que saí, fechei a porta e fui para a sala, apaguei todas as velas e me deitei no sofá. Fiquei deitado sem poder dormir por sabe-se lá quanto tempo, apenas calado, vendo o vidro refletir o céu estrelado em meus olhos. Deixei meu pensamento me guiar pelas visões que tive, que por algum motivo estavam todas conectadas. A primeira garota, realizando feitiços, levada embora a força do muquifo em que vivia, um assassino, saindo de um bar na mesma noite em que a mendiga era arrastada, uma mulher rica que contratara os serviços daquele homem… Algo estava errado, e eu não conseguia ver. Era necessário passar por mais uma visão.

Puxei o livro e olhei para aquele símbolo da capa mais uma vez. Quatro voltas que se entrelaçavam, como uma linha sem fim. Ela não se iniciava em ponto algum, e não acabava também. Quatro voltas.

Meu dedos foram inconscientemente até a corrente em meu peito, me fazendo sentir o pequeno pingente dourado em forma de sol. Fiquei brincando com ele enquanto meus pensamentos voavam cada vez mais longe.

Por algum motivo, a imagem de meu pai surgiu em minha mente. Ele estava sorrindo, sinalizando com a mão para eu me aproximar. Atrás dele estava nossa casa, e brincávamos no jardim. Eu me lembrava daquilo.

Eu devia ter oito anos, e estava correndo por todos os lados, acho que com uma bola. Meu pai pedia para eu lança-la de volta, mas eu não soltava de maneira alguma. Aquela bola agora era minha.

— Vamos, me devolva! — pedia, rindo, mas eu fazia que não com a cabeça.

Uma hora minha mãe saiu de dentro de casa. Estava descabelada, mas não da maneira ruim, como quando acabava uma consulta, e sim do jeito que ficava quando estava cozinhando. Ela nos chamou para comer, e eu insisti em carregar a bola comigo, e deixa-la em meu colo. Era uma das noites onde agíamos como uma família normal, e não como os estilhaços de vidro que realmente éramos. 

Eu tinha tanto medo de me tornar igual a eles. A ideia de encontrar alguém que eu amasse o suficiente para querer ter ao meu lado para o resto de minha vida me apavorava. Eu tinha a personalidade de meu pai até os ossos, e não queria me apaixonar por uma pessoa apenas para me separar dela algum dia. O amor de meus pais era inegável, mas eles se destruiram cada dia mais, e a única maneira de permanecerem juntos foi se separarem.

E me deixarem sozinho.

Tive que trilhar meu próprio caminho, e escolher deixar minha mãe foi o jeito que encontrei para não definhar naquela vila. Ela estava enlouquecendo aos poucos, e meu pai? Se algum dia eu voltasse a vê-lo, seria lucro.

Passos me acordaram de meus devaneios. Abri os olhos enquanto percebi uma sombra saindo de minha casa rapidamente. 

Ela está fugindo.

Me levantei rapidamente, ainda que um pouco grogue, e saí pela porta que ela havia deixada aberta. A lua iluminava sua silhueta e nada mais, enquanto disparava em direção ao navio.

— Ei! — gritei, e ela olhou para trás rapidamente.

— Não ouse me parar! — gritou de volta. Estávamos nos afastando cada vez mais das casas.

Comecei a correr para alcançá-la. Meu coração se acelerou de um jeito anormal, um misto de emoções que explodiram de uma única vez que não pude controlar. Não queria resolver o problema dos demônios? Ela estava me deixando para trás?

Não foi bonito de se ver quando eu a alcancei. Fox deu um grito quando meu punho agarrou seu braço e eu a puxei para trás, mas seu impulso nos fazendo perder o equilíbrio. Caímos na grama e rolamos de uma maneira horrível, um por cima do outro. Tentou se erguer, mas eu a puxei de volta.

— Eu odeio quando me seguram! Me solte! — se debatia enquanto meus braços envolviam seu corpo — Que inferno!  — começou a me xingar, mas logo o tom de raiva foi se transformando em algo similar à súplica, e de repente em um pedido em pânico — Por favor, por favor me solte! 

Quando eu finalmente a liberei, ela se arrastou para longe, engatinhando, e então parou e começou a soluçar. Fiquei exatamente onde eu estava, e ela simplesmente olhou para a lua e chorou. Chorou tudo o que precisava, engasgando e deixando as lágrimas correrem pelas bochechas até baterem na terra. 

— O que está acontecendo comigo? — perguntou, tremendo — me diz, por favor!

Virou seu rosto para mim, e minha vontade imediata foi correr até a garota. Eu sabia que não era aquilo que ela queria.

— Eu odeio quando me seguram — chorou, balançando a cabeça — é como se estivesse vendo meu irmão morrer em minha frente mais uma vez e não pudesse fazer nada porque há um imbecil me impedindo!

— Eu não sei o que está acontecendo — falei, balançando a cabeça, a voz tremendo — pelo Destino, eu não sei. Queria te ajudar, mais que tudo, mas não posso. Quem tem que resolver essa questão é você.

— Olhe pra mim! — ela gritou — eu perdi o controle das coisas há muito tempo! Como pensa que vou resolver algo?

— Estou olhando pra você, e olho pra você desde que cheguei no Metal Curse! Você é Sea Fox, não é? Falou isso ainda hoje para Mika! Você é temida, respeitada, a rainha dos mares!

— Uma rainha não deve chorar — murmurou — e todas essas pessoas que me temem… Ninguém me teme. Ninguém me respeita. Eles criaram uma personagem. A única coisa que fiz foi tomar parte nesse roteiro. Mas eu estou cansada! Ah, céus, eu estou exausta.

Não venha me dizer que não lhe agrada a sensação de ter o controle de tudo — falei — eu sei que sim. E eu sei que o que está acontecendo agora é só uma crise, porque te conheço. Você é a mulher mais forte que já vi, passou por tudo e mais um pouco, e mesmo assim se mantém firme, e não apenas manda nos marujos, os inspira.

— Eu só quero voltar para o mar — pediu — quero que esse pesadelo acabe, quero as coisas exatamente como antes — suspirou, secando os olhos — não aguento mais.

— E por que pensou em me deixar para trás?

— Você tentaria me impedir, não sei.

— Fox, por qual motivo você saiu correndo? — perguntei.

Ela pensou em que dizer, mas simplesmente ergueu os braços, os deixando cair novamente, se rendendo.

— Eu me lembrei do castelo de Grier, daquele estúpido baile.

— Mas por que isso é motivo para fugir?

— Se lembra de quando uma garota apareceu, distraindo todos e nos dando tempo para fugir?

— O demônio?

— Não era um demônio, e sim a irmã de Grier.

Demorei alguns segundos para entender do que ela estava falando. Me lembrei de quando Evanna havia me dito que dois meses após o naufrágio do navio em que os pais do regente estavam, sua irmã mais nova desaparecera. Se a garota que encontraram morta no porão do navio que ajudei a saquear era ela, e aquele espírito também…

— Ela desapareceu da mesma maneira que você — sussurrei.

— A pobrezinha não teve a mesma sorte que eu — mordeu seu lábio — seu rosto não sai mais de minha mente. Eu fecho os olhos e lá está ela, como seus cabelos loiros brilhavam junto aos vestidos bonitos, e depois as mais terríveis imagens surgem sobre como estava quando morreu. Nós chegamos tarde, se lembra? Ela havia morrido fazia pouco tempo. Eu poderia ter salvado uma das pessoas que mais eram importantes para mim.

— Não, Fox, não poderia. As coisas acontecem por um motivo. Se ela não tivesse morrido, estaríamos presos no castelo até agora, pois não haveria uma distração para nos permitir fugir.

— Eu me culpo da mesma maneira que me torturo todos os dias com a morte de Proi. Ah, céus, poderia ter sido eu, Tom — falou.

— O Destino não erra. 

— O Destino levou meus pais, meu irmão, minha vida inteira — falou, com amargura.

O Destino não erra — tornei a dizer — Se tudo isso aconteceu, é para levar a algo maior. Algo importante. Essas tragédias não serão em vão, Fox. E não se preocupe, pois quando o Destino achar que é hora e esse “algo” acontecer, eu vou estar ao seu lado, e vamos juntos até o fim.

 



Notas finais do capítulo

Não se esqueçam que eu criei um canal no youtube! www.youtube.com/auimaue



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