Saint Seiya: A prole do demônio escrita por Deimos


Capítulo 26
Em chamas





— Mas que grandes filhos de uma puta...

A grama úmida pelo sereno farfalhava para dar passagem ao contrariado cavaleiro que por ela cruzava. Os longos cabelos escuros de Meyer mal podiam ser vistos balançando durante a corrida apressada, graças ao breu total no qual a noite havia se tornado, uma obscuridade que dava o prenuncio do mal que rondava o Santuário. A luz das estrelas parecia congelada, o vento havia parado e o mais puro silêncio tinha se instaurado. A unha do indicador direito já estava totalmente exposta, a lâmina carmesim que ansiava por uma batalha tanto quanto ele.

“Não ouço a merda do alarme, nem vejo algo de errado ou fora de padrão mas... eles estão aqui!”

O escorpião seguiu a toda velocidade, derrapando vez ou outra em alguma pedra coberta pelo limo ou em uma poça de lama. Pelos seus cálculos, já deveria ter chegado em Rodório correndo nesse ritmo, mas ainda estava na floresta. Não era possível que estivesse perdido, uma vez que andava por aquele bosque desde sua infância.

— Não sinto nada! – rosnou o já irritado cavaleiro de ouro – Com mil diabos, o que está acontecendo?



— Eu não acredito que você já matou dois irmãos seus...

— MEIO irmãos. – Cortou Deimos de brusco.

— Humpf... – Hess soltou um muxoxo contrariado enquanto seguia firme nos calcanhares do Leonino – Pensando bem eu acredito que os matou.

As casas estavam vazias, todos os cavaleiros de ouro se mobilizaram para defenderem suas posições. Rodório estava completamente vazia, com os apavorados moradores presos em suas casas. A população do vilarejo era cada vez menor, algo que preocupava muito o santuário, uma vez que era do vilarejo que saia o alimento necessário para a subsistência local. O plano das tropas em favor de Ares era claro: Cercar o Santuário, impedir que houvesse o plantio de Alimentos e matar seus habitantes de fome ou nas numerosas ondas de ataque. Uma verdadeira guerra de extermínio. Um jovem cavaleiro de bronze estava de prontidão próximo ao relógio de fogo, orientando as tropas de soldados comuns. Lanças e escudos eram tudo o que aqueles pobres homens tinham para atacar e proteger-se em meio aos psicopáticos Bersekers. O bronze aproximou-se de seus superiores, ajeitando os cabelos cor de caramelo com os dedos. Seus olhos eram azuis e joviais, combinando com a aparente pouca idade do garoto.

— Hóplon de Escudo se apresentando! – Disse o rapaz se curvando em reverência.

— Qual é a situação? – Perguntou Hess.

— No momento, estamos lutando em duas frentes. O Delfos foi invadido primeiro, e em seguida estabeleceram uma falange um pouco afrente dos portões de Rodório.

— Recuem. – Ordenou Deimos.

— É o que? – Disse Hess incrédulo – Quer trazer eles mais para perto do santuário?

— Se continuar em dois fronts, serão massacrados pelo número superior de inimigos. Temos que força-los a lutar no nosso terreno.

— Repensa, Deimos! Bastaria um deslize para que Rodório fosse exterminada! – Insistiu Hess.

— Os cavaleiros de Athena adoram apostar vidas nos dados, não é? Torça para que eles não estejam viciados. – Comentou o leão de forma ríspida.

Hóplon pareceu entender que havia um agravante na discussão, ordenando as tropas reunidas no pátio para atrair os adversários até o ponto de criarem um front único e mais simples de lidar. Helena finalmente chegou, produzindo uma cacofonia metálica ensurdecedora.

— Eu não acredito que eles nos atacaram! – Exclamou Helena exacerbada.

— Esperava o que? Que entregassem uma rosa, uma carta pedindo desculpas e fossem embora? O que EU não acredito é que esse Santuário seja incapaz de lançar uma retaliação depois de dois ataques. Isso realmente é inacreditável. – Resmungou Deimos.

— Cavalo petulante! – Indignou-se a amazona.

— CHEGA! – Berrou Hess, visivelmente irritado – O que EU não acredito e que dois adultos sejam tão infantis em um momento assim! – Ele encarou o silêncio imediato da dupla com um esboço de sorriso aprovativo – Eu vou para a floresta, tentar dar a volta na falange da estrada e botar esses filhos da puta no inferno. Vocês dois vão para o Delfos e fiquem por lá. Se bem imagino, nossos amigos devem ter ido preparar alguma coisa em Rodório. Ao menos era para lá que ia Delfin.

— Desde quando você me dá ordens? – Sibilou Deimos.

— Tem alguma coisa melhor para fazer? – Devolveu Hess.

— Certo. – Disse Deimos olhando Helena pelo canto dos olhos – Vamos ao Delfos.

A ruiva não teve coragem de olhar seu superior nos olhos, e ele sabia bem o porquê. Contudo, não havia tempo para conversarem agora, decretado pela disparada de Deimos na direção da Arena dos iniciantes.

— Logo hoje... – suspirou a amazona, pondo-se a correr.



 - N-não pode ser... uma ilusão?

As palavras escaparam frouxamente pelos lábios do aterrorizado cavaleiro de Escorpião. Não fazia ideia de quanto tempo já havia perdido naquela corrida inútil, sem jamais encontrar o caminho. Vez ou outra a escuridão estralava ao seu lado, como se um animal gigantesco se aproximasse, mas o silêncio total logo se reestabelecia. E no fundo de sua alma, tinha a perfeita noção que aquela calmaria sonora era muito mais perigosa do que qualquer som animalesco.

— MALDIÇÃO!!! APAREÇA DE UMA VEZ, DESGRAÇADO!

Afiada como uma espada, a unha rubra cortou o ar em uma linha avermelhada, partindo árvores e todo o tipo de vegetação que encontrava pela frente. O silêncio, contudo, perpetuou-se, aumentando sua aflição. Sentiu os olhos arregalarem-se, os pelos da nuca se erriçarem e o sangue tornar-se gelo.

Então ouviu.

O chiado metálico tornou-se dor quando uma grande onda de energia o atingiu por todo o corpo, lançando-o para trás como se fosse de pano. O ombro esquerdo tocou o solo por primeiro, seguido maquinalmente pelo resto do corpo, uma aterrissagem extremamente dolorosa. O elmo alusivo ao ferrão do escorpião decolou pelos ares, sumindo de suas vistas lacrimosas pela dor.

— Ugh... – Gemeu Meyer, tonto pelo ataque silencioso.

— Uma pena que os deuses nos levem a isso... Meyer. – Disse uma voz rouca e seca.

Ouvir aquela voz fez o escorpiano se pôr de pé em um salto, tentando ver pela penumbra da noite com uma ansiedade colossal. Sequer lembrava o cavaleiro desbocado e arrogante que sempre se mostrou ser. Estava parecendo mais com um garotinho que se perdeu dos pais e agora os procura na multidão. E de fato, não deixava de ser uma situação semelhante.

— MESTRE? – Berrou ele a plenos pulmões.

Por entre as folhagens surgiu uma figura imensuravelmente alta e magra, com cabelos brancos que chegavam até a cintura. O rosto era dotado de uma aparência nobre e sábia, embora seus olhos alaranjados fossem aparentemente insanos quando fitados por muito tempo. Astério de Talos, o carniceiro cretense, enfrentaria uma última corrente que o atava ao passado distante.

— Eu não posso acreditar que o homem que me tornou cavaleiro de ouro... – Meyer levou a mão direita ao diafragma rompido que passou a latejar de dor – NÃO PASSE DE UM BERSERKER COVARDE!

— E o que há de errado em ser um Berserker, Meyer? – A expressão do antigo escorpião não era ameaçadora, mas sim resignada – Será que possuir um senso de justiça diferente do de Athena é tão grave quanto os crimes da tua deusa, criança?

— Não me chame de criança, Astério. – Finalmente a surpresa de Meyer pareceu se desmanchar e ele entendeu a gravidade da situação – Ao contrário de ti, eu sou um homem!

— Errado, garoto. Não passa de um sanguessuga que drena toda a honra que EU levei para o templo de Escorpião!

A Thóraka moldada do que restou do autômato gigante de Creta fez por valer sua dureza. Talos, o “irmão” mais velho de Cor Tauri, havia sido destruído por Astério na noite em que ele assassinou sua amada Europa pela sobrevivência do povo de Creta e posteriormente convertido em uma indumentária para seu carrasco. O bronze de seus punhos colidiu com o tórax do cavaleiro de Escorpião em uma cadencia absurdamente alta, ferindo-o ainda mais. O último soco foi desferido contra o solo, causando um gigantesco tremor,

— CHUVA DE BASALTO! – Berrou o cretense.

Pedras decolaram em um ângulo reto acima da cabeça de ambos os guerreiros, não tardando a descer violentamente. Astério não foi atingido por um único grão de poeira, mas o escorpiano não teve a mesma sorte. Uma após a outra, as rochas choveram sobre ele até formarem uma grande pilha mineral, sepultando-o.

— Não se finja de morto, Meyer! Eu sei que algumas pedras não são o suficiente para encerrar a fúria rubra que habita teu coração! – Desafiou Astério pacientemente.

As pedras, porém, não se moveram. Não parecia que algo dentro da pilha tentava se mover, ou mesmo que estivesse vivo. Teria sido capaz de abater seu próprio aluno tão facilmente?

— Meyer? – Balbuciou Astério, estarrecido.

— ATRÁS... – Gritou uma voz em seu ouvido esquerdo, no mesmo instante em que uma dor lancinante preencheu seu peito – DE VOCÊ!!!

A agulha escarlate penetrou entre as placas das costas da thóraka de Talos, ferindo o pulmão direito do carniceiro. Astério, contudo, sabia que não era apenas a ferida a causa daquela dor. Meyer havia inoculado seu veneno diretamente em suas vias respiratórias.

— Você é o pior tipo de pessoa que eu conheço. Você se vendeu para uma causa de matadores de aluguel por uma simples birra? –Questionou o escorpião com visível asco.

— Birra, Meyer? – A voz rouca de Astério tornou-se lacônica – Como podes chamar de birra o assassinato de uma mulher a quem tu chamavas de mãe?

Um instante de silêncio se fez, enquanto ambos se encaravam friamente, embora sentissem a mesma dor.

— A morte de Europa foi... – Os cabelos negros de Meyer tamparam seus olhos, enquanto o brilho da lua refletiu em dois filetes de lágrimas que escorriam pelo rosto magro, solidário com a tristeza do escorpiano - ...O preço que você achou por bem pagar.

 - EU NÃO TIVE ESCOLHA, MEYER! – Berrou o servo de Ares, ignorando o pulmão ferido – EU NÃO PODIA TROCAR A VIDA DE UM POVO INTEIRO POR O DE UMA MULHER! ANTES DE MARIDO, MEYER, EU ERA O REI DE CRETA!

Novamente, o silêncio.

— Agora não é nem um, nem outro. – Os olhos avermelhados pelo choro fitaram a face do antigo mestre com um profundo rancor – É apenas um monte de lixo.

Cerimonialmente, Meyer de Escorpião se colocou em pose de combate com uma altivez que sequer lembrava a sua má educação ou a impaciência característica. Era o confronto de dois escorpiões reis.

— É hora de enterrar o lixo. – Disse ele secamente – Agora e para sempre.



O caminho de pedras gastas que levavam ao Delfos estava inteiramente escondido sobre um frágil tapete de fuligem escura e ainda quente, que se desfazia quando pisoteado por quatro pés apressados.

— Puseram fogo no Delfos! – Alertou Helena nas costas de Deimos.

—  É no Delfos dos principiantes. Podem haver sobreviventes lá, vamos! – Ordenou o cavaleiro de ouro, acelerando ainda mais a passada.

O cheiro ocre de fumaça e madeira queimada intensificava-se a cada passo, enquanto gritos, de pavor e de alegria, podiam ser ouvidos da arena da construção. Os velhos portões de carvalho já sequer existiam, forçando-os a passar correndo pelas chamas. Helena tossia violentamente, intoxicada pelo monóxido de carbono que se desprendia de todas as partes. A estrutura do Delfos, contudo, ainda não tinha entrado em colapso.

— EU NÃO ENXERGO NADA! – Berrou Helena em meio a fumaça e aos berros dos gladiadores.

O seu grito, porém, serviu de alerta aos invasores. Ora, não era segredo para ninguém que as máscaras foram implantadas no santuário para esconder dos Berserkers que haviam mulheres entre as fileiras inimigas. A razão disso era simples: Não eram poucos os casos de amazonas estupradas antes de serem executadas. A voz doce de Helena então foi um chamariz. Uma gigantesca esfera flamejante choveu no exato lugar onde estavam ambos os defensores de Athena, que só não incinerou a ruiva por ter sido empurrada por duas mãos enormes. Suas costas bateram no chão com violência enquanto o ar quente pareceu assar seus pulmões internamente. O cavaleiro de leão, porém, se perdeu entre as chamas crescentes.

— Mas olhe só o que temos aqui... – Disse um Berserker de cabelos brancos e corpo forte – O prato principal chegou... o que me diz, Ema?

Dois servos de Ares estavam parados no camarote de onde o grande mestre assistia as lutas pelas armaduras de bronze. Nas mãos do maior deles estava o cadáver de um aspirante, nitidamente conquistado pela morte. Em seu pescoço, um rasgo profundo havia dilacerado a jugular.

— Parece deliciosa, irmão! – Gargalhou o outro Berserker, menor do que o primeiro e com a face coberta por queimaduras.

— Perdeu-se do seu amigo, garota? – O corpo ensanguentado que o maior dos dois carregava foi atirado para o lado como uma criança atira longe um brinquedo com o qual não quer mais brincar.

— Deimos...?! – Balbuciou Helena encarando as chamas que devoravam o local onde estava o cavaleiro de Leão.

— Como disse? – Surpreendeu-se aquele chamado Ema – É Deimos?

Uma explosão de ar apagou todas as chamas que consumiam avidamente o Delfos, revelando Deimos com a mão erguida pouco acima da cabeça e um sorriso arrogante no rosto. Havia feito tudo aquilo apenas com o mover de um punho.

— Ema de Jamadhar e Kokalo de Buhj... Ou preferem que eu os chame de irmãos calamidade? – Disse Deimos com nítido desdém.

— Não irá nos chamar de nada depois que arrancarmos a tua cabeça! – Vociferou Kokalo,.

— A raiva é um bom modo de esconder o medo... – O deus aumentou o sorriso presunçosamente – ...Ou seu coração pulsa tão aceleradamente constantemente, Kokalo?

A careta raivosa pouco pareceu assustar Deimos, enquanto Kokalo mostrava tanto um grande desejo em atacar seu antigo superior quanto possuir uma ponta de receio em fazê-lo.

— Sempre tão corajoso... – O berserker de Buhj cuspiu grosseiramente, fuzilando Deimos com o olhar– Mas não passa de um verme que traiu não só a causa, mas o próprio sangue?   

— Só um tolo tenta ser maior do que os próprios medos... – A petulância divina atingiu seu máximo – Afinal, teu corpo está tentando avisar-te que não sobreviverá a esse confronto. – O punho direito ergueu-se cerrado na direção da dupla de Berserkers, intimando-os – Uma pena que sejas burro demais para seguir teu próprio conselho.

— PARE DE DIZER BESTEIRAS! – Urrou o Berserker partindo para cima do ruivo com a espada Bhuj erguida acima da cabeça.

A espada não fez mais do que atingir o chão de paralelepípedos da arena, causando um som sibilante de metal raspando. Helena se colocou em pé em um salto, atirando suas maças em uma chuva de metal colossal.

— TEMPESTADE DA CREMAÇÃO! – Berrou Ema, erguendo uma cortina de fogo para proteger seu irmão mais velho.

As esferas de metal atravessaram a parede de fogo com avidez, mas não atingiram seu alvo. Ema e Kokalo buscaram se afastar para repensar seu plano de batalha. Helena se aproximou de Deimos aguardando por ordens enérgicas, gritos ou alguma ideia sugestivamente estúpida. Foi um choque perceber que tudo o que o leão fazia era sorrir. Sorrir de um modo insano, como se seu maxilar inferior tivesse travado naquela posição e suas bochechas estivessem a ponto de rasgar.

— O prato principal... – Murmurou Deimos por entre os dentes enquanto o seu sorriso desaparecia vagarosamente – chegou...

— O que está resmungando? Não é hora disso! – Disse Helena como se quisesse tira-lo do transe.

Kokalo não se demorou em notar que seu ex-general não prestava atenção no combate, dando-lhe uma brecha tão necessária. A bhuj, uma espada de lâmina curta e cabo longo, cortou o ar em grande velocidade, gerando um grande turbilhão de lava que acertou o cavaleiro de leão em cheio no rosto.

— LAVA PREDATÓRIA!!! – Urrou o Berserker furioso.

 O cheiro de pedra derretida somado ao golpe do punhal afiado fez o estômago de Helena embrulhar. Mesmo um deus não poderia suportar aquilo sem ficar tremendamente desfigurado ao ferido. Kokalo pouco pareceu satisfeito com sua vitória sobre o dourado, girando o cabo de sua arma na mão esquerda. A ponta mergulhou diretamente no flanco esquerdo do tronco de Helena. A garota sentiu o grito de dor morrer em sua garganta, uma vez que sequer sentiu o baque. A arma de Kokalo havia perdido sua lâmina.

— Mas que...!?

Os olhos do mais velho dos irmãos calamidade se arregalaram ao ver que Deimos sequer havia se movido, mesmo com um ataque daquela intensidade, e pior, partido sua arma.

— O prato principal... – A voz abafada e de tom alterado de Deimos sumiu quando o som claro de metal se partindo tomou o ar – CHEGOU!

A lâmina da Bhuj bateu no chão partida em duas. No centro da lâmina havia claras marcas de dentes, como se tivesse sido partida a dentadas.

E era a pura realidade.

Deimos girou sobre os calcanhares fixando os olhos injetados pela raiva na face surpresa de Kokalo. O murro partiu-lhe os dentes amarelos com violência, tirando-o do chão rumo ao alto. O berserker bateu na amurada que cercava a arena, desabando junto com a mureta, soterrado.

— Teremos ensopado de tripas no prato principal, Kokalo! – Disse Deimos lentamente por entre os dentes.

Ema foi tomado por uma raiva súbita, partindo para cima do agressor sem pensar duas vezes. Helena meteu-se na frente, passando as correntes de sua armadura pelas pernas do Berserker e o atirando no sentido contrário.

— Porque atacar o Delfos dos iniciantes? – A ruiva tremia de raiva ao perceber que haviam ainda mais corpos espalhados pelo local – ACASO ACHAM DIGNO MATAREM CRIANÇAS?

O Berserker mais velho cambaleou para fora das pedras, respirando audivelmente e visivelmente ferido, mas ainda armado de sua arrogância. Sem tardar, encarou a pequena mulher que havia feito pouco de seu irmão e disse grosseiramente:

— De que importa se são jovens ou velhos, mulher? No fim, todos devem se curvar perante Ares ou ruir junto de Athena! – Ele deu uma pausa para recuperar o fôlego e prosseguiu – Esses que tu chamas de crianças não passavam de filhotes de vermes! Tudo o que nós fizemos foi extermina-los antes que infectassem ainda mais esse mundo!!!

Helena passou a língua molhada pelos lábios carnudos, sorrindo ao ouvir aquilo. Satisfeita, para ser exato.

— Bom saber! – A maça espinhosa girou sobre a cabeça vermelha fazendo os cabelos se moverem em todas as direções – Não tenho que ter remorso algum por acabar com um ser nojento como você!



O estrondo assustou as aves que ainda se mantiveram corajosamente em seus ninhos após o começo da invasão. Os pássaros desesperados voaram no breve espaço entre os oponentes que respiravam audivelmente, como se fossem dois bois profundamente feridos em uma praça de touro. As faces arranhadas e os corpos dilacerados, porém, não eram justificativas para encerrar ali aquele embate. Naquela noite, a única razão vigente era a morte.

— VOCÊ...! – Meyer cambaleou alguns passos para o lado, até encontrar um tronco que lhe serviu de escora – ... Me treinou muito bem... MAS EU SOU MELHOR!!!

— Se tivesse prestado atenção, falaria menos! – Devolveu Astério.

Ambos colidiram no meio do caminho como dois trens descarrilhando, empurrando um ao outro pelo sentido que vieram. Em um arco sincronizado as costas da dupla bateram contra o chão, tirando-os o fôlego e obrigando-os a fitar o céu noturno por alguns instantes. No céu, pairando no negrume pegajoso, Antares brilhava aos olhos do cavaleiro de Escorpião.

— Hunf... – Suspirou Meyer – Que irônico...

— Como pode ver ironia em nossa tragédia, Meyer? – Questionou Astério se erguendo, apesar das pernas bambas.

— Irônico é ver o homem que serviu tanto tempo sob o brilho da estrela batizada de “Ante-Ares” se curvar ao deus da guerra por não ver mais o brilho em seu caminho...

Uma leve surpresa passou quase imperceptível pela expressão do carniceiro. Mas era uma questão verídica. Antares era uma arrumação do nome original da estrela, assim batizada por rivalizar em brilho e cor com o planeta marte, dedicado à Ares. Uma informação surpreendente, mas meramente simbólica.

— Não tente me confundir com esse seu sentimentalismo tolo, Meyer! – Grunhiu o Berserker.

— Ah, não leve por esse lado. – Meyer já estava de pé quando ergueu o indicador na direção de seu antigo mestre – Quero que se lembre disso quando a última agulhada transpassar teu coração podre, Astério! Quero que se lembre que a última agulhada é a Ante-Ares realizando seu dever!

— Não cante vitória tão cedo, garoto. Seu veneno não passa de água podre comparado ao meu!

Em resposta, três feixes luminosos passar ao lado da garganta de Astério, decididos a romper sua jugular logo de início. Erraram o alvo, mas atingiram um par de pedras logo atrás, que explodiram em milhares de fragmentos ao serem tocadas por aquela energia rubra. 

“Uma explosão? Mas as agulhas sempre tiveram um efeito penetrante! ”

Uma nova rajada tripla atingiu seu tórax, empurrando-o violentamente para trás através de uma explosão. Grandes rachaduras surgiram por todo o tronco da Thóraka de Talos, fazendo saltarem alguns pequenos pedaços. Sem dúvida, aquelas agulhas passavam longe de serem as escarlates.

— LEVANTE! – Novamente Meyer ergueu o dedo indicador, neurótico – AINDA NÃO DEI O QUE MERECE UM TRAIDOR! SOBRECARGA ESTELAR!

Por instinto, Astério rolou para fora do raio da explosão, se safando de ter sua armadura e corpo arrasados por completo. Lentamente, levou a mão trêmula até o estômago enquanto sentia que um dos pedaços metálicos havia lhe perfurado a carne. Era um aviso de que qualquer deslize seria mortal.

— Como você... – Balbuciou Astério, zonzo pela dor.

— Enquanto alguns lamentam... outros se fortalecem!

O peso do pé do aluno erguendo-se ao impacto contra o rosto do mestre foi além de doloroso, humilhante. O Berserker deu uma guinada para o lado, inerte. Meyer estacou de imediato ao ver que tinha posto o adversário fora de combate, dando-lhe as costas e já indo para os lados onde ele acreditava ser o santuário. Não queria sequer olhar para aquela figura decrépita e pouco lhe importava se sobreviveria ou se iria agonizar lentamente até morrer.

— Huuunf... – Gemeu Astério, surpreendentemente de pé apesar da dificuldade – Se não acabar comigo, não vai finalizar tua missão, criança.

A tranquilidade do rei de Creta em dizer aquilo fez um arrepio descer pela espinha do cavaleiro de ouro. Virou-se com a angustia expressa no rosto, obrigado a olhar aqueles olhos laranjas que sempre lhe transmitiram uma enorme confiança. Lentamente, sua unha escarlate expandiu-se até a envergadura máxima, pronta para o uso.

— Por que simplesmente não se arranca daqui? Ninguém precisa saber o que você se tornou! – Rosnou Meyer do fundo da garganta.

— Fugir é para os fracos e inconsequentes, e eu estou pronto para arcar com as minhas escolhas. – O carniceiro lentamente abriu os braços, pronto para atacar.

Ao mesmo tempo a dupla partiu para a carga desenfreada, engalfinhando-se ferozmente. Meyer fez valer a sua fama de velocista nato. Estendeu o pé de forma a desequilibrar Astério por um instante quase imperceptível, mas suficiente para dar uma brecha para se pôr em suas costas. O antebraço esquerdo de Meyer pressionou garganta de Astério enquanto a articulação do braço direito travava a movimentação naquela gravata sufocante.

— HUF... HUF... – Aos poucos o ar escapava dos pulmões do Berserker, escurecendo sua visão enquanto ele lentamente sufocava nos braços de Meyer.

O cotovelo de Astério atingiu as costelas flutuantes do escorpião por repetidas vezes, inutilmente. Sentia que era seu fim e que não escaparia dali. Era, no fim das contas, o que sempre quis. Do mesmo modo que ele havia assassinado a pessoa que o amava, só poderia pagar esse pecado morrendo pelas mãos de seu mais amado aluno, um filho que não tinha seu sangue, mas que foi criado como tal. Em breve poderia pedir o perdão de sua Europa olhando-a nos olhos. Era, em definitivo, um...

— Adeus, Meyer...! – Disse quase inaudível pelo sufocamento.

— Todo sangue ao senhor Ares! – Sibilou uma terceira voz, desconhecida por ele.

O estalo seco de algo se partindo libertou Astério de sua prisão, dando-lhe novas forças para sugar o ar que faltava em seus pulmões. Seus joelhos bateram no chão, incontroláveis, enquanto tossia e escarrava. Não estava a sós, ainda tinha que lidar com o escorpião enfurecido. Saltou, girando no próprio eixo afim de se afastar do foco do embate e então percebeu o que de fato havia acontecido.

— NÃO! – O berro escapou impensável de sua garganta – MEYER, NÃO!

O cadáver do cavaleiro jazia estendido com a barriga voltada para o solo, mas sem marcas de perfuração ou contusões. Ao reparar em seu rosto, contudo, sentiu uma náusea violentíssima. O pescoço havia sido quebrado e seu rosto estava voltado para trás, bizarramente antinatural. A expressão morna ainda tinha traços de surpresa, como se tivesse reconhecido seu algoz pela voz. Na penumbra, alguém riu.

— Recomponha-te e junte-se aos demais em Rodório! Saudações ao Senhor Ares.

No breve momento em que o silencioso matador ergueu a mão ao peito para mencionar o deus da guerra, reconheceu aquelas formas. A cintura de saiote e aqueles ombros largos e chatos só poderiam pertencer ao cavaleiro de Gêmeos.

— Hu?! – Astério ajoelhou-se ao lado de Meyer, custoso para processar tantas informações. – QUEM É VOCÊ?

A resposta não veio de parte alguma, substituída pelo claro brilho dourado de um Geminiano se movendo por entre as dimensões. Covardemente ele baixou os olhos até o cadáver de Meyer. A mão enorme tapou os olhos vítreos de seu pupilo, descendo pelo seu rosto para lacra-los para o sono eterno. Deitou suavemente o corpo, sentindo as lagrimas quentes rolar pelo rosto coberto de hematomas. Novamente o destino o condenava a carregar um morto nos braços, um novo homicídio ao qual a culpa lhe pertencia sem nem haver julgamento. Com frágil cuidado o mestre arrumou o corpo do aprendiz de forma que ele ficasse inutilmente confortável, destorcendo o seu pescoço. A armadura de Escorpião desprendeu-se de Meyer, reconhecendo a derrota e entrou em um tipo de ressonância barulhenta. O surpreendente, porém, eram dois fios d’água que desciam pela “face” montada do escorpião. Era o pranto de uma indumentária que perdia seu protegido por conta de uma dupla traição.

— Até que ponto vai a estupidez humana? – Interrompeu uma voz seca.

Do outro lado da clareira que se abriu com a luta anterior, Hess erguia o indicador direito cercado por almas azuladas. Os olhos dele tinham uma expressão não de ódio ou surpresa, mas de desagrado como quem olha uma fossa cheia de esterco.

— Humpf. Não, essa não é uma boa fala para mim. – Prosseguiu Hess, fitando o cavaleiro traidor – O CERTO É QUE TU É UM GRANDE FILHO DE UMA PUTA, ASTÉRIO!

E sem pestanejar, lançou sua trupe desencarnada sobre o adversário.



Notas finais do capítulo

Peço encarecidamente que vocês leitores não deixem de me dar retorno sobre o que gostam e o que não gostam na fic, seja pelo Nyah ou por Email.

Email para contato: Mateusklein11@gmail.com

Até mais!



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