Príncipe Às Avessas escrita por G a b i


Capítulo 4
Destrua este diário.


Notas iniciais do capítulo

Olá! Consegui chegar um pouquinho mais cedo hoje, ainda de manhã :)
Capítulo de hoje tem algumas, hm... tretas? É, acho que a palavra seria treta, sim. *risos*
Enfim, espero que gostem.
Boa leitura e nos vemos nas notas finais ;)



A primeira semana que se seguiu após Leo voltar para a escola foi literalmente um inferno para Calipso.

Até agora ela se amaldiçoava mentalmente por ter ajudado Valdez com aquele maldito termômetro naquela vez.

Aparentemente, aquele pequeno ato significou para o garoto "vamos-ser-amigos-e-você-pode-seguir-meus-passos-para-onde-quer-que-eu-vá".

Valdez havia se tornado a "segunda sombra" de Calipso na escola. Ele a seguia por todos os lados. As piadas sem graça e as cantadas baratas haviam aumentado. O que fez o mal humor de Calipso crescer gradativamente. O número de "você é um idiota", "eu te odeio", ''cale a boca'' e outros insultos em geral, também haviam aumentado por parte de Calipso.

Resumindo: a garota estava estressada.

Quanto mais Calipso tentava afastar Valdez, mais ele tentava se aproximar dela.

A situação chegou ao seu limite, quando Calipso ouviu alguns alunos falando que Leo e ela estavam juntos. E tudo isso porque o idiota insistia em sentar na mesma mesa que ela durante a hora do almoço.

Ah, como ela odiava todos aqueles alunos!

Calipso desejou morrer. Aquilo já era demais para o pouco de paciência que ainda restava a ela.

Naquela sexta-feira, Calipso saiu praticamente correndo da escola.

Tudo o que ela queria era chegar em casa e ficar sozinha. Pelo menos lá não teria um Valdez irritante grudado nela o tempo todo e aqueles alunos idiotas se referindo a eles dois como "Caleo".

Tudo o que a garota queria era poder relaxar na sua tão amada e aconchegante estufa de flores. Cuidar das suas plantinhas, ouvir música e desabafar escrevendo todos os seus sentimentos no seu diário.

***

Estava tudo indo às mil maravilhas.

Calipso já havia regado e cuidado de todas as plantas e flores do andar de baixo e agora estava em seu lugar favorito: O segundo andar da estufa. A garota passava mais tempo ali em cima do que dentro da própria casa.

O lugar era super confortável. Fazia um estilo lounge garden*, porém adaptado às necessidades da garota. Havia muitas prateleiras com vasos de flores de todas as cores e espécies; um lugar separado para guardar produtos e utensílios de jardinagem; uma mesa com cadeiras onde Calipso costumava escrever e desenhar; e também um espaço onde havia um sofá daqueles içados por correntes presas no teto. Em volta, alguns puffs.

O segundo andar da estufa era encantador. E dava a Calipso uma sensação de paz e tranquilidade. Sensações essas que sumiram assim que aquela voz chegou aos ouvidos da garota.

"Não. Pode. Ser."

"Ele de novo não." Foi o que Calipso pensou enquanto estava acabando de acender um dos incensos que ela tanto gostava.

— Calipso, você está aí? A gente precisa conversar. Eu fiquei sabendo dos boatos que estão rolando pela escola... — Leo vinha subindo as escadas. E Calipso queria poder fazer ele rolar escada abaixo antes mesmo de olhar para a cara dele.

Será que aquele idiota nunca a deixaria em paz?

— Não tem nada para você consertar aqui, Valdez. Eu sugiro que vá embora. — Ela gritou. Mas Leo já estava lá em cima a encarando com um pequeno sorriso e rodando incessantemente um molho de chaves por entre os dedos da mão direita.

Hiperativo.

E irritante.

— Eu queria te pedir desculpas por...

— QUEM FOI A CRIATURA DOS INFERNOS QUE O DEIXOU SUBIR AQUI? — Calipso o interrompeu aos gritos.

— Er... Foi a sua governanta, eu acho. — Valdez sentou-se em uma das cadeiras e largou suas chaves sobre a mesa.

Folgado.

— Esses empregados são todos uns emprestáveis. — Ela rosnou. — Posso saber quem foi que deixou você sentar? Eu quero ficar sozinha. Eu gosto de ficar sozinha. Já basta eu ter que aturar você me seguindo por toda a escola. Vá embora, Valdez. Não estou com paciência para você.

— Mas é sobre isso mesmo que eu queria falar. — O garoto insistiu. Ele voltou a rodar aquele molho de chaves, fazendo um barulho chato sobre a mesa.

Calipso arrancou o chaveiro das mãos dele e atirou para o outro lado da mesa.

Leo deu uma risadinha.

O chaveiro do garoto caiu perto do diário de Calipso.

— Nem pense em querer pegar. E não se aproxime daquilo. — Calipso apontou para o diário.

— Ok. — Leo engoliu em seco. — Então... desculpa pelos boatos que estão rolando lá na escola. Esse lance de Caleo e...

— Não. Repita. Isso. — Calipso revirou os olhos. — É ridículo!

— Tudo bem. Eu só queria dizer que não foi minha intenção. Eu só queria...

— NÃO FOI A SUA INTENÇÃO? — Calipso gritou, fazendo Valdez dar um pulo da cadeira. — Então me diga... — Ela cruzou os braços. Aquela expressão de "poucos amigos" no rosto. — Qual era a sua intenção quando decidiu que ia ficar na minha cola? Quando insistia em sentar todos os dias na mesma mesa que eu durante o almoço? Qual era a sua intenção quando fazia tudo isso, mesmo eu implorando para você me deixar em paz? Qual é o seu problema comigo, afinal?

— Eu não tenho problema algum com você. Eu só queria me aproximar. Queria fazer você não ser tão sozinha. — Leo foi o mais sincero possível. E agora que ele tinha começado, ia continuar. — Eu gosto de você, Calipso. Mas, sinceramente, eu acho que se alguém tem algum problema aqui, esse alguém é você. — Aquilo atingiu Calipso em cheio.

— Ah, é mesmo? — Ela parecia incrédula. — E qual é o meu problema, Valdez? — Calipso cuspiu as palavras.

— Você não gosta de ser sozinha, mas, ao mesmo tempo, afasta todos que tentam se aproximar de você. Eu não consigo entender isso.

Leo estava se chutando mentalmente por dizer aquilo. Ele sabia que podia estar botando tudo a perder. Era mesmo um tremendo idiota. Mas ele precisava dizer aquilo. Calipso precisava ouvir aquilo.

— Você não sabe nada sobre mim, Valdez. — As palavras do garoto haviam a atingido como um soco no estômago, mas o orgulho falava mais alto. — Eu gosto de ser sozinha. — Enfatizou.

— Não, você não gosta. — Leo balançou a cabeça em reprovação. — E eu sei muita coisa sobre você. — Leo estava nervoso. Agora ele tamborilava os dedos na mesa.

Aquela conversa estava tomando um rumo perigoso.

Muito perigoso.

— E o que você sabe sobre mim, Valdez? Agora que começou, termine.

Leo engoliu em seco e começou.

— Sua cor favorita é verde. Você quer encontrar um príncipe encantado que cante e toque violão. Você nunca beijou ninguém. Você acha que as pessoas só veem você como um rostinho bonito. Você é romântica, apesar de querer passar essa imagem de durona, mal-humorada e ser muito grosseira. E você quer realmente encontrar um namorado, porque não aguenta mais ser tão sozinha. Calipso, você quer apenas ser feliz. — As frases saíram tão rapidamente da boca de Leo, que ele nem sabia de onde havia tirado coragem para dizer tudo aquilo.

Ele esperava que Calipso arremessasse o primeiro vaso de flores que encontrasse na cabeça dele. Mas ela não fez nada.

Calipso parecia ter sido congelada no tempo. Ela não se mexia do lugar. A boca aberta em um perfeito "O". Piscou algumas vezes e seu olhar seguiu direto para o diário que estava fechado em cima da mesa.

A garota olhou para Leo com aquele olhar assassino que ele tanto temia. O garoto se levantou da cadeira e assistiu, de pé, Calipso se aproximar da mesa e pegar o diário em suas mãos.

E então veio a reação.

— COMO VOCÊ TEVE CORAGEM? — Ela gritou. Os nós dos dedos brancos tamanha era a força com que ela apertava o diário. — COMO FOI QUE VOCÊ LEU ISSO? QUANDO? — Leo arregalou os olhos. Ele nunca tinha visto Calipso tão brava daquele jeito.

— F-Foi... Foi sem querer. Eu juro. Foi naquela vez que eu vim consertar aquela prateleira que estava quebrada. Seu diário estava ali, na mesa, aberto e...

— EU ODEIO VOCÊ! — Calipso o interrompeu aos berros. — Você não conhece a palavra privacidade? O seu pai não te deu educação, por acaso? — Ela se aproximou de Leo e ele meio que se encolheu esperando um tapa no rosto ou qualquer outro tipo de agressão física.

Mas Calipso não o agrediu.

— Desculpa. — Valdez fechou os olhos com força. Ele estava apavorado. Ainda não sabia como Calipso não tinha pegado uma tesoura de jardinagem e o feito em pedaços ali mesmo. — Eu não vou contar nada do que eu li para ninguém. Eu nunca faria isso com você. Juro. — O garoto voltou a abrir os olhos e encarar Calipso.

— Ah, mas é claro que você não vai contar nada para ninguém. — A garota deu um sorriso forçado. — Se eu descobrir que mais alguém sabe o que está escrito aqui... — Ela deu um tapinha na capa dura do diário e chegou bem pertinho de Leo. Os rostos deles muito próximos. A respiração do garoto estava descompassada. — Se você contar qualquer coisa para alguém... — Leo engoliu em seco quando Calipso sussurrou em seu ouvido. — Eu vou te fazer em pedaços e com certeza você não vai conseguir consertar o estrago.

— Entendi. — A voz de Leo saiu falha.

— Ótimo. — Calipso sorriu. Ela estava tentando soar o mais indiferente possível. Até começar a gritar novamente. — AGORA SUMA DA MINHA FRENTE! VÁ EMBORA, VALDEZ. VÁ EMBORA PORQUE EU ODEIO VOCÊ!

Uma lágrima escorreu pelo rosto de Calipso, mas ela fez questão de secá-la rapidamente.

Ela não ia chorar. Não ali. Não na frente do garoto dos reparos.

— Desculpa. — Valdez falou quase em um sussurro. Ele não conseguia olhar Calipso nos olhos. Pegou suas chaves e começou a descer as escadas.

Ele havia estragado tudo.

E Calipso estava fora de si.

A única coisa que ela ouvia era uma voz em sua cabeça que dizia "destrua este diário".

As lágrimas brotaram nos olhos da garota mesmo contra a vontade dela.

"Destrua este diário".

— Ninguém mais vai ver isso. Nunca mais. — Calipso falou consigo mesmo enquanto procurava desesperadamente pelo isqueiro que ela usava para acender os incensos.

A garota estava tão desorientada que acabou derrubando vários produtos e fertilizantes que estavam na prateleira. As coisas caíram pelo chão, espalhando líquidos estranhos e de várias cores diferentes.

"Destrua este diário". Aquela voz ainda ecoava na cabeça de Calipso.

E foi então que ela finalmente achou o isqueiro. Acendeu e colocou fogo na primeira página daquele maldito diário dos infernos.

— Destrua este diário. — Calipso deu um sorriso meio psicótico e atirou o diário no chão, em meio a todos aqueles produtos químicos que haviam vazado.

E foi aí que o pior aconteceu.



Notas finais do capítulo

*Lounge garden: é uma expressão inglesa que seria, para nós, uma espécie de "sala de espera" localizada em um jardim, ou ao ar livre.

Hey! Voltei haha
Eu espero que não estejam querendo me bater, de verdade.
E não se preocupem, o próximo capítulo será a continuação desse.

Que tal deixar um comentário me dizendo o que achou do capítulo de hoje? Eu adoraria saber a sua opinião :)

Bom, era isso, por hoje.
Nos vemos sexta-feira que vem!

Xoxo,
G a b i.



(16/10/2015)