A Raposa escrita por Miss Weirdo


Capítulo 23
Capítulo 23


Notas iniciais do capítulo

VOLTAY
Eu adoro fazer essas entradas surpresas, assim, PAH, cheguei
Amiguinhos, não tenho muito o que dizer aqui. Espero que gostem :p



— Elas estão lá há quanto tempo? — Batata perguntou, balançando no sofá.

— Uma hora, talvez? — Mohra respondeu, lendo um livro.

— E vocês não estão preocupados? — perguntou novamente — já provamos da insanidade dessa senhora. Vamos deixar a Fox com ela?

Depois de uns segundos, Batata se virou para mim e se desculpou.

— Não se preocupe, eu sei que minha mãe é louca — afirmei — e eu cresci rodeado de seus clientes. Ela só os ataca durante consultas se for contestada ou tratada com ceticismo.

Todos se encararam.

— O que provavelmente indica que deveríamos manter alguém na porta — Garra assumiu — é da Fox que estamos falando. Ela adora contestar e é cética.

— Eu posso ficar na porta — Sequela levantou um braço, se oferecendo — sinto falta de uma boa e velha pancadaria.

— Sequela, primeiro, que tipo de pancadaria? É a mãe do Tomeh que está ali. A única coisa que ela faz é jogar vasos — Mohra revirou os olhos, ainda lendo seu livro — e segundo… Nós fugimos do palácio ontem — passou a mirar o marujo — você acabou de lutar com diversos guardas, sua cara ainda está cheia de hematomas. Qual seu problema?

— Já disse para não se preocuparem — falei novamente — conhecemos Fox bem o suficiente para saber que ela não vai fazer besteira numa hora dessas.

A porta então se escancarou, fazendo Batata dar um pulo e puxar sua espada. Minha mãe desceu as escadas, um olhar sério em seu rosto, e Fox logo atrás com o cenho franzido. Parecia transtornada.

Batata começou a bombardeá-la com perguntas, o que resultou em Garra lhe dando um soco e murmurando um “cala a boca”.

Ficamos todos nos encarando em silêncio por um minuto, quando minha mãe interrompeu:

— Como eu suspeitar, preciso de ajuda com essa assunto. Vou chamar um amiga. Mikaela ser muito boa.

Com isso, despediu-se e saiu pela porta de casa.

— E então, como foi? — Mohra perguntou. Fox jogou-se no sofá, mas seu olhar estava perdido e as mãos tremendo.

— Eu não sei se é a melhor hora — comentei — minha mãe tinha o costume de falar algumas coisas sobre meu futuro vez ou outra. Era assustador. Eu costumava ficar calado por dias.

— Sim, Tom, mas infelizmente nós precisamos saber qual o problema com ela. A sobrevivência dos Sailors depende disso — Garra cruzou os braços.

— Vocês têm comida por aqui? — Batata perguntou.

Nós o ignoramos, e Fox murmurou fracamente:

— Ela não falou nada sobre meu futuro. Ela só… Ela só me fez reviver meu passado.

— Como assim? — Sequela coçou sua nuca.

— Ela queria que eu me lembrasse de todos os pontos da minha história para que tentasse identificar de onde esses demônios estão vindo. Enfim, eu não precisei lembrar de nada. Karma já sabia de tudo.

— E pelo visto vocês não conseguiram chegar a uma conclusão, já que minha mãe foi atrás dessa amiga.

— Você conhece ela?

— Mikaela vinha aqui em casa com certa frequência. Tem as mesmas habilidades da minha mãe, só que não as usa como um trabalho.

Depois daquilo, todos se colocaram em um silêncio incômodo, daquele tipo de que ninguém sabe muito bem o que dizer, nem pensar. Há pouco tempo todos tinham suas cabeças moldadas em uma sequência de verdades: velejar, saquear navios, beber rum, matar algumas pessoas, beber mais rum, respeitar a capitã. Agora, uma terrível realidade havia destruído o que pensavam ser suas vidas. 

Qual era o preço de uma verdade, se esta acabasse com tudo o que você acreditava? Sendo assim não seria melhor viver na sombra da mentira? A ignorância é uma benção.

Como seria para eles, tão invencíveis, a sensação de perderem? Demônios, quem diria que tais criaturas pudessem existir, e quem diria que dentre todos os seres que andavam sobre as terras, os Sailors seriam escolhidos para carregar este fardo?

Não. Não os Sailors.

Fox.

Por algum motivo, tudo no mundo parecia volver ao redor dessa garota. As desgraças, os homens, as mortes, as aventuras, e agora demônios.

Mirei a ruiva por um instante. Seu olhar perdido indicava que não olhava para nada, não ouvia nada, e também não pensava em nada. Quando estamos assim, com os olhos vidrados em nada e tudo ao mesmo tempo, não estamos realmente pensando. É como se nossa mente estivesse sendo carregada sozinha, e nós ficássemos parados, apenas acompanhando, sem ter muito o que fazer em relação a isso. As imagens as vezes tornam-se tão nítidas que parece que estamos revivendo algum momento passado.

E, naquele momento, eu só quis agarrar seu pulso e a puxar para longe de tudo e de todo mundo. Não era certo a fazer reviver o passado. Não o dela, pelo menos. Todas aquelas memórias horríveis que a torturavam dia e noite, tudo aquilo se acumulando sobre seus ombros, o medo de parecer fraca. Eu sentia medo por ela, pois isso era algo que Fox não era permitida de sentir.

— Tom, eu odeio ser chato — interrompeu Batata — mas eu realmente quero comer.

Balancei a cabeça suavemente para sair de meus devaneios e levantei da cadeira, indo para o pequeno armário. 

— Pode pegar qualquer coisa — murmurei.

Fiquei observando enquanto ele pegava comida aos montes. Eu estava tão curioso para entender tudo o que estava acontecendo, a ansiedade fazendo um calor ruim subir por meu pescoço. Eu precisava me distrair.

Inconscientemente eu saí de perto deles para começar a subir a escada. Eu não sabia exatamente o que estava fazendo, apenas continuei subindo cada vez mais, até que a maçaneta já estivesse virando em minha mão. 

O cheiro de incenso me fez tossir. Tudo estava exatamente igual. A janela fechada no fundo da sala, a mesa redonda no centro e aquela estúpida bola de cristal, que provavelmente só servia de enfeite para que a fumaça e os brilhos deixassem o cliente atordoado o suficiente para acreditar em tudo o que ela dizia.

Se eu pudesse me descrever, seria alguém bem bipolar. Enquanto eu clamava ser cético, defendia o destino com unhas e dentes. As previsões de minha mãe sempre deram certo comigo, e mesmo assim me recusava a acreditar, como se isso fosse levar parte de minha sanidade embora. Não era possível expressar em palavras.

Uma vela tremulava acesa na mesa de canto, e ao lado havia uma estante cheia de livros. Eu costumava olhá-los quando criança, mas nada me chamava muito a atenção. Por algum motivo, naquele momento, eu era atraído para eles, como se fossem o canto de uma sereia.

Olhei os títulos, que variavam de “Manual do Curandeiro” à “Interpretação de Sonhos: volume 3”. Arrastei meu indicador pelas capas empoeiradas, deixando um rastro de minha presença. Meus olhos vasculhavam rapidamente todos os cantos, como se esperando encontrar algo escondido. Foi quando eles pararam em algo.

Um livro dentre todos era bem pequeno, o motivo de eu ter parado. A capa era negra, e, em dourado, havia um símbolo, como se fossem quatro voltas que se entrelaçavam no meio. Era estranhamente familiar.

Passei os dedos sobre o símbolo e abri a capa para poder ler alguma coisa. Estava em branco.

Cerrei os olhos. Comecei a passar as páginas com maior velocidade, e mesmo assim não encontrei nada. Quando cheguei na última, refiz o processo, só que de trás para a frente, e notei quatro páginas rasgadas ao longo do caminho.

— O quê… — murmurei, tentando raciocinar, mas senti náuseas. Procurei por algo para segurar, porém antes de conseguir, vi todas as luzes desaparecendo.

Quando abri os olhos novamente, estava no chão de um beco. Era noite, uma corrente gelada movia uma folha de papel perdida, e o que eu imaginava serem casas estavam fechadas e com tábuas cobrindo as janelas. Pelo silêncio, deveriam estar abandonadas.

Me levantei para poder ver melhor o que estava acontecendo. Ao longe era possível escutar algumas vozes, mas nenhuma se aproximava daquele canto. Passei devagar por todas as casas, procurando por qualquer sinal de luz, porém apenas confirmei o que já suspeitava. 

Andei até a rua principal que cruzava aquele lugar, mas o próprio não era dos mais cheios. Com o vento, os lampiões se apagaram, e a concentração de pessoas estava muito longe.

O que diabos estou fazendo aqui?

Cocei minha cabeça, sem entender. Eu odiava não entender.

Comecei a andar em direção às pessoas. Um casal se aproximava, braços cruzados e conversa silenciosa. A moça estava bem vestida, mas suas roupas tinham um grande exagero de babados, nada parecido com o que as damas que eu tive contato usavam. Tremia de frio, enquanto o homem fazia seu melhor para tentar protegê-la. 

— Com licença, vocês podem me ajudar? — perguntei, mas eles ignoraram, passando por mim.

Tudo bem. Talvez eles não falem Gher.

Três homens, um ao lado do outro, riam e se empurravam, e a cada vez que falavam era possível ver a fumaça proveniente do frio. Suas vestimentas tinham as mangas abertas demais, também diferindo do que eu e os Sailors vestimos enquanto no palácio.

— Ei, que lugar é esse? — falei em Ocqui, dessa vez mais alto. Eles passaram por mim e continuaram conversando.

Qual o problema dessas pessoas?

Foi então que vi uma loja. A luz saía de dentro das paredes de vidro para a rua, dando uma iluminação agradável. Eu corri até a frente, onde tentei puxar a maçaneta, mas estava trancada. Foi então que eu li a placa de “fechado”.

Lá dentro, duas moças conversavam animadamente, vestindo o mesmo exagero de babados e camadas. Pareciam rir sobre algo quando comecei a bater na porta. Elas não estavam ouvindo, então bati mais forte.

A que estava na direita, uma loira, virou a cabeça e arregalou os olhos. Chamou sua amiga, sem tirar os olhos de mim. A amiga revirou os olhos, se levantou e deu dois passos para a frente. Apontou para a placa.

— Eu preciso de ajuda! — gritei.

A loira disse algo para a amiga, que eu não consegui ouvir. Elas discutiram um pouco, e a morena veio até a porta. Abriu uma fresta e disse bravamente, em um Gher quase impossível de entender:

— Você não tem nada para fazer aqui.

Naquele momento, eu tive vontade de dizer umas boas verdades para aquela mulher. Eu já tinha sido ignorado por dois grupos, ela não seria uma terceira. Estava frio, eu estava completamente perdido e…

— Eu só quero um pouco de comida — pediu uma outra voz.

Dessa vez, me virei assustado. Atrás de mim tinha uma garota completamente magrela e curvada. Devia ser umas duas cabeças menor que eu. Estava coberta com uma túnica marrom esfarrapada, e do pouco que vi de seu rosto, estava completamente encardido.

— Não temos nada para você, vá embora — vociferou a morena.

A pequenina então passou por mim e tentou abrir a porta, o que fez as duas moças darem um grito. A loira pegou um livro e o jogou na direção da invasora. Assim que ele atingiu sua cabeça e ela freou, a morena a chutou para fora, trancando a porta.

A garota estava caída, mas se ergueu mais rápida do que pude prever e correu pela rua. Fui atrás, tentando manter o ritmo, o que não foi difícil. A coitada devia estar tão faminta que não conseguia êxito na fuga.

Ela virou no beco, e logo se segurou na parede para poder conseguir o fôlego. Eu não me cansei com o trajeto, e pensei se seria por causa do meu físico, mas não parecia certo. As pessoas não me percebiam, eu não me cansava, tudo estava ocorrendo de modo a me levar a crer que eu não passava de um expectador. 

A garota espirrou, mas logo seguiu para o fim da ruela. Em uma das casas abandonadas, moveu uma tábua que bloqueava a porta e passou por ali. Eu a segui, observando tudo atentamente.

Lá dentro era maior do que eu esperava. Estava uma grande bagunça, com coisas espalhadas para todos os lados entre as quatro paredes de pedra, que deixavam tudo muito mais gelado e aterrorizante. Teias de aranha cobriam os cantos da parede como véus, e a poeira era tanta que podia ser confundida com um tapete.

Ela tirou o capuz de sua túnica, mas estava escuro demais para que eu pudesse analisar seus traços. Deu uns passos para a frente, puxou um pedaço de tecido negro e levou até a porta, onde fez questão de cobrir todas as  frestas.

Depois disso, ouvi um estalo. As velas se acenderam.

A menina levou o pescoço para os lados, se alongando. De dentro da blusa, puxou um livro que estava escondido, o qual eu reconheci ser o que a loira da loja usou como arma. O que esta pobre esfarrapada poderia querer com aquilo? Ela com certeza não sabia nem ler. E como as luzes tinham se acendido?

Fungou algumas vezes, enquanto pegava uma das velas e a carregava até um canto do local. Se sentou no chão, abriu o livro e começou a analisá-lo. Parecia compenetrada. Virava as páginas avidamente, como se procurasse algo, e então sorriu. Puxou de dentro um envelope.

O que ela está fazendo?

De dentro do envelope pegou um papel, este com alguns símbolos, e o colocou contra o fogo. Novos símbolos se formaram. A menina, com um sorriso sinistro de dentes podres e cabelo negro ensebado correndo pela face, passou a falar palavras estranhas, quase como grunhidos, e assim as velas começaram a tremular.

Dei passos para trás, assustado, quando percebi o que estava acontecendo. Os objetos tremiam, coisas caíam, e a menina tinha os olhos fechados e a cabeça voltada para cima, enquanto deixava a energia tomar conta de si.

Então tudo parou.

Ela abriu um dos olhos, espiando, e deu uma checada na casa.

— Droga — bufou.

De repente, alguém deu fortes batidas nas tábuas da porta. Ela olhou assustada.

Bateram novamente, e, dessa vez, o som veio seguido de uma ordem:

— Aqui é da Guarda. Se você não sair, vamos ter de arrombar!

A garota olhou para todos os lados, sem ter o que fazer, e então guardou o envelope dentro das vestes novamente.

— Venha até aqui, peste! — gritou o homem.

Começou a andar de um lado para o outro, sem saída alguma. Fechou os olhos e começou a murmurar palavras apressadamente.

Dessa vez não houve aviso. Com um estrondo, três homens invadiram aquele cômodo, armas em punho. A menina deu um grito e moveu sua mão, fazendo livros voarem na direção deles, o que não foi tão eficaz.

Eles se aproximaram dela, a puxando pelo pulso para fora da casa. Ela se debatia, até chegou a chiar uma vez, mas os homens continuaram firmes e a levaram embora. No caminho, o envelope que estava preso em sua roupa caiu no chão, e eu me aproximei.

Não tive tempo de olhar direito. Assim que agachei para ver melhor, algo caiu atrás de mim, e senti um arrepio na espinha. Me virei, porém não encontrei nada.

Toquei no papel do envelope, mas, com um susto, levantei com o coração palpitando na sala da minha mãe. O escuro daquele lugar me deu calafrios, então disparei com náuseas até a janela, onde abri as cortinas. 

Do lado de fora, na rua, minha mãe e uma mulher bem alta caminhavam em direção à casa. A ponta do envelope no bolso da minha blusa raspava contra meu peito.

Era hora de descer.

Ele chega num arrepio.”



Notas finais do capítulo

Até capítulo que vem :D
Não esqueçam de visitar meu Tumblr de autora: www.missweirdonotes.tumblr.com onde tem várias cenas das minhas histórias representadas por gifs!



Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "A Raposa" morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.