SeuSegredo. Com escrita por Panda Chan


Capítulo 23
E quem sou eu?


Notas iniciais do capítulo

Olá bolinhos, tudo bem com vocês?
Poxa, eu andei meio sumida né? Mas não se preocupem porque não abandonei a história, só passei por uma fase "turbulenta" (ainda estou passando).
Espero que vocês compreendam que estudar e trabalhar não é fácil como parece nos filmes, é bem mais complicado.
Boa leitura ♥



Diante de mim existe uma tela vazia com um traço preto piscando, aguardando pelas minhas palavras e sílabas para fazê-lo se movimentar. Não consigo deixar de encarar o pisca-pisca daquele traço imaginando como será melhor quando ele começar a se mover, quando minhas palavras preencherem a tela vazia.

Lucca: Quase dois dias sem novas postagens, o que está havendo?

A mensagem dele é a mesma de centenas de outras pessoas, mas em um aparelho celular diferente.

Pode-se dizer que estou com um bloqueio criativo mesmo tendo material sobre o que escrever. Acontece que quando te botam contra a parede usando o segredo mais bem guardado da sua vida você termina ficando meio abalada.

Minimizo a tela vazia e aperto no ícone azul no canto da tela esperando que pela primeira vez a palavra online esteja ao lado do nome dela.

— Vamos Cath – murmuro – Nós marcamos.

O fuso-horário fez com que minha irmã e eu ficássemos bem separadas. Quando eu estou almoçando, ela está jantando. Se estou indo dormir, ela está se preparando para acordar. Não sei como minha mãe consegue encontrar brechas no fuso-horário para falar com ela diariamente e mal fala comigo que estou no quarto ao lado do seu.

A última vez em que falei com Cath foi no natal, se bem que para mim estava mais para véspera de natal. Já estamos perto do dia dos Namorados.

Uma solicitação para conversa pela webcam surge na tela e suspiro aliviada ao ver que é dela.

— Olá irmãzinha.

O rosto de Catherine ocupa a tela, as adoráveis covinhas em suas bochechas, os olhos castanhos como os da nossa mãe tornam aqueles traços tão familiares quanto os do meu rosto.

— Oi Cath – forço a voz para que saia simpática e animada. Não consigo ter sucesso.

— Sua aparência está terrível – ela abre a boca em um perfeito “o” para dar um ar dramático à frase como sempre faz.  Percebo graças à janela atrás dela que já é noite enquanto aqui é apenas meio-dia.

— Você sabe que nunca fui boa me arrumando – sorrio forçada tentando parecer constrangida com o que digo.

— Nunca foi mesmo – ela estala a língua – Ainda lembro-me de quando você pegava as minhas maquiagens para brincar.

É engraçado como ela omite a parte em que ameaçava me fazer engolir seus pinceis e batons quando descobria que eu os usei. Eu tinha seis anos e foi assim que aprendi a nunca usar nada que não fosse meu.

— Como estão as coisas aí?

Ma-ra-vi-lho-sas — ela ri – Estou estagiando com um professor incrivelmente bonito e esperto – ela toca uma mecha de cabelo e enrola nos dedos me fazendo ter certeza de que eles estão tendo um relacionamento – Cada vez mais vejo que arqueologia é a minha praia.

— Que bom.

— Já decidiu qual carreira seguir, irmãzinha?

— Estou me decidindo – dou de ombros – Não é tão fácil quanto parece.

— Você e sua mania de dificultar tudo – Cath revira os olhos castanhos – É supimpa escolher algo que goste, devia pensar nisso. Apesar de que você não gosta de nada.

Ela ri de sua piada enquanto eu tento processar a expressão antiquada que ela utilizou e como não pareceu antiquada sendo dita por ela.

— É eu tenho essa mania – murmuro.

Cath encara a tela em silencio e pelo moimento de seus olhos sei que ela está lendo alguma página da internet e ignorando a minha imagem. Ah, que se dane.

— Esses dias eu conheci um garoto – mordo o lábio.

— Ele é bonito? – ela pergunta sem desviar os olhos do ponto que encarava.

— Um pouco, ele me disse que morou aqui há alguns anos. Você se lembra do Ícaro?

A expressão calma dela vacila por segundos e vejo uma expressão de pavor dominar sua face. Cath se recupera e sorri ao responder:

— Não.

— Estranho, ele se lembra de você e sobre o tempo que namorou com o Augusto. Na verdade, ele sabe até sobre o filho que você matou e ameaçou contar para todos se eu não aceitasse a chantagem dele.

Não sei porque revelo isso ou o que espero conseguir, porém acredito que vale a pena só por me fazer ter o prazer de ver Cath em desespero.

— Anna, eu não sei o que ele te pediu mas aceite. Aborto é ilegal aí e mesmo que eu tenha vindo para um país onde é legalizado, posso ser presa se descobrirem as tentativas. Pense em como a mamãe ia ficar decepcionada ao ver sua filha nessa situação.

Não sei se Cath tem consciência sobre o que diz se é proposital ou acidental, entretanto tem efeito. Minha mãe sempre a tratou como a filha favorita – ou melhor-, sua única filha.

As pessoas perguntavam se eu estava bem ou me sentia mal quando preferia ficar quieta nas reuniões familiares diferente de Cath que mandava em todas as brincadeiras e estava em milhares de conversas simultaneamente. Eu só era tímida.

— Você não pode exigir que ela seja como a irmã! – meu pai gritou certa noite antes do divorcio.

— Anna deveria ser como a Cath, só assim ela seria boa o suficiente para ser minha filha.

A lembrança desaparece tão rápido quanto veio.

— Nicole ficaria decepcionada.

— Sim e eu não posso decepciona-la, você sabe como ela gosta de mim...

A frase fica no ar e mesmo assim consigo ouvir as palavras não ditas dela.

— Eu vou fazer o que ele me pediu Cath, só não por você.

— E por que vai fazer então?

— Por mim.

Fecho a conversa sem me despedir e logo abro aquela tela vazia com o traço piscando. Sinto-me quase em êxtase ao fazê-lo se movimentar com as minhas palavras contando cada detalhe sobre a história da minha irmã da forma mais característica possível ao veneno que esperam da Secret. O contador de palavras no canto inferior não para de registra-las e quando digito o ponto final volto o texto e apago tudo de uma única vez.

Os segredos de um número invisível e sua família não interessam a ninguém.

Jeremy foi excluído de qualquer circulo social após ter seu segredo revelado no blog então não me surpreendo ao encontra-lo perto de Mabel e Clarissa no intervalo.

— O que ele faz aqui? – a loira murmura.

— Deve achar que somos inofensivas – respondo.

— Está bem enganado – Clarissa o fuzila com o olhar.

Mabel encara a tela do celular com o cenho franzido.

— O que foi? – pergunto.

— Meu pai quer me encontrar – ela recolhe sua mochila – Deseje-me sorte.

Quero perguntar porquê o pai está querendo vê-la, mas decido que o silêncio é melhor.

Clarissa e eu ficamos em silêncio por alguns minutos. Ela é a primeira a falar.

— Então, o Ícaro falou com você?

Simples assim, eu descubro quem é o segundo Bill.

— Você...?

Ela dá uma piscadela.

— Sempre tive uma queda por rosas.

Sorrio involuntariamente ao me dar conta de como o Bill esteve perto durante todo esse tempo.

— É, ele já falou comigo. Vou ajudar vocês esse ano.

Clarissa sorri como eu.

— E depois?

— Depois? – repito sem entender.

— Ah, você sabe – ela revira os olhos – Esse é nosso último ano na escola, o Bill não vai dar rosas no dia dos namorados do ano que vem.

Entendo o que ela quer dizer e a verdade é que não pensei sobre isso ainda. Ano que vem estarei na faculdade, devo seguir com o blog falando sobre meus colegas de classe? Devo parar com tudo e matar a Secret?

— Ainda não decidi nem qual curso vou fazer – confesso.

— Compreendo – Clarissa usa aquele tom de voz de quem não compreende nada e acha que estou maluca – De qualquer forma, você tem um tempinho para decidir.

Tempinho. Os meses que faltam até o vestibular nunca pareceram tão curtos.

“E quem sou eu?

Antes de tudo: uau. Vocês podem me explicar como conseguiram lotar tão rapidamente minha caixa de e-mails com pedidos e dicas de segredos?

Antes que façam o mesmo com os comentários dessa postagem já deixo avisado que nada do que me enviaram era bom o suficiente para meu blog e prefiro não postar a decair meu nível.

Acho que não conseguem viver mesmo sem mim.

Foi graças a esse pensamento que me peguei em um dilema: quem vocês acham que eu sou?

Será que sou uma garota? Sou jovem ou velha? Sou uma estudante? Sou uma ginasta? Sou uma super heroína?

Sei que todos que acompanham o SeuSegredo pelo menos uma vez já criaram teorias sobre quem eu sou e estou louca para saber.

Como sou uma boa pessoa deixo aqui a resposta para esse enigma, eu sou todos. Sou a pessoa que senta ao seu lado no ônibus, que está na sua frente na fila da lanchonete, que pisa no seu pé na balada e aquela que se esconde no banheiro para ouvir seus segredos. Sou todas essas pessoas porque sou vocês.

Vocês, meus amados leitores, são a Secret tanto quanto eu e é por isso que não conseguem descobrir quem eu sou.

Sejam venenosos.

Beijinhos, Secret.”



Notas finais do capítulo

Agora preciso correr para escrever algumas resenhas e tentar dormir mais de 5 horas.
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Obrigada por ler o capítulo.
Beijos jovens bolinhos de paçoca.